Eles passaram pelo seteventos.org há duas semanas, quando comentei sobre o videoclipe da canção “Shooting Star”. Pois bem, o álbum desses garotos será lançado apenas em 2 de julho, mas na internet, informalmente, ele já foi lançado. Quem termina de ouvir Fractured Life acaba com uma certeza: Air Traffic soa como uma mistura de coisas que povoam nossos ouvidos já há algum tempo. Além da letra sobre um amor que chega cedo demais para compreendermos-lhe inteiramente, é fácil reconhecer a semelhança extrema de “Shooting Star”, por exemplo, com qualquer faixa mais carregada de sensibilidade do Keane: além da tonalidade da voz ser quase idêntica, o modo como Chris Wall a usa nesta faixa remete em parte a Tom Chaplin, além da própria instrumentação da canção lembrar o que os três rapazes do Keane costumam fazer: piano mergulhado em acordes emotivos, guitarras rápidas e bateria forte e ligeira – o que também acaba assemelhando a banda ao Coldplay. Em “I Can’t Understand” o que podemos reconhecer tanto na harmonia doce da guitarra e dos acordes monotônicos do piano quanto na letra em que um homem confessa não compreender porque o amor acaba sempre complicando-se desnecessariamente, são as melodias cíclicas e as letras simples dos rapazes do Thirteen Senses. A emoção desmedidamente crescente da melodia e das letras de “Your Fractured Life” – em que sofrimento é exposto, mas também é exposta a vontade de não desistir de um amor -, não disfarça, igualmente, seu parentesco com a banda da região de Cornwall.

Já a letra sobre um amor que se aproxima de seu fim, o piano e as sonoridades do teclado e em “Empty Space”, assim como o uso de bateria de ritmo bem marcado, orgão e piano de toques expressivos em “No More Running Away“, bem poderiam ser frutos do fabuloso trio Muse, ainda mais porque ambas possuem interlúdios sonoros que potencializam o apelo emocional das melodias e o vocal de Chris Wall volta a mostrar-se impressionantemente capaz de mimetizar influências de outros vocalistas. “Just Abuse Me” ainda tem algo de Matthew Bellamy nos vocais, mas tanto a letra, sobre um homem acorrentado ao seu amor por uma garota, quanto o rock juvenil que jorra do piano, guitarras e bateria não mentem: há muito de Supergrass ali. “Charlotte” e seus versos de estertores apaixonados e “I Like That”, na qual um homem assume sua submissão ao amor, também tem guitarras, pianos, bateria e vocais com a mesma euforia do Supergrass. E ainda sobra tempo para, na faixa escondida “Pee Wee Martini”, conceber uma melodia cujo instrumental lembra Pink Floyd e o espírito sugere algo que o Placebo já fez igualmente.
Air Traffic é mesmo um liquidificador de referências do rock alternativo e indie, e isso não se faz sem sofrer algum tipo de consequência: a banda corre o risco – aqui confirmado – de não encontrar espaço para desenhar uma identidade própria. No entanto, isso não desmerece a qualidade e o brilho de suas composições, capaz de aproveitar tudo que essas bandas fantásticas tem de tão bom – o que já é um bom motivo para dar uma chance aos rapazes.
Baixe:
Air Traffic – Fractured Life [mp3]
Ouça:
Em 2001, antes de sua banda, o The Cardigans, embarcar na mistura de rock com uma pitada de country que resultou no emocionante disco Long Gone Before Daylight, Nina Persson já ensaiava em seu único – até hoje – projeto independente cujo estilo influenciaria a brusca mudança na sonoridade da banda sueca. Junto com a produção de Mark Linkous, do Sparklehorse, Nina compôs as canções do que foi simplesmente chamado de A Camp, um apanhado de canções por vezes agitadas, em outras melancólicas e sensíveis. O maior exemplo deste último estilo, presente no disco, é “Algebra”, em cujos vocais Nina atinge seu ápice emocional, cantando cada verso com imensa doçura e paixão. Com letras em que uma mulher conta como um homem, apesar da aparência contida e centrada, tinha seu coração “fora do peito” – tamanha era a maneira como não conseguia conter seu amor -, o violão dedilhado com suavidade e a bateria ao mesmo tempo forte e terna incrementam a docilidade da canção. “Frequente Flyer”, sobre uma mulher que não lamenta nunca conseguir ter um paradeiro devido à sua volubilidade afetiva, é igualmente grandiosa em sensibilidade e ternura, apresentando mais vocais delicados de Nina trabalhando perfeitamente com a melodia de bateria suavemente cadenciada e guitarras e teclados lentos e sôfregos. “Elephant”, que fecha o disco, prossegue remando nos infortúnios amorosos, já que em suas letras Nina reclama ter desperdiçado tanto amor com um homem que termina uma relação de uma forma tão sardônica. A bateria continua em uma cadência forte e lenta e os pianos e riffs de guitarra graves e dramáticos ganham mais importância à medida que a canção chega à sua apoteótica sequência final.
Thirteen Senses, banda britânica que surgiu na região de Cornwall, lança seu aguardado segundo CD agora, no próximo mês de abril. Contact traz um som razoavelmente mais agitado, com melodias mais encorpadas e presença menor do piano em algumas das canções. “Animal”, sobre desentendimentos e brigas afetivas, por exemplo, começa com um baixo grave, sendo logo tomada pela agitação dos acordes e golpes um tanto curtos e monotônicos, mas potentes, das guitarras e da bateria. “All The Love In Your Hands”, canção com letras simples sobre amor, divide a mesma agitação de “Animal”, mas possui uma bateria mais vibrante, visível mesmo sobre os riffs das guitarras em algums momentos, como no inicio da canção. “Follow Me”, faixa de lirismo simples, e “Final Call”, em cujas letras ouve-se o clamor de uma mudança no rumo que damos nas nossas vidas, tem estrutura melódica semelhante, com breve introdução feita em acordes no teclado e no orgão, logo suplantados por guitarras, baixos e baterias de rítmica coordenada, apresentando uma sucessão de harmonias intensas com outras mais brandas. “A Lot Of Silence Here”, com letra sobre conflitos amorosos, apresenta uma bateria lenta mas bem cadenciada no primeiro plano melódico da música, criando, em conjunto com a sonoridade do teclado, uma balada de sabor diferente das que costumamos ter da banda.
Enquanto o The Cranberries encara uma pausa, declarada em 2003, alguns membros do grupo levam a frente seus empreendimentos solo. Noel Hogan está trabalhando no seu projeto, entitulado de Mono Band, mas é a vocalista do grupo que já está com o seu próprio trabalho engatilhado, pronto para ser lançado.
Notes On: Love teve um gestação de oito anos. Pode parecer muito, pode soar como um exagero, mas a simplicidade nem sempre é fácil de se atingir. E, no caso específico deste disco, a simplicidade, o cuidado e o apuro na composição da sonoridade do disco são seus diferenciais. É esse trabalho tão criterioso que faz com que as canções compartilhem uma identidade similar, mas ao mesmo tempo soem diferentes – o que torna sua analise um tanto difícil.
Damien Rice, o cantor e compositor irlandês, tem auxílio constante da mesma equipe de músicos desde a sua estréia, o que fez seu trabalho ser, não-oficialmente, resultado do empenho de uma banda, e não de um artista solo. A participação crucial e ininterrupta de Lisa Hannigan no vocal e da violoncelista Vyvienne Long dedilhando o violoncelo, por exemplo, corroboram esta caracteristica de Rice. Ainda assim, todo o esforço e comando criativo é dele, e é exatamente isto que nos impede de nomear este grupo como uma banda. Isso chega mesmo a ser palpável ao escutar suas canções: sente-se com facilidade que a unidade algo melancólica e irascível delas é resultado da personalidade arredia e meio porra-louca de Damien Rice. 9, seu segundo álbum, não fica atrás de O no paralelismo das sensações de vigor e tristeza. “Me, My Yoke And I”, é a música do disco que retrata com mais clareza esse aspecto: os vocais bradam continuamente versos abstratos, uma imagem pujante da revolta, melancolia e fúria afetiva, onde guitarras e bateria trabalham em uma melodia de digressões e distorções robustas de volume intenso. Semelhante em estrutura melódica também é “Rootless Tree”, que utiliza violão, violoncelo, baixo, bateria e guitarra, sendo que estes dois últimos avolumam-se ainda mais no refrão, assim como o vocal maciço de Rice. Na letra, o cantor exige que os erros antes cometidos sejam esquecidos por sua amada, e que ela permaneça junto à ele, mesmo que o fator que os una seja o ódio.