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Categoria: musica

críticas e comentários sobre CDs de música.

The Edge & Sinéad O’Connor – “Heroine (Theme From Captive)” (Single) [download: mp3]

the edge and sinead o'connor - heroine single

No agora distante ano de 1986, em sua primeira empreitada profissional relevante, a irlandesa Sinéad O’Connor uniu-se brevemente a um conterrâneo seu para ajudar a compor e dar voz a canção tema de um filme até hoje pouco conhecido: Captive, longa-metragem dirigido por Paul Mayersberg que o também irlândes The Edge, então já reconhecido como o guitarrista da banda U2, escreveu em co-autoria com o compositor Michael Brook. Introduzida por uma perseverante harmonia de cordas ao teclado e sobreposta por um vocal mais contido e precoce da cantora, que aparentemente ainda não havia amadurecido o canto marcante e ousado que surgiu já no seu primeiro disco, a faixa é pontuada pelos característicos acordes atmosféricos e reverberantes da guitarra de The Edge, que formaram a identidade de sua banda naquela década, e claro, uma bateria que se avoluma na sequência final da melodia, produzindo a sonoridade tão singular da musicalidade pop e rock dos saudosos e excepcionais anos 80. Apesar do obscuro filme sobre o sequestro da filha de um magnata não ter obtido êxito de público e crítica, ao menos serviu para registrar a gênese musical da cantora cujo talento e voz excepcionais, infelizmente, perdemos em 2023.

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HotKid – “Rip It Into Pieces” (single) [vídeo, download: mp3]

hotkid rip it into pieces single

Inicialmente uma dupla, agora um trio, a banda canadense HotKid costuma centrar suas composições ao redor das cordas de guitarras – muito por influência da adoração da líder do grupo, Shiloh Harrison, por elas. E é por isso que no seu single “Rip Into Pieces”, lançado em 2011, o instrumento se apresenta de modo tão proeminente, em riffs fartos e alucinantes que são heroicamente acompanhados por uma bateria igualmente frenética e densa. Shiloh também não se envergonha de colocar toda a potência do seu vocal, externado a plenos pulmões e pontuado por berros desvairados de pura energia rockeira, para coroar a extravagante melodia. O videoclipe que acompanha o single segue a mesma toada insana, com uma cornucópia de sobreposições de imagens e cores, luzes estroboscópicas, câmeras lentas e aceleradas, explosões e muita fumaça cenográfica – moderação e comedimento, definitivamente, são conceitos inexistentes para esta banda!

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Sharon Van Etten & The Attachment Theory [download: mp3]

sharon van etten and the attachment theory 2025

Ao longo de todos os anos de sua carreira, mesmo acompanhada de uma banda de apoio, a americana Sharon Van Etten sempre encarou seus esforços musicais de modo isolado de sua banda, assumindo a autoria de todos os discos ao lado de seus respectivos produtores. Em 2025, porém, isso mudou: em seu novo álbum liberado há poucas semanas, Sharon quebra esta tradição e credita sua banda, chamada The Attachment Theory, como sua parceira criativa.
Isso, no entanto, não mudou certas aspirações artísticas que a artista vem carregando consigo. Sharon continua bebendo em fontes sólidas do rock alternativo, particularmente o sutil experimentalismo eletrônico de PJ Harvey na virada do milênio. É o que podemos observar na canção de abertura, “Live Forever”, onde Sharon, acompanhando uma hipnótica harmonia de sintetizações sob uma bateria sincopada, entrega-se em um fervor quase religioso, repetidamente se indagando “who wants to live forever?” como um mantra cujo significado tenta penosamente alcançar. Influências do trabalho da britânica também podem ser observadas na faixa seguinte, “Afterlife”, escrita em homenagem a um jovem amigo falecido: buscando confortar seu sofrimento, a cantora suplica “tell me I’ll be fine doin’ what I like” em um canto emocionado sobre uma bateria ritmada e camadas de sintetizadores luminosos. Mais a frente no disco, uma inquietação sonora ainda maior pode ser observada na vibrante “Southern Life (What It Must Be Like)”, onde bateria, baixo, guitarras e programação de sintetizadores comungam com o vocal carregado de constrição monocórdica para elevarem-se em um delírio synth-rock espiralante. Em contraste, “Fading Beauty” apresenta uma melodia marcada por um contínuo pulso intangível e instrumentação esparsa sobre a qual o falsete entorpecido de Van Etten canta digressões sobre a beleza e efemeridade da vida.
Há, contudo, momentos no disco nos quais podemos reparar referências mais distantes. Nisto se encaixam “Trouble”, cuja melodia narcoléptica traz no compasso volátil da bateria e nos acordes lânguidos do baixo o odor inconfundível do goth-rock oitentista, e “Idiot Box”, que com seu crescendo nos riffs consistentes na guitarra e na bateria em adensamento melódico manifesta aspirações da encarnação de uma Cat Power possuída pelo espírito do New Wave – uma composição tão peculiar que definitivamente merece ser apreciada.

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Onuka – “Zenit” (Single) [download: mp3]

Single lançado em 2019 pela banda ucraniana Onuka, e que mais tarde seria incluído no álbum Kolir, de 2021, “Zenit” ficou conhecida pelo público gamer em 2023 na cerimônia do (infame) Game Awards ao ser usada como trilha para o teaser de anúncio do game Kemuri, o primeiro projeto da carismática desenvolvedora japonesa Ikumi Nakamura no estúdio que fundou depois de abandonar o posto de diretora criativa do jogo Ghostwire: Tokyo, game do estúdio japonês Tango Gameworks, que por sua vez também teve mudança repentina de curso – toda essa longa história, por si só, é digna de um artigo só seu. Por mais bizarro que possa parecer, a faixa da banda do leste europeu caiu como uma luva para sonorizar o dinamismo e arrojo visual e artístico do videoclipe desse game totalmente oriental – talvez porque a icônica harmonia frenética que introduz a canção, apesar de produzida em uma solpika, flauta tradicional da cultura ucraniana, soa inequivocamente asiática. A percussão encorpada e a orquestração de metais densa, onde se sobressaem trompas, trompetes e especialmente o retumbante ressoar da trembita, outro tradicional instrumento ucraniano de sopro, compõe a melodia incontestavelmente cinematográfica cuja letra idealiza uma relação quase transcendental com o mundo natural.

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Orville Peck – Bronco [download: mp3]

Orville Peck, ruivo sul-africano radicado nos Estados Unidos, é conhecido por cobrir parte do rosto com máscaras algo carnavalescas, um recurso que denota algo de pretensioso, e assim seria normalmente premiado com a plenitude da minha indiferença. Junte a isso suas doses (perdão pelo trocadilho) cavalares de country, e seria quase uma total certeza que ele não passaria pelos meus ouvidos. No entanto, quando acidentalmente (ou não) o “deus” algoritmo atirou um dos seus discos na minha frente, resolvi arriscar, inicialmente movido por uma curiosidade mórbida – e confesso que sua música não ofendeu minhas sensibilidades sonoras.
Dono de uma voz ao mesmo tempo possante e virtuosa, o rapaz consegue cavalgar galantemente pela herança country americana ao mesmo tempo que desvencilha-se razoavelmente da cafonice provinciana que normalmente envolve o gênero, embalando-o em uma delgada embalagem rock. “The Curse Of The Blackened Eye”, segunda faixa do disco Bronco e que retrata um homem tentando cicatrizar os traumas de um relacionamento abusivo, é uma amostra disso: a percussão sutil e elegante, adornada por um baixo sedutor e acordes discretos no violão e guitarra, encanta pela sua simplicidade melancólica. Em “Iris Rose”, uma ode tocante a sua falecida avó, o cantor pega seu banjo para fazer companhia a bateria e aos violões em um canto emotivo, que no refrão derrama-se na instrumentação volumosa e na abatida ternura do trompete para adornar seus versos comoventes. Em seguida uma gaita distante e etérea introduz a tônica nostálgica da power ballad “Kalahari Down”, em cuja melodia o cantor não economizou em orquestração de cordas para andar ao lado da bateria e violão que sonorizam as letras que evocam a sua juventude nos subúrbios e paisagens áridas da África do Sul.
Nem tudo são lamentos, porém: “Bronco”, a faixa título do disco logo chega em compasso acelerado, trazendo vapores do Elton John mais entusiástico nas guitarras sinuosas e na bateria acelerada que recheiam as letras que insinuam um paralelo entre o entusiasmo de um cowboy em um rodeio e o inevitável jogo de quem aposta sua sorte em um flerte. Já em “Trample Out The Days”, os violões se unem com jovial energia a bateria e ao baixo no refrão para que Orville possa deixar de lado suas memórias e sua origem para narrar o seu desejo de tirar o máximo do que sua vida na nova terra, a Califórnia, pode lhe oferecer – e ao que parece, ele parece estar conseguindo, já que ele utiliza a vigorosa melodia compassada de “Any Turn” para relatar o frenesi da sua rotina com sua banda na estrada. O disco se encerra com um dueto com Bria Salmena na balada “All I Can Say”, onde guitarras, violão e bateria servem de fundo ao lamento de alguém que prepara-se para abandonar uma relação que já sabe ter perdido o rumo. Orville Peck, contudo, tem talento suficiente para não perder o seu – desde que abandone artifícios pueris como o da máscara para revelar sem receios o seu trabalho promissor.

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The Cranberries – In The End [download: mp3]

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É algo difícil não sentir que os versos “do you remember, remember the night, at a hotel in London”, que abrem In The End, álbum que marca o fim da banda irlandesa The Cranberries, estão de alguma forma associados, como uma espécie de presságio do acontecido, com a estúpida fatalidade que tirou a vida da vocalista Dolores O’Riordan em um hotel em Londres. Mas sabe-se que, na verdade, a impressão não passa de uma daquelas bizarras coincidências da vida, e seria tolice permitir que isso interferisse na apreciação das canções do modo como foram idealizadas por Dolores neste álbum que foi finalizado pelos membros restantes da banda (os irmãos Noel e Mike Hogan e Fergal Lawler). Assim pode-se aproveitar devidamente a melodia agitada da bateria sempre firme de Fergal e da guitarra e baixo fluídos dos irmãos Hogan em “It’s All Over Now” tanto quanto se pode desfrutar plenamente o vocal sofrido de Dolores e a melodia sutilmente apoiada por orquestração de cordas, que versa entre a melancolia resignada e a aflição amargurada, em “Lost”.
Dissipada a perturbação, é possível distinguir melhor os acertos e erros do disco – e estes, felizmente, são poucos. É o caso de “A Place I Know”, que figura entre os equívocos por desperdiçar os toques reluzentes no violão que introduzem a canção com um refrão tedioso e sem brilho, e de “Crazy Heart”, faixa promissora que acabou escondida por trás da melodia e vocal apagados – dentre todas as faixas, é a única que deixa realmente nítido que os vocais são fruto de uma sessão de demos e que, provavelmente, este jamais teria sido selecionado como a versão final para a canção.
Mas foi justamente ao se utilizarem de material vocal que não foi originalmente concebido como o definitivo para as canções que Noel, Mike, Fergal, e o produtor Stephen Street conseguiram demonstrar toda a qualidade musical da banda irlandesa, em um excepcional exemplo de competência, devoção e amor pela música. O resultado deste esforço notável são as faixas “Wake Me When It’s over”, que traz vocal e violão em afinada sintonia e refrão denso, recheado com a sonoridade da guitarra e da bateria, “Catch Me If You Can”, com uma intro encantadora que apresenta um piano fugaz e distante, logo solapada por uma melodia envolvente com vocal, orquestração de cordas e bateria carregadas de emoção, e “Summer Song”, que cativa já nos primeiros instantes pela luminosa harmonia entre o vocal de Dolores e a instrumentação posteriormente concebida pelos seus amigos e companheiros de banda.
Inevitavelmente, a agridoce e melancólica faixa-título foi escolhida para fechar o disco e, consequentemente, a carreira da banda irlandesa: “take my house, take the car, take the clothes, but you can’t take the spirit”, canta Dolores com vocal delicado e gracioso sobre violão, baixo e bateria serenos. Os versos talvez soem um pouco piegas, mas a verdade é que, embora o The Cranberries chegue ao seu fim, o “espírito” desta banda – sua sonoridade única e inimitável – jamais vai perecer.

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Fafá de Belém – Humana [download: mp3]

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A brasileiríssima Fafá de Belém, conhecida por sua musicografia genuinamente popular de verve romântica e festiva, aos 62 anos se traja em contemporaneidade, elegância e arrojo musical com o disco Humana. Sob a batuta do produtor Zé Pedro (muito conhecido do tempo em que era DJ do programa Superpop, versão Adriane Galisteu) e direção artística de Arthur Nogueira a partir da concepção da artista paraense, o disco de dez faixas apresenta composições originais e gravações com melodias coletivamente concebidas pelos músicos da banda. Tirando um par de faixas que não parecem se encaixar no projeto (“O Resto do Resto”, que não empolga com seu arranjo de MPB blasé, e “Eu Sou Aquela”, que apesar da qualidade das letras, tem arranjo cansativo, soando repetitiva por não diferir do que a intérprete já fez anteriormente ao longo da carreira), o disco é uma lufada de frescor no atual cenário musical brasileiro, cujos artistas, tanto os consagrados e veteranos da MPB (que jocosamente costumo chamar de “aristocracia artística”) quanto novatos estão mais preocupados em fazer panfletarismo político-ideológico do que música, e mesmo quando resolvem fazê-la, esta é inevitavelmente transformada em panfleto, que se não é algo bastante oportunista, no mínimo é cafona e datado, com prazo de validade fatalmente determinado. Deste modo, mesmo que alguém possa ler a divertida faixa “Alinhamento Energético” (com letras deliciosamente debochadas da artista indie Letrux e recebendo aqui um tratamento de primeira da banda, com bateria requebrada e guitarra e teclado inspirados) como tendo algum posicionamento desta ordem (em poucos dias desde o lançamento de Humana, muita gente já correu pra fazer essa interpretação míope do disco), não se encontra fundamentação alguma para tanto que não seja a vontade de fazer esta leitura, e ainda que esta fosse verdadeira, a despeito disso a faixa reteria todo seu charme e inteligência, diferentemente das “músicas de protesto” concebidas tanto por medalhões da MPB quanto por artistas independentes desde meados do ano passado que, via de regra, tem qualidade sofrível (e estou sendo bem gentil, na verdade são medíocres). E, olhem, Fafá não veio mesmo ao mundo a passeio, como se pode perceber na faixa de abertura do disco, “Ave do Amor”, composição original de Ana Rocha em parceria com o diretor artístico de Humana: iniciando com toques acetinados no piano, a faixa logo ganha ímpeto pelo toque firme na bateria e contornos de indie rock devido ao trabalho genial da guitarra e baixo. O rock, por sinal, é a alma de outra das gravações originais do disco: “O Terno e Perigoso Rosto do Amor”, criada por Adriana Calcanhotto a partir do poema homônimo de Jacques Prévert, esbanja volúpia blues rock para ficar em pé de igualdade com o vocal de Fafá, transbordante de ardor e sensualidade. Porém, em “Eu Não Sou Nada Teu”, de autoria de Zé Manoel, pianista do álbum, Fafá encobre seu vocal no retrato mais fiel da dor, concedendo ao público uma interpretação soberba e impecável em versos como “pois a ausência dos vivos é pior de aguentar, morre em minha vida, como meu pai o fez, doce é a despedida de quem se vai de vez”.
A artista paraense e sua banda, porém, não capricharam tão somente nas faixas lançadas originalmente neste disco, as reinterpretações de músicas já conhecidas (ou nem tanto) também receberam igual atenção e dedicação, como “Revelação”, sucesso conhecido na voz do cearense Fagner. Na versão de Fafá, vocal e melodia transitam entre delicadeza, furor e introspecção. “Não Queiras Saber de Mim”, regravação de música do cantor português Rui Veloso, surge aqui triste e amargurada, com piano doce e frágil e bateria e guitarra recolhidos. “Dona do Castelo”, originalmente cantada por Jards Macalé e muito conhecida na gravação de Adriana Calcanhotto, prossegue no clima tristonho, mas tanto a bateria quanto a forte interpretação da paraense se sobrepõe firmemente ao restante do instrumental. E apesar de a versão de Fafá para “Toda Forma de Amor” não fugir do usual das reinterpretações de clássicos de Lulu Santos, já que preserva a atmosfera pop/rock que é a característica do cantor brasileiro, é compreensível que assim tenha sido feito para fechar este belo projeto com todo o gás, com a cantora cantando a plenos pulmões “eu não nasci pra perder, nem vou sobrar de vítima das circunstâncias”. De fato: Fafá, que sempre foi discretamente colocada de escanteio tanto pelos ditos intelectuais da academia quanto pela elite artística do país como uma artista menor por ter trafegado essencialmente pelos caminhos da legítima música popular, deixou quaisquer lamentações de lado e meteu o pé na porta para melar o clubinho da aristocracia artística brasileira, que está muitíssimo ocupada em vomitar demagogias ideológicas para retroalimentar suas vaidades na modorrenta e patética disputa de quem é mais politicamente engajado, e se colocar como a dona daquele que é possivelmente o melhor disco brasileiro do ano – o público, que está sedento por música de qualidade acima de qualquer outra questão, Fafá, agradece.

Baixe: Fafá de Belém – Humana [mp3]

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Weyes Blood – Titanic Rising [download: mp3]

Natalie Mering, cantora e compositora americana nascida na Califórnia, mas criada na Pennsylvania, adotou o críptico e soturno pseudônimo Weyes Blood como sua alcunha musical, mas suas composições, na verdade, estão distantes de qualquer obscurantismo, muito pelo contrário: seu quarto e mais recente disco, Titanic Rising, é iluminado por um pop etéreo e melancólico, eventualmente tomado por euforias momentâneas, mas que nunca deixa de sustentar uma implacável placidez e contemplação. Tudo isso é facilmente perceptível nas faixas “Andromeda”, “Picture Me Better” e “Wild Time”: na primeira, o vocal sedoso, acompanhado por guitarra e sintetizações melosas, faz ser possível visualizar Natalie fitando um céu estrelado, com olhar resignado, enquanto canta impassível os versos de abertura; em “Picture Me Better”, o violão, orquestrações de cordas e vocal leves e singelos suscitam algo de Rufus Wainwright em sua fase mais contida; e em “Wild Time”, apesar de a melodia de guitarra, bateria e piano adensar-se, efusiva, à medida que a faixa avança, a atmosfera meditativa e serena persiste, continuamente realçada pelo vocal macio e celestial da cantora americana, mesmo entoando a tristeza de versos como “everyone’s broken now and no one knows just how we could have all gotten so far from truth”. Esse amálgama de encantamento e amargura, por sinal, se realiza por completo na melodia de “Something to Believe”, onde a guitarra e o cravo de toques cintilantes e o piano e a bateria delicadas servem como a moldura perfeita para que Natalie solte a voz, em versos como “instead of dropping the ball, I seem to carry so many”, e se entregue à canção, em uma balada tão apaixonante quanto as melhores dos suecos do Abba. Porém, ainda que esta melancolia contemplativa seja a malha básica da qual é composto o álbum, isso não quer dizer que não se possa encontrar Natalie em estado de absoluto gozo, como em “Everyday”, que lembra muito a dupla The Carpenters com seu instrumental e vocais de fundo em um arranjo radiante e jovial, mesmo servindo de trilha sonora para versos agridoces como “true love is making a comeback, for only half of us, the rest just feel bad”, ou mesmo como que tomada por um intenso delírio, como na atmosfera de devaneio quase místico de “Movies”, um esplendoroso desvario sonoro onde uma hipnótica base de sintetizações ondulantes vai aos poucos colocando os ouvidos em transe, até repentinamente lançar o ouvinte para a mais sublime ascensão com uma sequência de orquestração de cordas que cresce até desfazer-se no êxtase do arrebatamento – tudo isso em uma única faixa, sem nunca resvalar na cafonice um único instante que seja. É justamente aí que se encontra a grande qualidade de Titanic Rising: um disco de pop nostálgico elegante que transita entre a contemplação e a psicodelia, sem jamais soar kitsch.

Baixe: Weyes Blood – Titanic Rising [mp3]

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Liily – I Can Fool Anybody In This Town (EP) [download: mp3]

No EP de estréia I Can Fool Anybody In This Town, os cinco jovens de Los Angeles que formam a banda Liily deixam claro que bastam bateria, baixo e guitarra para fabricar melodias arrebatadoras, como “Toro”, que abre o disco disparando um refrão grudento no qual o instrumental explode em uma orgia sonora, e “The Weather”, onde o vocal, as supressões instrumentais, os acordes sinuosos e cortantes de guitarra e a bateria encorpada e possante sopram um vento, assim, Arctic Monkeys. E por falar na banda britânica, “Sepulveda Basin”, além de ser um respiro momentâneo da tônica acelerada do disco, poderia facilmente emplacar sua bateria, baixo e guitarras graciosas em Humbug, o disco que marcou a guinada sonora dos jovens ingleses para um rock mais melódico. “I Can Fool Anybody In This Town”, faixa título do disco, tem como destaque a parceria entre guitarra e bateria em um compasso curto e vívido, ao contrário de “Nine”, que mantém a aceleração, mas reflete na melodia a mesma aflição de versos como “what if I can’t bleed when I cut with your razor?”. A banda conclui o EP com o vocal rascante, a guitarra afiada e a bateria intensa de “Sold”, uma faixa vibrante na qual a banda demonstra que, mesmo ainda sendo novata na abarrotado cenário do indie e do rock alternativo, possui toda a auto-confiança das veteranas.

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Karen O & Danger Mouse – Lux Prima [download: mp3]

Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs é uma daquelas artistas inquietas que necessita de vez em quando colocar seu barco a navegar por oceanos que não o seu, e entre um álbum ou outro de sua banda, Karen já lançou um disco solo e compôs músicas para filmes e até mesmo um game (Rise of the Tomb Raider). No recém-lançado Lux Prima, Karen tem companhia para guiar seu barco nesta nova empreitada: o produtor musical Danger Mouse. O álbum que é resultado da parceria está permeado por nostalgia e mistério e uma névoa de coloração cinematográfica suspensa na atmosfera das suas nove canções que navegam no pop, no rock e no trip-hop. A faixa título que abre o disco exibe estas matizes, ilustrando bem a fusão da personalidade musical de ambos os artistas: durante seus mais de nove minutos, uma intro com teclado e vocalizações que vertem psicodelias sobre uma bateria narcotizada encerra-se, dá lugar à uma melodia de bateria, baixo e teclado com gingado elegante sobre a qual Karen desfila seu vocal, e por sua vez é também encerrada e sucedida por um amálgama sonoro de ambas, numa música que não soaria estranha tocando em um cabaret – ou até mesmo em um motel. “Ministry” e “Turn the Light” prosseguem com suavidade, a primeira com vocais e sintetizações etéreas sobre um violão de acordes radiantes, numa ambiência de delírio e fantasia, enquanto a última investe na requebrado sensual do baixo como base para o vocal e sintetizações charmosas e românticas. “Woman” e “Redeemer”, as duas faixas seguintes, optam por se desfazer das sutilezas em troca de uma sonoridade que suscita as trilhas sonoras selecionadas a dedo por Quentin Tarantino para seus longas-metragens: “Woman” com bateria, guitarra e vocal acelerados e ferinos, “Redeemer” com bateria bem compassada e guitarra e teclado cheios de malícia musical. Tirando o pé do acelerador, “Drown” insere ocasionais orquestrações de cordas e metais e um teclado adocicado em meio ao andamento manso da bateria enquanto o vocal de Karen é submerso em um filtro aquoso – referência clara ao título da faixa. Quase no fim do disco, surge algo de genuinamente Yeah Yeah Yeahs em “Leopard’s Tongue”, e isso se deve muito provavelmente ao refrão da canção, que cairia bem em algum canto de Show Your Bones ou It’s Blitz, e mesmo a cadência firme e ligeira da bateria e baixo não soaria completamente estranha na acervo melódico da banda de Karen O. A penúltima faixa do disco, “Reveries”, parece continuar aproveitando referências ao trabalho da cantora, já que a crueza sonora da base de vocal e violão descende diretamente de “Crush Songs”, disco solo de Karen, mas a sobreposição desta base por uma sequência de nuances celestiais, com direito a coro e orquestração de cordas, faria certamente a faixa destoar muito do conjunto daquele álbum. Última faixa do disco, a idiossincrática, “Nox Lumina” parece pairar no ar com suas reminiscências à trilhas antigas de western clássicos italianos compostas por Ennio Morricone, recedendo ao fim para recuperar a intro psicodélica que abriu o álbum, ao mesmo tempo encerrando e retornando ao início da lisérgica jornada sonora dos dois músicos norte-americanos, cuja idéia surgiu lá em 2008, quando Karen, em plena embriaguez, fez um telefonema para Danger Mouse. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas tendo ouvido o disco já diversas vezes, tenho a impressão que a artista jamais tenha se refeito daquele porre.

Baixe: https://drive.google.com/file/d/1CPL-3E_6hbYTGPnWKbL0G7UeoPGSjHc-/view?usp=sharing

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