O segundo disco da banda de Joan Wasser não encanta tão prontamente quanto o primeiro, principalmente porque algumas poucas canções, como “Magpies”, um pop-soul setentista com direito inclusive aos vocais de apoio e arranjo de metais que remetem ao estilo da época, ensaiam conquistar o gosto do ouvinte mas se perdem tanto em descaminhos melódicos tão inócuos e aborrecedores, quando não absolutamente irritantes, que acabam interferindo na apreciação adequada das demais faixas do disco. No entanto, superada a irritação que essas canções causam por algum tempo, as outras faixas revelam logo os seus enormes predicados, algumas de modo lento e crescente, liberando paulatinamente sua beleza à cada apreciação – é o que acontece com “To Be Loved”, faixa que envereda de modo mais sutil no mesmo pop-soul nostálgico de “Magpies”, mas que é mais feliz ao ser balanceada com um teclado de cores quentes e um piano de notas graves, ambos dedilhados de modo suave e apoiados por uma guitarra e bateria que aquecem discretamente a melodia tanto quanto o próprio vocal macio de Joan -, outras de modo mais imediato e impactante – como “Holiday”, que une acordes deliciosos no violão, no piano, e na bateria para compor uma melodia ao mesmo tempo ágil e graciosa, que cede bastante espaço para a voz encantadora da cantora americana. Sempre inspirada por referências musicais de décadas passadas, Joan é capaz de compor faixas que lembram desde a romântica melancolia da “new wave” do final dos anos 80 e início dos 90 – falo aqui da esplêndida “Start of My Heart”, cuja música é guiada por uma bateria e baixo de cadência lenta, salpicada por uma guitarra de acordes extensos e serenos e preenchida por uma sintetização que cria ondulações ao ser continuamente sobre e sobposta à instrumentação restante – até ao glamour do pop americano que sonorizou bares, discotecas e qualquer festa que se prezasse há cerca de 40 anos – claro que me refiro à faixa “Furious”, marcada por um compasso ligeiro de bateria e teclado, reforçado por piano de acordes dramáticos e prodigiosos e um coro de palmas que recheia o fundo da melodia, além dos vocais adicionais que adensam ainda mais o nostalgia sonora – tudo, porém, com um senso de naturalidade e graça que torna esse caldo saudosista algo de muito bom gosto. No final do disco ainda sobra ânimo para um dueto delicioso com Rufus Wainwright em “To America”, que é introduzida por um piano algo desolado e logo subvertida por um arranjo fabuloso que toma de assalto a música com saxofones, guitarras e sintetizações enormemente melódicas e verborrágicas, fechando de modo brilhante este disco que, a esta altura, faz esquecer qualquer possível menção de tropeço que inicialmente o marcasse.
Baixe o disco utilizando o link a seguir e a senha para descompactar os arquivos – e não esqueça de baixar logo depois a faixa bônus “Take Me”, liberada com exclusividade na web aqui pelo seteventos.org.
senha: seteventos.org
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Faixa bônus “Take Me” (do single “To Be Loved”):
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Menomena é uma banda composta por apenas três rapazes de Portland, no estado do Oregon, e já é considerada das mais criativas e originais do cenário indie americano. E isso não é exagero: apesar de serem capazes de compor algumas faixas aborrecidas e obtusas, quandos eles acertam a mão eles criam melodias que, fazendo uso de blocos de harmonias cíclicas ou explorando o crescendo melódico, conseguem soar majestosas sem perder o traço idiossincrático indie que a banda adora preservar. Friend And Foe, o segundo disco destes rapazes tão inventivos, está repleto de incomparáveis gemas sonoras, com instrumentação e arranjos ainda mais afinados que no disco anterior. O disco começa com a faixa “Muscle’n Flo”, feita de versos que pregam o levante sobre uma vida desprovida de sentido, e melodia com vocal que se equilibra entre o cantar mais suave e o brado mais jubiloso, bateria e pratos de cadência energizante, piano de acordes agudos e cíclicos e orgão de tonalidades gospel. Já em seguida a desconcertante “The Pelican” – que utiliza este pássaro como metáfora para o egoísmo e o parasitismo social e afetivo -, que lembra muito o Supergrass, principalmente pela sua metade introdutória, com um vocal encolerizado sobre o piano de de acordes contínuos e graves, logo usurpados por uma intensa torrente de guitarras e loops de bateria que se sobrepõem de modo oscilante em pausas e fulgores melódicos suntuosos. Depois de “Wet and Rusting”, uma faixa um tanto regular, que poderia soar bem melhor com algum esforço, temos “Air Aid”, um brado anti-belicista em que o loop da bateria e percussão concede o andamento, supenso em pequenas pausas, para que piano, metais, guitarra e o baixo minimalistas construam e ganhem seus espaços pouco a pouco sobre esta base, resultando em um módulo melódico que sucede a si mesmo continuamente. Mais à frente no disco podem ser destacadas as faixas “Boyscout’n”, com letras que possivelmente referenciam à Judas e a traição de Cristo e que conta com coro de assobios ultra-jovial, arranjo de metais digno dos melhores trabalhos de Michael Nyman e guitarra, bateria, pratos, baixo e piano em exultante agitação conjunta, e “Evil Bee”, talvez a melhor faixa do disco, com um trabalho verdadeiramente impecável na programação dos loops vibrantes da bateria, da percussão e dos metais, além dos violões, guitarras e xilofones que pontuam de forma luxuosa a melodia que é construída em um crescendo absurdamente exuberante.
Até os fãs de PJ Harvey não esperavam que a cantora e compositora britânica fosse tão longe em seu mais recente disco, White Chalk: depois de tantos anos revirando e experimentando dentro das fronteiras do rock mais seco e punk, em 2007 a cantora renasce como uma entidade romântica e quase fantasmagórica do século XIX que utiliza o piano como base de inspiração melódica para suas criações. Mesmo o seu vocal tão singularmente rockeiro, que PJ sempre fez questão de utilizar em todas as variações de graves e agudos que consegue atingir, agora é sustentado quase o tempo todo nesta última faceta, em notas altas e distantes, muitas vezes transmutadas por filtros que intensificam ainda mais seu caráter imaterial. As melodias fogem da trama básica do rock como o diabo foge da cruz, geralmente compostas com o já citado piano, além de banjos, gaitas e harpas, com interferência mínima de bateria, como se pode ver na belíssima faixa de abertura, “The Devil”, em que a cantora fala sobre uma alma atormentada pelo amor e na faixa título, que resgata memórias e emoções despertadas pela paisagem bucólica do paredão de penhascos da região de Dorset, na Inglaterra. Mais adiante, tanto na terceira faixa, “Grow Grow Grow”, de letras que suplicam por ajuda para entender melhor como é crescer e melodia agridoce e brumosa, com um elenco de pianos que vão do mais econômico e minimalista ao mais virtuoso, quanto no piano de acordes graves e vocais monotonais do single “When Under Ether”, que fala sobre uma mulher que sente a vida esvaindo-se dentro de si no momento em que sofre um aborto, Harvey suscita a atmosfera de Is This Desire?, ainda que estas canções estejam tomadas pela sonoridade preponderante de White Chalk. Contudo, se você quer entender inteiramente este projeto inusitado da cantora britânica ouvindo uma única música, a última faixa do disco, “The Mountain”, serve como a foto instântanea desta PJ Harvey que se despe da carne e se converte completamente em espírito: entoando os versos difusos e amargos sobre a perda de confiaça em quem amamos, a cantora se esvai em falsetos exasperados e gritos desesperados sobre uma miríade de acordes de piano, dramáticos e tempestuosos como uma ventania norturna.