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Sete Ventos Posts

“Amores Imaginários”, de Xavier Dolan. [download: filme]

Francis e Marie, dois amigos que moram em Montreal, se encantam por Nicolas, jovem que surge no círculo de amizades de ambos, e pouco a pouco o encantamento cria uma silenciosa erosão na relação de ambos.
O que impressiona de imediato neste segundo longa-metragem de Xavier Dolan é que com apenas 21 anos o jovem canadense já tenha definido uma estética firme, sólida e apurada como poucos cineastas. Ao co-produzir e encarregar-se da direção, roteiro, concepção de figurino, cenografia e edição da película, Dolan manteve absoluto controle sobre componentes essenciais para elaborar sem interferências a atmosfera repleta de elegância, charme e uma doce e delicada nostalgia que encobre o filme do início ao fim. A despeito de fascinar, porém, a beleza plástica engendrada pelo diretor tem seus reveses: como todo cineasta em início de carreira que tenta se impor, Dolan peca pelo excesso ao tingir constantemente seu filme nas matizes e texturas de seu olhar embebido em beleza. O uso ostensivo de câmera lenta combinado à uma trilha sonora composta por peças eruditas e canções indie e pop nostálgicas e contemporâneas que amplificam o efeito da imagem tornam, a certa altura, a estética previsível, quando não esvazia-a de sentido, mesmo tendo o cineasta justificado o efeito superficializante de sua estética como reflexo deste mesmo estado das emoções de seus personagens. Porém, os reveses do visual do filme, mesmo intoxicado pela própria beleza, não se constituem no seu maior problema, mas sim o seu conteúdo.
Com a atonicidade da dinâmica de sua história, parece evidente que com seu “Os Amores Imaginários” Dolan presta uma homenagem à uma faceta da Nouvelle Vague, impressão esta reforçada pela estética do filme. Retratos da rotina nada extraordinária de romances, incluindo triângulos amorosos, eram uma das temáticas caras ao movimento do cinema francês, porém, nos clássicos do gênero o seu grande diferencial não eram comumente os acontecimentos da trama, mas seus agentes: os personagens. E esta é exatamente a fraqueza de Dolan: ao invés de uma pessoa repleta de magnetismo, fascinante e sedutora, alguém que poderia despertar paixões inconsequentes a ponto de atribular amizades até então inabaláveis, o jovem que coloca silenciosa e traiçoeiramente os amigos Francis e Marie como adversários que disputam a sua atenção é o exato oposto disso: uma figura sem encanto, opaca e até um tanto infantil – nem é preciso dizer que assim, boa parte da razão de ser do filme deixa de existir. Mas também os protagonistas da trama falham em despertar o completo interesse pelo longa: há uma certa artificialidade presente nos dois personagens que não permite à platéia que desenvolva o necessário nível de empatia para que a trama ganhe importância.

les amours imaginaires (heartbeats, 2010)  movie still 01
O trio de protagonistas é o ponto mais fraco do filme do jovem diretor

Ironicamente, porém, são os interlúdios reflexivos que pontuam por três vezes a trama – sequências em que amigos dos protagonistas trocam experiências e impressões sobre relações afetivas, em tom informal e semi-documental – que acabam trazendo mais sagacidade e sensibilidade à “Os Amores Imaginários”. É da boca destes jovens homens e mulheres que surgem os comentários mais realistas e precisos sobre as dificuldades amorosas. E, como se isso não fosse o bastante para eclipsar os protagonistas, é entre estes personagens absolutamente periféricos que encontra-se a jovem stalker de lisos cabelos escuros e óculos de resina que se constitui na mais divertida e espontânea das figuras do filme, e talvez não por um acaso, o abre: ao contrário da trama dos protagonistas, seus comentários e observações cheios de ironia e auto-depreciação elegantes captam completamente a atenção do espectador ao ponto de você quase esquecer que este não é o foco principal do longa canadense, o que é realmente uma pena – tivesse o filme se centrado na presença cheia de graça e inteligência destes personagens ocasionais da trama, as atribulações e acidentes afetivos não pareceriam tão pueris quanto o fazem parecer a trinca de protagonistas. Do jeito que está, a credibilidade dos dramas dos amores de Xavier Dolan não vai mesmo além de sua imaginação.

Baixe: “Amores Imaginários”, de Xavier Dolan (Les Amours Imaginaires/Heartbeats, 2010)
[áudio original, 1080p, mkv]

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Baixe: português english

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Melissa Auf der Maur – Out Of Our Minds (+ 3 faixas bônus). [download: mp3]

Melissa Auf der Maur - Out of Our Minds

O novo e tão adiado álbum de Melissa Auf der Maur, lançado no primeiro trimestre deste ano, é o contraponto musical às duas outras partes do projeto Out Of Our Minds (ou apenas “OOOM”): um curta-metragem de 30 minutos e uma graphich novel completam o trabalho concebido pela artista que mistura fantasia, vikings e viagens no tempo. Parece um tanto descabido, não? Pois bem, devo confessar que desde a verdadeira overdose de álbuns conceituais lançados por Tori Amos nesta década, alguns deles excelentes, outros apresentando-se um tanto confusos e forçados, acabo preferindo a simplicidade objetiva dos discos que se contentam tão somente em ser um apanhado de músicas bem trabalhadas e embaladas em um visual caprichado. E como aconteceu com alguns destes últimos discos de Tori Amos, a faceta conceitual de Out Of Our Minds, em si, não apenas é difícil de se apreender como na verdade não representa ganho algum às canções, e assim sendo, penso que o melhor é avaliar o disco pelo seu caráter musical apenas, descartando qualquer conexão ou relação necessária com o conceito criado por Melissa.
Avaliado sob esta abordagem, Out Of Our Minds mostra-se um belo trabalho, com uma atmosfera mais estudada do que a do álbum de estréia: aqui, a cantora e compositora canadense mostra que não tem qualquer preocupação em sustentar o tempo todo uma sonoridade pretensamente rockeira, preferindo seguir seu instinto. Faz sentido: cartilhas são para iniciantes ou os que não tem confiança e segurança suficiente. E é assim que a cantora abre o disco com “The Hunt”, uma faixa instrumental em que bateria, baixo, guitarra e o eventual aporte dramático de um piano sucedem-se sobre o pulso do baixo marcado pela batida do coração até serem suplantados por vocalizações da artista, que fecham a canção com o suspense de uma caçada, como sugere o título. A faixa que dá nome ao álbum vem em seguida, guiada pela frequência irresistível dos acordes de guitarra e uma bateria de toques equilibrados, tem no verso “If you’re listening/You’re a dreamer/So come in/Come sit by my fire” o convite irrecusável para o ouvinte acompanhar a cantora canadense em seu tão aguardado lançamento. “Isis Speaks”, com letras que retratam o delírio da cantora com uma figura feminina, chega com riffs cristalinos de guitarra, em uma melodia em que bateria, baixo e vocais relacionam-se de modo mais homogêneo. Entra “Lead Horse”, uma faixa instrumental algo monotonal, mas que faz uma boa transição para o segundo grupo de canções do álbum, entre elas “22 Below”, que apoiada por acordes taciturnos de guitarra, canta uma condenação à mesquinharia humana com vocal melancólico e por volta de sua metade é revertida por um interlúdio de guitarra intenso que lança a canção ao ar e coloca-a num vôo melódico hamonioso que a encerra. Abandonando o clima da faixa anterior, em “Meet Me On The Dark Side” Melissa faz o público saborear um pouco de seu pop/rock, guiando seu baixo em uma cadência charmosa para fazer abertura para as notas maciças da guitarra, os vocais com coloração mais macia e temperar a melodia com um punhado de acordes de cravo que coroam a música com uma dose de elegância. “This Would Be Paradise” é a terceira e melhor faixa instrumental do disco, e traz como único elemento vocal o trecho de um discurso do reverendo canadense Tommy Douglas – que comenta epistolarmente a contradição entre o potencial intelectual do homem e sua enorme tendência a agir de modo estúpido – acompanhado por uma melodia que mistura a sonoridade sempre folk de uma autoharp à uma camada generosa de acordes de baixo e sintetizações, tudo evocando a imagem de uma paisagem que vai se revelando pouco à pouco destruída e arrasada. “Father’s Grave”, dueto com Gleen Danzig, é mais uma música de tonalidades depressivas e tristes, e não à toa, visto que, entre as notas graves da guitarra e baixo e o andamento pesado da bateria, o lamento de Melissa e seu convidado versa sobre uma garota que precisa de apoio para chegar ao túmulo de seu pai – é praticamente uma marcha fúnebre. Mas a tristeza não dura muito, pois “The Key” é outra canção com melodia pop/rock sólida, conduzida pelo pulso quente e firme da guitarra, do baixo e dos vocais e uma bateria que sabe se colocar no momento exato que a música pede. “The One”, penúltima faixa do disco, prossegue pelo mesmo ritmo, com um instrumental de guitarra, baixo, bateria e vocais que compõe um todo consistente, mesmo não fugindo muito da sonoridade de um single tradicional. Fechando Out Of Our Minds, em “1000 Years” Melissa Auf der Maur dedilha seu baixo com um gingado incrível, sutilmente sensual, acompanhado pela bateria e pela guitarra e banhado por um vocal irretocável, que flutua entre diferentes registros e impressões de sentimentos. Vocalizações esplêndidas, ao final da canção, remetem à atmosfera idílica da faixa instrumental que abre o disco, faixa que após alguns instantes de silêncio surge como hidden track, reinterpretada em uma tecitura erudita ao piano e encerrada pela cantora lançando a pergunta “is it better to be further away or close?” Bem, Melissa, depois de mais um bom disco, cheio de belos momentos, eu digo: close, Melissa! Very, very close!

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“A Passagem”, de Marc Forster [download: filme]

stay (2010)

Sam Foster, psiquiatra, assume o caso de um homem amargurado e transtornado depois que a encarregada do tratamento se afasta por questões pessoais. Inicialmente contrariado, Henry Letham, o paciente, logo mostra seu apego por Sam, que não muito depois começa a se sentir envolvido em eventos incomuns relacionados à Henry.
Filme imediatamente anterior à “Mais Estranho que a Ficção”, no longa-metragem “A Passagem”, o diretor Marc Forster traz novamente personagens que atravessam juntos uma trama pontuada por elementos que destoam do plano real – porém, diferentemente do filme seguinte, onde desde o início se tem a certeza sobre o que está ocorrendo, é a dúvida que envolve o espectador neste longa-metragem com roteiro escrito por David Benioff. O texto mergulha o psiquiatra de Ewan MacGregor pouco a pouco nos aparentes devaneios do paciente com tendências suicidas de Ryan Gosling, homem torturado pela culpa relativa à um acidente que pode ou não ser real tanto quanto os distúrbios que o psiquiatra começa a vivenciar, todos relacionados ao paciente e aqueles que são de suas relações. Dando apoio à estes componentes que contrariam a percepção da realidade, além do trabalho excepcional dos protagonistas Ewan McGregor e Ryan Gosling, que projetam a alma torturada e a certeza fragilizada de seus personagens, respectivamente, e da presença magnética de Naomi Watts, a fotografia com contraste forte e ostensivo uso de halos luminosos e a edição que funde a cenografia de uma cena à seguinte e amplia a desorientação narrativa materializam fenomenalmente a sensação de incerteza do médico, levando esta sensação também ao público, que se vê o tempo todo intrigado por micro-flashes repetitivos de um evento que pode ser ilusão ou lembrança, “déjà vus” misteriosos de acontecimentos aparentemente sem importância e episódios bizarros.

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Tanto a edição quanto a fotografia estilizadas são elementos chave da narrativa de “A Passagem”

A narrativa, assim, ao mesmo tempo que é linear, avança entrecortada por uma série de sequências, eventos e falas que negam a veracidade do que está sendo visto, interrompendo a compreensão da narrativa com um pulso contínuo de dúvida cujos elementos não necessariamente se interligam, o que torna difícil, durante a desenrolar da trama, materializar uma teoria suficientemente sólida que negue ou confirme a realidade do que se vê. É apenas na surpreendente e emocionante conclusão da história que o espectador tem subsídios para por em ordem o que está ocorrendo, elucidando a dinâmica da trama e sua razão de ser e revelando que a narrativa obtusa e todo o exercício de estilo exposto na edição e fotografia não são maneirismos gratuitos, e sim um trabalho muito bem pensado que tenta “fotografar” um mecanismo complexo de um evento cujo retrato é certamente impossível de se obter, mas que nas mãos de Forster e seus colaboradores tornou-se o mosaico impressionante de um momento único e definitivo na vida de um ser humano. É mais um pequeno brilhante longa na filmografia de um diretor um pouco irregular, como muitos em Hollywood. Porém, como costuma acontecer, são cineastas com filmes bem menos intrigantes e relevantes que recebem todo o hype de público e crítica – se é que estes foram um dia relevantes.

Baixe: “A Passagem”, de Marc Forster (Stay, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]

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português english

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Ida Maria – Katla. [download: mp3]

Ida Maria - Katla

Não se engane ao ouvir “Quite Nice People”, a primeira faixa de Katla, segundo disco da norueguesa Ida Maria: apesar da toada de vocal tranquilo, violão e piano adocicados e bateria leve, a garota gosta mesmo é das farpas rockeiras que nascem a partir da faixa seguinte, “Bad Karma”. Sem medo de uma overdose melódica, Ida esguela-se nos versos da canção para acompanhar sua guitarra rascante e a bateria firme e não faz muito mais no refrão além de “la-la-las” em meio à riffs caudalosos de sua guitarra. Parece simples demais? Pode ser, mas a garota sabe fazer isso muitíssimo bem. Já na faixa seguinte, “10000 Lovers”, Ida brinca ainda mais com a música, numa espécie de rock de cabaret de ritmo gingado e guitarras malemolentes, atacando a melodia com uma fartura de vocais e backings que transformam a canção em um imenso desatino boêmio. O cio da norueguesa nas letras de “Cherry Red” são apenas a verbalização do que já ocorre no pulso bem marcado da melodia pop cheia de marcações de bateria e vocais lúdicos com gritinhos delirantes – mas a garota não acha isso suficiente, e ainda enfia um interlúdio intencionalmente esteoretipado de chanson française para escancarar um pouco mais o teor sexual da faixa – doida! E se havia alguma dúvida até este ponto de que Ida se diverte muito com sua música, ela sucumbe diante da sandice “I Eat Boys Like You For Breakfast”: possuída pelo espírito de uma mariachi inconsequente, a menina põe no menu de suas personalidades musicais a latina vingativa com seus vocais poderosos em meio ao arranjo de metais, da guitarra, do baixo e da bateria sangrando uma salsa turbinada pela frequência rockeira da cantora. E como quem já prevê questionamentos depois de tanta traquinagem, a guria se despe da latina e põe trajes de uma PJ Harvey em seus melhores dias de improvisação para quase dez minutos de guitarra, baixo, bateria e vocais em jam session de rock lânguido, sôfrego e melindroso em “Devil”. E como não pensar que Ida Maria sofre de transtorno de personalidade múltipla se a cadência melancólica do piano, bateria e baixo e a tonalidade dos vocais de “My Shoes” vertem discretos vapores do charme de Fiona Apple em início de carreira? Mas a evidente ninfomania musical da norueguesa não tem limites e ainda leva a garota a rasgar seu vocal em um blues-rock na faixa bônus, que ela começa soltando um “I’m gonna behave” no microfone – não, Ida: para nosso deleite, assim como o vulcão islandês que estampa a capa do seu disco, esperamos que você continue não se comportando.

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“Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”, de José Padilha [download: filme]

tropa de elite 2 (elite squad 2, 2010)

Capitão Nascimento, após uma operação polêmica no presídio de Bangu I, mas apoiada pela população, acaba ganhando um alto cargo na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. É de lá que ele planeja atuar de modo mais efetivo contra o crime da cidade – logo, porém, descobre-se que o oficial não estava tão atento às mudanças na dinâmica do crime na cidade quanto pensava.
No início, a notícia da sequência de “Tropa de Elite” me soou bastante mercenária, derivada que foi do sucesso da primeira instância da história. Certamente que esta deve ter sido a motivação inicial, pra não dizer a principal, mas ao contrário do que normalmente acontece no cinema comercial, o diretor José Padilha e sua trupe de colaboradores e roteiristas não deixaram de dar toda a atenção à qualidade na segunda empreitada contra o crime carioca do já icônico Capitão Nascimento – pelo contrário, o empenho da equipe foi tanto que “Tropa de Elite 2” consegue o impensável: supera a primeira parte da saga do oficial do BOPE. Porém, isso só foi possível devido à mudanças na essência do argumento da saga de Nascimento – algo que, certamente, não vai agradar à uma parcela considerável do público do primeiro filme.
Em “Tropa 1”, eram as atividades do BOPE no combate à criminalidade do Rio de Janeiro e a ilustração dos imensamente rígidos métodos de treinamento e seleção de soldados do grupo que compunham o cerne argumentativo do longa-metragem. Por consequência disso, o filme resultou em um excelente longa-metragem de ação explosiva e desenfreada, agrandando públicos dos mais variados tipos – mas ele não ousava ir muito além disso. Em “Tropa 2”, porém, com a saída de Nascimento do comando do BOPE para atuar na Secretaria de Segurança, o grupo de operações especiais perde o protagonismo em detrimento do registro desta nova esfera de atuação do capitão, o que, consequentemente, diminuiu consideravelmente o teor de ação da trama para dar espaço na história à ilustração das relações políticas e de poder e de suas várias imbricações, artimanhas e obscenidades morais e éticas decorrentes. Com essa narrativa mais reflexiva e abrangente, há grandes chances que os fãs do clássico cinema de ação, público este que compõe boa parte dos entusiastas do primeiro filme, considere “Tropa 2” um tanto mais chato e monótono que a primeira parte. Porém, este roteiro sensivelmente mais rico, que amplia a abordagem dos mecanismos e da dinâmica do crime do seu micro-foco, a sua porção mais visível, ordinária e imediata, para o macro-foco, dissecando o “backstage” da criminalidade, as suas ramificações além das fronteiras do subúrbio e da própria polícia, a exploração constante do crime pelos detentores do poder e, ainda, a potencialização da importância ficcional de Nascimento para a mudança da natureza do crime nos subúrbios e favelas da cidade do Rio de Janeiro, torna esta segunda parte bem mais relevante do ponto de vista crítico.

tropa de elite 2 (elite squad 2, 2010) movie stills 01
“Tropa 2” tem um enredo mais rico que deixa um pouco de lado a ação frenética do primeiro filme

A mudança de abordagem também trouxe para a superfície um elemento que foi pouco explorado no primeiro filme: a instância humana da trama. Enquanto em “Tropa 1” toda a carga emocional era derivada da adrenalina das incontáveis sequências de ação e suspense que ocupavam grande parte do longa, nesta segunda parte ela muda de natureza e ganha maior destaque ao ter como origem os problemas familiares de Nascimento, que tenta levar à frente a relação bastante desgastada com o seu filho. Deste modo, a contínua sensação de tensão, que sufocou grande parte do lado humano do filme anterior, cede mais espaço para o retrato da vida pessoal conturbada de Nascimento, explorando mais intensamente a emoção do público, que acaba, assim, tendo uma ligação mais pessoal e profunda com a história e com seu protagonista – e aqui, claro, deve-se fazer dizer que isso também se deve, e muito, à atuação impecável de Wagner Moura.
“Tropa de Elite 2” é um longa-metragem claramente amadurecido: se o primeiro filme registra a ferida no corpo, o segundo retrata o vasto processo de infecção generalizada que se dá a partir do combate ineficiente contra esta. Com a equipe de produção estabelecendo como meta tornar tanto a trama como seu principal personagem mais densos e complexos, Nascimento muda e torna-se mais humano e realista ao ter alargada, pela experiência que vive no filme, a sua compreensão da criminalidade tão mais quanto o próprio retrato do crime na cidade do Rio o é, fazendo crível a transformação de um policial que vê o inimigo apenas na crime rotineiro e seus agentes mais aparentes para um homem abalado e perdido ao ser surpreendido pelo tamanho e alcance opressivos desta criminalidade, que se regenera à cada derrota sofrida. Porém, o choque sofrido é o baque necessário, pela tradição das sagas do cinema, antes de um epílogo triunfal ou shakespeariano – a saber, a morte do protagonista, o que, no caso deste filme que retrata tão bem a realidade carioca, seria o mais provável. Por esse motivo, talvez seja mesmo “Tropa de Elite 2” a conclusão mais adequada para a saga do oficial do BOPE: é melhor deixar Nascimento perdurar no imaginário coletivo em sua interminável e difícil luta contra o que ele chama de “sistema” do que encerrar sua carreira sacrificando-o no correr desta batalha – é um tanto menos realista e épico, mas acho ser mais justo para um personagem que já entrou para a história como uma dos maiores criações do cinema contemporâneo do nosso país.

Baixe: “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”, de José Padilha (Elite Squad 2, 2010)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
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Lykke Li – “Get Some” (single + 1 faixa). [download: mp3]

Lykke Li - Get Some

Lykke Li, que chamou a atenção com sua mistura de pop, indie e folk no belo álbum de estréia Youth Novels, se prepara para lançar seu segundo disco em breve e, como um petisco de luxo para seus fãs, a artista liberou no seu site oficial o download gratuito de uma faixa que já está pronta e de mais um B-side. O single, “Get Some”, tem na impecável ginga da sua base percussiva todo o charme e balanço sedutores do pop cintilante cheio de calor e animação que foi o grande trunfo do seu debut. As letras completam o serviço e coroam a glória pop da canção: embaladas por várias camadas do vocal da cantora, sempre cheio de charme e com aquela levíssima pitada blasé que é uma das marcas da cantora, Lykke compara-se à uma prostituta por estar envolvida em uma relação amorosa um tanto egoísta e utilitária. Já, “Paris Blue”, o B-side que acompanha o single, é fruto da faceta indie-folk da garota sueca: com interpretação melancólica em um lamento amargurado da cantora à cidade de Paris, a faixa é feita de esparsos acordes sôfregos de violão, um orgão de notas apagadas e sofridas ao fundo e uma percussão lenta e opaca, que parece carregar todo o peso do mundo.
Bela idéia da menina liberar duas faixas de atmosferas completamente opostas, já que além de aplacar bem a ânsia dos fãs pelo novo material a ser lançado, “Get Some” e “Paris Blue” também servem de cartão de visita “dupla-face” para os que ainda não conhecem a artista, apresentando eficientemente a sua já conhecida flexibilidade musical. Então, clique aqui para fazer download – basta preencher o cadastro rápido no mailing list da cantora para receber no seu e-mail o link de download das faixas. Se preferir, ambas as músicas também estão disponíveis para serem ouvidas via streaming neste outro link. Bom proveito!

agradeço o toque do @fuckbubbles no Twitter sobre a liberação do single!

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005