Shara Worden formou o projeto My Brightest Diamond depois do sucesso com apresentações feitas em 2004. De formação clássica, nota-se nas sutilezas harmônicas e vocais de seu primeiro disco a influência erudita. Porém, apesar do que diz o texto de divulgação do selo que lançou este trabalho, o disco não dilui fronteiras entre gêneros, sendo facilmente identificável como um álbum de rock alternativo/indie. Não há confusão, por exemplo, ao escutar, Something of and End, a primeira faixa, cujos vocais profundos, guitarras, baixos e baterias de melodia grave e orquestração ocasional lembram muito a sonoridade do disco Souvenirs, do The Gathering. Nos versos da canção, aparentemente, Shara fala sobre a descoberta repentina de que alguém é portador de uma enfermidade fatal. No entanto, a partir da segunda faixa nos afastamos da semelhança com a banda holandesa: “Golden Star” desfaz a impressão com o trabalho conjunto de guitarra e baixo, que em dado momento saltam do fundo da melodia para apoiar o frenesi vocal de Shara, que improvisa uma fascinante inserção operística no refrão da música. Na letra, Shara revela as sensações sublimes da paixão. A faixa seguinte, “Gone Away”, com a lentidão cambaleante da guitarra, baixo, bateria e acordeão, retira o ouvinte do contentamento da faixa anterior e o arremessa imediatamente em uma atmosfera sorumbática e trôpega. Nesta estupenda canção, a compositora fala sobre o sofrimento de alguém que foi abandonado pelo seu companheiro, e que tenta manter a ilusão de que ele algum dia retornará, guardando consigo as coisas mais ordinárias que tem relação com ele.
Shara ganhou fama por suas performances marcantes em seus shows, onde a improvisação e experimentação recheiam todo o cardápio. A canção “Freak Out” nos dá a certeza deste fato, uma vez que ali a cantora concede vida à todos os seus desatinos líricos e melódicos. Ao falar nos versos sobre dar vazão aos instintos e desejos mais loucos e repentinos, Shara compôs uma melodia igualmente desconcertante, que contrapõe momentos mais silenciosos e compassados com outros mais ruidosos e destituídos de ordem – nada menos do que fabuloso.
Incrivelmente, é só lá pelo final do disco, com “The Good & The Bad Guy”, onde a compositora fala sobre uma mulher que tenta afastar a memória de seu grande amor ao retratá-lo como um vilão, e com “Workhorse”, onde Shara usa um cavalo que perde sua força de trabalho para falar sobre a descartabilidade da vida diante do interesse alheio, que o ouvinte consegue identificar com o que exatamente My Brightest Diamond guarda maior semelhança. O vocal empostado, a orquestração de evidente inspiração cinematográfica, inserida na melodia triste e lenta, e a programação eletrônica dark e minimalista não mentem: estes elementos revelam a aproximação deste trabalho de Shara com a atmosfera fenomenal do primeiro disco de Alison Goldfrapp, Felt Mountain. É esta mistura complexa de gêneros do rock/pop, e não a suposta e pretensa dissolução dos limites entre música popular e erudita que faz de Bring Me The Workhorse uma jóia do cenário alternativo e independente da música: a melancolia mórbida do Portishead, a classe e elegância densas da estréia de Goldfrapp e os toques mais joviais e assíncronos, que remontam ao melhor de PJ Harvey, formam a identidade extremamente moderna de Shara Worden.
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O glitter pop inglês ganhou um reforço com a estréia do britânico de origem libanesa Mika e do seu álbum Life In Cartoon Motion. O disco sofre dos excessos dessa vertente do pop/rock, mas a produção caprichada acerta mais nas canções que tem pretensões mais simples. Abre o disco o hit que lançou o cantor, “Grace Kelly”, de melodia com direito à piano, guitarra, bateria desmedidamente extravagantes, bastante condizentes com o uso nada econômico que Mika faz de falsettos escandalosos e de empostação “cool” no vocal. Na letra, Mika cita as personas de Grace Kelly e Fred Mercury como os exemplos de comportamento para lidar com um amor que sofre excessos de orgulho e vaidade. A faixa seguinte, “Lollipop”, mantém a atmosfera absolutamente festiva com uma música que utiliza um piano e metais bem marcados e programação eletrônica complementar, além de uma pletora de vocais de fundo, incluindo aí vocais infantis, que incrementam o tom lúdico da canção. Utilizando a insaciável vontade de comer doces na infância como analogia, vemos Mika falando nos versos desta faixa sobre como aprendeu desde cedo que os exageros podem fazer com que o amor deixe você “pra baixo”. Depois da festividade das faixas anteriores, temos uma sutil mudança em “Relax, Take It Easy” para um pop dançante mas suave, isso graças à programação eletrônica e aos vocais, ambos charmosíssimos, lembrando muito os grandes sucessos dos britânicos da dupla Erasure. A canção fala sobre tentar relevar as dificuldades da vida e do amor quando não temos uma solução em vista. Mais à frente temos a episódica “Billy Brown”, onde Mika conta a estória de um homem que tinha uma vida de casado muita tranquila, até apaixonar-se por outro homem, sofrendo atribulações daí em diante devido ao conflito existente entre o que queria viver agora e o que vivia até então. A melodia tem coloração mais triste, porém ainda animada com seu piano, bateria, arranjos de metais e vocais um tantinho mais comedidos. “Happy Ending”, que fala sobre um homem que tenta levar a vida à frente criando a ilusão de que seu grande amor não acabou, tem instrumentação e orquestrações tradicionais, mas é a canção mais bonita do disco, dentro do clima proposto desde o início, trazendo uma sequência final com uma produção excelente nos vocais de fundo. No entanto a maior surpresa do álbum e a melhor música é a faixa escondida depois de “Happy Ending”: fugindo de forma radical do estilo preponderantemente frugal-histérico, “Over My Shoulder”, em cujos versos um homem reflete sobre seu constante sofrimento, tem melodia triste, pesada e melancólica à base do vocal em falsetto de Mika e de acordes sôfregos e ponderados ao piano.
Damien Rice, o cantor e compositor irlandês, tem auxílio constante da mesma equipe de músicos desde a sua estréia, o que fez seu trabalho ser, não-oficialmente, resultado do empenho de uma banda, e não de um artista solo. A participação crucial e ininterrupta de Lisa Hannigan no vocal e da violoncelista Vyvienne Long dedilhando o violoncelo, por exemplo, corroboram esta caracteristica de Rice. Ainda assim, todo o esforço e comando criativo é dele, e é exatamente isto que nos impede de nomear este grupo como uma banda. Isso chega mesmo a ser palpável ao escutar suas canções: sente-se com facilidade que a unidade algo melancólica e irascível delas é resultado da personalidade arredia e meio porra-louca de Damien Rice. 9, seu segundo álbum, não fica atrás de O no paralelismo das sensações de vigor e tristeza. “Me, My Yoke And I”, é a música do disco que retrata com mais clareza esse aspecto: os vocais bradam continuamente versos abstratos, uma imagem pujante da revolta, melancolia e fúria afetiva, onde guitarras e bateria trabalham em uma melodia de digressões e distorções robustas de volume intenso. Semelhante em estrutura melódica também é “Rootless Tree”, que utiliza violão, violoncelo, baixo, bateria e guitarra, sendo que estes dois últimos avolumam-se ainda mais no refrão, assim como o vocal maciço de Rice. Na letra, o cantor exige que os erros antes cometidos sejam esquecidos por sua amada, e que ela permaneça junto à ele, mesmo que o fator que os una seja o ódio.
Guillemots, que tem como membro um guitarrista brasileiro, é uma das bandas estreantes de 2006. Seu primeiro disco, Through The Windowpane, exibe um frescor melódico e lírico destoantes até mesmo no meio musical alternativo. “Little Bear”, que fala sobre alguém que tenta despedir-se antes de uma longa ausência, já denuncia a qualidade do trabalho da banda como a faixa de abertura: depois de uma introdução de orquestração sofisticadíssima, com apurada coloração cinematógráfica, surge um piano de penosa suavidade, e o vocalista Fyfe Dangerfield inunda de emoção a faixa de abertura com um vocal que causa arrepios e lágrimas quando chega ao seu ápice. O que esperar depois de uma abertura tão arrasadora? Só os versos de “Made Up Love Song #43”, canção em que Fyfe mostra que tudo, mesmo uma latinha vazia de Coca-Cola, passa a exalar poesia quando estamos apaixonados, mostra que a banda é capaz de surpreender muito além da espetacular faixa de abertura. A melodia usa uma introdução feita com a inserção de sampler de orquestração de acordas e ruído de um despertador digital, e logo é seguida por umaa guitarra de acordes fosforecentes, bateria ligeira e vocais de fundo generosamente bem postos, até encontrar seu clamor máximo na ensandecida improvisação do vocal de Dangerfield, desacelerando de maneira genial até encerrar-se. E é justamente um caráter melódico que mais me chamou a atenção depois de finalizar a primeira audição completa do disco: o excelente uso de metais, tanto em melodias animadíssimas como a de “Trains to Brazil” – sobre um homem que ao invés de dormir, remói memórias sobre um amor do passado, desprezando o caos mundial em detrimimento de seu próprio caos – como em músicas mais sorumbáticas como a de “Redwings” – sobre o lento fim de um amor, que termina com a partida de um dos amantes. E a inventividade do grupo não encontra fronteiras, como podemos ver em “Blue Would Still Be Blue”, canção sobre os lamentos de alguém que declara que seria mais fácil enfrentar a vida com seu amor ao seu lado, e “A Samba In The Snowy Rain”, feita de poucos versos que convidam a abandonar o cotidiano e aventurar-se em algo desconhecido. A primeira seria uma faixa “a capella”, não fosse por uma delicada e sutilíssima programação eletrônica que se resume a curtos acordes no teclado, o que deixa espaço de sobre para Fyfe Dengerfield tripudiar em cima da emoção do ouvinte com seu vocal esplendoroso; a segunda é feita de uma melodia algo transcendental, acolchoando o fundo da música com vocais de fundo distantes enquanto, no primeiro plano, vemos uma série de improvisações no teclado e bateria. Há muito coisa boa até chegar no final do álbum, mas é lá, assim como no seu início, que eu fiquei estupefacto – pra usar um termo bem esdrúxulo mesmo. “Sao Paulo”, que relembra amores perdidos nos passado e termina em um clamor poético enlouquecido, é um arroubo sinfônica de onze minutos, repleto de orquestrações épicas e silêncios melancólicos. A melodia divide-se em dois momentos distintos: no primeiro temos uma música mais triste, pesairosa e nostálgica, com alguns instantes mais dramáticos; no segundo temos uma euforia visivelmente improvisada, guiada pelo piano esfuziante, pela instrumentação estremecedora, e pelos vocais extravasados de Fyfe.
A sueca Jenny Wilson cantou, compôs as músicas, tocou todos os intrumentos e também produziu o seu disco de estréia, Love and Youth. Jesus, mais indie e alternativa do que isso só uma banda da Sibéria que toque berimbaus. Porém, não se assustem: ela fez tudo isso porque sabia que tinha cacife para tanto. Love and Youth é um disco de canções pop/folk que não te surpreendem de imediato, mas que vai construindo o seu espaço devagar no ouvinte. Duas faixas do disco, “Let My Shoes Lead Me Forward” e “Bitter? No, I Just Love To Complain”, se destacam por dividirem a mesma tônica nas letras e melodias: liricamente, ambas as canções falam sobre a resistência e a recusa em seguir regras e princípios – a primeira o faz ao recusar o que aprendemos em convívio durante nossa vida, a segunda concentra-se em recusar de modo sarcátisco e irônico os padrões estabelecidos pela indústria da música -; com relação a música, as duas apresentam uma ambiência pop mais animada, baseada em programação eletrônica variada dos teclados, e um vocal em falsetto durante toda a faixa. Mas a unidade da maior parte das músicas no disco é indicada pelo título do álbum, que não é puro acidente: o tema dominante são as desventuras juvenis, bem como o amor, sempre sob o ponto de vista sarcástico da compositora. Aí se encaixam o pop-rock baseado em guitarra e bateria ligeiras de Love and Youth, que em suas letras descreve com enorme apuro o universo escolar e seus personagens sempre marcadamente caricaturais, o folk-rock de violão e guitarra macios de “Common Around Here”, que narra os rituais de comportamento que fazem os jovens serem aceitos em grupos distintos, e a balada de programação eletrônica e guitarra tristes de “Those Winters”, que trata de um jovem que, aparentemente, é surrado pelas crianças da vizinhança. Contudo, Jenny não ocupa-se tão somente do mundo das amarguras juvenis – há bem mais do que isso em Love and Youth. Em “Would I Play With My Band”, balada de linda suavidade, baseada em programação de tecitura delicadíssima no teclado e em acordes rápidos e sutis de guitarra e violão, uma mulher pergunta-se sobre os caminhos que teria percorrido caso seu grande amor não tivesse morrido. Por outro lado, “Love Ain’t Just a Four Letter Word”, que tem melodia baseada em piano, guitarra, teclado e bateria de acordes e toques graves, breves, mínimos, fala de maneira irônica sobre os efeitos que o amor tem na personalidade de um apaixonado.
Não costumo me interessar por projetos que tem por base reinterpretação de canções ou de clássicos, ainda mais se eles são guiados por DJs ou derivados. Porém, ao saber há alguns meses que a francesa Camille Dalmais tinha participado do primeiro álbum de um famoso e elogiado projeto dentro do gênero, tratei de obter logo o disco. O grupo em questão é o Nouvelle Vague, organizado por dois produtores franceses, que faz novas versões de músicas, preferencialmente as lançadas nos anos 80 por bandas pertencentes aos movimentos do new wave e punk, particularmente. Interpretadas por um verdadeiro elenco de cantoras, as canções ganham arranjos inspirados na bossa nova brasileira, ganhando ainda tonalidades góticas electro-pop. A canção “Just Can’t Get Enough”, do Depeche Mode, por exemplo, perdeu seu caráter technopop e foi transformada num samba-bossa delicioso, cheio de manha e charme. Irresistíveis arranjos dentro do estilo são mesmo a tônica do álbum, como em “This is Not a Love Song”, do Public Image Limited (dissidente do Sex Pistols), e na doce melancolia de “In a Manner of Speaking”, do Tuxedomoon, cantada com perfeição pela excelente Camille Dalmais. O samba-bossa ganha cores mais delicadas e introspectivas, quase sonoramente utópicas, nas canções “Making Plans for Nigel”, do XTC, e de “I Melt With You” (em interpretação irretocável da cantora francesa Silja), do Modern English. Contudo, há espaço para variações melódicas ainda maiores, fusões do ritmo brasileiro com a suavidade do pop, como em “Friday Night Saturday Morning” do The Specials, com o folk-rock como pode ser visto em “Wishing (If I Had a Photograph of You)”, do Flock of Seagulls e com algo que lembra o punk-rock, como em “Guns of Brixton” (em mais uma participação brilhante da francesa Camille), do The Clash e “Too Drunk to Fuck”, do Dead Kennedy’s.