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Categoria: musica

críticas e comentários sobre álbuns musicais, singles e similares com download disponível

Justine Electra – Soft Rock. [download: mp3]

Justine Electra - Soft RockA australiana de nascença e alemã de criação Justine Electra foi uma das estréias européias das mais elogiadas em 2006. Ainda assim, ela permanece quase uma completa desconhecida, mesmo na internet e nos circuitos mais indies, onde o último grito alternativo nunca passa despercebido. Estranho, já que ela é uma compositora inventiva e sofisticada, como podemos perceber pelos variados estilos das melodias presentes em Soft Rock: enquanto “Fancy Robots”, em que a cantora clama pela vinda de robôs imaginários, é uma balada pop/rock com vocal adocicado, violão de coloração folk a programação eletrônica – que preenche todos os espaços restantes da canção – que deixam um gosto de anos 90 no ouvido, “Blues & Reds”, onde a cantora reclama de um papagaio de pirata que vive à sua sombra, tem nos seus ruídos e estalos low-fi, samplers de gaitas e violões abafados algo de blues e de country e “Calimba Song”, por outro lado, radicaliza ao utilizar unicamente o instrumento que lhe dá nome para a melodia de uma canção que fala sobre as amarguras da paixão. Mas os ímpetos mais experimentais, que não se resumem à “Calimba Song”, conseguem deixar espaço o bastante para outros em que a audácia foi um pouco mais balanceada.Em “Killalady”, com guitarra de acordes minimalistas e espaçados, saxofone de notas graves e vocais que constrastam o sensual e apaixonado ao fundo com o suave e resignado no primeiro plano – e recorda o momento em que surge a paixão mas não deixa de citar coisas que irritam as garotas – e “Autumn Leaves” que alterna delicadamente, com a ajuda de texturas hipnóticas no violão e na programação eletrônica, um verso quase mântrico com um vocal melancólico onde momentos doces do passado, intensamente marcados pela alternância sazonal, ganham vida, Justine Electra consegue desenha melodias que unem a ânsia avant-garde com a linearidade harmônica menos intrincada.
A hibridez evidente de Soft Rock deixa claro tanto o desejo quase declarado da artista de ser enfileirada entre os últimos e mais genuínos representantes do que há de mais cult, quanto o potencial comercial que poderia ser mais explorado para a divulgação de Electra. Porém, não hã porque se iludir: as chances de Justine ganhar no mundinho mais antenado e sequioso pela experimentação a popularidade de uma artista como Björk são ínfimas. O mais provável é que ela atinja a mesma divulgação de artistas mais alinhados ao seu estilo, como a namoridinha do indie, a adorável americana Cat Power.
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Juliette and The Licks – Four on the Floor. [download: mp3]

Four on The Floor - Juliette And The LicksA banda formada pela também atriz Juliette Lewis exala aroma rock tanto em sua atitude quanto na musicalidade – o que, já há algum tempo, não é necessariamente algo coincidente. Juliette encarna nos vocais e na performance toda a ousadia e audácia de uma legítima representante do movimento – algo que o público já poderia vislumbrar mesmo em suas performances como atriz. As composições de Lewis para sua banda também respondem perfeitamente ao gênero, sempre velozes e furiosas. “Smash and Grab” já abre o disco em velocidade acelerada, com bateria, guitarra, baixo e vocais tão adrenalínicos quando a busca desenfreada e inconsequente por amor e emoção que os versos retratam. A faixa seguinte, “Host Kiss” traz uma parede de guitarras sobre bateria cadenciada e vocal sexy e rascante para sonorizar a letra que mostra uma mulher cuja volúpia e sede sexual excedem as de seu companheiro. “Killer” dispara com rapidez ainda maior seus acordes de guitarra e golpes de bateria, tornando a letra, que compara a voracidade de um homem por mulheres à de um assassino por vítimas, ainda mais frenética, alucinada e irônica. “Bullshit King”, que fala sobre as armadilhas de um homem cheio de charme mas que não vale nada, também investe na rapidez da bateria e das guitarras, mas o delicioso riff utilizado fora do refrão da música dá uma maior elasticidade as guitarras na melodia. Diferentemente de grande parte do disco, “Get Up”, uma ode ao rock e à luta pelo que tanto queremos na vida, tem melodia menos ácida e mais sinuosa, com guitarras de acordes malemolentes e espaçados e bateria gingada que lembram o blues rock do Rolling Stones.
Neste segundo disco, Juliette e sua banda dão uma amostra do quanto merecem ser citados como representantes dignos do rock, sem qualquer perigo de estarmos ratificando algo que é fruto puramente de um produtor esperto e de uma artista com intenções puramente lucrativas: ela compôs, em parceria com membros da banda, todas as canções do álbum, fez a produção executiva e ainda foi co-responsável pelo arranjo e mixagem de uma das faixas do disco. Se alguém aí ainda nutre algum tipo de dúvida sobre a autenticidade do trabalho da banda, experimente baixar o disco – mas prepare a salinha pra sacudir muito o esqueleto.
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Toni Collette & The Finish – Beautiful Awkward Pictures. [download: mp3]

Toni Collette And The Finish - Beautiful Awkward PicturesA australiana Toni Collette tem tamanho carisma que, no início da carreira, mesmo em um filme que não tinha nada além de bonitinho – estou falando de “O Casamento de Muriel” -, chamou a atenção de público e crítica e ganhou impulso definitivo para ir muito além de sua terra mãe. E, a bem da verdade, tem sido sempre assim: mesmo em filmes pequenos ou algo rasos, Toni chama atenção com sua excelente performance. Apesar de ter dublado (ao lado de Rachel Grifftis) o clássico “Waterloo” do ABBA em “O Casamento de Muriel”, Toni tem, verdadeiramente, talento como cantora e compositora, e o álbum lançado no ano passado por ela e a banda que formou – Toni Collette & The Finish – está aí para servir de prova. Beautiful Awkward Pictures, segundo informação do próprio site oficial, é produto de composições aperfeiçoadas ao longo de dez anos, resultando em disco de sonoridade bastante concisa. Na faixa de abertura, “This Moment Is Golden”, em que Toni lista as sensações que se manifestaram ao encontrar sua grande paixão, o contínuo cadenciamento marcial da bateria, além do espaço que piano, guitarra e baixo vão ganhando de forma progressiva, mostra o quanto esse longo tempo de maturação das composições valeu a pena. Mas além de aperfeiçoar as composições complementares do disco, esse tempo também garantiu singles poderosos, como “Look Up”, onde letra e melodia entram em consonância perfeita: sonorizando os versos, onde Toni apresenta toda uma série de cataclismas resultantes de seu amor em conflito, foi composta uma melodia condizente com o tema, onde o vocal, o piano, a bateria, a guitarra e o baixo armam um crescendo intensamente lírico. O que já é o contrário da melodia feita para emoldurar os versos que refletem sobre uma profusão de desejos desencontrados em “Tender Hooks”: a harmonia mantém suas tonalidades praticamente inalteradas durante toda a canção, sem praticamente nenhuma presença de bateria – apenas violão, guitarras, baixo e vocal. Já para a ambientação dos versos que comentam a sedução irresistível dos cowboys na fabulosa “Cowboy Games”, a música tecida faz uma fusão destas duas características: a melodia base, ao cargo do piano, bateria e violão, é feita de uma mesma sequência harmônica continuamente repetida que, na metade final, vai sendo incorporada à uma harmonia insurgente, caracterizada principalmente pela intensificação da instrumentação, pela presença de uma orquestração de metais e por um vocal mais emotivo.
É evidente que os fãs de Toni vão prontamente se deliciar com o primeiro disco de Toni Collette & The Finish, mas mesmo quem não conhece ou não tem qualquer carinho especial pela australiana saberá reconhecer, ao ter contato com esse apanhado de canções tão cautelosamente arranjadas e afinadas, que estas músicas são fruto de uma artista cuja habilidade e sensibilidade musical, não é difícil reconhecer, são bastante apuradas. A única dúvida que Toni Collette deixa é se a sua ocupação no mundo do cinema vai mesmo tornar sua faceta musical um evento que se manifestará novamente só ao cabo de um bom número de anos – se ela voltar a se manifestar. E eu, como fã assumido, torço para que ela mantenha-se atuante tanto em um campo quanto no outro – pra mim, Toni Collette nunca é demais.

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Tori Amos – American Doll Posse (+ 3 faixas bônus). [download: mp3]

tori amos - american doll posse (2007)

Tori Amos nunca se deixou abater por qualquer tipo de crítica, seja por parte da imprensa ou de fãs. Com o lançamento do seu novo álbum, American Doll Posse, felizmente, podemos ver que isso não mudou: apesar de The Beekeeper ter decepcionado parte do fãs pela sonoridade macia e “frugal”, Tori Amos não abandonou a herança deixada por esse trabalho e manteve muito dos traços mais característicos em seu novo trabalho, apurando ainda mais a sonoridade que desenvolveu em 2005 ao adicionar uma maior pulsação pop/rock. A guitarra e vocal aveludados e o teclado, piano e vocais lúdicos da irresistível “Mr. Bad Man” (em que Tori/Isabel coloca a música como arma contra o belicismo contemporâneo), a delicadeza do piano e guitarra, além dos múltiplos e constantes vocais de fundo de “Almost Rosey” (em que a mesma Tori/Isabel fala sobre quando perdemos o nosso lado mais aguerrido), bem como a bateria e piano de cadência quase sincronizada da suave “Beauty of Speed” (que chama atenção para a beleza dentro do processo de mudança que todos acabamos vivendo algum dia) tem esse caráter muito visível, mesmo na primeira audição. Só que as referências mais visíveis aos trabalhos anteriores de Tori não ficam apenas no que ela fez mais recentemente: o hino anti-guerra “Dark Side of The Sun”, com uma melodia impecável, que ganha guitarras mais intensas a medida que avança para sua conclusão, tem o mesmo charme de “Spring Haze”. Os sabores de To Venus And Back podem também ser degustados na bateria e guitarra de riffs tristes, e nos acordes lentos e lamuriantes do piano da fabulosa balada “Digital Ghost”, que fala sobre o temor da perda – até a temática dos versos relembra a clássica “1,000 Oceans”.
Contudo, na maior parte do álbum, tanto as melodias quanto as letras não refletem exatamente os traços de algum disco específico de Tori Amos: boa parte das canções mescla, a um só tempo, características de vários dos seus trabalhos anteriores. Nisso se assemelham a balada “Girl Disappearing” (de versos extremamente confusos e abstratos), com o elaborado destaque que a orquestração de cordas tem na melodia, guiada pelo piano e vocal melancólicos, a densa “Smokey Joe” (sobre o medo de enfrentarmos algo que, sabemos, não está nos fazendo bem), com sua percussão e guitarra algo nebulosas, além dos vocais de Tori/Pip e do piano cheio de sofrimento, e a ardilosa “Code Red” (sobre alguém que se prepara para uma nova vida, mas ainda sente atração pelo que pretende deixar para trás), com seus riffs certeiros da guitarra, a bateria cadenciada e o piano de acordes cíclicos, e cuja única fraqueza é a maneira equivocada com que Tori entoa o refrão, que pedia algo bem mais estridente.
Porém, em um álbum com 23 faixas (25 se contarmos as faixas bônus) há espaço não apenas para recorrer ao passado, mas também para avançar um pouco para o futuro: e o futuro, para Tori, são as guitarras – uma overdose delas. “Teenage Hustling”, em que Tori/Pip dá um chega pra lá em uma desavisada que se engraçava com o que não lhe pertencia, é a mais simbólica canção desta nova fase da música de Tori Amos: acompanhado por uma bateria espancada e um vocal portentoso e altivo, no melhor estilo glam-rock, o piano, que se ouve claramente apenas na introdução, cede lugar à uma verdadeira profusão de guitarras carnais e furiosas. No entanto, nas outras faixas em que Tori põe o misterioso Mac Aladdin para trabalhar, o instrumentos dividem o espaço de maneira mais igualitária. A melhor entre estas é mesmo aquela em que Tori/Santa-Pìp prega a comunhão de corpo e alma pela luxúria, “Body and Soul”, onde a guitarra encontra seu lugar certeiro, misturando-se de forma homogênea a presença do piano grave e minimalista e ao ritmo rock explosivo no refrão da faixa, imposto pela bateria e baixo delirantemente enérgicos.
Tori só preferiu arriscar com instrumentos um tanto mais incomuns na sua musicografia nos pequenos interlúdios que compôs para pontuar diversos momentos do disco. Afora o interlúdio que critica abertamente o presidente Bush “Yo George”, todos os outros caracterizam-se por sua melodia diferenciada: “Fat Slut”, em que Tori/Pip brada contra a falsa moralidade, compõe-se apenas do vocal endiabrado, furioso e sarcástico da cantora sobre um fundo de guitarras distorcidas e contínuas, “Devils and Gods”, de tonalidades políticas, ganha aroma folk pelo uso de Ukelele e bandolim; “Programmable Soda”, na qual Tori/Santa compara sua flexibilidade à de um refrigerante, obtém um irresistível caráter lúdico com sua orquestração de metais e cordas e o piano solto; “Velvet Revolution”, em que Tori/Pip não deixa de lado sua elegância nem para ser profética, tem sangue verdadeiramente cossaco devido as tonalidades do piano e do bandolim.
E quando todo mundo pensa que já acabou, depois de atravessar um mar de guitarras e interlúdios, surge “My Posse Can Do” (faixa extra no DVD bônus da edição limitada), em que Tori/Santa fala do poderio das personagens de American Doll Posse. A música é de chorar alegremente de tão boa: com uma melodia ao piano, guitarra, bateria e baixo que tem um pé na agitação efusiva dos musicais e cabarés, não há como segurar a vontade de cantar e dançar entusiasmadamente ao seu ritmo.
De uma artista inquieta, arredia e politizada como Tori Amos não poderíamos esperar outra coisa se não este disco que temos agora, saindo do forno: ao mesmo tempo que é um compêndio de todas experiências da artista até hoje, também é o pontapé inicial para novas experiências na carreira da artista – pontapé este dado através das confissões e receios da paixão e da fúria de Santa, Clyde, Isabel, Tori e Pip, as “dolls” do projeto, diferentes personagens que representam facetas da personalidade de Tori Amos e das mulheres. Se as guitarras, a grande novidade do disco, parecem um tanto egocêntricas para alguns fãs em certos pontos do disco, para outros a sonoridade do disco anterior, que não tinha os agradado, foi melhor lapidada, até formar melodias mais coesas e equilibradas. Isso pode servir de consolo para os que cansaram da preponderância glamour rock – entre os quais não me incluo – de American Doll Posse: no seu próximo lançamento, essa estupenda e inigualável artista americana deve encontrar o equilíbrio e, mais uma vez, agradar os eternamente insatisfeitos – como ocorreu agora com as influências de The Beekeeper neste novo disco.

Baixe:
Tori Amos – American Doll Posse [mp3]

Ouça:

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Tori Amos – American Doll Posse (Limited & Digital Edition Tracks) [mp3]

Ouça: Tori Amos – American Doll Posse (Limited & Digital Edition Tracks)

24. “My Posse Can Do”

25. “Miracle”

26. “Drive All Night”

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Björk – Volta (+ 3 faixas alternativas) [download: mp3]

bjork - volta (2007)

Se as críticas a frugalidade de The Beekeeper, de Tori Amos, me soam bastante exageradas, eu não me atreveria a tentar amaciar qualquer uma que surgisse sobre Medúlla e Drawing Restraint 9, já que neles Björk passou um tanto além da conta, tornando-os, na maior parte do tempo, de dificílima digestão. Quando decidiu preparar um novo disco, a islandesa, sentindo-se um tanto cansada de tornar sua música cada vez mais idiossincrática, resolveu investir em algo que não pusesse a experimentação acima da beleza melódica e lírica. Assim nasceu Volta, que como o American Doll Posse de Tori Amos, também funciona, coincidentemente, como um verdadeiro cruzamento de todas as experiências que Björk agregou ao longo de sua carreira. Apesar de “Pneumonia”, que clama a superação das tristezas na vida, ser uma das faixas do disco que sofre influência quase somente dos dois mais recentes disco de Björk – já que ela adota o mesmo exotismo sonoro dos últimos trabalhos, sendo composta apenas de vocal e orquestração de metais lentos e consternados – em outras a introspeção é suplantada por uma sonoridade que conhecemos mais do início da carreira solo da artista. Não é difícil sentir isso em “Vertabrae by Vertabrae”, que recupera as experiências de Selmasongs e Drawing Restraint 9, mas desfaz-se das agudezas resultantes da contaminação pelo trabalho de Matthew Barney e retorna à vivacidade dos primeiros anos: apesar da orquestração de metais, da percussão e dos versos abstratos citarem muito das duas trilhas sonoras feitas por Björk, a base eletrônica levemente suja e os vocais remetem ao calor de discos como Homogenic e Post. Já que falei de Homogenic, “Declare Independence”, um brado eletrizante contra a dominação, não deixa de ser uma “Pluto-punk”: ela conta com costura melódica feita por samplers de guitarras dissonantes – o que lhe confere uma tessitura punk-rock ruidosa -, além de percussão e bateria eletrônica sincopadíssima e uma introdução composta de sirenes de navio. Por sinal, depois que se escuta todo o disco, percebe-se que o ruído de navios é um recurso recorrente em Volta, já que a faixa inicial, “Earth Intruders”, há quase um minuto e meio de ruídos ambientais indistintos de um porto – marulho e, novamente, sirenes de navio sendo os mais perceptíveis – na sequência final. A música, que fala sobre uma invasão e ataque de seres alienígenas, tem a energia fulgurante de Debut e Post, com sua mistura de eletrônico e percussivo lembrando “Army of Me”, mas difere-se desta justamente porque grande parte de seus samplers e loops tem muito de acústico. A agitação prossegue de forma semelhante em “Wanderlust” (sobre a compulsão de abandonar-se em viagens oceânicas), que possui forte base de samplers e loops e nova experimentação com ruídos que fecham a música com uma transposição das sensações presentes nas letras para os sons – a diferença é que aqui Björk investe também em uma histérica orquestração de metais para a melodia. “Innocence”, que fala do quanto podemos controlar e conviver com a inocência e o medo, tem base construída sobre uma eletrônica prolixa, com um pulso constante de samplers e loops de piano e ruídos indistintos, incluindo aí um sampler vocal – a única sombra de Medúlla nesta faixa.
Depois de alguns anos aumentando gradualmente o nível de experimentação de sua música, não seria muito difícil prever que, em dado momento, a cantora e compositora voltasse sua atenção para algo menos diletante, na tentativa de relaxar novamente seu processo criativo. Faz todo sentido que isso tenha acontecido agora, uma vez que, durante essa longa fase experimental, possivelmente, Björk esgotou o uso de toda e qualquer excentricidade existente – pelo menos por algum tempo. Isso torna este projeto o mais comercialmente ambicioso da artista – o que, por sinal, foi assumido pela própria gravadora em sua campanha de promoção do disco.

Baixe: Björk – Volta [mp3]

Ouça:

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Björk – “Earth Intruders” [Mark Stent Extended Mix] (Single) [mp3]

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Baixe:
Björk – “Innocence” [Mark Stent Radio Edit] (Single) [mp3]

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Björk – “I See Who You Are” (Mark Bell Mix) [mp3]

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Björk – “I See Who You Are” (Mark Bell Mix)

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Rufus Wainwright – Release The Stars (+ 3 faixas bônus) [download: mp3]

E depois dos dois volumes do projeto Want, discos densos tanto em caráter melódico quanto temático, Rufus Wainwright volta a baila com Release The Stars. Mas, ao contrário dos lançamentos simultâneos de Tori Amos e Björk, o disco do artista americano mostra-se um tanto apagado na primeira escuta do disco, já que nesta situação a única faixa que salta estrondosamente aos ouvidos acaba sendo mesmo o single “Going To A Town”, onde Rufus declara estar cansado da América que temos hoje, por tudo o que ela faz e representa, e declara estar disposto a ir para outro lugar que já foi “queimado” e “arruinado”. Bem, como uma canção poderia não agarrar o ouvinte logo em sua primeira experiência se ela divide tão bem seus elementos melódicos, já que o vocal é pleno de emoção, os acordes do piano, da guitarra e do baixo e o toque da bateria transmitem imensa melancolia, e os vocais de fundo e a orquestração, que permeia tudo e constrói o clímax no fim da canção, estão repletos de um triste protesto sonoro?
Eu pensei desistir do disco e temi, verdadeiramente, que eu me apaixonasse apenas por esta faixa, que é responsável por esta fase inicial de lançamento do disco. Mas eu resolvi insistir. Apenas mais uma audição foi necessária para que outras duas faixas caíssem com sinceridade no minha preferência. A primeira, “I’m No Ready To Love”, em que Rufus revela para sua paixão que sente-se inapto para amar adequadamente, é uma balada de beleza e sensibilidade tão penetrante quanto é “Want” – a música – e recorre, do mesmo modo, à simplicidade e ao silêncio para tanto. O piano, bateria, guitarra e baixo constroem um fundo suave e vagaroso para que a voz de Rufus soe plena de franqueza romântica, dando espaço ainda para que os vocais de fundo e a orquestração sutis complementem irretocavelmente a melodia – e novamente a instrumentação de cordas volta a apelar para a emoção, na sequência harmônica que fecha a canção de maneira esplêndida. A outra, “Slideshow”, em que o cantor reclama mais atenção de seu amado e questiona a veracidade de seus próprios sentimentos, apenas para confirma-los solicitamente no fim, é feita de uma sequência intercalada de momentos mais tranquilos, onde tanto o vocal quanto a bateria, a guitarra e os violões soam graciosamente delicados, e outros mais orquestralmente efusivos, onde os metais surgem em rompantes epopéicos.
Com mais algumas audições insistentes outras faixas revelaram sua beleza escondida. À primeira vista, “Nobody’s Off The Hook” não surpreende. Mas, tão logo compreenda-se seus versos, nos quais Rufus lembra, para um homem que sustenta uma vida de aparências, que cedo ou tarde tudo desaba, e atente-se à sua melodia cheia de mágoa, onde a voz do cantor ganha a companhia do seu piano e de uma elaboradíssima orquestração de cordas, e a avaliação desta faixa sobe muito no conceito de qualquer pessoa. “Sanssouci”, que passou despercebida nas primeiras vezes, agora mostra o apuro de suas letras – onde Rufus imagina-se no palácio alemão que dá nome a música, a espera de um amor que transmute a entediação que sente – e de sua melodia pop – extremamente cuidadosa, com vocais serenos, uma instrumentação tranqüila de violão, bateria e piano ocasional e arranjo orquestral no qual flautas e harpas sutilmente demonstram as delícias de suas sonoridades. E “Between My Legs”, que parecia um tanto plana, logo demonstra a mordacidade de seus versos – já que o cantor jura nutrir só descaso por um amor do passado, mas não nega que a porta esteja aberta para qualquer tipo de necessidade repentina – e de sua sonoridade pop-rock, que sustenta o vocal, as guitarras, a bateria e o baixo quase no mesmo tom vibrante só para que a melodia seja suplantada por uma harmonia emocional tremenda na sua metade final.
E, no final, tudo acaba fazendo mais sentido. Apesar de correr um certo risco de soar datado e limitado, por não exibir mudanças que sejam realmente notáveis no seu estilo melódico e lírico, por outro lado Rufus Wainwright ganha muito por mostrar-se um artista com um trabalho de composição realmente coeso, onde mudanças só são feitas em doses homeopáticas, lentas, gradativas e sutis – quase desapercebidas, eu diria. De fato, seu trabalho mais recente difere dos lançados por Tori Amos e Björk: enquanto as duas primeiras fazem um apanhado do que construíram em sua carreira, ao mesmo tempo que experimentam novos caminhos e adicionam novas experiências, Rufus Wainwright aprimora o seu estilo desde o primeiro disco, sem nunca exibir uma mudança radical de um trabalho para o outro, já que toda a herança anterior é preservada, e não apenas a mais recente. Isso sustenta o que aparenta ser uma contínua linearidade mas que é, na verdade, a forma cuidadosa, suave e gradual com que o artista experimenta novos caminhos. O que ele ganha com isso? Bem, enquanto os outros dois discos podem tornar-se um, em certos momentos, um pouco cansativos a médio prazo, o do cantor e compositor canadense tem efeito exatamente oposto: Release The Stars, que parecia a primeira vista um tanto repetitivo e plano, cresce e ganha importância cada vez maior a longo prazo – e não há mais como ficar sem ter contato com sua sonoridade que revela sua beleza tão devagar.
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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005