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Sete Ventos Posts

The Boy / Maio 2009: todo Eduardo Tesch [fotos]

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O capixaba Eduardo Tesch, modelo do mês de maio no The Boy, tem uma expressão algo infantil no rosto, o que apesar de lhe conceder um encantador olhar inocente e terno, algumas vezes também deixa aquela expressão intolerável de “bobo da corte” de turma de colegial. E apesar dessa expressão jovem que o moço detém, com o cabelo molhado lhe ocorre o oposto: nessa configuração seus traços pesam e são razoavelmente envelhecidos, destacando alguma desarmonia nos elementos do rosto e fazendo-o aparentar um pouco mais do que seus 25 anos. Porém, mesmo que a fisionomia de seu rosto não funcione sempre, com a produção certa o rapaz rende uma diversão descompromissada. De perfil, com o olhar mais cerrado, o rapaz até manifesta um semblante mais sexy e atraente. Mas é o corpo do garoto, claro, o lugar certo pra concentrar esforços: a musculatura definida, que se contenta com o porte atlético e tem como seu maior charme os pelos curtos, nitidamente aparados, torna-o suficientemente sedutor para proporcionar algumas horas de entretenimento leviano. A bela cabeleira farta, desde que não esteja úmida, além de lhe dar um ar juvenil e maroto, também seria uma fonte de recreação adicional – eu, ao menos, não me negaria a ser um agente de afagos e cafunés. Todavia, em relação ao modelo, ficamos mesmo por aqui – não há atributos suficientes que justifiquem muitos comentários.
Quanto ao ensaio em si, confesso que a temática rústico-pastoril me agradou. Isso combinado com a luz natural que irradia tudo com o frescor aconchegante do outono confere elegância à maior parte dos registros. Também ajuda a perspicácia da produção e do fotógrafo Felipe Lessa em ajustar o rapaz à sintonia do ambiente, caracterizando-o – até convincentemente – como um caipirão com o clássico macacão jeans ou como um lenhador desinibido em calça de pijama. É provavelmente por esse esforço em acentuar o que o modelo tem de bom com a qualidade do registro e da temática que Eduardo tenha rendido uns retratos de aguçar os sentidos: a foto em que ele dá carão, ostentando um olhar petulante com um semblante e pose atrevidos é de causar salivação imediata, assim como se mostra tentador o seu físico bem torneado no registro em que o rapaz se estica como quem se espreguiça incentivado pela luz confortável do sol, usando um edredon como única salvaguarda da completa nudez. Pra ser sincero, é daqueles ensaios bonitos e bem executados pra fazer volume ao ano, mas que não cativam suficientemente para tornarem-se notórios – porém, um ou outro momento mais inspirado pode resistir por algum tempo na memória afetiva por conta de, digamos, um “estímulo de ordem mais prática”.

Acesse: Fotos de Eduardo Tesch: The Boy

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Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin (+ 1 faixa bônus) [download: mp3]

tori amos - abnormally attracted to sin (2009)

Desde que abandonou a gravadora Atlantic, a cantora americana Tori Amos lança discos que pecam pelo exagero, em mais de um sentido. Primeiro, pela insistência em arquitetar um conceito ou temática que unifique ou englobe todas as canções. Segundo, pela criação de um personagem – ou bem mais de um – que “assume” a interpretação das canções ou que incorpore o conceito destas ou da narrativa composta no disco. Terceiro, pelo número excessivo de faixas, que dilui e tira a força das melhores canções. Quarto, por um excesso de ornamentos e backing vocals adocicados de alto teor lírico. O primeiro álbum que reuniu estes elementos, Scarlet’s Walk – já que Strange Little Girls, a priori, não é um trabalho de composição da cantora e contou com apenas doze faixas, a mesma média dos primeiros lançamentos da artista -, foi o que teve melhores resultados ao utilizar-se destes recursos. Desde então, a insistência neste modelo de criação tem trazido aos fãs da cantora discos que não conseguem sintetizar toda a beleza, força e capacidade de Tori Amos em compor canções ao mesmo tempo tocantes e eletrizantes. Infelizmente, Abnormally Attracted to Sin, seu novo disco lançado há pouco, também sofre um pouco deste mesmo mal, ainda que ele seja o menos rigoroso na temática e conceito desde Scarlet’s Walk e sua utilização de personagens não seja tão efetiva – mas no que tange à algumas melodias o problema foi reiterado. Faixas como o single “Welcome To England”, cujo refrão está cercado de alguns acordes graves e dramáticos de piano típicos do estilo da artista, “Fire To Your Plain”, que tem arranjo leve e harmonioso de bateria, guitarrra e teclado, e “500 Miles”, com seu refrão liricamente equilibrado e sua sequência final com bateria, guitarras, piano e vocal absolutamente empolgantes como há muito não se via em uma canção de Tori, poderiam ter outro resultado, muito mais elegante, emocionante e encantador, não fosse os excessos melódicos glicosados, cuja herança imediata é proveniente de The Beekeeper.
Porém, é preciso dizer que Abnormally Attracted to Sin é o disco que tem um punhado de canções que são as mais bem resolvidas em sua atmosfera melódica desde o álbum lançado em 2002. Algumas delas recuperam o viço e sonoridade de trabalhos de Tori anteriores ao início deste século, outras até mesmo captam vibrações de outros artistas ou bandas. Este é o caso específico da primeira faixa do disco, “Give”. A melodia da canção que claramente trata de prostituição tem algo da perversa morbidez do Portishead nos toques fortes mas exaustos da bateria e na presença distante de uma guitarra que vibra em acordes soturnos e arrepiantes – o piano e as sintetizações também contribuem para a construção desta atmosfera, mas o fazem ao modo da cantora. Já “Flavor” resgata toda a beleza de baladas compostas em discos como To Venus and Back: há reminescências de “Lust” na programação que é base da canção, bem como no vocal distante e difuso e nos toques suaves e esparsos no piano – há alguns discos que não se via uma balada tão perfeita da cantora, que extrai tanta força e emoção de uma melodia tão simples. A faixa-título do álbum também se apóia sem medo na programação eletrônica, e o faz muito bem: banhada por uma hemorragia ocasional de acordes de guitarra e vocais etéreos no refrão, o conjunto de sintetizações que preenche o fundo da canção com a bateria hipnótica cria uma música sensual e sedutora como um ritual ocultista. “Curtain Call” é outra que evoca o clima nebuloso do álbum duplo de Tori lançado em 1999: as notas suaves, curtas e contínuas no piano, a reverberação dos toques da bateria, a ambiência dos acordes da guitarra e o vocal algo arrastado concedem a melodia triste o mesmo sabor elétrico de “Bliss”.
Algumas faixas específicas deste novo disco trazem uma Tori Amos que se aventura a fugir de suas próprias convenções mergulhando em uma certa formalidade melódica, seja lidando tão somente com seu velho e admirável piano Bösendorfer ou colocando-o na penumbra para trabalhar com instrumentação mais farta. No primeiro caso, “Mary Jane”, revela-se absolutamente encantadora devido ao incomum rigor tradicional de seus acordes no piano, ainda que esta melodia seja pontuada por pausas e desvios tão emblemáticos no repertório da cantora americana. Os versos, porém, não enganariam seus fãs: a dramatização do diálogo entre uma mãe e seu filho adolescente sobre o efeito que Mary Jane tem na vida do garoto se mantém fiel ao estilo de composição da cantora até mesmo pelo simbolismo da personagem que nomeia a canção. Já “That Guy” responde ao segundo caso com sua melodia idílica congestionada de orquestrações, cuja teatralidade mostra imediato parentesco com trilhas de musicais. Nas letras, Tori dá voz ao inconformismo de uma mulher que confessa não compreender como um homem que lhe dá tanto amor e conforto na cama possa perder todo seu encanto quando está fora dela.
Mas ainda não foi desta vez – e sabe lá se isso voltará a acontecer – que Tori Amos conseguiu transgredir a condição da sua própria musicalidade e voltar a surpreender com um disco que não sofra engasgos nem contenha vácuos criativos, sendo apenas pontuado por momentos fascinantes. Alguns dizem que isso é culpa de sua rotina de mulher realizada e feliz, mas eu não afirmaria isso com tanta segurança. De qualquer modo, já que ela há algum tempo adora incorporar personagens e não parece que vá mudar de estratégia tão cedo, esse poderia ser um meio de encontrar novamente a química da sonoridade esquecida.

Baixe: Tori Amos – Abnormally Attracted to Sin [mp3]

Ouça:

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Prévia: “Do Começo ao Fim”, de Aluízio Abranches.

Do Começo ao FimAo ter sido informado do vazamento na internet do promo de cerca de 4 minutos do seu filme “Do Começo ao Fim”, que nem teve finalizada sua pós-produção e sequer tem qualquer data de lançamento confirmada, o diretor Aluízio Abranches pensou imediatamente em tomar medidas para retirá-lo do ar. Mas, ao verificar que em pouquíssimo tempo o vídeo se multiplicava em mais e mais páginas no YouTube o diretor se deu conta do óbvio – não há como lutar contra o poder de compartilhamento da rede – e entendeu que até poderia sair ganhando com o episódio. Primeiro, porque o vídeo está servindo para divulgação do filme, provocando o famoso boca-a-boca que atiça a curiosidade do público. Segundo, porque a discussão razoavelmente acalorada nas páginas que detém os vídeos do filme já lhe serve de prévia para que ele tenha uma idéia antecipada da inevitável polêmica que seu longa-metragem vai gerar quando do seu lançamento. Polêmica esta que só não vai ganhar espaço em veículos mais tradicionais, famosos e populares da imprensa brasileira por conta do teor de sua história: um romance entre dois rapazes que são irmãos – na verdade, meio-irmãos, pois segundo a sinopse do roteiro eles são filhos apenas da mesma mãe, interpretada por Julia Lemmertz, atriz cara ao diretor Aluízio.
Sim, o filme fala declaradamente de um amor incestuoso, que nasce na infância como uma ligação de imensa proximidade, apoio e carinho entre os irmãos Francisco e Tomás e se concretiza como relação amorosa na vida adulta e, portanto, não há como não dizer que o diretor pegou um pouco pesado – palavras de Lucas Cotrim, o próprio ator que interpreta Francisco com 11 anos de idade. Claro que a idéia enormemente controversa de ousar lidar com dilemas morais tão sedimentados gerou dificuldades para achar financiamento adicional, além daquele que o diretor já dispunha. Idéias para suavizar ou subverter a essência da história não faltaram: houve quem sugerisse trocar os irmãos por primos e até quem dissesse que topava financiar se Abranches colocasse duas irmãs ao invés de irmãos (o que não é de causar surpresa, visto que parte da idéia tem relação com o fetiche heterossexual masculino mais emblemático, o do lesbianismo, que recebe tratamento mais “naturalizante” do que aquele arquitetado por Abranches), mas o diretor brasileiro foi insistente e conseguiu ajuda financeira de dois empresários que, obviamente, exigiram total anonimato.
No entanto, após sentenciar o peso da história da qual participa, o garoto Lucas procurou emendar um elogio, afirmando que a história do filme é “muito maneira”. O elogio deve se referir, no caso, ao que aparenta ser a cautela do diretor na abordagem do tema: segundo declarações em entrevistas, Abranches procurou cercar-se de cuidados com o tratamento da história – cuidados que incluíram uma visita ao analista após o primeiro dia de filmagem – durante os quatro anos de gestação da idéia para que tivesse a certeza de lidar bem com ela, livrando-a de quaisquer excessos, particularmente os advindos de sentimentos de culpa. E, provavelmente, este é o elemento mais intrigante adicionado a história: o modo como a família dois dois irmãos reage ao perceber, na infância, a proximidade excessiva de ambos. A surpresa e o choque existem, mas a plácida compreensão complacente parece acompanhar toda a experiência da percepção da relação dos dois meninos e aparentemente suplanta qualquer possibilidade de recriminação. E por essa razão é que o promo do longa-metragem adianta que a relação entre os dois irmãos adultos se realiza sem muitos impedimentos de ordem moral.
Por sinal, a forma tão explícita como Abranches ilustra esta relação, colocando os dois atores escolhidos – o estonteante moreno João Gabriel de Vasconcellos como Francisco e o belo loiro Rafael Cardoso como Thomás – abusando de trocas de carícias e de demonstrações de paixão escancarada, configura sua abordagem como duplamente audaciosa: primeiro, por que talvez esse seja o longa-metragem brasileiro que melhor ilustra até hoje, sem pudores e com toda franqueza, uma relação entre dois homens; segundo, por expor a gênese, florescimento e consumação de uma relação incestuosa. E o diretor explora tanto esta atmosfera de erotismo entre os atores que preparou uma espécie de ensaio com os dois rapazes só de cueca e repleto de beijos apaixonados, chamegos e algumas sequências de “pega” bem ousadas para adiantar o retrato, por ele pintado, da intimidade dos dois personagens – semelhanças deste ensaio com teasers das produtoras do pornô gayforpay-me-engana-que-eu-gosto não me parecem só uma coincidência (a única diferença é a canção escolhida, que deixa o “ensaio” um tanto cafona…a música que serve de trilha para o promo, que segue a escola de Michael Nyman e Philip Glass, é radicalmente mais bela e interessante).
É bom lembrar que estas são apenas impressões apreendidas de um curta que resume o longa-metragem em 4 minutos e de informações divulgadas em artigos e entrevistas. As coisas podem, na verdade, ser consideravelmente diferentes na integralidade do filme de Abranches. Porém, mesmo que tudo não seja exatamente tão polêmico quanto parece – o que acho difícil de ser verdade -, se um punhado de cenas já gera tamanha reflexão e ocasiona discussões intermitentes por onde quer que elas passem, não é difícil prever que, ao menos, “Do Começo ao Fim” tem quase garantido o sucesso que fará na esfera cult do cinema – e não apenas do cinema brasileiro.
Para assistir ou fazer download do promo/trailer ou do ensaio com os dois atores, use os links abaixo.

(Agradeço ao sempre atento Pelvini pela dica do promo do filme.)

“Do Começo ao Fim” – promo: Youtube (assista)download
“ensaio” com os atores João Gabriel e Rafael Cardoso: Youtube (assista)download

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“Odete”, de João Pedro Rodrigues. [download: filme]

OdeteOdete, após expulsar o namorado que se recusou a ceder aos seus ímpetos súbitos de casar-se e ser mãe, desenvolve uma obsessão por Pedro, vizinho recentemente falecido que ela jamais conheceu, dizendo-se grávida dele. Isto torna-se mais uma perturbação para Rui, o namorado do jovem morto, que já vive o drama de não esquecer Pedro.
Em “O Fantasma”, João Pedro Rodrigues causou certo choque por lidar com facetas um pouco obscuras – quando não um tanto bizarras e doentias – do sexo e do amor platônico ao utilizar-se de personagens com nível considerável de desajuste social, afetivo e psicológico. Em “Odete”, seu filme de 2005, o diretor volta a explorar estas idéias, mas desta vez o que era desconcertante em seu mais famoso filme torna-se irritante e ridículo na seu último longa metragem lançado.
Nele, o elemento que vai desmoronando aos poucos e arruinando os alicerces do roteiro é a composição dos personagens – em particular o que dá título ao filme. A perda de sensatez, que logo torna-se perda de noção da realidade e mais tarde transmuta-se em troca de identidade simplesmente não funciona – não exatamente por culpa da atuação de Ana Cristina de Oliveira, que também não é de muita ajuda, mas especialmente por culpa do desenvolvimento do personagem pelo diretor-roteirista e seu companheiro de script, Paulo Rebelo. O trabalho feito por ambos nos desdobramentos da personalidade e comportamento de Odete não apenas não convence como, a medida que o filme avança, vai irritando mais e mais o espectador e tornando-se comicamente inverossímil: o que no início, quando a personagem é apresentada, se anunciou como inveja logo é suplantado por obsessão e pouco depois conjugado com estados de perturbação física e psicológica de diferentes naturezas – é coisa demais para tão pouco tempo e ainda menos personagem. Essa composição confusa e muito pouco convincente acaba por contagiar, a certa altura, o outro personagem que poderia salvar a trama: Rui, o namorado do rapaz morto. Se a dor de Rui, que o leva à entregar-se à casualidades sexuais algo levianas para esquecer o amor perdido para sempre, é sincera e comovente por boa parte do filme, ao desenvolver contato com Odete torna-se inexplicável e inacreditavelmente infectada pela mesma inverossimilhança grotesca dela. E a partir daí o filme mergulha em um oceano de insensatez narrativa tão farsesco que culmina em uma cena final das mais estridentemente ridículas que já vi em toda minha vida assistindo filmes – a sequência acaba até tornando-se parcialmente previsível a partir da parte final do longa, quando a crise de identidade de Odete se inicia, mas você acaba assistindo o fillme até o fim para se certificar, em vão, de que o diretor não seria desmiolado o suficiente para conceber algo tão patético.
Não é difícil para o público notar que a intenção de João Pedro Rodrigues com seus personagens e seu filme era desenhar um compêndio da carência e dependência mais obsessivas e nocivas, porém, ele é que deveria ter se dado conta de que esse trabalho não é feito de qualquer maneira: mesmo ao tratar de estados alterados de comportamento, a lógica deve ser preservada no desenrolar da composição dos personagens no roteiro – do contrário, como aconteceu no seu “Odete”, o choque pretendido nas sequências planejadas pelo diretor só ocorre pelo seu imenso teor de ridículo.
Baixe o filme utilizando os links a seguir e a legenda proposta.

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Metric – Fantasies (UK Limited Edition) [download: mp3]

metric - fantasies (uk limited edition, 2009)

Tendo despertada em si a necessidade de viver uma experiência de anonimato e deslocamento, e portanto de uma descoberta solitária de um ambiente novo, desconhecido, Emily Haines, cantora e compositora canadense, vocalista da banda Metric, escolheu Buenos Aires como cenário desta experiência. Sem qualquer menção de drama, Emily declarou que precisava entender o estado atual de sua vida, além do desejo de afastar-se dos polos internacionais do rock/pop para isolar-se de qualquer possível influência no trabalho de composição que por ventura viesse a desenvolver. Depois de ter conferido o que foi feito pela canadense e sua banda em Fantasies, seu novo disco, posso dizer que a capital da Argentina foi o refúgio certeiro para Emily.
O primeiro contato com o que foi desenvolvido no disco foi a faixa “Help, I’m Alive”, single que surgiu na internet no fim do ano passado e teve sua versão acústica liberada no site oficial cerca de um mês depois. A versão produzida para o álbum inicia com um beat sujo com compasso acompanhado por uma bateria de ritmo bem marcado e guitarras que insuflam a melodia com sua sonoridade maciça e acachapante, deixando no ar um ultimato delirantemente dançante. A versão acústica, delicadamente produzida apenas com piano e violão, deixa de lado a urgência sonora e prioriza as letras onde Emily transmite seu estado de ansiedade e temor absolutos, com um “coração que bate como um martelo” e um “pulso que corre como um trem desgovernado”. A faixa atiçou a curiosodade dos fãs e deixou em todos a sensação de que nesse novo disco a banda estaria superando seus limites mesmo depois de um belo trabalho como Live It Out. E não precisamos esperar muito para tirar a prova disso – no início de Março o tão aguardado disco caiu na rede e eu, como todos os fãs de Emily e do Metric, fui intoxicado pelo álbum.

metric - fantasies (uk limited edition, 2009) social
Vocalista do Metric, Emily Haines isolou-se em Buenos Aires para reavaliar sua vida, e acabou concebendo um dos melhores discos de sua banda

No meu caso particular, Fantasies cresceu lentamente, ao longo de cerca de um mês, infiltrando-se sorrateiramente em meus ouvidos. “Satellite Mind” foi a grande responsável pelo acontecido: a faixa, com beat deliciosamente pegajoso ao fundo, delineado no refrão por riffs incandescentes de guitarra, bateria de cadência rompante, pontuais eletronismos luminosos e um vocal empolgante, viciou tanto os meus sentidos que não consegui dar a devida atenção ao restante do disco por dias e dias seguidos. Curiosamente, foi outra faixa, “Gimme Sympathy”, que suavizou o efeito narcotizante de “Satellite Mind” e libertou as demais músicas, assim como ela própria, do exílio por mim estabelecido à elas: ao assistir ao clipe da canção (veja texto sobre ele logo abaixo) me vi apaixonado pelo modo como guitarra, bateria, baixo e vocal se harmonizam e crescem até o completo amálgama no refrão, que aparentemente fala sobre o que a banda aspiraria para o seu futuro: a efêmera mas retumbante passagem dos Beatles ou o intenso brilho que se apaga aos poucos dos insistentes Rolling Stones? O fascínio despertado por estes versos deu partida no disco e me fez olhar com atenção outras faixas. Nessa busca, a canção que decreta que o amor pode tornar-se uma doença que aprisiona e impede de conduzir sua vida foi a que revelou suas qualidades logo em seguida: “Sick Muse” dispara com uma junção escandalosamente swingada de riffs de guitarra e groove de bateria que juntos com o vocal insolente de Emily evocam uma atmosfera envenenante para os sentidos. A melodia de “Blindness”, com guitarras e sintetizadores que escalam aos poucos os degraus de uma melodia depressiva para um entreato sonoro insurgente conduzido pela bateria de golpes fortes também exigiu seu espaço, e foram seus versos que serviram de garantia para tanto: para transmitir a idéia de alguém que em meio a sua falta de rumo luta para encontrar um caminho, mesmo que não saiba para onde ele irá o levar, Emily Haines pôs em prática suas habilidades como letrista e teceu uma analogia com os sobreviventes de um desastre que esperam por ajuda, construindo um texto intenso em imagens e símbolos. Magníficas também são as letras da faixa bônus de Fantasies, “Waves”, em que Emily incorpora um marinheiro que declara sua paixão por tudo o que vive em sua vida nômade, tão intensa e arrebatadora quanto a melodia ao mesmo tempo ligeira, doce e radiante das guitarras, bateria e vocais. “Stadium Love”, que fecha o disco, foi das últimas a enfileirar-se entre as minhas preferidas do novo disco: a integração entre os acordes espessos de guitarra, bateria, baixo, sintetizador e vocal resulta em uma música densa e atordoante que ajusta-se inteiramente as letras que tratam de duelos entre todos os animais do mundo em uma arena ocupada por pessoas que se rendem ao combate também na platéia. É a faixa que melhor resume, tanto em versos, com esta alegoria violenta, quanto em melodia, com sua atmosfera sufocante, o frenesi alucinante que permeia a maioria das canções deste novo álbum que nasceu após uma ausência considerável da banda para recarregar suas energias, liquidando seu esgotamento e seus receios e um álbum de sonoridade vigorosa e eletrizante e versos primorosos e francos.

Metric – Fantasies (UK Limited Edition – 2 CDs) [mp3]

Ouça (Spotify):

Metric - Fantasies - 2009
Metric - Fantasies - 2009

Ouça (Deezer):

Metric - Fantasies - 2009
Metric - Fantasies - 2009

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Metric – “Gimme Sympathy” (dir. Frank Borin) {versão oficial + versão acústica}. [download: vídeo]

Metric - Gimme SympathyA idéia de Frank Borin para o vídeo de “Gimme Sympathy”, último single de Fantasies, novo disco da banda canadense Metric, é na teoria bem direta e descomplicada: fazer um registro “ao vivo” da banda em uma performance da canção. No entanto, são os detalhes por ele inseridos que fazem a graça da produção e a complexidade de sua filmagem.
O registro inicia no backstage, de onde Emily desce cantando, exibindo sua elegância matadora pelo estúdio até chegar ao microfone exatamente no ponto em que canta o refrão. A partir daí a câmera, que roda do início ao fim em take único, vai constantemente mudando o seu foco para mostrar cada um dos membros da banda tocando outro instrumento, exibindo diferente figurino e revezando-se no microfone – tudo isso é feito sem que seja revelado o segredo da artimanha, mas se você quiser acabar com a magia da coisa, pode assistir o making off neste link. A performance dos músicos nos instrumentos que não são sua especialidade é visivelmente parca, mas esse é um dos atrativos do vídeo – Emily Haines tocando baixo encarnando a pose meio blasé que boa parte destes musicos exibe no palco é hilário e seu amigo, o guitarrista James Shaw, consegue até mostrar charme e desenvoltura ao dublar a loura canadense no microfone. Contudo, quando voltam cada um para o seu galho, os quatro arrasam – Emily, com uma dança algo performática que ressalta seus traços longilíneos e suas belas pernas faz toda a performance ainda mais deliciosa. Finalizando com um toque delicado e singelo, crianças com trajes de borboleta disparam do fundo e percorrem o espaço que a banda ocupa por alguns segundos, até debandar para a saída do estúdio e escancarar as portas, revelando o espaço externo, coberto por um céu nublado. É um vídeo simples, sem dúvidas, mas a filmagem cuidadosa, a performance sempre simpática dos músicos e a canção inegavelmente encantadora dão a produção um caráter poético irresistível.
Baixe ou assista os vídeos utilizando os links a seguir – não deixe de conferir também a versão acústica da canção em registro simples e intimista.

“Metric – “Gimme Sympathy” (versão oficial): Youtube (assista)download
“Metric – “Gimme Sympathy” (versão acústica): Youtube (assista)download

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005