O material restante do fantástico empreendimento solo da vocalista do Metric, batizado pela cantora como Emily Haines & The Soft Skeleton, está reunido agora no EP What Is Free To A Good Home? O disco contém as faixas que, por um motivo ou outro, acabaram não entrando no disco Knives Don’t Have Your Back. Por terem nascido nas mesmas sessões do disco lançado em 2006, as semelhanças são notáveis: os arranjos com metais, assim como aconteceu com as outras canções, continuam tendo destaque na harmonia das músicas. As duas primeiras faixas do EP, “Rowboat”, com letras um tanto difusas sobre a vida cotidiana e o amor, e “The Bank”, que aparentemente fala sobre o consumismo a que reduzimos nossa vida, já mostram isso de cara. Na primeira, os metais fazem uma pequena, lenta e triste introdução para acordes sofisticados e um tanto dissonantes no piano, e logo tomam parte continuamente na melodia, geralmente surgindo para ocupar os espaços não preenchidos pelo vocal da cantora, unindo-se à voz de Emily apenas no fim. Já a irresistível “The Bank” conta com uma bateria ritmada, porém sutil, inundando o fundo da melodia e levantando o palco para o vocal macio da compositora, seus acordes calmos no piano e, claro, o arranjo emocionalmente contido dos metais. Já “Telethon”, em que Emily comenta a inércia que nos impede de modificar a insipidez insistente de nosso cotidiano, contenta-se com piano e vocal tranquilos e pequena participação dos metais na conclusão da melodia – que cita uma canção do cantor Billy Joel. “Bottom of the World”, cujos vocais suaves falam sobre abandono e reclusão fraternal, economiza ainda um tanto mais melodicamente, compondo-se apenas de piano e um quase inaudível contrabaixo ao fundo. Por outro lado, “Sprig”, com versos abstratos sobre noites passadas em branco, põe na companhia do piano uma série de ruídos, alguns provenientes de programação eletrônica, outros obtidos de instrumentos acústicos, compondo uma espiral melódica sinuosa, extremamente tortuosa – parece fruto de improviso, mas ao contrário do que se possa pensar, resulta em uma melodia espetacularmente complexa. A última faixa do disco é uma mixagem alternativa de “Mostly Waving” que promove uma fusão da harmonia original da canção com aroma reggae, o que tira um pouco a preponderância dos metais na melodia.
What Is Free To A Good Home? funciona como um bom tira-gosto até o lançamento do próximo disco do Metric – prometido ainda para este ano – e para segurar a onda dos fãs até o dia que Emily resolver voltar a dar atenção à composições exclusivas para sua carreira solo. Ficar ansiosamente esperando pode acabar cansando bastante – entre o lançamento de sua estréia solo e Knives Don’t Have Your Back passaram-se simplesmente 10 anos. Quem sabe se What Is Free To A Good Home? fizer sucesso poderemos ter um novo disco da cantora canadense bem antes do que se espera.
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Minha adoração por Emily Haines, que descobri no ano passado através do seu projeto solo, me fez temer o contato com a sua banda, digamos assim, oficial – o Metric. Por estar tão apaixonado pelas canções sorumbáticas e profundas, levadas ao piano, de Knives Don’t Have Your Back fiquei com receio de me decepcionar com o trabalho da banda e decidi não procurar canções deles tão cedo, fazendo-o apenas esta semana. Essa foi uma decisão acertada, já que a sonoridade da banda difere muito do trabalho mais pessoal da vocalista e, estando naquele momento tão ensoberbado, eu não conseguiria me afeiçoar e acostumar com a sonoridade mais agitada do Metric.
Belas surpresas reservam a internet. Ao me deparar com o perturbador vídeo de Emily Haines (veja aqui no blog), fiquei deveras impressionado com a sua música e, inevitavelmente, seguiu-se uma busca pelas canções de seu segundo álbum solo. Garimpei a web inteira, encontrei o álbum e fiquei surpreendido. Knives Don’t Have Your Back pode não ser feito completamente de músicas fenomenais, mas aquelas que são fenomenais, o são integralmente. “Doctor Blind”, o single cujo vídeo já citei e aqui postei, é abusivamente moderno e delirante: nas letras, entre versos algo delirantes, o vocal de tom desesperançado de Emily pede à um médico a prescrição de drogas para aplacar o sofrimento psicológico de seu companheiro; a melodia é feita num piano de acordes tristes e bateria de cadência lenta e pesairosa, acompanhados por bom uso de orquestração de cordas complementar. Em “Detective Daughter”, cuja letra fala sobre conflitos de identidade com os quais todos podemos nos deparar em certa altura da vida, temos uma melodia hipnótica que usa, além do piano triste e reflexivo, acordes longos de guitarra e bateria eletrônica básica. “The Lottery” trata da liberdade sexual e da sua necessidade na vida humana, trazendo um melodia onde orquestrações de cordas sofisticadas ganham mais corpo na música, complementando o piano de acordes um pouco desiguais e o vocal sutilmente irônico de Emily. Em “The Maid Needs A Maid” Emily revela uma canção de amor para uma outra mulher, revelando os detalhes ordinários de sua beleza e comportamento que a fascinam. A melodia é baseada apenas em piano, cujos acordes graves são tão bem compostos que realmente fazem desnecessária a participação de qualquer outro instrumento. “Mostly Waving”, cujos versos curtos falam sobre o comportamento inadequado, tem como seu maior atrativo a música fabulosa: além do piano minimalista de acordes essencialmente graves, temos uma bateria suavemente cadenciada que evita atrapalhar a participação da orquestração de metais, que é o grande salto da melodia, junto com a ironia sutil que Emily põe em seu vocal solto à meia-voz e nos vocais de fundo bastante lúdicos. Os metais também estão presentes em “Reading in Bed”, porém a orquestração destes é mais suave e lenta, compondo apenas a sequência final da música e acompanhando o trabalho ao piano, onde Emily volta à explorar a sua destreza em compor acordes feitos de pequenos ciclos melódicos que se repetem e se modificam ligeiramente durante a música – uma representação legítima do chamado “minimalismo”. A letra fala sobre a vida ordinária de um homem qualquer, cuja tristeza provém de um livro que tem sempre à mão. “The Last Page” trata os percausos e medos que temos durante a vida com necessários de ser enfrentados, o que minimiza e diminui o seu impacto. A melodia é dividida em duas partes diferentes, primeiramente baseada apenas em piano de toques esparsos, ganhando a participação discreta de um orgão por alguns instantes; na segunda parte da música surge uma bateria de cadência algo orgânica, que se mantém durante os instantes finais da canção enquanto o piano, o orgão e um baixo sutil somem da melodia. A última música do disco, “Winning” é daquelas canções soberbas que fecham discos de maneira tão perfeita que é impossível evitar ouvi-la novamente. A letra, de lirismo pós-moderno e dissonante, fala sobre a tentativa de consolar o sofrimento de alguém sem deixar de mostrar-lhe como isto não vai ser fácil, mas que será feito uma hora ou outra. A música, novamente centrada apenas no piano, casa com perfeição com o vocal melancólico mas encorajante de Emily, tendo, na sua parte final, uma das sequências melódicas mais belas que já ouvi, primorosa em seu modo fulminante de atingir as emoções do ouvinte utilizando tão pouca coisa – é de ouvir ininterruptamente, dissecando, saboreando e decifrando cada um dos seus preciosos e esplenderosos segundos.