Pra quem ficou dez anos afastado do estúdio, a animação dos membros da banda Portishead em lançar um novo disco para não deixar o seu último lançamento tão solitário é um tanto surpreendente. Segundo declarações de Goeff Barrow, o sucessor de Third pode chegar aos ouvidos do público ainda no decorrer do próximo ano. Mas os fãs mais inquietos em obter material inédito da banda podem matar a vontade até lá degustando o aperitivo liberado pela banda esta semana, a faixa “Chase The Tear”, possível candidata a integrar o tracklist do futuro novo disco.
Lançada como single digital com toda a renda da venda revertida em doação para a organização Anistia Internacional, a canção percorre os mesmos caminhos traçados em Third: sobre uma base em loop que sutilmente sofre graduais e cíclicas mudanças de tonalidade, sem nunca alterar o hipnótico pulso de ritmo rigoroso, os membros da banda lançam intervenções ocasionais de guitarra e sintetizações enquanto Beth Gibbons libera os versos da música com o vocal mais emblemático do trip-hop mundial. Curiosamente, foi só ao escutar esta nova canção que me dei conta do quanto essa recente predileção do Portishead por bases de cadência mais curta, cíclica e repetitiva, inaugurada em Third, guarda alguma semelhança com composições mais minimalistas e um tanto preguiçosas do Radiohead – basta lembrar de “Idioteque”, por exemplo. Obviamente que se tratam de grupos de estilos consideravelmente distintos, mas não há como negar que desde o disco lançado em 2008 que algumas semelhanças podem ser mesmo encontradas entre Portishead e Radiohead além dos seus nomes – engraçado que só agora notei que o estilo sofrido e amargurado é compartilhado entre ambos os vocalistas das duas bandas.
Um vídeo bastante simples também foi produzido para acompanhar o lançamento do single, filmado em preto e branco pelo diretor John Minton e retratando Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley aparentemente simulando em conjunto o processo de produção e interpretação da canção em estúdio – interessante notar como o vocal de Gibbons reflete-se em sua postura retraída e introspectiva ao cantar, bem como o estilo sempre casualíssimo da banda no uso dos trajes e na condução de sua performance.
Portishead – “Chase The Tear” (mp3)
Portishead – “Chase The Tear”: Youtube (assista) – download
2 Comentários
Em meio a tanta coisa que você quer ouvir, ver e ler, muitas outras acabam sendo adiadas. Assim é que até hoje não consegui dar atenção à uma pá de artistas como, por exemplo,
A cantora
A idéia de Frank Borin para o vídeo de “Gimme Sympathy”, último single de Fantasies, novo disco da banda canadense Metric, é na teoria bem direta e descomplicada: fazer um registro “ao vivo” da banda em uma performance da canção. No entanto, são os detalhes por ele inseridos que fazem a graça da produção e a complexidade de sua filmagem.
Single do segundo álbum a ser lançado em conjunto por PJ Harvey e seu amigo e colaborador ocasional John Parish no próximo dia 31 de Março, “Black Hearted Love” detém uma beleza rockeira absoluta. Sob várias camadas de riffs de guitarra e uma bateria densa, Harvey clama pelo seu amor em versos de paixão enlevada com um vocal que detém a leveza e frescor do ar mais puro, porém com a intensidade e sedução que já lhe são mais do que conhecidos. O vídeo, dirigido pela dupla de irmãos Jake e Dinos Chapman, nomes conhecidos da escola mais controversa da vanguarda da arte européia, explora idéias das letras compostas por PJ ao colocar a artista de pele alva coberta por um vestido de cetim negro e pulando avidamente em uma casa inflável multi-colorida de festas infantis no meio de uma floresta em plena escuridão da noite pontuada por alguns relâmpagos – cenário este que guarda algumas semelhanças com a fantástica arte do disco To the Faifhful Departed, dos irlandeses do The Cranberries. John Parish não participa do curta, mas seu rosto pode ser conferido projetado brevemente sobre as figuras infantis que cobrem a parede inflável no fundo da casa enquanto uma chuva cai insistentemente. A melodia espessa criada pelo músico britânico foi combinada com uma filmagem contrastante, que abusa da câmera lenta em diferentes velocidades e que hora fecha closes no rosto angelical da inglesa, enquanto em outras concede visão mais ampla do cenário idílico e um pouco assustador. Sem dúvidas um delicioso tira-gosto até o lançamento, dentro de alguns dias, do novo álbum da dupla, que sucede Dance Hall at Louse Point, lançado em 1996.