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Categoria: musica

críticas e comentários sobre álbuns musicais, singles e similares com download disponível

Liz Durrett – Outside Our Gates [download: mp3]

liz durrett - outside our gates (2008)

Desde seu disco de estréia, Liz Durrett vem lapidando mais e mais suas canções, ampliando a gama harmônica das músicas, a poética de suas letras e a intensidade das emoções por ambas despertada. E a garota tanta trabalhou que em seu terceiro disco, Outside Our Gates, todas as canções despertam interesse de quem as ouve pela beleza à elas inerente, em todas suas gradações e modalidades. A exemplo disto, a modulação invariável dos vocais e o equilíbrio melódico da guitarra, baixo e bateria de “Wild As Them” concede-lhe rítmica bastante tradicional, típica de um single, mas isso não lhe retira o encanto produzido pela artista e seu produtor, Eric Bachmann, presente com ainda maior fulgor em faixas menos lineares, como pode ser conferido no balanceamento entre estes instrumentos e as notas emanadas dos violinos em “All of Them All”, que soam como um forte vento de outono que carrega em seus braços invisíveis todo sofrimento existente.
Mas isso nem se compara ao trabalho ainda mais fabuloso da dupla em outras músicas, ainda mais intensas em sua carga de sentimentos e sensações. É o caso da flutuante melodia dos toques cálidos no violão, piano e bateria e dos acordes resignados das guitarras que evaporam notas no vácuo sonoro em “In The Eaves” e dos vocais e violão telúricos, etéreos de “The Sea a Dream”, canção que aposta de modo certeiro na simplicidade para encontrar a frequência exata das sensações de quem a está ouvindo. “Lost Hiker” também envereda por uma solidez silenciosa, apoiando-se tão somente em piano, baixo e guitarra lentos e tímidos, cadência que lembra muito as melhores composições de Cat Power no disco You Are Free. Com Cat também assemelha-se a atmosfera de “Always Signs“, mas o faz inversamente a “Lost Hiker”, confiando na elaboração de um ruído mais assumidamente rockeiro ao capturar o aroma das guitarras, baixo, bateria e vocais em síncope farta que sua colega americana tão bem soube compor no seu disco de 2003.
E se você pensa que acabou por aqui, engana-se. As emoções ainda afloram sobremaneira em mais duas faixas de Outside Our Gates, já que dificilmente alguém consegue conter-se ao desfrutar da beleza do cantar abatido de Liz acompanhando o violão, guitarra e orgão de acordes desamparados, lentos e sôfregos como um choro que foi abafado para esconder a dor na arrebatadora canção “Not Running”, ou ainda quando se é invadido pela ternura desmedida do arranjo das cordas e sopros que acompanham o vocal, violão e bateria de aroma doce, adornado pelo pizzicato que cintila brilhantemente na metade final da primorosa e irretocável “You Live Alone”.
Certamente embebido em emoção depois de desfrutar destas preciosidades, não há como o ouvinte não concordar que as composições de Liz Durrett tem, ao menos agora, o incrível poder de hiperventilar sensações adormecidas, esquecidas dentro de si, como um verdadeiro estimulante sonoro. E pensar que há tanta gente por aí com uma dezena de álbuns no currículo e nem sequer compreenderam como se consegue atingir o que essa garota fez já no seu terceiro lançamento. Mas tem um lado bom na existência deste bando de incapazes: a multidão de artistas sem talento serve, ao menos, para abrilhantar ainda mais aqueles que o tem de sobra.

Baixe: Liz Durrett – Outside Our Gates (2008) [mp3]

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Damien Rice & Seu Jorge no Centrosul, Florianópolis.

Coisa de cinco minutos eu estava entrando no Centrosul, local da apresentação do músico Damien Rice na capital de Santa Catarina. Logo na portaria recebi uma discreta [ironia] pulseira laranja, que identificaria meu setor dentro do espaço utilizado para o show. Não querendo fazer hora, entrei logo no salão, dividido em três setores por barras metálicas. Sentei-me, lá pelas 20:30hs, na segunda fileira e fiquei aguardando. Depois de alguns minutos dando uma geral no local, saquei meu iPod Touch pra ouvir música enquanto aguardava o show e descobri que alguém, inadvertidamente ou não, deixou a rede wi-fi do local sem criptografia. Nada melhor do que esperar um show ouvindo música e navegando na internet ao mesmo tempo. E eu tive que esperar um tempinho bem razoável – o show atrasou mais de meia hora.
Damien Rice em FlorianópolisE era pouco mais de 21:30hs quando Damien Rice entrou no auditório pelo lado direito e subiu ao palco acompanhado somente de seu violão. Depois de cerca de duas músicas, o cara começou a conversar com a platéia, e daí pra frente não parou mais. Cada música que Damien tocava era precedida por um comentário, uma história de como a canção foi criada ou uma impressão qualquer, como da sua vinda ao Brasil ou de sua visão sobre as relações humanas. A cada vez que Damien parava para expor algo na sua fala calma, pausada e plácida, eu descobria que ele é o exato inverso do que sua canções dão a entender: artista de composições, em sua maioria, tristes e sofridas, Damien Rice se mostrou um homem dotado de um humor discreto e de ironias finas, muito distante dos comentários e histórias expressadas como certezas e opiniões aborrecidas por uma parcela considerável dos artistas. Com isso, a platéia não apenas se emocionava com as canções do artista, mas era constantemente estimulada pelas suas histórias e “causos”.
Depois de um set de cerca de seis músicas, Damien Rice anunciou a entrada de Seu Jorge, com mais uma história sobre isso, claro, e aproveitou para fazer seu intervalo. E ele não foi curto: o cantor e compositor brasileiro só saiu do palco depois de cantar seis músicas, entre composições suas e de outros artistas brasileiros. O público foi educado e se comportou bem, aproveitando a apresentação de Seu Jorge e agradecendo com entusiasmo cada música sua. Mas o público estava mesmo ali para ver Damien Rice, e não havia como não notar a ansiedade silenciosa dos espectadores com relação ao retorno do cantor irlandês.
Damien Rice em FlorianópolisE quando Damien surgiu novamente, sua volta não foi sem impacto. O cantor subiu ao palco ainda ocupado por Seu Jorge e chamou a parcela da platéia mais à frente para lhe fazer companhia. Obviamente que todos aqueles que se encontravam nos setores bloqueados se mostraram um tanto frustrados, mas a maioria se conformou com o situação e aproveitou o espetáculo que se formava à sua frente: rodeado por mais de trinta pessoas sentadas ao seu redor, Damien Rice começou a cantar “Volcano” e, a certa altura, resolveu interromper seu canto para distribuir entre os novos ocupantes do seu palco e o restante da platéia a execução do backing vocal da faixa, orientando homens, mulheres e a platéia ao fundo sobre como deveriam acompanhá-lo – foi um momento de enorme descontração, uma espécie de oficina de canto improvisada em que todos no auditório sentiam enorme proximidade com o artista irlândes. Mas essa surpreendente intimidade de Damien com a platéia não acabou por aqui.
Depois de mais essa demonstração de simpatia, Damien saiu do palco brevemente apenas para retornar para cantar “Cannonball” de um modo surpreendente: a princípio confundido pela platéia como um deslize técnico, Damien executou à canção sem o apoio da aparelhagem de som, fazendo ecoar no salão apenas a extensão natural de seu vocal e do seu violão. A platéia logo entendeu e manteve-se em silêncio absoluto para aproveitar ainda mais esse momento ainda mais intimista do artista com seu público.
E o cantor europeu resolveu guardar sua canção mais conhecida para os momentos finais. Primeiro cantada por Seu Jorge, na sua versão em parceria com a brasileira Ana Carolina, Damien Rice, que estava sentado no palco assistindo o colega cantando, levantou-se e deixou a platéia vidrada com a execução original de “The Blower’s Daughter”.
Damien Rice em FlorianópolisE quando eu estava achando que o show já tinha chegado ao seu fim, o irlândes volta-se para a platéia, ainda anestesiada pelas sensações despertadas por uma das suas músicas mais famosas, e pede que aguardem o palco ser devidamente equipado para sua última canção. Logo, três cadeiras e uma grande mesa, sobre a qual se encontravam taças e garrafas de vinho, estavam sobre o palco. Em duas das cadeiras sentaram-se Seu Jorge e uma amiga irlandesa de Damien que falava português razoavelmente, incentivadora de uma ONG que se instalava na cidade e para a qual toda a renda do show seria revertida – diga-se de passagem, motivo maior da vinda de Damien para o Brasil. Personagens em seus postos, o cantor irlandês iniciou a “dramatização” da história da música “Cheers Darlin”: enquanto ele desenrolava o novelo do “conto”, sobre um homem e uma mulher batendo papo em um bar para matar o tempo a hora de ir embora, Seu Jorge e a irlandesa se revezavam na tradução do que Damien contava, bem como interpretavam os papéis definidos na canção – e, assim sendo, as garrafas de vinho foram sendo esvaziadas pouco a pouco pelos “atores” e pelo narrador da história, já que o consumo da iguaria é parte essencial da história contada. E os três se esbaldaram: logo que era virado uma taça, Damien voltava-se para a platéia e inventava na história mais um motivo para um brinde, e la se iam mais três taças de vinho. Foram umas cinco rodadas ou mais, até que Damien, para delírio da platéia, ofereceu uma interpretação fabulosa de “Cheers Darlin”, repleta de emoção, ironia e com direito a uma impagável simulação de embriaguez e inconformidade – foi uma perfomance tão impecável que depois de muito aplaudir Damien e seus “assistentes de palco” o público esvaziou o auditório visivelmente extasiado, sem muito falar mas com enormes sorrisos expressando a enorme satisfação de ter testemunhado uma das noites mais inspiradas de na carreira de Damien Rice.

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Damien Rice em Florianópolis – É hoje.

Damien Rice no BrasilDepois de muito vai-não-vai, diz-que-disse, o show de Damien Rice foi confirmado em Florianópolis para a noite de hoje. Algumas coisas relativas à estão apresentação, no entanto, estão interferindo na minha efetiva animação para a apresentação do cantor e compositor irlândes por aqui. Primeiro, poucas vezes vi algo tão pouco divulgado quanto este show por aqui. Nem sinal de outdoor, chamada na TV, matéria em jornal ou mesmo um artigo decente em algum site ou portal local. Segundo, as informações sobre a natureza do show também são desencontradas: alguns afirmar ser um show beneficente, mas a produtora do evento em momento algum se referiu à ele como tal. E por último, o elemento mais bizarro de todos: o local escolhido para a apresentação de Damien, o Centrosul, um centro de convenções. Em sua passagem pela capital de Santa Catarina, Damien Rice não se apresentará em um teatro ou mesmo casa de shows, mas sim um local planejado para abrigar simpósios, fóruns, mostras e derivados – até feira de artesanato já vi ter esse lugar abrigado…isso pra não falar naquelas convenções médicas super divertidas. Parece óbvio pra qualquer pessoa até com meio cérebro – como diria o pai de Lindsey Lohan – que um centro de eventos e convenções não é o lugar mais adequado para servir como palco de um show musical, ainda mais de um artista tão intimista como o irlandês. A experiência passada de shows efetuados no pavilhão central do local, bem como o evento mais comumente realizado no seu pavimento superior, usado para formaturas, deixam claras sua inaptidão acústica e a sua falta de adequação para a expectação adequada de um evento musical, servindo como comprovação daquilo que alguém já pode ter idéia apenas olhando para o lugar, mas os fãs do cantor em uma de suas maiores comunidades do Orkut não parecem nem um pouco incomodados, sentindo-se enormemente felizes com a localização bem cômoda do Centrosul. Entendo, claro, a sempre enorme felicidade em receber um dos seus artistas favoritos, mas isso não é motivo para que eu aja como um fanboy idiota que não percebe, ou pior, ignora os possíveis problemas da organização e da realização de qualquer evento pura e simplesmente porque é um show de alguém que eu tanto goste. Mas tudo bem: eu admito que estou pedindo demais de gente que, só pra dar um exemplo, afirma que não poder beber e fumar à vontade em um show de música tem bem menos graça do que aproveitá-lo sem essas distrações e vícios. De fato, pedir sensatez de pessoas com preocupações relacionadas a elementos que não tem qualquer efeito sobre a qualidade da apresentação do artista é inútil.
Claro, espero sinceramente que eu esteja ao menos parcialmente errado. Porém, mesmo que problemas que prejudiquem um pouco o aproveitamento do show se apresentem, será pra lá de prazeroso encerrar minhas férias desfrutando ao menos um pouco da quase intangível beleza das composições de Damien Rice – não sou exatamente um fã inveterado do artista, mas é muito mais por o ter conhecido quando já estava cultivando o hábito de inflar sobremaneira meu repertório de artistas do que por não apreciar inteiramente seu trabalho. Mesmo que não esteja lá no topo das minhas prefências musicais, as canções de arranjos delicados e o cantar repleto de emoção do irlandês não tem como não atingir qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade artística. Agora, é aguardar algumas horas pra aproveitar as músicas do moço que até hoje guarda um jeito de cantor de rua.

P.S: Alanis Morissette também vais dar as caras por aqui no próximo fim de semana, mas essa já é uma opção quase totalmente descartada pra mim. A casa noturna escolhida para o show da canadense (uma tal de Pachá, que um dia já foi X Music Hall e mais tarde El Divino-qualquer-bosta) é totalmente fora de mão pra qualquer um que não seja o feliz dono de um automóvel e o preço do show, mesmo na pista, é um pouquinho salgado. Porém, é mesmo o fato de que nunca fui um ávido apreciador de sua obra que realmente conta para que eu não tenha assim tanta vontade de conferí-la ao vivo. De Alanis eu só gostei mesmo dos três primeiros álbuns e, de forma geral, eu de fato apenas gostei, não adorei – não é algo que tenha me arrebatado, pelo menos até hoje. Talvez a coisa mais chata em não estar presente neste show seja mesmo perder a oportunidade de jogar no palco um pôster de Ryan Reynolds com os dizeres “JUST TO REMEMBER WHAT YOU’VE LOST, HONEY!”. Mas, como o último disco de Alanis é, pra variar, inspirado em suas experiências afetivas, provavelmente isso seria desnecessário – porque, sinceramente, “Flavors of Entanglement” só não recebeu o nome de “Flavors of Ryan Reynolds” pra isso não ficar totalmente na cara.

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A Camp – Colonia. [download: mp3]

A Camp - ColoniaAproveitando o intervalo que sua banda The Cardigans tirou desde a última apresentação da turnê do fantástico disco Super Extra Gravity, Nina Persson voltou-se ao seu side-project, A Camp, que fez sua estréia em 2001 com um disco que injetou elegância ao country-rock. O novo álbum ainda conta com interferências do parceiro Niclas Frisk, de Mark Linkous, que produziu a primeira incursão do A Camp, e de músicos presentes na primeira incursão do grupo, como a americana Joan Wasser (da banda Joan As Police Woman), mas novas participações ganham papel integral, como Nathan Larson, marido de Nina e James Iha, ex-guitarrista do Smashing Pumpkins. Em Colonia, o novo disco, as referências ao country-rock somem quase que por completo, cedendo lugar à um pop que remete ao produzido no meio do século passado e que difere razoavelmente do que Nina já fez no início da carreira do The Cardigans, já que o produzido pelo A Camp é menos festivo e acelerado, preferindo fazer florescer melodias que sempre tem um “que” de tristeza e pisando no acelerador com muito maior parcimônia. É claro que esse caráter mais melancólico de Colonia fica mais óbvio em baladas de melodias tranquilas e sóbrias como “It’s Not Easy To Be Human”, que interrompe os poucos versos acompanhados de guitarra e sintetizações de tonalidades doces, calmas e tristes com uma epifania sonora de violinos e vocais de fundo sutis, e “The Weed Had Got There First”, cujo compasso letárgico e profundamente romântico é resultado da combinação das queixas de Nina ao microfone, do andamento lento da bateria, das cordas em ondulações levemente sensuais e da discreta participação da guitarra e de sintetizações, mas a atmosfera plangente está igualmente presente, ainda que de modo atuenado, nas canções mais sonoramente fartas. Isso se reflete na cadência arrastada da guitarra e da bateria e nos sopros e coro glamourosos que se alastram por todos os cantos da faixa “Stronger Than Jesus”, primeiro single do novo álbum, no ritmo imperioso que a bateria impõe no refrão da música suspendida por coros e pianos celestiais e pelas cordas graves que lançam-se em jatos precisos na melodia de “Love Has Left The Room” e até mesmo na aparente extroversão dos vocais e do compasso power-rock da bateria e do baixo e na pontuação deliciosamente dramática produzida pelas palmas e riffs de guitarra em “Here Are Many Wild Animals”.
Contudo, o que me chamou a atenção em A Camp foi a semelhança que me despertaram duas de suas faixas com outros representantes do mundo da música: enquanto “The Crowning”, desde os versos que pintam o cenário de uma irônica festa de homenagem até o ritmo do violão, piano, bateria, guitarra e harmonias dos sopros e cordas lembra, em cada detalhe, os momentos mais afetadamente teatrais de Rufus Wainwright – até mesmo o vocal de Nina remete ao cantar altivo e sarcástico do compositor americano -, algo disfarçado pela verve pop da espetacular “Chinatown”, provavelmente resultado da ambientação criada no trecho final da canção na combinação dos riffs resplandencetes da guitarra com o coro de múltiplas vozes que preenche o fundo da música com uma aura majestosa, me suscita…Pink Floyd. Não, eu não fiquei louco ou digitei errado – eu disse mesmo Pink Floyd. Por ter ouvido até gastar o cassete de The Division Bell em meu finado e nada saudoso Walkman em 1994, a ponto de não conseguir sequer olhar mais para esse disco, me acho no direito de estabelecer essa relação a primeira vista tão estapafúrdia – mas imagino que aqueles que conhecem bem este álbum conseguem, como eu, encontrar uma pontinha da sonoridade de algumas canções de The Division Bell em “Chinatown”.
Excetuando-se algumas faixas um pouco enjoativas, este novo disco do A Camp exala uma atmosfera ao mesmo tempo clássica e sofisticada, cujas melodias e letras persistem de maneira deliciosamente prazeirosa nos ouvidos como as notas aromáticas de um bom perfume o fazem no olfato de quem o percebe. Colonia é isso mesmo: uma nova fragrância de Nina que é resultado da sua alquimia sensível, que sempre consegue obter aromas requintados na união dos mais diversos ingredientes – sejam eles ervas, flores e frutos velhos conhecidos seus ou novas adições ao seu rico catálogo de botânica sonora.
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Mia Doi Todd – Manzanita. [download: mp3]

Mia Doi Todd - ManzanitaAmericana de Los Angeles, Mia Doi Todd tem entre seus dotes a graduação em estudos orientais e a pesquisa feita sobre a Butoh, dança contemporânea japonesa das mais idiossincráticas – conhecimento que a levou inclusive a criar e montar coreografias para um grupo de dança dos Estados Unidos. Mas seu dom natural é mesmo relativo à outro campo do mundo da arte, a música.
O encanto da música criada por Mia Doi Todd nasce da combinação homogênea entre voz e melodia: seu vocal macio, moderado no volume e no uso de vibratos, funde-se sem rebarbas com as melodias que exploram a sutileza da instrumentação acústica. Essa feição algo naturalista de sua música é obtida em sua forma mais ideal nas faixas mais sorumbáticas e melancólicas de seu álbum Manzanita, como se pode perceber na harmonia algo solitária entre o silêncio dos acordes de violão e o acalanto da voz de Mia na belíssima “I Gave You My Home”, música em cujas letras uma mulher, entre referências à afazeres domésticos cotidianos, lembra seu companheiro sobre todo o amor e dedicação que um ofereceu ao outro nesta relação. Mas essa ambientação obtida da combinação da tonalidade da voz da cantora com as melodias que compõe está presente em todo o disco, do início ao fim, passando tanto pelas canções que experimentam sabores latinos – associação despertada pelo que há de lúdico nas palmas, pelo virtuosismo do mandolim, e pela cadência letárgica da guitarra de “Tongue-Tied”, na qual Mia se utiliza de uma breve narrativa metafórica para confessar que procura um modo de conquistar o amor de seu amado, bem como pela coloração reggae de “Casa Nova”, que explora nas guitarras, no baixo e no arranjo de metais o gingado malemolente típico do gênero em uma canção onde uma mulher revela ter se livrado do feitiço de uma paixão que há muito lhe tolhia a liberdade de amar – quanto por aquelas que exercitam as potencialidades do rock – caso da faixa que abre o disco, “The Way”, onde as guitarras, na companhia do baixo e da bateria, dão o compasso da melodia tanto quanto preenchem e aprimoram sua base com reverberações e distorções sutis.
Servindo como uma espécie de “ensaio”, uma base sólida para que Mia mais tarde delineasse com maior clareza e apuro a atmosfera bucólica de seu mais recente disco, o álbum GEA, Manzanita é um exercício musical que mesmo no seus momentos mais agitados e profusos explora tecituras simples e convencionais onde os (poucos) excessos de ornamentação sempre trabalham a favor da harmonia, e não da falta dela.
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Poni Hoax – “Antibodies” (dir. Danakil/ dir. Maria Ziegelböck). [download: video + mp3]

Por culpa do infernal emprego e de outros afazeres aos quais decidi me dedicar este ano, abandonei quase completamente o hábito de assistir videoclipes e curtas-metragem para priorizar a continuidade das postagens de filmes e música – e, por consequência, o tópico “vídeos” no seteventos.org parou no tempo.
No entanto, férias é um período abençoado e exatamente um ano depois que postei o último texto sobre vídeo no blog estou tentando retomar e manter novamente o prazer de garimpar a internet em busca dessas produções. E a web não decepciona: em algumas horinhas já encontrei duas produções bacanérrimas – na verdade duas versões de videoclipe para a mesma música.
Antes de qualquer coisa, vamos à música em si. “Antibodies”, do quinteto francês Poni Hoax, é um desatino que bebe direto na fonte da disco dos anos 70, aproveitando o que havia de escandalosamente glamouroso na sonoridade da época sem medo de soar esgaçadamente retrô com suas sintetizações cintilantes, violinos e pratos pontuando de modo dramático a melodia, mas seus riffs matadores de guitarra e seu vocal lhe concedem uma verve pop-cinematográfica escancarada que a aproxima muito mais da música dançante do New Order e Depeche Mode dos anos 80 do que daquela composta pelo Bee Gees, por exemplo. E por falar no vocal, ele é o verdadeiro glacê desse bolo delicioso: a voz de Nicolas Ker tem o timbre da de Jim Morrison, mas é como se o vocalista do The Doors estivesse possuído por uma pomba-gira discotequeira diante do microfone. Mas não tema: é justamente esse cantar altivo e petulante que confere muita elegância à esta música absolutamente intoxicante – um diferencial enorme em meio à esse vai-e-vem da nostalgia pop que já virou rotina.
Poni Hoax - AntibodiesE para ilustrar essa música que utiliza como referência a sonoridade de uma época cuja estética foi e é tão explorada, foram feitos dois vídeos que tomam caminhos bem distintos. Para o fotógrafo e diretor francês que atende pelo pseudônimo Danakil, “Antibodies” serviu como inspiração para abordar uma narrativa abstrata, onde uma aeromoça nua em um quarto de hotel de aeroporto lida com o dilema de sua gravidez enquanto tateia languidamente um peixinho ornamental e brinca com as sensações provocadas por uma agulha. Enquanto isso, lá fora, uma bolha de sabão de enormes proporções vagueia sem rumo pelo aeroporto vazio. A despeito do peixinho sem fôlego, que é mesmo uma maldade, o vídeo é de uma imensa beleza plástica, tudo graças a linda modelo que empresta-se ao papel da aeromoça e a fotografia de Danakil, que confere muita classe ao filme.
Poni Hoax - AntibodiesJá para a também fotógrafa Maria Ziegelböck, austríaca radicada na França, as referências musicais contidas na melodia pulsaram mais forte: o vídeo por ela preparado é um compêndio de sequências com anônimos deixando seus corpos serem levados pelo ritmo saboroso da canção em uma pista iluminada por alguns spots de luz. Sem dúvidas que lembra a icônica sequência de “Flashdance”, mas isso não reduz as qualidades desta versão, muito bem filmada e editada.
Então é só conferir os vídeos, seja em streaming ou para download – e como eu achei a faixa divertidíssima, também a ofereço para download em mp3.

“Antibodies” – dir. Danakil: Youtube (assista) – download

“Antibodies” – dir. Maria Ziegelböck: LastFM (assista) – download

Poni Hoax – “Antibodies” (mp3)

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005