Projetos musicais que reúnem cantores e bandas em prol de caridade ou causas sociais acabam nunca interessando de fato porque os artistas ligados ao projeto não se dão ao trabalho de produzir algo que tenha realmente qualidade, se contentando com covers ou, quando muito, liberando algo que não passou pelo seu próprio crivo. Mas a coisa pode ser ainda pior quando aquilo que vai ser produzido reúne os artistas em parcerias desiguais e sob as amarras criativas do tema em questão – geralmente causas sócio-ambientais. Felizmente, mesmo que algumas coisas acabem não sendo exatamente um atrativo, esse não é o caso do projeto, “Love Cartier” com o qual acabei me deparando há poucos dias, uma iniciativa bem pensada da famosa joalheria francesa que, como já indica o nome, tematiza sobre o amor. Parte de um projeto que inclui a produção e venda de jóias cujos ganhos são revertidos para a caridade, a “perna” artística do projeto compreende o lançamento gratuito na internet de 12 canções compostas e interpretadas, em sua grande maioria, por artistas da nova seara de música independente. E, devo confessar que muitos deles eu sequer tinha ouvido falar na minha vida. É o caso do britânico Dan Black, que contribuiu para o projeto com “Liz And Jonny”, um pop/rock com uma programação e um riff no teclado compondo uma síncope bem desenhada, daquelas realmente pegajosas que fazem o ouvinte entoar a letra em falsetes semelhantes ao timbre do vocal de Black, tamborilar os dedos no ritmo da música e fazer um beat-box imitando a pegada da bateria sem se dar conta. Outro ilustre desconhecido para mim é Hawksley Worksman, que trouxe para a coletânea de músicas da Cartier a faixa “The Ground That We Stand On”, uma balada muito inspirada e emocionante, com fartura de vocais de apoio ampliando o lirismo da melodia, acompanhados de um arranjo feito de toques firmes porém doces tanto nas cordas do violão quanto na superfície da bateria e percussão, além de algumas sintetizações que agem como uma cola, unindo todos os elementos sonoros sem deixar qualquer fresta. Pauline Croze, por sua vez, não é exatamente uma desconhecida para mim, mas como nunca tinha me dado ao trabalho de conferir alguma composição sua, acaba dando no mesmo. “Sur l’écorce” é a faixa que compôs para a Cartier, uma canção onde os acordes das várias e diferentes camadas de guitarra soam tão metálicos, agudos e um tanto rústicos quanto o é o vocal da cantora francesa, o que resulta em uma canção que causa estranhamento à primeira audição, mas que ganha simpatia depois que lhe é dada mais atenção.
Claro, como eu acabei desenvolvendo a síndrome do indie desde que este blog sedimentou sua existência na blogosfera, alguns dos ilustres desconhecidos não o são de todo para mim. Sol Seppy, por exemplo, é uma das artistas do mundo indie que mais adoro e admiro desde que ouvi sua única obra até hoje, o disco The Bells of 1 2. Sua composição para esta coletânea, “I Am Snow” é o simulacro do seu estilo espetacularmente doce, taciturno e etereamente difuso, construída com toques delicados e doces em um piano distante, um violão silencioso e uma programação que evoca tanto o conforto melancólico da escuridão da noite quanto o contentamento radiante da claridade do dia, tudo acompanhado do vocal fabulosamente pacífico e terno desta artista que merece ser muito mais conhecida.
Mas entre os artistas de menor projeção podemos encontrar outros que já tem uma história bastante longa no mundo da música. Um deles é o compositor japonês Ryuichi Sakamoto, famoso pelas suas inúmeras contribuições na músicas pop, na música erudita e na composição de trilhas sonoras, sempre com incontáveis parcerias lhe fazendo companhia. Para o projeto Love Cartier, Sakamoto sentou-se no seu piano e trabalhou em uma de suas indefictíveis improvisações, produzindo uma peça de enorme placidez e serenidade acústicas. Sentindo necessidade de algo a mais, o compositor enviou a composição para um de seus muitos amigos e colaboradores, o compositor austríaco Christian Fennesz, que adicionou à peça suas conhecidas intervenções eletrônicas, compostas sobre guitarras trabalhadas, distorcidas e subvertidas em softwares de áudio – o resultado é “Mor”, uma composição delicada e sofisticada, transbordando ternura e melancolia.
Entre as doze composições escolhidas e ofertadas, sobrou espaço até para que alguém não tem exatamente uma carreira no mundo da música. A atriz francesa Marion Cotillard, apesar de ganhar fama com o Oscar que recebeu por um papel que tudo tem a ver com o mundo da música, na verdade, até hoje, só fez algumas poucas participações neste meio, assim como o faz aqui neste projeto, com a belíssima balada “The Strong Ones”, cuja melodia atinge em cheio os ouvidos com o vocal quente e macio da atriz e cantora sobre violão, bateria e guitarras de cadência lenta e melancólica – dá vontade de deitar no chão e dar vazão à toda sua sensibilidade acompanhando a cantora nas letras da canção, que falam sobre como mesmo aqueles que se julgam fortes se descobrem inequivocamente frágeis diante da força incomensurável do amor.
Mesmo que nem todas as músicas que integram o projeto possam agradar ao público, o projeto já tem grande utilidade ao dar à chance para que qualquer um tenha contato, de uma só vez, com artistas desconhecidos com um trabalho de qualidade, ao trazer novas composições de artistas que por ventura já conhecemos e adoramos e, de quebra, ao mostrar que nem todo projeto musical que advém de ideais de caridade pode ser chato, aborrecido e artisticamente pobre e cafona – esse, talvez por conta de sua idealizadora e patrocinadora, exibe uma elegância e charme gratificantes.
Baixe todas as faixas em um pacote único ou selecione aquelas que mais possam lhe interessar, utilizando o site oficial do projeto, o Love Cartier – e não deixe de comentar aqui no seteventos.org sobre suas próprias impressões com relação às canções.
Baixe:
Cartier – Love (Vários Artistas) [mp3]
Ouça: Cartier – Love (Vários Artistas)
O segundo disco da banda de Joan Wasser não encanta tão prontamente quanto o primeiro, principalmente porque algumas poucas canções, como “Magpies”, um pop-soul setentista com direito inclusive aos vocais de apoio e arranjo de metais que remetem ao estilo da época, ensaiam conquistar o gosto do ouvinte mas se perdem tanto em descaminhos melódicos tão inócuos e aborrecedores, quando não absolutamente irritantes, que acabam interferindo na apreciação adequada das demais faixas do disco. No entanto, superada a irritação que essas canções causam por algum tempo, as outras faixas revelam logo os seus enormes predicados, algumas de modo lento e crescente, liberando paulatinamente sua beleza à cada apreciação – é o que acontece com “To Be Loved”, faixa que envereda de modo mais sutil no mesmo pop-soul nostálgico de “Magpies”, mas que é mais feliz ao ser balanceada com um teclado de cores quentes e um piano de notas graves, ambos dedilhados de modo suave e apoiados por uma guitarra e bateria que aquecem discretamente a melodia tanto quanto o próprio vocal macio de Joan -, outras de modo mais imediato e impactante – como “Holiday”, que une acordes deliciosos no violão, no piano, e na bateria para compor uma melodia ao mesmo tempo ágil e graciosa, que cede bastante espaço para a voz encantadora da cantora americana. Sempre inspirada por referências musicais de décadas passadas, Joan é capaz de compor faixas que lembram desde a romântica melancolia da “new wave” do final dos anos 80 e início dos 90 – falo aqui da esplêndida “Start of My Heart”, cuja música é guiada por uma bateria e baixo de cadência lenta, salpicada por uma guitarra de acordes extensos e serenos e preenchida por uma sintetização que cria ondulações ao ser continuamente sobre e sobposta à instrumentação restante – até ao glamour do pop americano que sonorizou bares, discotecas e qualquer festa que se prezasse há cerca de 40 anos – claro que me refiro à faixa “Furious”, marcada por um compasso ligeiro de bateria e teclado, reforçado por piano de acordes dramáticos e prodigiosos e um coro de palmas que recheia o fundo da melodia, além dos vocais adicionais que adensam ainda mais o nostalgia sonora – tudo, porém, com um senso de naturalidade e graça que torna esse caldo saudosista algo de muito bom gosto. No final do disco ainda sobra ânimo para um dueto delicioso com Rufus Wainwright em “To America”, que é introduzida por um piano algo desolado e logo subvertida por um arranjo fabuloso que toma de assalto a música com saxofones, guitarras e sintetizações enormemente melódicas e verborrágicas, fechando de modo brilhante este disco que, a esta altura, faz esquecer qualquer possível menção de tropeço que inicialmente o marcasse.
Com o que fez no álbum Le Fil, seu segundo disco solo, Camille Dalmais chamou tanto a atenção de crítica e público do mundinho da música alternativa que, não é exagero afirmar, alavancou para si o posto de maior sensação da música francesa nos últimos anos. Por esse motivo, o seu álbum subsequente vinha sendo aguardado ansiosamente pelos fãs que não sabiam o que esperar da francesa depois do experimentalismo pop de Le Fil. Com o lançamento de Music Hole nesta segunda-feira a curiosidade foi saciada: no seu novo projeto, Camille dá continuidade à exploração da musicalidade desenvolvida no disco anterior, que esquadrinhou, com temperança, as possibilidades da voz humana como instrumento melódico. Na canção “Cats and Dogs”, Camille mostra isso de forma deliciosa, povoando a segunda metade da faixa, até então constituída apenas de um piano de acordes doces e uma “tuba vocal”, com um almanaque de vozes que mimetizam festivamente toda uma variedade de grunhidos, gritos e urros do mundo animal: pássaros, porcos, elefantes, macacos, cabras, sem esquecer, claro, dos personagens que são a tônica da música – cães e gatos. Mas, além de retomar a pesquisa musical produzida até Le Fil, a cantora e compositora francesa adiciona ao seu repertório experimental a percussão corporal, um novo elemento melódico que incrementa ainda mais a experimentação desenvolvida por ela em suas composições. A utilização deste novo elemento na construção das melodias pode ser conferida em toda sua glória na faixa “Canards Sauvages”: para emular um samba frenético, Camille contou com a ajuda de participantes do grupo brasileiro Barbatuques, que tamborilaram no próprio corpo para produzir a sonoridade percussiva acelerada que faz a base da melodia, composta ainda de ruídos de água nervosamente agitada e de múltiplas camadas da voz de Camille – capaz até de simular uma impagável cuíca vocal.
Depois de um longo hiato de dez anos, a mais emblemática banda de trip-hop, o Portishead, retoma a sua carreira lançando o seu terceiro disco de estúdio, apropriadamente entitulado Third. O disco, que vazou na web no início deste mês, tem sido avaliado pelos fãs como fruto de um Portishead bem mais experimental, cujas letras e melodias soam menos melancólicas e sofridas do que nos dois álbuns anteriormente lançados. Depois de ter cautelosamente apreciado o disco um número razoável de vezes, posso afirmar com toda a tranquilidade que esta não é a minha impressão de Third. Canções como “Plastic”, programada sobre um loop em que bateria e demais ruídos apresentam um crescendo breve e firme e finalizado por uma bateria esmurrada de modo esquizofrênico, e “Threads”, que sustenta, ao fundo, uma nota aguda de violinos do início ao fim, apresentando também uma bateria e baixo que alternam uma cadência exausta com outra que, no refrão, transforma a exaustão em vigorosa ira, ajudam a desfazer tal impressão, pois trazem as mesmas letras um tanto depressivas, a mesma morbidez obscura e o mesmo vocal amargurado que os fãs da banda já mapearam, nos seus mínimos detalhes, nos dois registros anteriores da banda. Mas há sim alguns elementos novos neste Portishead dez anos envelhecido.