Single do terceiro e último álbum da banda britânica Klaxons, “A New Reality” é a faixa que melhor representa neste disco o que se espera de uma música do grupo: iniciando com vocais robóticos banhados por ondas de sintetizações fluídas e latejantes, em poucos instantes a melodia escala para uma súcia de sintetizadores e uma batida eletrônica efusiva que se alternam com sequências mais contemplativas (se é que se pode chamar assim) onde se sobressaem a batida sintética, a linha de baixo seca e as cintilâncias eletrônicas, tudo sempre temperado com uma fartura de vocais simultâneos dos membros da banda.
O videoclipe dirigido por Tom Beard que promoveu o single segue a proposta sonora, traduzindo visualmente toda a densidade da melodia caleidoscópica e extravagante com o branco transbordando através da fotografia, do cenário e dos trajes da banda, todos acentuados por luzes estroboscópicas pulsantes, pela edição inquieta e pelo foco intencionalmente fragmentado da câmera.
Com a banda em hiato desde 2014, do qual provavelmente não retornará, música e vídeo servem como a despedida adequada para uma banda com vida breve, mas com identidade tão própria.
Ao lançar em abril deste ano o single “Heal”, a inglesa Hayla deu pistas de que experimentaria com outras sonoridades em um possível novo disco. Após a liberação de mais algumas faixas, no fim de julho a artista finalmente lançou o álbum Dark, no qual a inglesa não transitou completamente para o pop tradicional, mas ainda assim operou modificações significativas – e inteligentes – na sua musicalidade.
Várias canções do disco possuem na sua essência o DNA do som eletrônico de pistas de dança que tornou a voz da cantora conhecida, porém a artista nunca as veste no aparato completo que suas canções até então trajavam, seja em seu trabalho pessoal ou colaborações anteriores. Assim é “Still”, introduzida com acordes e vocalizações suaves e uma base eletrônica que progride em conjunto com distorções vocais em um eletro-pop que parece que vai rasgar a fantasia e entrar na pista a qualquer momento, mas a canção termina sem que isso aconteça. É fácil também sentir esses marcadores em “Easier”, que faz uso ostensivo de orquestrações e vocais de fundo sobre um piano atmosférico e exibe o mesmo crescendo contido que nunca se converte inteiramente em uma faixa dançante.
Há, no entanto, faixas assumidamente mais eletrônicas pontuando o álbum e que se aproximam mais do trabalho anterior da cantora, como “Within”, que exibe parentesco com o noise/industrial devido ao uso de distorções e ruídos, mas Hayla logo pisa firme no terreno do electro ao canalizar a música na programação eletrônica vibrante e no vocal em falsete que se entrelaçam caleidoscopicamente no trecho final. “I Don’t Believe it Anymore”, por sua vez, é mais experimental, sendo construída sobre uma base sintética cíclica sobre a qual teclados e iluminuras eletrônicas sobrepõem-se em camadas enquanto Hayla repete o verso que intitula a faixa como alguém que quer convencer a si mesma de que não acredita mais no seu romance. Em Dark a britânica Hayla insere a sonoridade pop sem perder de vista a identidade eletrônica que deu fama ao seu vocal doce e vibrante
Claro, não faltam também canções emocionantes como o single “Heal”, que apresentou a tônica do projeto há alguns meses. A power-ballad que dá nome ao álbum, “Dark”, é uma delas: nela um piano de toques suaves cria um clima sutil para que bateria, orquestrações de cordas e o vocal em potência total, com a britânica cantando “não estou sozinha na escuridão, sinto você pesando sobre o meu coração”, preencham a canção com emoção em estado puro. Em “Fear” a cantora também extravasa sentimento com o seu vocal impetuoso e a bateria eletrônica densa no refrão da música, mas o que fica nos ouvidos é a atmosfera sombria que permeia a música, quase Massive Attack, com pianos e percussão soturnas que refletem bem os versos “há algo que não consigo remover, que me persegue, sombras permanecem, a escuridão paira, isso se apodera de mim”.
Há também baladas sutis, como “Tear Me Down”, onde tanto as cordas da orquestra quanto os teclados com programação discreta produzem uma sonoridade contida, porém que transborda o sofrimento e a fragilidade necessárias para adornar versos como “quem dera eu me lembrasse do som que nossas vozes faziam quando estávamos felizes”, e “Not Here”, onde a serenidade da programação eletrônica e da guitarra, quase madrigal, envolve o vocal gracioso da artista inglesa enquanto ela canta sobre um amor que já não existe mais.
As duas faixas restantes do álbum têm musicalidade mais uptempo e confiante, como “Enough”, onde Hayla traz um vocal mais ritmado para acompanhar a instrumentação mais coordenada entre violões, bateria, programação eletrônica e orquestrações embaladas em compasso de power-hit sobre uma relação que parece não achar o tom certo. E “I Just Hope We Don’t Run Out of Time” fecha o disco com perfeição em uma melodia que inicia com a doçura do vocal, das orquestrações e da programação que aos poucos avolumam-se com a base eletrônica e a bateria até atingir o apogeu onde Hayla entrega uma performance vocal épica em um conjunto que serviria com perfeição como trilha sonora de fechamento de um blockbuster hollywoodiano.
Com o disco Dark, Hayla mostra não apenas sua habilidade de adentrar gêneros mais tradicionais como o pop, mas também visão estratégica como artista ao preservar suficientemente características musicais do trabalho que desenvolveu até hoje, evitando assim alienar sua base existente de fãs, inteligentemente levando-os a apreciar seus novos experimentos. Sim, ela não é a única artista que já conseguiu fazer isto, mas talvez seja o melhor exemplo de um músico da cena do eletrônico dançante a fazê-lo. Para novos fãs, como eu, fica a expectativa de que a artista leve esse empreendimento adiante – pois talento ela já deixou claro que possui de sobra.
Liderado pelo britânico Antony Hegarty, que há vários anos passou a adotar o nome Anohni, o grupo Antony And The Johnsons surgiu no final dos anos 2000 trazendo um amálgama requintado de diferentes gêneros como música clássica, rock alternativo, jazz e soul envoltos em um vocal de tonalidades andróginas, como o próprio Antony/Anohni, transitando com enorme desenvoltura entre registros mais intimistas diretamente para expressões mais operáticas e teatrais.
Exemplo da enorme versatilidade e da fusão de gêneros promovida pelo trabalho do artista e sua banda é o single de duas faixas lançado em 2009 para promoção do disco The Crying Light. “Aeon”, a faixa retirada diretamente do álbum, é introduzida por uma harmonia de piano e harpa que sugerem uma atmosfera erudita, mas ambos são rapidamente substituídos por guitarra e baixo entornados em um indie rock de riffs ondulantes que se sobrepoẽ a uma base orquestral sutil, compondo assim um todo cíclico no qual o vocal de Antony versa entre a fragilidade delicada e o clamor determinado. Antony and The Johnsons não poupa nem Beyoncé do seu banho de requinte sonoro
Na segunda faixa, o artista inglês ousa ainda mais ao desconstruir sem pudores o hit “Crazy in Love”, de Beyoncé: originalmente um pop extravagante e ruidoso, aqui a canção é recomposta em uma melodia exclusivamente orquestral na qual harpa, cordas e metais mesclam-se lentamente um finíssimo véu de melancolia que encobre o vocal sofrido e suplicante de Antony em uma música romântica e misteriosa que se enquadraria com perfeição como trilha de um clássico drama vitoriano de James Ivory ou Franco Zeffirelli. Ainda que devido ao arrojo e versatilidade de composições como “Aeon”, não seria de todo estranho vê-lo adentrar a cena de um filme, destemidamente cantando sua canção em corpo presente.
Desde 2018 a voz da britânica Hayley Williams, conhecida como Hayla, tem batido ponto na cena eletrônica em faixas de artistas como Kx5 (projeto conjunto de Deademau5 e Kaskade) e John Summit, e até mesmo em Dusk, seu único álbum lançado até hoje, a artista continuou mergulhando fundo no gênero ao fundi-lo com elementos pop. No entanto, isso mudou no último dia 10, quando a inglesa lançou “Heal”, seu mais novo single.
Contando com a participação do norueguês Magnus Skylstad, parceiro constante da cantora Aurora, Hayla investe no potencial emotivo de sua voz para construir uma melodia poderosa que difere radicalmente de seu trabalho até hoje. A faixa é introduzida com não mais do que um piano de toques misteriosos e algumas distorções atmosféricas que materializam uma bruma sonora por onde a voz da cantora abre caminho entre o silêncio para manifestar sua ansiedade afetiva cantando “quero que você cure as partes de mim que ninguém vê, tenho medo, mas é bom para mim o que se esconde por trás do despertar”. Uma percussão lenta e sofrida adentra a sequência melódica final para intensificar o drama ostentado no vocal da inglesa, agora pronunciado em toda sua melancolia épica.
A versão ao vivo, gravada este ano em uma sessão na igreja antiga de St. Pancras de Londres com a adição de um quarteto de cordas, traz ainda mais a superfície o tecido soturno e cinemático da faixa e comprova que o vocal de Hayla é um atributo natural, sem o apoio de artifícios de estúdio. Como fã de baladas pujantes que fogem do pop convencional, espero que a artista adote essa nova persona dark imagética para um novo álbum.
Como fazem muitos artistas, Tanita Tikaram terminou seu contrato com a gravadora Warner Music lançando em 1996 uma coletânea composta de seus singles mais emblemáticos até aquele momento. Prática comum das gravadoras para este tipo de lançamento, a cantora britânica incluiu uma faixa inédita especialmente gravada para o álbum: “I Think of You (E Penso a Te)”, originalmente lançada por Lucio Battisti – um clássico da música romântica italiana dos anos 70.
Contando com produção dos também italianos Marco Sabiu e Charlie Mallozzi, o cover contém características comumente encontradas em baladas da década de 90, como os synths ao fundo pintando a faixa com cores de fantasia, mas é sem dúvidas o piano elétrico, onipresente no gênero à época, que ao lado de um violão cúmplice traz para a canção a melancolia necessária para Tanita Tikaram encontrar sua voz pop-romântica: inicialmente com um registro vocal mais contido e frágil, seu vocal cresce junto com a música até render-se por completo – sem amarras – na grandiosa sequência final com múltiplas camadas de vocalizações melódicas que se embalam com bateria, piano, baixo e teclados em uma dança repleta de devoção. O trabalho de Marco Sabiu na faixa agradou tanto a cantora que acabou servindo de inspiração para criar ao lado dele aquele que seria seu disco mais acessível até então: The Cappuccino Songs, o ótimo álbum inspirado na música italiana contemporânea lançado em 1998, é uma recomendação instantânea – porque, convenhamos, não se vive apenas de lançamentos musicais.
Talia Rae é uma jovem cantora britânica emergente, mas que já conseguiu um pouco de projeção quando cantou ao lado de David Gray na faixa “Plus & Minus”. Apesar dessa colaboração, a artista ainda não revelou planos de um primeiro álbum, se concentrando em lançar alguns singles muito bem produzidos que se situam dentro nos domínios de um pop mais adulto, menos “frutado” e juvenil do aquele que domina as plataformas digitais. É o caso de “Euphoria”, sua faixa mais recente, que traz a garota exibindo a extensão do seu vocal sobre uma melodia conduzida por uma bateria gingada, uma guitarra de acordes alongados e elétricos, um baixo discreto e múltiplos vocais de fundo harmoniosos que servem ao propósito de sonorizar o júbilo amoroso que a cantora, com sua voz calorosa e potente, mostra ser tão intenso que se reflete nos versos “se eu explodir, te libertarei” e uma “uma ponte escalando sobre o mar”. A voz calorosa e potente da Talia Rae embala três singles de um pop luxuoso “Blind in Love”, lançado um pouco antes, segue a mesma atmosfera pop contemporânea, mas aproxima-se ainda mais do trabalho feito por cantoras como Adele, não apenas pelo vocal potente e carregado de emoção ao cantar sobre a tentativa da cantora de libertar uma mulher enredada em um romance nocivo, mas pela presença de uma harmonia de cordas que agrega-se bem à melodia lânguida da guitarra e complementa o compasso animado de baixo e bateria. Já “Blue”, o último dos singles em destaque, muda o tom e se entrega à “fossa” em uma balada introduzida por um piano suave que logo é suplantado por uma guitarra melancólica e uma orquestração expansiva sobre a qual o vocal da jovem ecoa e se adensa junto com a música, lamentando um romance que já não existe mais – se a inglesa de apenas 23 anos mantiver o mesmo nível de qualidade demonstrado até aqui em suas composições, podemos em breve ter um ótimo disco para embalar tanto os momentos de entusiasmo romântico quanto os inevitáveis desgostos amorosos que pontuam nossas vidas.