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Tag: rock alternativo americano

Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin (+ 1 faixa bônus) [download: mp3]

tori amos - abnormally attracted to sin (2009)

Desde que abandonou a gravadora Atlantic, a cantora americana Tori Amos lança discos que pecam pelo exagero, em mais de um sentido. Primeiro, pela insistência em arquitetar um conceito ou temática que unifique ou englobe todas as canções. Segundo, pela criação de um personagem – ou bem mais de um – que “assume” a interpretação das canções ou que incorpore o conceito destas ou da narrativa composta no disco. Terceiro, pelo número excessivo de faixas, que dilui e tira a força das melhores canções. Quarto, por um excesso de ornamentos e backing vocals adocicados de alto teor lírico. O primeiro álbum que reuniu estes elementos, Scarlet’s Walk – já que Strange Little Girls, a priori, não é um trabalho de composição da cantora e contou com apenas doze faixas, a mesma média dos primeiros lançamentos da artista -, foi o que teve melhores resultados ao utilizar-se destes recursos. Desde então, a insistência neste modelo de criação tem trazido aos fãs da cantora discos que não conseguem sintetizar toda a beleza, força e capacidade de Tori Amos em compor canções ao mesmo tempo tocantes e eletrizantes. Infelizmente, Abnormally Attracted to Sin, seu novo disco lançado há pouco, também sofre um pouco deste mesmo mal, ainda que ele seja o menos rigoroso na temática e conceito desde Scarlet’s Walk e sua utilização de personagens não seja tão efetiva – mas no que tange à algumas melodias o problema foi reiterado. Faixas como o single “Welcome To England”, cujo refrão está cercado de alguns acordes graves e dramáticos de piano típicos do estilo da artista, “Fire To Your Plain”, que tem arranjo leve e harmonioso de bateria, guitarrra e teclado, e “500 Miles”, com seu refrão liricamente equilibrado e sua sequência final com bateria, guitarras, piano e vocal absolutamente empolgantes como há muito não se via em uma canção de Tori, poderiam ter outro resultado, muito mais elegante, emocionante e encantador, não fosse os excessos melódicos glicosados, cuja herança imediata é proveniente de The Beekeeper.
Porém, é preciso dizer que Abnormally Attracted to Sin é o disco que tem um punhado de canções que são as mais bem resolvidas em sua atmosfera melódica desde o álbum lançado em 2002. Algumas delas recuperam o viço e sonoridade de trabalhos de Tori anteriores ao início deste século, outras até mesmo captam vibrações de outros artistas ou bandas. Este é o caso específico da primeira faixa do disco, “Give”. A melodia da canção que claramente trata de prostituição tem algo da perversa morbidez do Portishead nos toques fortes mas exaustos da bateria e na presença distante de uma guitarra que vibra em acordes soturnos e arrepiantes – o piano e as sintetizações também contribuem para a construção desta atmosfera, mas o fazem ao modo da cantora. Já “Flavor” resgata toda a beleza de baladas compostas em discos como To Venus and Back: há reminescências de “Lust” na programação que é base da canção, bem como no vocal distante e difuso e nos toques suaves e esparsos no piano – há alguns discos que não se via uma balada tão perfeita da cantora, que extrai tanta força e emoção de uma melodia tão simples. A faixa-título do álbum também se apóia sem medo na programação eletrônica, e o faz muito bem: banhada por uma hemorragia ocasional de acordes de guitarra e vocais etéreos no refrão, o conjunto de sintetizações que preenche o fundo da canção com a bateria hipnótica cria uma música sensual e sedutora como um ritual ocultista. “Curtain Call” é outra que evoca o clima nebuloso do álbum duplo de Tori lançado em 1999: as notas suaves, curtas e contínuas no piano, a reverberação dos toques da bateria, a ambiência dos acordes da guitarra e o vocal algo arrastado concedem a melodia triste o mesmo sabor elétrico de “Bliss”.
Algumas faixas específicas deste novo disco trazem uma Tori Amos que se aventura a fugir de suas próprias convenções mergulhando em uma certa formalidade melódica, seja lidando tão somente com seu velho e admirável piano Bösendorfer ou colocando-o na penumbra para trabalhar com instrumentação mais farta. No primeiro caso, “Mary Jane”, revela-se absolutamente encantadora devido ao incomum rigor tradicional de seus acordes no piano, ainda que esta melodia seja pontuada por pausas e desvios tão emblemáticos no repertório da cantora americana. Os versos, porém, não enganariam seus fãs: a dramatização do diálogo entre uma mãe e seu filho adolescente sobre o efeito que Mary Jane tem na vida do garoto se mantém fiel ao estilo de composição da cantora até mesmo pelo simbolismo da personagem que nomeia a canção. Já “That Guy” responde ao segundo caso com sua melodia idílica congestionada de orquestrações, cuja teatralidade mostra imediato parentesco com trilhas de musicais. Nas letras, Tori dá voz ao inconformismo de uma mulher que confessa não compreender como um homem que lhe dá tanto amor e conforto na cama possa perder todo seu encanto quando está fora dela.
Mas ainda não foi desta vez – e sabe lá se isso voltará a acontecer – que Tori Amos conseguiu transgredir a condição da sua própria musicalidade e voltar a surpreender com um disco que não sofra engasgos nem contenha vácuos criativos, sendo apenas pontuado por momentos fascinantes. Alguns dizem que isso é culpa de sua rotina de mulher realizada e feliz, mas eu não afirmaria isso com tanta segurança. De qualquer modo, já que ela há algum tempo adora incorporar personagens e não parece que vá mudar de estratégia tão cedo, esse poderia ser um meio de encontrar novamente a química da sonoridade esquecida.

Baixe: Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin [mp3]

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Liz Durrett – Outside Our Gates [download: mp3]

liz durrett - outside our gates (2008)

Desde seu disco de estréia, Liz Durrett vem lapidando mais e mais suas canções, ampliando a gama harmônica das músicas, a poética de suas letras e a intensidade das emoções por ambas despertada. E a garota tanta trabalhou que em seu terceiro disco, Outside Our Gates, todas as canções despertam interesse de quem as ouve pela beleza à elas inerente, em todas suas gradações e modalidades. A exemplo disto, a modulação invariável dos vocais e o equilíbrio melódico da guitarra, baixo e bateria de “Wild As Them” concede-lhe rítmica bastante tradicional, típica de um single, mas isso não lhe retira o encanto produzido pela artista e seu produtor, Eric Bachmann, presente com ainda maior fulgor em faixas menos lineares, como pode ser conferido no balanceamento entre estes instrumentos e as notas emanadas dos violinos em “All of Them All”, que soam como um forte vento de outono que carrega em seus braços invisíveis todo sofrimento existente.
Mas isso nem se compara ao trabalho ainda mais fabuloso da dupla em outras músicas, ainda mais intensas em sua carga de sentimentos e sensações. É o caso da flutuante melodia dos toques cálidos no violão, piano e bateria e dos acordes resignados das guitarras que evaporam notas no vácuo sonoro em “In The Eaves” e dos vocais e violão telúricos, etéreos de “The Sea a Dream”, canção que aposta de modo certeiro na simplicidade para encontrar a frequência exata das sensações de quem a está ouvindo. “Lost Hiker” também envereda por uma solidez silenciosa, apoiando-se tão somente em piano, baixo e guitarra lentos e tímidos, cadência que lembra muito as melhores composições de Cat Power no disco You Are Free. Com Cat também assemelha-se a atmosfera de “Always Signs, mas o faz inversamente a “Lost Hiker”, confiando na elaboração de um ruído mais assumidamente rockeiro ao capturar o aroma das guitarras, baixo, bateria e vocais em síncope farta que sua colega americana tão bem soube compor no seu disco de 2003.
E se você pensa que acabou por aqui, engana-se. As emoções ainda afloram sobremaneira em mais duas faixas de Outside Our Gates, já que dificilmente alguém consegue conter-se ao desfrutar da beleza do cantar abatido de Liz acompanhando o violão, guitarra e orgão de acordes desamparados, lentos e sôfregos como um choro que foi abafado para esconder a dor na arrebatadora canção “Not Running”, ou ainda quando se é invadido pela ternura desmedida do arranjo das cordas e sopros que acompanham o vocal, violão e bateria de aroma doce, adornado pelo pizzicato que cintila brilhantemente na metade final da primorosa e irretocável “You Live Alone”.
Certamente embebido em emoção depois de desfrutar destas preciosidades, não há como o ouvinte não concordar que as composições de Liz Durrett tem, ao menos agora, o incrível poder de hiperventilar sensações adormecidas, esquecidas dentro de si, como um verdadeiro estimulante sonoro. E pensar que há tanta gente por aí com uma dezena de álbuns no currículo e nem sequer compreenderam como se consegue atingir o que essa garota fez já no seu terceiro lançamento. Mas tem um lado bom na existência deste bando de incapazes: a multidão de artistas sem talento serve, ao menos, para abrilhantar ainda mais aqueles que o tem de sobra.

Baixe: Liz Durrett – Outside Our Gates (2008) [mp3]

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Mia Doi Todd – Manzanita. [download: mp3]

Mia Doi Todd - ManzanitaAmericana de Los Angeles, Mia Doi Todd tem entre seus dotes a graduação em estudos orientais e a pesquisa feita sobre a Butoh, dança contemporânea japonesa das mais idiossincráticas – conhecimento que a levou inclusive a criar e montar coreografias para um grupo de dança dos Estados Unidos. Mas seu dom natural é mesmo relativo à outro campo do mundo da arte, a música.
O encanto da música criada por Mia Doi Todd nasce da combinação homogênea entre voz e melodia: seu vocal macio, moderado no volume e no uso de vibratos, funde-se sem rebarbas com as melodias que exploram a sutileza da instrumentação acústica. Essa feição algo naturalista de sua música é obtida em sua forma mais ideal nas faixas mais sorumbáticas e melancólicas de seu álbum Manzanita, como se pode perceber na harmonia algo solitária entre o silêncio dos acordes de violão e o acalanto da voz de Mia na belíssima “I Gave You My Home”, música em cujas letras uma mulher, entre referências à afazeres domésticos cotidianos, lembra seu companheiro sobre todo o amor e dedicação que um ofereceu ao outro nesta relação. Mas essa ambientação obtida da combinação da tonalidade da voz da cantora com as melodias que compõe está presente em todo o disco, do início ao fim, passando tanto pelas canções que experimentam sabores latinos – associação despertada pelo que há de lúdico nas palmas, pelo virtuosismo do mandolim, e pela cadência letárgica da guitarra de “Tongue-Tied”, na qual Mia se utiliza de uma breve narrativa metafórica para confessar que procura um modo de conquistar o amor de seu amado, bem como pela coloração reggae de “Casa Nova”, que explora nas guitarras, no baixo e no arranjo de metais o gingado malemolente típico do gênero em uma canção onde uma mulher revela ter se livrado do feitiço de uma paixão que há muito lhe tolhia a liberdade de amar – quanto por aquelas que exercitam as potencialidades do rock – caso da faixa que abre o disco, “The Way”, onde as guitarras, na companhia do baixo e da bateria, dão o compasso da melodia tanto quanto preenchem e aprimoram sua base com reverberações e distorções sutis.
Servindo como uma espécie de “ensaio”, uma base sólida para que Mia mais tarde delineasse com maior clareza e apuro a atmosfera bucólica de seu mais recente disco, o álbum GEA, Manzanita é um exercício musical que mesmo no seus momentos mais agitados e profusos explora tecituras simples e convencionais onde os (poucos) excessos de ornamentação sempre trabalham a favor da harmonia, e não da falta dela.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Evangelista – Hello, Voyager. [download: mp3]

Evangelista - Hello, Voyager!Difícil saber o que levou a nova-iorquina Carla Bozulich a rebatizar o seu projeto, no seu segundo lançamento, com o nome do primeiro disco. Evangelista, o disco, é agora o nome da banda. Mas isso, pouco importa: as idéias partem mesmo é de sua mentora, Carla. E em Hello, Voyager, o arcabouço criativo da artista americana foca-se nos domínios do rock, mas dentro dele, apresenta-se com tonalidades bem variadas. Carla e sua banda, por exemplo, trazem no álbum duas faixas instrumentais, mas a atmosfera de ambas é bem diversa: enquanto “For the L’il Dudes” intriga com suas cordas assustadoramente soturnas, “The Frozen Dress” causa arrepios com o coro de murmúrios e lamentos vocais sobrepostos às guitarras que reverberam acordes graves e enrugados. Para algum ouvinte mais apressado, por sinal, a atmosfera algo esdrúxula de ambas as faixas poderia ser motivo para taxar a banda de experimental. No entanto, a impressão não corresponde à realidade da essência sonora deste trabalho da banda de Carla.
Ao meu ver, Evangelista preza por uma sonoridade mais crua, aquela que se atinge sem muita preparação, sem muito ensaio. A maior parte das canções soa como demos e outtakes de si próprias, frutos de improvisações imediatas. As duas faixas que abrem o disco são retratam isto muito bem: “Winds of St. Anne” não vai muito além de versos cantados ou vociferados, que soam tão distantes e distorcidos quando a orgia de acordes de guitarras e baixo que lhe formam o fundo, acompanhados de quando em quando por uma bateria de toques breves, ligeiros e soltos, e “Smooth Jazz”, apesar do nome, não tem nada de suave ou macio, muito menos de jazzistico – é sim um rock verborrágico e confuso, onde a bateria continuamente esmurrada em uma cadência marcial concede ares esquizofrênicos à faixa, sempre com a ajuda de guitarras e teclados que pontualmente sibilam um acorde agudo e distoante em meio à sua participação na melodia. “Truth Is Dark Like Outer Space”, apesar de fiel ao método improvisionista da banda, soa um tanto menos caótica e esparsa, prezando por uma maior compactação melódica que surge toda de uma vez só, depois de breves ruídos na introdução, lançada de sopetão aos ouvidos numa procissão sonora das guitarras, baixo, bateria e vocal que formam um todo quase indivisível.
Porém, todas as outras composições do álbum viram mero detalhe se comparadas àquela que é a verdadeira razão para se dispensar atenção à este disco: “Hello, Voyager!”, a última faixa, que dá nome ao álbum. A música, que totaliza pouco mais de 12 minutos, é introduzida pela instrumentação sôfrega e solta de guitarra, bateria, percussão e metais, encadeados em sequência melódica ondulada e pulsante, que logo ganha a sobreposição do vocal que alterna o tom recitado, messiânico e pregatório com outro mais cantado, dando partida com o verso “I never was who I seemed to be” à um momento melódico derivado deste, em que um orgão de inconcebível beleza chega para acompanhar a instrumentação restante, organizando uma espécie de sinfonia fúnebre na qual Carla explora os limites da emoção de seu vocal, com gritos dolorosos que convocam a afirmação do amor como salvação quando tudo parece estar perdido. Desse momento em diante, a canção explora uma profusão de acordes em todo o instrumental, gerando uma sonoridade caótica que é a síntese da dor e do desespero, recrudescendo de forma exponencial até pouco a pouco silenciar-se, restando no seu fim apenas um último verso, solitário, proferido por Carla Bozulich. Esta é, sem qualquer exagero uma das músicas mais poderosas e intensas que já ouvi em toda minha vida, que de quebra ainda serve para mostrar o quanto o termo “emotivo” foi banalizado pela mídia e pela crítica para designar a obra de artistas desprovidos de qualquer resquício de sentimento – e isso só já pode ser considerado como contribuição inestimável para mostrar o que é de fato rock com emoção, mesmo que da carreira de Carla Bozulich e seu Evangelista só seja lembrada esta canção.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos.

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Se preferir, baixe apenas a canção seminal do disco:
Evangelista – “Hello, Voyager!”

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Jenny Lewis – Acid Tongue. [download: mp3]

Jenny Lewis - Acid TongueNo seu primeiro álbum solo, Jenny Lewis, vocalista da banda Rilo Kiley, juntou forças com as gêmeas Watson para produzir canções de forte apelo country. Seu segundo disco, agora sem a companhia das duas garotas, guarda ainda algumas reminescências da primeira investida, onde o gênero marca presença de dois modos distintos. Vestindo os trajes mais tradicionais do country, “See Fernando” monta no ritmo puxado das guitarras, bateria e violão densos e ligeiros, enquanto “Carpetbaggers” investe mais no trotejar alinhado da guitarra, do violão e do vocal de Jenny e do convidado Elvis Costello, o que só torna mais evidente o gingado típico do gênero. Em uma roupagem bem mais caótica, costurando 9 minutos de uma verdadeira miscelânea de gêneros, “Next Messiah” transforma a toada country, com ritmo montado em cima da bateria e vocal de fluxo curto e fechado, em um swing rock sutilmente dançante, dando liberdade à guitarra e bateria em um solo denso, que então é interrompido e subvertido em uma melodia com ares de malemolente ginga blues-rock para finalmente fechar a canção com a rítmica do refrão que iniciou a melodia.
Mas apesar da presença insistente do country, o espírito de Acid Tongue é predominantemente rock, com o sabor sofisticado de sua vertente mais alternativa. Nas faixas que trilham os caminhos do gênero, ganha imenso destaque no vocal da cantora a sua feição mais doce e um tanto etérea, deixando os ouvidos suspensos em uma espécie de utopia sonora. “Black Sand” e “Bad Man’s World” trazem esta sensação, que unidas as melodias construídas pelo conjunto piano, baixo e bateria, e pelas intervenções pontuais de violino e violoncelo, soam como canções menos telúricas de Kate Bush. Por sua vez, “Pretty Bird” é pavimentada com o dedilhar sutil de um violão, enquanto a bateria dá o andamento para que Matt Ward vaporize sua guitarra em harmonias por vezes quase idílicas, em outras mais sensuais e ferinas. Dentre as baladas, duas se destacam: “Godspeed”, composta por uma melodia bem talhada, nos toques ao mesmo tempo delicados e sólidos de piano e bateria, e por uma letra de belos versos que ilustram apoio à uma mulher que sofre abusos de seu companheiro e “Sing a Song for Them”, que apoia sua base em um baixo e guitarra cujos acordes se contrastam em tonalidade mas se complementam em ritmo, sedimentando a melodia para que seja encorpada por uma guitarra mais áspera e arranjo de cordas espesso.
Apesar de que eu nutra muito mais interesse pelo rock do que pelo country, Jenny consegue despertar interesse até mesmo nas suas incursões neste último, retirando boa parte do seu caráter brega e antiquado. É por isso que Acid Tongue comprova bem a versatilidade de Jenny Lewis, possível pelo seu talento e pela beleza e flexibilidade de seu vocal, tornando genuínas as performances da artista em ambos os gêneros que o disco aborda. Apesar disso, ainda preferiria um disco que se encarregasse em dissecar apenas as muitas faces do rock – e a julgar pelo modo como o gênero tomou espaço do country em Acid Tongue, isto deve estar guardado para o próximo álbum.

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Rachel Yamagata – Elephants…Teeth Sinking Into Heart. [download: mp3]

Rachel Yamagata - Elephants...Teeth Sinking Into HeartQuatro anos separam Happenstance, o disco de estréia de Rachel Yamagata, de seu mais novo lançamento, o álbum Elephants…Teeth Sinking Into Heart. E não há como não chegar à conclusão de que o tempo fez muito bem à artista: enquanto no primeiro a garota criou algumas boas faixas com enorme potencial de hits instantâneos, mas que não conseguiam ir mais fundo do que isto, neste seu segundo álbum Rachel traz à tona canções cuja sofisticação melódica, sabe-se, foi fruto de um amadurecimento que só se atinge com tempo suficiente para refletir e polir melhor aquilo que é gestado.
“Elephants“, a faixa que dá título ao primeiro disco deste álbum duplo, assim dividido por ser composto de duas atmosferas musicais distintas, é o retrato exato do aperfeiçoamento atingido por Rachel no cerne emocional das canções que compõe toda essa primeira parte de sua nova criação: para sonorizar a brilhante analogia entre as amarguras do amor e a selvageria predatória da cadeia alimentar das selvas, a garota explorou reverberações melancólicas em acordes de guitarra e piano, lançando mão também de uma bateria de andamento lento e pesairoso e de uma orquestração que preenche a melodia com matizes ainda maiores de sofrimento e mágoa. “Sunday Afternoon” é outra canção em que Yamagata e o produtor Mike Mogis operam com o emocional da canção sem resvalar um milímetro sequer da exacerbante classe e elegância que são a marca maior da primeira parte do álbum: guitarras de vibrações idílicas, bateria sorumbática, violão de acordes metálicos e uma orquestração de suave fulgurar tecem, na primeira parte da canção, nuances substancialmente pastorais que aos poucos são revertidas em um arranjo mais vigoroso e levemente sensual, finalizado por uma sequência plácida e serena. E apesar do trabalho primoroso no arranjo, muito da experiência fabulosa despertada ao ouvir a música é produzido pelo vocal da americana, que exprime a dor e tristeza de alguém que confessa tentar, de uma vez por todas, abandonar um amor que só lhe causa sofrimento cada vez maior – é a faixa que com mais intensidade sintetiza a atmosfera atormentada do disco.
Porém, ainda que ela subsista em todas as canções, essa atmosfera é suavizada em alguns tons em algumas faixas do disco, particularmente nas baladas. É o que ocorre nas canções “Over and Over”, que como a maior parte das músicas da primeira metade do álbum abusa do infalível arranjo de cordas, mas sem nunca deixar de apostar no protagonismo dos acordes de piano e bateria que exalam aroma de inequívoca paixão, e na extrema simplicidade de “Duet”, que emprega apenas um violão de acordes suaves para a composição harmônica que acompanha o vocal de Rachel e seu convidado, o cantor Ray Lamontagne.
Mas este é um álbum duplo, e o contraponto à melancolia rascante do primeiro disco é o furor faiscante de Teeth Sinking Into Heart, a segunda parte, composta de canções de um rock profuso, como se confere na fartura de guitarras, baixo, bateria e múltiplas camadas vocais de “Sidedish Friend”, na qual é declarada à aversão à qualquer tipo de compromisso afetivo, e na rítmica mais fechada e menos aguda produzida pela guitarra, bateria, baixo e marimba da faixa “Pause That Tragic Ending”, cujo acabamento é dado pelo arranjo de cordas algo febril.
Muito além do fato de que a artista explora as gradações de seu potencial artístico em cada uma das partes do disco – não há algo de muito novo nisso, pois Happenstance já encerrava no seu interior tanto a placidez de Elephants quando o frenetismo de Teeth Sinking Into Heart -, o grande diferencial deste novo lançamento para o primeiro é o testemunho de que o requinte que florescia na estréia foi tão aprimorado e amadurecido que ele torna-se palpável da primeira a última nota do álbum. Por isso que, diferentemente da própria Rachel, eu não me surpreendo que uma das maiores gravadoras do mercado dê suporte incondicional à um disco que se dá ao luxo de trazer uma faixa de quase dez minutos de duração. Posso apostar que para a Warner Records, o valor da artista não é o das cifras que ela possivelmente reverta nas vendas ou na popularidade que suas canções possam ganhar no rádio, TV ou cinema, mas o fato de que a presença de Rachel é um reforço considerável ao cast de artistas de primeiro escalão da gravadora, agregando ao selo a qualidade inquestionável de seu trabalho – algo bem mais duradouro do que o dinheiro fácil feito com o “gado” que compõe a maior parte dos contratados da indústria da música.
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Agradecimentos ao , que por vezes incorpora o meu feed musical.

4 Comentários
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005