A sonoridade obscura e complexa do disco Felt Mountain, que deu partida na carreira da dupla Alison Goldfrapp e Will Gregory, e a musicalidade lambuzada de todas as possíveis combinações do eletrônico com o pop, adotada por eles nos dois discos posteriores – Black Cherry e Supernature -, ganhou seu meio-termo nas melodias de contornos sutis entre o folk e o eletrônico do álbum Seventh Tree, lançado em 2008, servindo assim como um resumo do que a dupla já tinha produzido até então. Sem muito o que inventar no seu campo de atuação musical, os dois resolveram voltar os seus olhos (e ouvidos) ao passado, buscando nos anos 80 a inspiração para o novo disco, Head First. Inspiração é até um termo um tanto inexato, já que o disco cai de cabeça no estilo dominante do pop daqueles já distantes anos. Isso é pra lá de perceptível já na abertura do disco, “Rocket”, (já comentada por aqui), por conta dos volteios caudalosos dos sintetizadores e o beat comportado escandaradamente surropiados dos grandes hits da época. O artifício prossegue sem receios em “Alive”, porém aqui, além do groove pop e dos teclados cintilantes, há também a participação de acordes de piano e riffs de guitarra e baixo que bem poderiam ter servido de trilha para aqueles filmes em que os jovens da época enfrentavam os obstáculos mais tolos para só então perceber que o amor morava o tempo todo ao lado. “I Wanna Life”, mais ao final do disco, também fica na minha cabeça como soundtrack de sessão de cinema de sábado, mas a programação mais reflexiva das sintetizações, cheia de claps marcantes, e o vocal mais contido, com refrão marcado pela título da canção, me soa mais como aquelas sequências que preparam a “virada” do protagonista de um daqueles romances urbanos que mostram a busca da felicidade e do sucesso. Fazendo um pouco diferente, “Dreaming” sai um pouco do 80’s americano e envereda por uma programação eletrônica e sintetizações mais harmoniosas que caem nos ouvidos lembrando a combinação de ambientação e cadência sutilmente dançante matadora da New Wave européia – pense em algo feito há muito tempo por Depeche Mode e você vai ter idéia do que se trata. Os toques doces e nostálgicos de piano voltam para dar partida à faixa-título do disco, “Head First”, apoiados por ondas de sintetizadores e vocais tingidos da primeira a última nota nas harmonias que tanto se ouvia na frequências das FMs. Apesar do banho de atmosfera vintage, há em uma ou outra canção um certo vento de contemporaneidade, já que a batida quente que pulsa como base para a melodia, os samplers e loops que pontuam o refrão, a sintetizações que inundam a ponte melódica e o vocal aveludado à meia-voz de Alison em “Shiny and Warm” vibram na tonalidade inconfundível da sonoridade que lançou a dupla britânica à notoriedade tanto no segundo quando no terceiro álbum.
Agradável aos ouvidos nos primeiros contatos, um disco que se traveste com tanta firmeza com um som tão datado e não insere suficiente caráter de contemporaneidade corre o risco quase certeiro de cansar com o passar do tempo. Isso não ocorreria por ausência de qualidade, já que não é o caso, mas apenas porque a música que serve de referência tem uma identidade muito forte, fazendo quem ouve Head First se questionar se não seria melhor folhear o passado logo de uma vez e ouvir aquilo tudo que serviu de fonte para o duo Goldfrapp neste álbum. Mas mesmo que o déjà vu sonoro da dupla tenha essa consequência, o simples fato de jogar alguma luz para os ouvintes de hoje sobre a música da década de 80 já um fato bastante positivo. Apesar de considerado por muitos um período artisticamente fraco, se comparado com o que temos hoje, mesmo aqueles hits grudentos e batidinhos que ouvíamos tanto são um bálsamo para os ouvidos – e mesmo para o cérebro.
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4 Comentários
E nesse mundão lindo de internet nem um dia se passa sem algo cair inadvertidamente na rede – algumas vezes até intencionalmente – e ser infinitamente multiplicado e distribuído. Alison Goldfrapp até pediu desculpas – precisa não, benzinho –
Enquanto a banda
Florence Welch disse que deseja que sua música desperte sentimentos fortes em quem a ouça, como a sensação de atirar-se de um edifício ou de ser capturado para as profundezas do oceano sem qualquer chance de prender a respiração. Parece um tanto exasperante, para não dizer presunçoso, mas é este tipo de sensação que se tem ao ter contato com as criações de Florence + The Machine, a banda encabeçada pela artista britânica. Nela, Florence dá vazão à todo o seu impressionante furor artístico, que mistura melodias vistosas, repletas de complexas camadas sonoras à letras poéticas, em sua maioria enormemente metafóricas. O elemento que dá liga a estes ingredientes saborosos é o seu vocal, utilizado pela garota em todas as suas possíveis matizes e variações de volume, não raro emitido em gritos longos e possantes. A substância obtida desta receita é uma música sofisticada e vibrante que tem a mesma identidade idiossincrática e indefinível de artistas como Kate Bush, a Björk intimista de Vespertine, My Brightest Diamond e Bat For Lashes.
Depois de merecidamente muito aproveitar o sucesso do delicioso disco Dreams In Colour nos shows que se sucederam ate há pouco, o cantor e compositor português
Há cerca de 15 anos que não se sintoniza uma estação de rádio em qualquer período do dia e da noite sem correr o perigo de expor seus ouvidos à agressão causada pela insuportável mistura de ritmos antes distintos da música negra norte-americana, e que hoje pode ser resumido à um punhado de beats já catalogados featuring moçoilas lançando gritos e “miados” pretensamente sensuais e “manos” que nutrem a ilusão de encarnar a canastrice bad boy ao empostar um vocal que mais se assemelha a um arroto ou por, ao contrário, mimetizar uma voz que, ironicamente, é bem mais frágil e aguda do que a das moças. O conteúdo (?) coincide com a forma, procurando limitar-se a uma ostentação emergente de riqueza ou a enumerar peripécias sexuais do modo mais rasteiro permitido. Pra ajudar a deixar tudo o mais pasteurizado quanto o possível, encarregue um ou no máximo dois sujeitos para produzir os discos de TODOS os contratados do gênero pelas gravadoras e está feito: temos devidamente fabricado metade do catálogo de maior investimento das gravadoras e em média 80% do que estacionou há muitos anos em absolutamente qualquer top ten pelo mundo afora.