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Tag: rock alternativo

Soap & Skin – Lovetune for Vacuum [download: mp3]

Soap and skin - Lovetune For Vacuum

Anja Plaschg, cantora austríaca que trabalha sob a alcunha Soap & Skin, é uma figura estranha. Em boa parte de suas fotos, a garota aparenta um notável ar de melancolia gótica que a assemelha à personagem de Winona Ryder em “Os Fantasmas se Divertem”, clássico de humor negro do tempo em que Tim Burton sabia o que fazia. Mas diferentemente da menina de Burton, Anja mostra naturalidade e considerável suavidade, ainda que nas letras de suas canções seja fácil identificar o tormento existencialista que repousa na expressão sorumbática de seu rosto lívido que lembra enormemente mulheres de pinturas renascentistas. Não é surpresa alguma, portanto, que sua música seja continuamente atravessada e fendida por estados de ânimo completamente contrastantes – algo efetivamente ilustrado na última faixa do disco, “Brother of Sleep”: ao mesmo tempo que a música ilumina os ouvidos com a terna harmonia do piano e violinos e o vocal etéreo da jovem austríaca, ela os assusta com o ruído surdo e mórbido sobre o qual arrulham pássaros e o baque repentino que encerra o disco. Mas antes de chegar até lá, experimenta-se nas composições baseadas em piano episódios transbordantes de fatalismo épico – como em “Sleep” com acordes pesairosos no piano e um vocal que viceja entre sussurros frágeis e brados vigorosos em meio à ruídos sujos e obscuros e “Thanatos”, o canto da morte mergulhado em um piano de andamento fúnebre e um vocal em tom sentencioso e imperativo -, inundações de sofrimento incontido – exemplo disso é a belíssima “Cynhtia”, um sufrágio lento onde o piano forma uma parceria divina com o vocal repleto de mágoa e pesar de Anja, “Fall Foliage”, onde a melodia lacrimosa do piano é acompanhada pelos frios ruídos mecânicos que emanam do teclado fabuloso da austríaca, e a instrumental “Turbine Womb” uma mistura graciosamente cinemática da faceta erudita a da pós-moderna da garota – e emanações de doçura, delicadeza e calma alegria – como na sonoridade gentil de “Cry Wolf”, recheada com acordeão, um piano singelo e tecituras eletrônicas que cintilam na mesma vibração sensível e afetuosa do vocal de Anja, de “Spiracle”, com acordes gracejantes de piano e vocal que sufoca-se em um estado de ira até explodir em um breve e repentino grito de revolta no meio da melodia que reflete o desespero das letras em que a garota confessa a constante perseguição e o abuso sofridos na infância.
Por conta destas flutuações de ânimo, me senti em parte inclinado em chamar de música bipolar o que aqui é feito pela artista austríaca, só que este nunca seria o termo adequado, pois mesmo quando há alegria em suas composições, esta não escapa de sofrer a infiltração de uma onipresente melancolia que evita este contentamento de atingir um estado de plenitude – o mais correto mesmo é não enquadrar a admirável caixinha de música de Soap & Skin e deixar que o ouvinte surpreenda-se ao orbitar na sua atmosfera encantadoramente lúgubre.

agradecimentos ao meu amigo Matheus, ou Olívio, como ele prefere – foi num tweet dele que acabei descobrindo essa preciosidade (não deixe de espiar o twitter e o 8tracks dele).

http://ifile.it/6vubz95

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Joan As Police Woman – The Deep Field. [download: mp3]

No seu terceiro disco de material inédito, Joan Wasser, mais conhecida pelo codinome Joan As Police Woman, operou uma transformação em seu estilo musical difícil de definir com exatidão – não é algo radical, mas também não é suficientemente sutil para se poder dizer que suas composições continuam as mesmas. Talvez seja mais fácil dizer o que este álbum não é: The Deep Field não possui o lirismo cristalino de Real Life, nem a luminosidade aveludada de To Survive. Em sua nova empreitada sonora, a cantora americana resolveu tornar as coisas mais complexas, menos óbvias. Por esse motivo, suas composições agora soam mais livres, em alguns casos até enveredando na improvisação, que é o caso de “Flash”, cuja ambiência de percussão e vocais sutis e reverberações melódicas persiste por quase 8 minutos em um transe sonoro praticamente imutável, que insiste em resistir à evoluções previsíveis de sua harmonia. “Human Condition”, apesar de menos ambiciosa melodicamente, também evita promover modificações na delicadeza soul de seus vocais sutilíssimos e na melodia aquecida por um confortável calor. Igualmente alinhada com a atmosfera mais discreta destas músicas está a contemplação reflexiva da triste “Forever and a Year”, de vocal magoado e compasso sofrido em um lamento de dilacerar a alma lentamente.
Mas se algumas faixas são experimentais pelo seu ambient mood, outras o são por uma maior profusão instrumental, onde se encaixa “Nervous”, faixa de abertura com a cadência malemolente da guitarra, bateria e baixo, mas que ganha feições mais maciças quando o ouvinte é inadvertidamente encoberto na sua sequência final por uma lava de riffs de guitarra, tão rascantemente sensuais que tomam os ouvidos e comandam ao corpo dançantes ondas de lascividade. Mais à frente no disco, “Run For Love” também se adequa à essa feição, já que a levada sexy da bateria, os acordes cálidos do teclado e a guitarra àspera vão ganhando maior amplitude e interferência, além da adição de ruídos e vocais adicionais que “sujam” a melodia até formar uma massa sonora hipnótica.
As composições que são o legado sonoro do soul mais clássico, porém, não perderam o seu espaço: tanto o single “The Magic”, com gingado suavemente efusivo e dançante do conjunto bateria, guitarra e teclado, quanto as mezzo-baladas “Chemmie” de guitarra, bateria e orgão sinuosos e insinuantes, e “The Action Man”, com a voz ao mesmo tempo frágil e determinada de Joan sobre órgão, backing vocals e o tempero de alguns metais tão característicos do estilo, defendem no novo álbum aquilo que a artista vem fazendo tão bem desde a sua estréia: capturar o melhor do soul do passado filtrado pela sua personalidade musical alimentada por influências rock contemporâneas. Como resultado desta combinação de estilos, preferências e referências, temos um disco sofisticado e elegante que não se atém a definição de fronteiras e estilos, mas de ser o retrato de um momento musical ideal de uma artista pouco conhecida, mas que está indubtavelmente entre as mais talentosas de sua geração.

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http://ifile.it/9foh8tk/police_-_field.zip

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Ida Maria – Katla. [download: mp3]

Ida Maria - Katla

Não se engane ao ouvir “Quite Nice People”, a primeira faixa de Katla, segundo disco da norueguesa Ida Maria: apesar da toada de vocal tranquilo, violão e piano adocicados e bateria leve, a garota gosta mesmo é das farpas rockeiras que nascem a partir da faixa seguinte, “Bad Karma”. Sem medo de uma overdose melódica, Ida esguela-se nos versos da canção para acompanhar sua guitarra rascante e a bateria firme e não faz muito mais no refrão além de “la-la-las” em meio à riffs caudalosos de sua guitarra. Parece simples demais? Pode ser, mas a garota sabe fazer isso muitíssimo bem. Já na faixa seguinte, “10000 Lovers”, Ida brinca ainda mais com a música, numa espécie de rock de cabaret de ritmo gingado e guitarras malemolentes, atacando a melodia com uma fartura de vocais e backings que transformam a canção em um imenso desatino boêmio. O cio da norueguesa nas letras de “Cherry Red” são apenas a verbalização do que já ocorre no pulso bem marcado da melodia pop cheia de marcações de bateria e vocais lúdicos com gritinhos delirantes – mas a garota não acha isso suficiente, e ainda enfia um interlúdio intencionalmente esteoretipado de chanson française para escancarar um pouco mais o teor sexual da faixa – doida! E se havia alguma dúvida até este ponto de que Ida se diverte muito com sua música, ela sucumbe diante da sandice “I Eat Boys Like You For Breakfast”: possuída pelo espírito de uma mariachi inconsequente, a menina põe no menu de suas personalidades musicais a latina vingativa com seus vocais poderosos em meio ao arranjo de metais, da guitarra, do baixo e da bateria sangrando uma salsa turbinada pela frequência rockeira da cantora. E como quem já prevê questionamentos depois de tanta traquinagem, a guria se despe da latina e põe trajes de uma PJ Harvey em seus melhores dias de improvisação para quase dez minutos de guitarra, baixo, bateria e vocais em jam session de rock lânguido, sôfrego e melindroso em “Devil”. E como não pensar que Ida Maria sofre de transtorno de personalidade múltipla se a cadência melancólica do piano, bateria e baixo e a tonalidade dos vocais de “My Shoes” vertem discretos vapores do charme de Fiona Apple em início de carreira? Mas a evidente ninfomania musical da norueguesa não tem limites e ainda leva a garota a rasgar seu vocal em um blues-rock na faixa bônus, que ela começa soltando um “I’m gonna behave” no microfone – não, Ida: para nosso deleite, assim como o vulcão islandês que estampa a capa do seu disco, esperamos que você continue não se comportando.

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ifile.it/ybca8pj/te_-_katlo.zip

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Fyfe Dangerfield – Fly Yellow Moon (2CDs deluxe edition + 1 faixa extra) [download: mp3]

Fyfe Dangerfield - Fly Yellow MoonQuem ouve o primeiro lançamento solo de Fyfe Dangerfield e não simpatizou com o segundo disco de sua banda, Guillemots, chega a conclusão de que o cantor e compositor guardou o melhor de si para seu próprio disco – ou, ao menos, que aquilo que vinha compondo não se enquadrou no que a banda pretendia produzir em Red. Qualquer que seja a razão deste primeiro disco solo, eu só posso dizer que fico extremamente satisfeito em saber que Fyfe, ao contrário do que fez pensar Red, não perdeu nada da sua imensa capacidade de escrever canções que irradiam emoção, como vimos na estréia do Guillemots, Through The Windowpane. E mais em forma do que nunca, Fyfe vivencia em suas canções a mais completa plenitude da euforia amorosa – como no primeiro single do disco, “She Needs Me”, uma música cheia de versos diretos, como “I’m yours you can do what you like to me” e que não se contenta com pouco, explodindo em uma tsunami de arranjos orquestrais que acompanham incessantemente a marcação dada pelo baixo e bateria e a efusividade dos toques do piano e do vocal, e também “When You Walk In The Room” na qual, introduzida por um conjunto bem arranjado de distorções eletrônicas e alguns sussurros, Fyfe quase não cabe em si com seu vocal tão animado quanto as farpas de guitarra que saltam brilhantes entre a base contínua de piano e bateria que recheiam a melodia – assim como a melancolia silenciosa que o amor também acaba por trazer – visto na combinação de violão, cordas e vocal macio em “Dont Be Shy”, que suscita as melhores composições de Tanita Tikaram em Lovers In The City e Sentimental, na tristeza de “Barricades”, conduzida por um piano de acordes graciosos e um vocal que expira romantismo e elegância tanto quanto o belo arranjo de violinos que lhe serve de apoio, na suavidade dos acordes tranquilos ao violão e piano de “Livewire”, cuja percussão procura ser sutil para não interferir no encatamento da melodia, e em “Firebird”, que apesar de adotar o mesmo violão e piano em parceria com discretíssimo arranjo de cordas da canção anterior, os utiliza à imagem da graciosidade de cantigas medievais de amor luso-galegas.
Mas muito além de tornar possível que Fyfe trafegasse com desenvoltura entre alegria, mágoa e todas as suas gradações, a euforia amorosa exacerbada do artista britânico serviu como poderoso estimulante para a sua faceta de compositor: além das 10 faixas da primeira edição lançada do álbum, o rapaz escreve diversas faixas bônus, algumas versões alternativas e um cover. Destas, há a abissal beleza de “If I Was Lost”, guiada por guitarra, órgão e vocal distantes e manchados por uma consternação de partir o coração, a amargura do violão gélido, percussão quase surda e guitarras reluzentes de “Appreciating You” e o eletronismo cálido e riffs de guitarra de “Computer Game”, de uma simplicidade harmônica quase juvenil. São 13 canções a mais no total que geraram o relançamento do disco com 4 faixas bônus e uma terceira versão extra, em disco duplo. É muito amor nesse coração, é não seu Dangerfield? É sim, e só pra fazer cair por terra aquela minha velha teoria de que sofrimento é o elixir mais produtivo para um artista.

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ifile.it/aoix327/fyfe_-_fly.zip

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Menomena – Mines. [download: mp3]

Menomena - MinesOs três rapazes de Portland estão com disco novo na estante, e a primeira impressão, ao olhar a imagem da capa do disco, é que talvez eles não estejam tão estranhos quanto antes. A resposta é, sim e não. Observe bem a capa do disco. Ao invés da miríade de personagens e desenhos idiossincráticos do disco anterior – imagem de autoria do cartunista Craig Thompson que foi premiadíssima, diga-se – ou do rabisco simples e quase infantil do disco de estréia, o novo álbum é apresentado com a foto da escultura desmembrada de uma sereia em meio a verde mata de um parque. Não parece ousado diante do que foi anteriormente feito, mas a questão é que na sua apresentação física – vinil ou CD – a foto tem efeito tridimensional, como naqueles livros de figuras que fizeram tanto sucesso nos anos 90. Claro, isso não é nada novo, mas você normalmente veria tal efeito aplicado justamente em uma capa bem menos clássica e mais caótica graficamente, e não em uma simples foto. É um bom modo de resumir visualmente a música que vai ser entregue junto com esta imagem: estranha e ousada sim, mas que nunca deixa de ser rock para se perder em devaneios descabidos.
Contudo, isso não é novidade para todos que já conhecem a banda, pois estes sabem que o Menomena sempre foi assim. Mas estes também vão notar que o trio americano esta mais focado musicalmente nesta nova empreitada, iniciando o novo trabalho de um modo diferente do que usalmente o fez: ao contrário do que aconteceu nos dos dois discos anteriores, desta vez a banda faz a abertura com uma faixa mais contemplativa. “Queen Black Acid” tem bateria de batida pesada e consternada e guitarra, baixo e vocais melancólicos e amargurados. Nos versos, estampa-se o sofrimento de um homem que, como a Alice de Lewis Carroll, sente-se desnorteado ao perceber pouco a pouco o desinteresse amoroso de sua companheira. Mas a banda já pisa no acelerados na segunda faixa: em “TAOS”, de teor nitidamente sexual nos versos em que um homem diz lidar com uma fera quase incontrolável e insaciável dentro de si, a banda põe a serviço da melodia os loops instrumentais que são tão simbólicos em suas melodias, jogando doses fartas de uma bateria escandida ensandecidamente, guitarras de toques barulhentos e ásperos e saxofone e pianos em arranjos que pulam em segundos do mais harmônico para o mais viciado. Mais a frente no disco, “BOTE” segue em ritmo ainda mais disparado e entumescido: introduzida por bateria esmurrada em velocidade frenética, guitarras e baixos de riffs esquizofrênicos e arfantes e saxofones em vertentes caudalosas constroem a melodia que é provavelmente a mais intensa do disco, e talvez de todas compostas pela banda até aqui. Coroando essa preciosidade musical em que a banda compara a derrocada da soberba humana com a de um marinheiro que descobre que sua embarcação não é imbatível, Danny Seim não economiza na potência do seu vocal, concedendo uma interpretação poderosíssima que reduz a pó a maior parte das bandas do cenário atual do rock. “Lunchmeat”, que vem logo em seguida e traz o mundo tomado pela insurrência do sobrenatural, com sereias entoando cantos mortais e demônios surgindo na areia do deserto, é uma Menomena mais clássica neste novo álbum: em cima de uma intro sutilmente climática, a banda joga sem aviso um banjo desafinado e o sucede pela harmonia de um beat sem arestas da bateria e dos riffs de guitarra apenas para transformar o estranhemento inicial em pleno deleite sonoro. Fechando o disco com os vocais e pianos reflexivos e tristes de “INTIL” e seus versos que criticam o modo como as pessoas camuflam suas personalidades para sustentar relações afetivas, a banda mostra que não tem receio de seguir um trajeto mais tradicional melódica e liricamente – e que o faz tão sublimemente quanto quando salta sem receio ao imenso vale dos seus ímpetos criativos. É justamente por fazer uso dessa imensa capacidade de enveredar por diferentes tonalidades musicais sem se preocupar em soar indie e alternativo, o que retiraria grande parte da autenticidade das composições, mas por prazer, diversão e paixão que os rapazes garantem alma e calor genuínos ao seu rock, levando aqueles que os ouvem a tornarem-se vítimas voluntárias e felizes de seus desvarios musicais.

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Menomena – “Five Little Rooms” (single). [download: mp3]

Menomena - Five Little RoomsCom uma mensagem exibindo o conhecido humor fino da banda Menomena, Danny Seim soltou como aperitivo para os fãs uma das faixas do novo disco do grupo, Mines, a ser lançado no dia 27 do próximo mês. Para quem se esbalda com o estilo portentoso, cíclico e cheio de quebras e retrocessos harmônicos da banda, a faixa é o orgasmo sonoro em múltiplas camadas que todos sabiam estar por vir: sobre o pulso cadenciadíssimo da programação de bateria, acordes algo doces e tristes de piano e um sax-barítono cheio de gingado pontuam a canção dramaticamente enquanto estes e outros instrumentos tem suas sonoridades extendidas ao longo da melodia em loops e filtros que são uma das marcas musicais dos três rapazes de Portland. Se o disco seguir o clima desta deliciosa maldição viciante que gruda em playlist único e contínio nos ouvidos que é “Five Little Rooms”, os três rapazes de Portland, assim como fizeram ao lançar Friend and Foe, vão voltar a mostrar para a grande maioria do povo do rock indie, tanto bandas quanto apreciadores, quem não é todo mundo que consegue fazer algo inventivo e ousado sem chafurdar no pasmaceira ou na mais completa falta de foco melódico – porque não é por conta de você ser classificado como “indie” que você precisa parecer um zumbi com um pianinho ou baixo cantando anemicamente num microfone ou um demente insensato que passa longe de qualquer conceito de afinação e harmonia.

Baixe a faixa diretamente do site oficial – basta entrar com o endereço de email e o link para download será enviado prontamente.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005