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Tag: rússia

“A Ascensão”, de Larisa Shepitko. [download: filme]

VoskhozhdeniyeDois guerrilheiros russos saem em busca de comida para seu grupo da resistência contra os nazistas, mas ao chegar no local onde desejariam obter comida descobrem que tudo foi destruído pelos invasores alemães. Sem querer voltar de mãos vazias, os dois resolvem se arriscar em território ocupado pelos alemães em busca de mantimentos.
Esse filme, que não tem cópia em DVD e, eu imagino, possivelmente nem em VHS, é o tipo de coisa que só se vê por culpa e graça da existência da internet e por conta de um filantropo digital, que decidiu lançar na rede a gravação captada de uma TV européia. Não fosse isto o filme soviético de 1976, que tematiza sobre a luta contra a invasão alemã em meio ao inverno russo, não estaria disponível à qualquer criatura com uma banda larga mediana.
O impacto do filme de Larisa Shepitko já não é coisa que se obtém hoje em dia da forma como ela o fez. Enquanto grande parte dos filmes da atualidade, que retratam mazelas de guerra, só conseguem se ocupar do tema aliados à orçamentos astronômicos e ambições galácticas, a diretora russa – como muitos dos seus conterrâneos – o fez utilizando-se apenas do esforço de sua equipe e de idéias simples e diretas. O produto final desta equação é bem diverso daquele obtido com todo o conforto e apoio de um bom punhado de cifras: seu realismo não é obra de um detalhismo gráfico, quase perverso no modo como expõem mutilações e carnificinas, neste longa ele é obtido pela crueza da situação, pela utilização dos mecanismos mais naturais e pela sujeição dos atores e das filmagem à eles; a sua força não vem de um clímax pomposo, cuja redenção ou superação é uma dúvida ilusória e a punição aos malfeitores certa, mas do seu caráter hiper-realista, que não se propõe em momento algum a ter pena do público nem de seus protagonistas, jogando ambos a mercê de um destino onde a esperança não (sobre)vive. Ainda assim, mesmo dispondo de não muitos recursos e lidando com um argumento simples, a diretora consegue trabalhar com a estética – compondo sequências poéticas, de beleza plástica e teor emocional intensos como se observa nos momentos de agonia sublimada de Sotnikov ou na estupefação dos personagens, refletindo sobre a miséria de suas vidas e a infelicidade de seus destinos, frente a vastidão branca do inverno russo que trafega ao seu redor – e explorar a fundo a complexidade do comportamento humano diante de situações limite, revelando através de seus erros, de seus atos, de seus receios e medos, o perdão, a redenção e o terror da morte, esta última capaz de desvendar, ao mesmo tempo, a bravura de alguns em enfrentá-la com honradez e a submissão humilhante de outros, que jogam na neve ideais que defendiam tão prontamente para evitá-la a todo custo. A sequência final tem a pungência extrema do melhor cinema russo: dentro de um quartel nazista e diante de um portão esperançosamente aberto, um homem percebe que mesmo que conseguisse passar por ele, seu caminho seria marcado por uma prisão existencial cujas paredes seriam formadas pela traição e pela negação de seus ideais e de sua própria identidade – apesar de ter ficado com sua vida, ele estava só, e a liberdade, ela jamais seria possível.
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“Guardiões da Noite”, de Timur Bekmambetov. [download: filme]

Nochnoy DozorAo tentar obter os serviços de ocultismo de uma senhora para que sua esposa volte, Anton acaba descobrindo que não é um humano normal e integra um mundo dividido em duas partes: os guardiões da noite, seres da luz, e os guardiões do dia, seres da escuridão. Ambos os lados trabalham, cada qual em seus turnos, para evitar excessos e preservar uma trégua que foi estabelecida pelos líderes de ambos os lados há séculos atrás. Mas os atos de Anton estão prestes a desfazer esse equilíbrio.
Definitivamente, o cinema comercial do século XXI não tem mais fronteiras definidas. “Guardiões da Noite” só é russo por ser falado, primordialmente, na língua desta terra, já que todo o resto passaria muitíssimo bem por cinema americano: o uso constante de efeitos especiais, as tomadas esvoaçantes, a fartura de câmeras lenta e acelerada, a estilização da fotografia e da edição, o ritmo frenético e esquizofrênico e o roteiro adaptado, cuja mirabolância catastrófico-messiânica urbana está tão dentro do que já foi padronizado no gênero fantástico que a trama poderia ser ambientada em qualquer grande espaço urbano do mundo, tornando sua origem russa apenas acessória para agregar-lhe quase obrigatoriamente um status cult. Copiada a fórmula do cinema americano, consequentemente, seus problemas também tendem a ser carregados junto: os efeitos especiais, particularmente os digitais, surgem um tanto desnecessários e gratuitos um bocado de vezes – eu chamaria isso de síndrome CSI, ou seria síndrome dos irmãos Wachowski? -; as sequências de ação constantemente tomam espaço do aprofundamento da trama e do desenvolvimento dos personagens e o frenetismo da edição faz uma simulação um tanto excessiva do universo videoclípico. Ainda assim, a trama básica do filme, que ao modo americano, não poupa as possibilidades de extender-se por mais um ou dois capítulos (como de fato aconteceu com o livro em que é baseado o filme), é razoavelmente mais interessante do que boa parte do que é lançado anualmente pelos americanos nos domínios do gênero fantasia. Como diversão e passatempo, “Guardiões da Noite” cumpre o seu papel tão bem quanto qualquer arrasa-quarteirão americano abastado mas, como também acontece com a maior parte deles, o esquecemos de modo tão automático quanto qualquer afazer mais trivial, logo que finde o seu último minuto.
Baixe o longa-metragem utilizando o link a seguir.

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OBS: infelizmente, só encontrei link para o filme em cópia dublada. Se encontrar outra posto por aqui.

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“Solaris”, de Andrei Tarkovsky.

SolyarisPsicólogo é enviado para uma estação espacial que orbita um planeta chamado Solaris, em cuja superfície há apenas água, para avaliar a continuidade ou não das operações, já que há indícios de que os únicos três sobreviventes da tripulação estão perdendo a sanidade. Ao chegar lá descobre que um dos tripulantes, que o conhecia, se matou e começa a enfrentar as mesmas situações que colocaram os tripulantes no estado em que se encontram.
Não há meios de estabelecer comparações entre a primeira versão de Tarkovsky e a segunda, do diretor Steven Soderbergh. Antes mesmo de fazer quaisquer comparações, uma pergunta vem a mente: por que raios Steven Soderbergh achou que poderia, simplesmente, regravar uma obra-prima?
No entanto, se realmente levarmos esse questinamento em frente, teremos que fazê-lo a muitos diretores, pois a síndrome do remake infestou o cinema.
Tarkovsky não foge à sua prática neste filme de 1972: Solaris tem quase três horas de duração, repleto de planos-sequência lentíssimos. Alguns enxergam nessa característica do cinema Tarkovskiano um defeito. Isso, claro, é o discurso engendrado pelos desavisados que não tem cultura cinematográfica suficiente nem para entender suas limitações. Fique claro: essas são as pessoas que não conseguem ver um filme que não tenha, já nos seus primeiros cinco minutos, explosões catastróficas, tombamento de carros e sequências-videoclipe em câmera lenta. Para qualquer pessoa que nutre admiração e obtém prazer na apreciação do cinema que foge as normas estéticas do mainstream hollywoodiano, é fácil enxergar toda a primazia na composição do filme de Tarkovski.
A dita lentidão aqui reflete um estado de absoluta comiseração à que nós, humanos, estamos sempre sujeitos, também retratando estados de reflexão que, não necessariamente, podem ser expressos em palavras ou longos discursos. É da composição das imagens apresentandas em Solaris e de suas numerosas sequências contemplativo-reflexivas que se obtêm a sua característica suprema: Solaris é um poema encenado que versa sobre a condição humana e algumas de suas mais conflitantes sujeições: o amor, a traição, o abandono, a insensibilidade.
Apesar de visto por muitos como o “Anti-2001 “ – até , dizem, pelo próprio Tarkovski – Solaris lhe é quase geneticamente gêmeo já que, igualmente ao filme de Kubrick, subjuga-nos duplamente: internamente, na sua estória, mostra-nos a mercê de forças que nos são estranhas e superiores; externamente, como expectadores, nos mostra hipnotizados pela sua intensidade visual e psicológica.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005