O vocal de Dolores O’Riordan é a marca distintiva mais forte da banda irlandesa The Cranberries. Apesar das comparações feitas à época com a também irlandesa Sinéad O’Connor, a banda logo superou as críticas que apontavam similaridades entre seus trabalhos, e mostrou que sua música era muito distinta não apenas da grande cantora e compositora irlandesa, mas de todo o cenário musical da época. E isto não é nada difícil de perceber: com uma acústica exótica muito difícil de definir, onde até as guitarras soam como algo excepcionalmente estranho, as músicas de letras simples e sensibilidade acachapante que compõe o disco de estréia do Cranberries surpreenderam até ouvidos dos mais experientes.
“I Still Do” abre o disco marcando o terreno da banda: múltiplas camadas de vocais e backing vocals construindo uma reverberação distante, trabalhando em conjunto com guitarras e baixos de acordes dramaticamente esparsos e um piano profundamente minimalista. A letra, composta de uns poucos versos, fala da dor afetiva com a naturalidade de quem sofre por amor. “Dreams”, que continua investindo na temática lírica central do disco – as lamentações amorosas -, transformou-se em um sucesso estrondoso. Para entender o sucesso que o single fez, basta ouvi-lo: a música é uma balada pop que atinge o ouvinte como poucas, onde todos os instrumentos foram trabalhados de forma absolutamente integrada para construir uma melodia que desse apoio total ao vocal devassadamente em emotivo de Dolores. A música tem uma força tão impressionante que tornou-se um dos marcos maiores da identidade da década de 90 – não há como não mergulhar-se em lembranças da época ao ouvir “Dreams”. Em “Sunday” temos uma ligeira variação na melodia, deixando de ser preponderantemente melancólica para travestir-se de uma exaltação sutil e elegante – tudo por conta dos acordes marcantes do baixo e da beleza reluzente das cordas que compõem, particularmente, a abertura de tom contemplativo e o fechamento suavemente irascível da melodia. A letra de “Sunday” reflete os questionamentos de alguém que se sente rejeitado e retrata o comportamento inseguro e confuso de quem se vê em tal situação. A próxima faixa, “Pretty”, mostra como mesmo utilizando poucos recursos a banda consegue manter a sua sonoridade inovadora: a música esbanja simplicidade em seus poucos versos repetidos, que são um misto de ode e conclamação amorosa, e na sua melodia repleta de languidez, com sua base concebida no teclado idiossincrático, bateria e guitarras. “Waltzing Back” expressa em seus versos econômicos o temor de ter alguém retirado de nossa convivência. No entanto, a melodia não emoldura estas letras em uma sonoridade triste, mas o faz em tonalidades de urgência dramática e súplica furiosa, utilizando-se um teclado de acordes acúsiticos e os intrumentos básicos da banda, guitarra, bateria e baixo. Em “Not Sorry” os vocais de Dolores soam especialmente belos, trafegando entre o tom sussurrante e o brado mais lamuriante. As letras, em tom de confissão, falam sobre alguém que sofre, mas que ainda preserva seu orgulho. A melodia faz uso espetacular dos teclados, especialmente no refrão hiper-dramático, compndo sons reverberantes e distantes que se encaixam na expressão sofrida, mas altiva da vocalista. “Linger”, cujas letras tratam de alguém que declara àquele que ama que sente estar sendo enganado, é mais uma balada esplêndida, com guitarras e violões que constroem uma melodia pop muito bem estudada, de tonalidades nostálgicas absolutamente certeiras. As canções “Still Can’t” e “How” tem melodia semelhante, em ambas os instrumentos formam uma música forte, tempestuosa e urgente. As letras das duas canções também expressam sentimentos contíguos de estupefação e cólera em uma relação amorosa cuja dedicação nunca é recíproca. “I Will Always” e “Put me Down” também guardam semelhanças e complementam-se: enquanto uma fala de um amor que se encontra em seu limite, a beira do seu fim, a outra trata da decisão de abandonar uma relação que não traz mais o contentamento. A melodia de ambas é tranqüila e doce: com presença marcante de violões e teclados, e tonalidades contemplativas de bateria, baixo e guitarras, a música ganha cores mais dramáticas nos refrões, onde Dolores sempre demonstra toda a potencialidade e sensibilidade de seu vocal, especialmente nos vocais de fundo de “Put me Down” que tem algo de celestial e elevante.
O primeiro disco do The Cranberries foi o trabalho mais marcante da banda até hoje. O álbum seguinte consegue captar muito ainda da inovação sonora deste primeiro, mas a semântica composta de mágoa e ira afetiva das letas e as melodias reverberantemente tristes, repletas de nostalgia acústica e de cólera e orgulho afetivo atingiram a perfeição em Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We. Com o advento do terceiro disco, apesar de ser um bom trabalho, a banda já preferu abandonar a identidade que fazia dela um marco diferencial no mundo da música pop-rock. Resta, para aqueles que preferiam o som mais exótico inicial, apreciar os dois primeiros discos para saciar a vontade de escutar algo que foi tão inovador que jamais se repetiu novamente.
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2 Comentários
Sinéad O’Connor lançou em 1994 aquele que considero o seu melhor disco até hoje. Universal Mother é um apanhado fantástico de músicas em que a compositora derramou seus sentimentos, frustrações e dores, dedicando a mesma intensidade emotiva na interpretação das canções e na composição das melodias. O disco abre com “Germaine”, trecho de um discurso da escritora feminista Germaine Greer. Logo em seguida somos surpreendidos com o cantar rascante de Sinéad em “Fire on Babylon”, música de bateria forte, metais messiânicos e cordas que remetem à música tradicional àrabe onde O’Connor faz das tripas coração, tamanha a emoção com que canta. As letras são um primor do trabalho de composição da artista irlandesa, uma vez que declaram os horrores da guerra usando o mito bíblico de Babilônia do livro das Revelações/Apocalipse como analogia. A faixa seguinte, “John, I Love You” substitui o tom urgente por uma emotividade construída em uma melodia bem mais delicada, que lembra vagamente uma canção de ninar. A letra é também repleta de emoção, já que é um hino de amor materno, onde a mãe tenta mostrar ao filho os desafios, frustrações e belezas da vida. Quando a música prossegue para o encerramento, a melodia do piano sofre sutil alteração, unindo sua harmonia com a melodia da música seguinte, “My Darling Child”, mais uma canção sublime com letras simples, compostas por frases de admiração e amor de uma mãe para sua criança. Levando a temática do disco o mais próximo possível de sua essência, a próxima faixa traz um dos filhos de Sinéad O’Connor, Jake Reynolds, na época ainda criança, cantarolando versinhos ingênuos e breves sobre a condição humana. “Red Footbal” leva à frente a temática da canção que a precede, mas em uma composição mais madura e reflexiva que traça uma analogia entre o sofrimento de um animal aprisionado em um zoo e a opressão pelo qual muitos seres humanos passam. A melodia, que inicia-se introvertida e reprimida, apresentando apenas piano e voz, caminha aos poucos para uma orgia harmônica onde cresce pouco a pouco a bateria, até explodir em um climax revanchista. Sucedendo esta canção temos um cover de Kurt Cobain, “All Apologies”, cuja melodia despoja-se de excessos, sendo composta apenas de voz e violão algo minimalista, e com letras que questionam as relações humanas. As duas músicas seguintes estão, com certeza, entre as mais belas canções de Sinéad: ambas as canções tem suas melodias compostas apenas pela voz de Sinéad, em um cantar que concentra inacreditável emoção e dor, e por um piano de acordes cortantemente melancólicos, de levar qualquer ouvinte às lágrimas. As letras também são emocionantes: em “A Perfect Indian”, composta pela própria cantora, Sinéad canta a dor de alguém que só vê alegria em sua família quando esta é pura aparência – como um sorriso forçado em uma foto, por exemplo – e em “Scorn Not His Simplicity”, temos a sensação de impotência de uma mãe diante da descoberta de que seu filho não é como as outras crianças – a letra não deixa claro se seria uma defiência física ou cerebral ou um problema decorrente de um acidente. É de dar um nó na garganta o sentimento de culpa e abandono que esta mãe experimenta ao ter idéia de como ele não poderá mais compartilhar de tudo que faz da infância algo inesquecível. “All Babies” continua abordando a infância, mais agora de uma maneira mais universal e lírica, declarando que são elas as coisas mais adoradas por Deus – na melodia, mais uma vez, o piano hiper-emotivo é o destaque, embora nesta canção a harmonia ainda faça ótimo uso de baixo e bateria. “In This Heart”, por sua vez, depoja-se totalmente de instrumentação, explorando emoção inimaginável apenas com os vocais de Sinéad e de um esplendoroso coro gospel em modo algo minimalista. A letra é extremamente simples, mas consegue sintetizar sensibilidade fulminante em seus versos que falam sobre perda, dor e resignação. Como um mantra, a próxima canção, “Tiny Grief Song”, tem suas letras compostas por versos repetidos, novamente “a capella”, sem qualquer instrumentação – é exatamente o que informa seu título: uma pequena canção do sofrimento. Em “Famine” Sinéad foge da identidade melódica, compondo algo próximo de um funk e que lembra os hits mais elegantes do US3, que tanto sucesso fez na década de 90. A letra também muda de tom, já que o sofrimento humano continua sendo abordado, mas agora parte para um discurso mais político e regional: a opressão irlandesa imposta pela invasão britânica. Fechando o disco, retornamos à uma canção que conjuga letras e melodia como um mantra: “Thank you for hearing me” é uma das canções favoritas dos fãs, em cujas letras vemos a gradação dos sentimentos humanos despertados pelas relações humanas, particularmente as afetivas: primeiro o contentamento e alegria quase plenos, passando ao sofrimento e a dor e, então, ao posterior fortalecimento que estas últimas acabam favorecendo.