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Sete Ventos Posts

Thom Yorke – “Harrowdown Hill” (dir. Chel White). [download: vídeo]

Thom Yorke - Harrowdown HillEspetacular vídeo que apresenta mistura de maquetes com ambientes reais, diversas técnicas de distorção da imagem e efeitos digitais, de velocidade de filmagem, bem como mistura também material composto para o curta com cenas verídicas de violência urbana. Não há exatamente um argumento que define o vídeo, mas uma temática que permeia cada imagem: a de que o progresso não está, atualmente, trazendo a ordem – utilizando nosso famoso lema positivista. O vídeo define em forma de imagem exatamente a mesma atmosfera que Thom Yorke e o produtor Nigel Godrich produziram na música, sombria e intimista. Baixe o vídeo pelo link a seguir.

http://www.bentimagelab.net/movies/harrowdown/HH_480x.mov

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Tori Amos – Strange Little Girls [download: mp3]

tori amos - strange little girls (2001)

Depois de ter presenteado os fãs com o álbum duplo de canções originais e registros ao vivo, o disco to venus and back, boatos de que o novo trabalho de Tori Amos seria um álbum de covers surgiram na net. Como de costume com a cantora, os detalhes foram revelados muito lentamente, e os fãs se surpreenderam ao descobrirem, aos poucos, que o disco estava mesmo tomando esta forma. Apesar do desânimo de alguns, ao constatarem que se trataria de um disco sem sequer uma canção nova, de autoria da própria compositora, outros mostraram-se muito animados, pois a cantora é reconhecidamente uma artista que apresenta covers fantásticos, completamente renovados de sua forma original. E, em se tratando de Tori Amos, este não seria mesmo um simples álbum de covers.
Strange Little Girls vai mais muito mais longe do que apresentar regravações de canções: o disco traz reinvenções e reinterpretações de cada uma de suas 12 músicas, todas compostas por homens, sob o ponto de vista feminino. Para incrementar o projeto e melhor delinear a reinterpretação das músicas, Tori Amos criou um personagem feminino para cada canção e, desta forma, cantou cada verso da música interpretando tal personagem. Os personagens também foram criados visualmente, pois cada um deles apresenta-se no encarte do disco – todos encarnados pela própria Tori -, obtendo, na caracterização de cada um deles, a ajuda do maquiador Kevyn Aucoin. O resultado são 13 personagens, um para cada canção, dentre eles dois – irmãs gêmeas – para uma das músicas.
O disco abre com um clássico da banda Velvet Underground: “New Age”. A versão de Tori, ao mesmo tempo que é moderna, remete à época em que a música foi composta – os anos 70 – devido a presença de acordes de guitarra deliciosamente espaçados, bem ao estilo da trip alternativa daquela década, mas que ganham corpo com o avançar da melodia. Nos vocais, a cantora também não deixa pedra sobre pedra: do início ao fim da música, quando entoa o verso, Tori emposta a voz, como uma mulher apaixonada e cheia de desejo pelo que vive no momento. O verso final da canção, “it’s the beginning of a new age”, torna-se um mantra orgásmico tão intenso que consegue levar qualquer um a berrar junto com ela. Em “’97 Bonnie and Clyde” Tori Amos decidiu liquidar o ritmo da canção original de Eminem – se é que seria possível retirar alguma melodia dali – e o recriou em algo que lembra uma trilha sonora digna de um filme clássico de terror. A melodia inicia com uma sonoridade propositalmente estranha repetida à cada vez que Tori Amos entoa “just the two of us”, o refrão da canção. Quando não se encontra nesse momento, a música tem ao fundo sopros em tom grave e de sonoridade minimalista e cíclica e cordas de acordes que sugerem um suspense contínuo, que parecem antever com temor o horror do acontecido – o trecho melódico que estes intrumentos constroem se repete continuamente pela música toda. Aos poucos também surge uma percussão sincopada em tom marcial, ampliando uma certa sensação de claustrofobia claudicante. Os vocais de Tori são repletos de um sentimento de dor e impotência diante do destino e são susurrados como num esforço reprimido em alguns trechos – é, sem dúvidas, uma melodia incomum até mesmo dentro que Tori apresentou até hoje em sua carreira.
Na sua versão da canção do Stranglers, “Strange Little Girl”, é deliciosamente a mais pop do álbúm:guitarra gingadíssima, bateria esperta e vocais charmosamente raivosos. A letra não foi sequer tocada, mas a personagem que Tori Amos criou para a canção consegue modificá-la totalmente: a mulher da canção é, na verdade, a criança que inadverditamente participou do despojo do corpo de sua mãe junto com seu pai – o assassino desta – na canção anterior à esta, “97 Bonnie and Clyde”. e a garota, evidentemente, vive um eterno conflito do qual não consegue escapar – essa é a canção que melhor mostra a maneira absolutamente fenomenal como Tori Amos conseguiu tornar completamente sua uma canção que não foi por ela composta, sem mexer em uma letra sequer da composição. Preparando a ambientação da música cuja personagem é uma showgirl de um cassino qualquer em Las Vegas, que testemunha diariamente os abusos sofridos pelas suas jovens colegas de trabalho, Tori Amos despiu “Enjoy The Silence” de seus trajes tecnopop do original do Depeche Mode, e resolveu aplicar-lhe um traço de simplicidade, fazendo-o até mesmo quando colocou violinos e violoncelos ao fundo para acompanhar o piano. O vocal que segue o mesmo tom da instrumentação, com Tori cantando os versos com resignado sofrimento. “I’m Not in Love”, canção da personagem algo dark que se encontra envolvida com um homem casado é, junto com “’97 Bonnie and Clyde” uma das canções que foi mais alteradas de sua melodia original. Aqui, Tori arremessou a quilômetros de distância a famosíssima melodia pop-anos-80 do 10cc e concebeu uma melodia com um pé no trip-hop mais soturno e silencioso, baseando-se em acordes e tons minimalistas de bateria e programação eletrônica. Os vocais são tentam ironizar o amante apaixonadao, mas ao mesmo tempo deixam transparecer exatamente o oposto daquilo que é cantado, ou seja, ela também está apaixonada, apesar de não admiti-lo – é uma das canções mais maravilhosamente viciantes do disco. Em “Rattlesnakes”, Tori Amos recompõem a melodia com todos os instrumentos a que tem direito, com farto uso de violões como fundo para os acordes adocicados do teclado, tudo acompanhado por uma bateria e percussão tranquilas. Para melhor personificar na melodia a personalidade impetuosa, fascinante e independente da “girl” desta música, ela utilizou um chocalho, ou algo que o valha, mimetizando o som que o rabo de uma cobra faz ao chacoalhar – charmosíssimo. A versão de Tori Amos para “Time”, de Tom Waits, é profundamente emocionante: o piano Bösendorfer, enfim, dá o ar de sua graça com peso semelhante ao das canções clássicas da cantora, acompanhando com sensibilidade e complacência as notas que compõe esta música e p vocal entristecido de Tori. “Time” é interpretada do ponto de vista de um personagem fascinante: a Morte. Através dela, são cantados os versos de uma canção extremamente triste, que desfila a rotina de alguns personagens com uma vida bastante infeliz, que parecem fazer nada mais do que esperar o seu dia final. Para a canção que apresenta irmãs gêmeas como personagens, criminosas de altíssimo gabarito que trabalham com espionagem econômica, Tori abandonou o sorumbatismo da faixa anterior e sacode o ouvinte com uma melodia rock de sonoridade cinematográfica, altamente hollywoodiana, que serviria com perfeição como tema dos melhores filmes de James Bond – guitarras absurdamente enlouquecidas, gingadíssimas e baterias ritmadas em um dia pra lá de inspirado fazem a base de toda a canção e duelam com a voz duplicada de Tori Amos, que faz frente à toda essa chacoalhante energia rock. Eu não estou exagerando, a mulher arrebentou: a versão de “Heart of Gold” de Tori Amos, com sua melodia gritante, funciona como um hino hedonista, despertando no ouvinte uma vontade irrefreável de levantar-se para dançar como nunca na vida ou, bem no estilo das personagens da canção, pegar uma reluzente pistola automática cromada e sair pela noite invadindo o escritório de uma importante multinacional, sem pensar nas consequências do fato. Ouça: é garantia de gozo múltiplo total. “I Don’t like Mondays” volta à uma temática menos feliz, apresentando como personagem uma policial que vive um drama típico de sua profissão: ela é uma das oficiais que chega à uma escola, depois de ocorrido um daqueles inexplicáveis massacres que só algum norte-americano armado até os dentes, e sem qualquer sinal de sanidade, seria capaz de produzir. A melodia e o vocal da Tori Amos procuram não atrapalhar a atenção do ouvinte à letra canção, sendo utilizados como instrumentos apenas baixo e teclado de acordes suaves e o vocal sendo guiado de forma delicada, conferindo-lhe à canção uma atmosfera de inocência e ingenuidade, o que se contrapõe à violência da realidade ali apresentada. Em “Happiness is a Warm Gun”, Tori Amos ignorou a letra da canção composta pelos Beatles, à exceção de alguns poucos versos, repetidos como um mantra de intenções políticas, e mergulhou numa instropecção sonora que tranformou a canção numa elegia ao desarmamento mundial. Isso já fica claro quando a faixa se inicia, trazendo falas de personalidades da política americana, como o atual presidente George Bush e seu pai, o ex-presidente Bush, sobre a venda legalizada de armas no país. Melodicamente a musica já começa ritmada, com guitarras, baixos, bateria e um teclado nostálgico. A música proseegue desta forma, enquanto as falas dos políticos dão lugar aos poucos versos entoados por Tori. De repente, a melodia dá uma guinada – algo que lembra muito “Dàtura”, do álbum to venus and back, mas é algo mais no estilo eletro-blues -, e segue diminuindo o ritmo cada vez mais, numa lógica inversa à da maior parte das canções, concluindo de maneira esplêndida. A personagem aqui tem tudo a ver com os compositores da música: ela é a prostituta que esteve com o assassino de John Lennon, horas antes de seu assassinato. “Raining Blood”, com sua melodia soturna e mórbida, trazendo um Bösendorfer dark e apoiado por ruídos eletrônicos fatalistas, apresenta como personagem uma artista de clube parisiense assistindo, horrorizada, seu clube ser invadido por soldados da Alemanha nazista. Nos vocais, o tom é equivalente ao da melodia dos instrumentos: Tori entoa os versos em tonalidade sofrida e algo etérea, enchendo a melodia de terror e suspense ainda maior. O suspiro de total desfalecimento perpretado pela cantora ao final da canção atesta ao ovinte a certeza de que se não soubesse se tratar de um álbum de regravações, podería-se afirmar de pés juntos que essa canção foi composta pela própria Tori. Trazendo como personagem uma figura andrógina, que questiona ironicamente nos versos que canta a maneira de ser e de agir socialmente imposta para o homem, “Real Men”, mais uma vez, ludibria o ouvinte com uma música que foi totalmente transformada para o estilo próprio de Tori Amos: a melodia, baseada na grandiosidade do piano, além de discretíssimas participações de baixo e guitarra, é suave e delicada, mas ganha um toque de sarcasmo e ironia devido ao vocal certeiro de Tori Amos. Foi a escolha perfeita para fechar esse projeto denso e indispensável, que surpreendeu até mesmo os menos animados à primeira hora e que mostrou o quanto a cantora e compositora americana é uma artista complexa, de fabulosa genialidade.

Baixe: Tori Amos – Strange Little Girls [mp3]

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“O Diabo veste Prada”, de David Frankel.

The Devil Wears PradaJovem recém-formada e aspirante a jornalista disputa o emprego de segunda assistente da editora-chefe da mais influente revista de moda do mundo, apesar de ser abertamente desinteressada pelo mundo da moda. Mesmo sabendo disso, a editora-chefe, de personalidade egocêntrica e insensível quase intratável, a contrata. A agora jovem assistente vai enfrentar um mundo de obstáculos e contratempos por conta das exigências, muitas vezes absurdas, de sua chefe. O filme é baseado no romance parcialmente auto-biográfico da escritora Lauren Weisberger, já que ela trabalhou por anos como assistente da editora da revista Vogue americana. Sendo assim, muitos dos personagens – particularmente as duas protagonistas – são versões ficcionais de figuras reais.
Começo a resenha com uma pergunta por demais simples: é mesmo necessário dizer que Meryl Streep tem uma bela atuação no longa-metragem? Acho isso redundante, uma vez que a atriz americana raramente sai de um filme sem elogios. Por sua vez, Anne Hathaway, a jovem assistente Andrea Sachs, tem desempenho tranquilo como a sua personagem e consegue cativar a platéia com sua beleza delicada mas altiva. No entanto, o argumento do filme de David Frankel não prima pela originalidade: é mais uma estória de alguém superando desafios, convivendo com uma pessoa de personalidade difícil, passando a compreendê-la com a convivência, e que acaba atravessando um processo de auto-avaliação do que deseja para o seu futuro e de como vê a si própria – há uma pá de filmes que lidam com essa mesma linha argumentativa. Um segundo ponto relacionado à isto, e que acaba problematizando as chances dessa produção surpreender o expectador, é a variedade limitadíssima de conclusões da estória: ou o indivíduo se rende ao mercado, esquecendo o que antes almejava, e entra no grupo dos que sacrificam sua vida pessoal para manter o sucesso em um cargo altamente invejável ou a pessoa, ao final, joga tudo para o alto e volta a buscar e lutar por aquilo que sempre desejou. Tanto em uma possibilidade quanto na outra, o final do longa-metragem acaba caindo no lugar comum pela própria natureza da estória, que costuma limitar e evitar um epílogo de conteúdo excepcional e surpreendente. Porém, esses defeitos não chegam a fazer deste um longa-metragem ruim, eles apenas o impedem de se destacar entre os filmes do gênero. A produção caprichadíssima ajuda o filme: bela fotografia, trilha sonora bem escolhida, composta de canções pop/rock, elenco afinado, direção tranquila e, como não poderia deixar de ser, um figurino espetacular. Contudo, a personagem cativante construída por Hathaway e a composição novamente acertada de mais uma personagem de Streep é que levam o filme a frente, divertindo e segurando a platéia mesmo com uma estória já bem batidinha. É um passatempo divertido e descompromissado, que mostra o quanto bons atores podem ser, sozinhos, toda a razão de ser de uma produção. Assista sem muitas expectativas – as duas atrizes merecem isso.

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Tori Amos – “Strange Little Girl” (dir. David Slade). [download: vídeo]

Tori Amos - Strange Little GirlNo vídeo da canção “Strange Little Girl” vemos hora a menina que protagoniza o episódio da canção “’97 Bonnie and Clyde” e em outros momentos ela já crescida, interpretada por Tori Amos, que também aparece no vídeo como ela própria. O vídeo é meio confuso, mas é bonito, traz Tori lindíssima e consegue criar uma identidade visual que tem tudo a ver com a versão dela para a canção. Apesar de infelizmente não figurar entre os vídeos da compilação lançada pela cantora, assim como “Glory of the 80’s” também inexplicavelmente não aparece, é um curta interessante e o único representante da “era” StrangeLittleGirls, daí sua enorme importância para os fãs da fantástica cantora americana. Baixe já o vídeo pelo link a seguir:

http://www.megaupload.com/?d=OOVR4YMH

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“Miami Vice”, de Michael Mann.

Miami ViceDois policiais de Miami disfarçam-se como transportadores de drogas para entrar em um cartel internacional, com o objetivo de melhor atingir seus compradores em Miami. Contudo, os dois decidem por entrincherar-se ainda mais no grupo, com o objetivo de também tentar desmantelá-lo. Ao agirem desta forma, os dois acabam envolvendo-se perigosamente, colocando suas vidas e as daqueles que os cercam em perigo.
Não sou um fã do seriado original – nunca assisti sequer um capítulo deste que foi um dos seriados mais ícônicos dos anos 80 e possuo conhecimento puramente periférico. Sendo assim, estou impossibilitado de estabelecer qualquer comparação mais aprofundada entre ele e o longa-metragem, seu derivado.
Se o seriado primava pelo estilo e pela produção, construindo estórias envolventes e cheias de adrenalina mas apresentando personagens e situações caricatas e “clichéticas”, então o filme é bastante fiel à sua fonte de inspiração: policiais destemidos que ao se envolverem, sem hesitação, em um cartel poderosíssimo e extremamente perigoso, não demonstram temer, em momento algum, as consequências de tal relação; sexo algo videoclípico e glamourizado; uma cena de combate longa, arquitetada em cada mínimo detalhe. Tudo isso não perfaz, de modo algum, um longa-metragem original e supreendente, constituindo-se, na verdade, em uma abordagem já mais do que vista no cinema e TV. No entanto, apesar de ter montado um filme nada inovador, o diretor explora um pouco mais a fundo as situações e os seus personagens – mesmo sendo eles caricatos -, e suponho que ele tenha feito isso de maneira um pouco mais aprofundada do que algum episódio do seriado original normalmente o faria. Além disso, Michael Mann concebe seu filme de maneira competente, e não recheia o filme de cenas de ação – o que eu vejo como uma decisão acertada -, tentando apenas encobrir um roteiro frágil. Um dos pontos chaves do roteiro de um filme policial são os crimininosos, e estes estão bem representados no filme de Mann: o cartel apresentado no filme é bastante convincente e realista, pois atualiza criminosos que por ventura habitavam o seriado dos anos 80 para aqueles que infectam o século XXI – altamente globalizados, com conexões em diversos países do mundo e agindo de maneira organizada e com o apoio que a tecnologia atual dá à estes. Claro que a idéia de que dois policiais de Miami, com a ajuda de mais alguns colegas, organizando sozinhos uma operação internacional que tem a pretensão de desmantelar um grupo criminoso tão poderoso faz o realismo ficar um pouco mais distante, mas trata-se de uma adaptação do seriado “Miami Vice” – portanto, não havia como não fazê-lo desta forma. A decisão de produzir o filme em vídeo digital, incluindo cenas noturnas que apresentam imagem granulada, com algum ruído bem visível – ocasionado pelo aumento da sensibilidade na captação da imagem no escuro – também foi certeira, pois iajuda a incrementar o estilo do filme e compensa, na composição visual, o realismo perdido pela certa inverossimilhança da operação que é a base do roteiro, e que já citei logo acima.
Deste modo, o filme de Mann não se apresenta como um marco do gênero, mas é, acima de tudo, uma produção requintada que mistura algumas boas idéias de roteiro à outras na identidade estética do longa-metragem. Como filme policial, ele faz o que deve: diverte, explora bem a tensão do expectador e consegue mostrar um bom romance proibido – mas não vai além disso e, como já disse, nem sei se poderia mesmo ir, já que se trata da adaptação de um seriado que também não era muito diferente. E, como isso é Hollywood, mesmo depois de todo o carnaval, temos um final que, podemos ousar dizer, é feliz. E isso, definitivamente, não é nada realista.

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PJ Harvey – Is this Desire? [download: mp3]

PJ Harvey - Is this Desire?PJ Harvey (redução de Polly Jean Harvey) é uma cantora e compositora britânica magnífica, e em cujas composições a artista costuma entregar-se completamente. Entre todos os seus discos lançados até o momento, sem dúvidas o idiossincrático Is This Desire? foi o disco no qual a cantora mais derramou-se em vocais e instrumentação. O álbum foi uma fuga repentina do rock seco e cru, com vocais entoados geralmente em tons graves, predominante nos disco anteriores, para algo bastante diverso: ruídos de sonoridade suja, produzidos eletronicamente, piano, baixo e guitarras distorcidas são a tônica melódica deste disco sombrio e repleto de fobias.
“Angelene” abre o álbum e faz parte das canções mais calmas e acústicas dele: um piano triste, guitarras e baixos em acompanhamento e bateria cadenciada constroem a moldura para o vocal largadamente rock de PJ Harvey, que canta sobre as falsas esperenças e as ilusões de uma vida menos degradante de uma garota de programa. “The Sky lit up” tem letras que celebram uma noite de atos irresponsáveis, ou simplesmente desplanejados e cuja sonoridade revela a primeira das canções em que foi construída uma melodia repleta de ruídos eletrônicos retalhados, com bateria sintetizada feita de samplers e loops cíclicos, tudo compondo um conjunto melódico esplêndido, de tons repressivos e negros. O vocal de PJ Harvey é intenso e repleto de curvas tonais de graves e agudos, particularmente no ápice final da canção. “The Wind” alterna declamações sussurradas e vocais agudos, sob harmonia primordialmente sintética composta por loops, baixo, guitarra e bateria de sutilezas soturnas e com alguma frugalidade dark pontual. A letra fala sobre uma dama de espírito e personalidade algo mediavel, cheia de ingenuidades românticas, tentando aplacar seu sofrimento e solidão afetiva isolando-se em uma colina a escutar o soprar do vento. Aprimorando ainda mais a temática dreprê-underground, “My Beautiful Leah” trata em seus versos curtos da busca de um homem pela sua amante desaparecida, ao que parece, há meses. A base é primordialmente sintetizada, toda construída com eletronismos sujos, batida repetitiva e pratos pontuais que intensificam o desespero custusamente controlado do eu lírico das letras. O vocal de PJ Harvey permanece a totalidade da canção em um tom baixo, inseguro e sofrido. “A Perfect Day Elise” conta, de modo episódico, o ato criminoso ocorrido no calor do desespero de um homem rejeitado – é uma das melhores que conheço em termos de rock, ao mesmo tempo intensamente poética e realista. A melodia é um primor punk-rock, composta de loops e samplers de cadência forte, ruídos sujos pontuais e vocais intensos, modificados por uma filtragem eletrônica, o que intensifica a atmosfera de romance fadado à fatalidade e à desgraça – se um dia eu dirigisse um longa-metragem, estejam certos que uma das opções para fundo do crédito de abertura seria esta música. Pra lá de melancólica e depressiva, “Catherine” narra o interminável lamentar de um homem que sofre por amor, na sua inconsolável dor de cotovelo. A melodia permanece o tempo todo na mesma toada, construída com uma programação de teclados minimalistas e com vocal diferenciado de PJ Harvey, sofrido e suplicante. Essa é mais canção que mostra a impressionante capacidade que a cantora compor vocais tão diversos de uma canção para a outra, parecendo mesmo outra pessoa a guiar as letras – e isso não é, de forma alguma, competência exclusiva de pós-produção da canção. “Electric Light” prossegue no tom dark-minimalista, explorando mais uma melodia de base eletro-acústica, com silenciosos ruídos sintetizados acompanhados por uma batida de cadência repetitiva e letras breves, mais de complacência amorosa. Em “The Garden” temos, ao que parece, a exploração episódica de um romance gay, já que os protagonistas da letra são dois personagens masculinos. Mesmo que a analogia de homossexuais com seres alados divinos seja, para mim, algo absolutamente cafona e de mal gosto, os versos são sofisticados e apresentam o episódio em conformidade com a temática do disco. A melodia utiliza um orgão sutil ao fundo, sob bateria e loops encorpados, bem como belos acordes dramáticos de piano que pontual com classe e melancolia a melodia de quando em quando. O título da próxima canção, “Joy” é de um sadismo e ironia absolutos, visto que as letras que exploram e falta de esperança de uma mulher e sua imobilidade diante das desgraças da vida são tudo, menos contentamento. A música completa o tom opressivo das letras, sendo quase que inteiramente construída em programação, com profusão de loops sujos, soturnos e macabros, e tendo como ápice o vocal desigual de PJ Harvey, que assemelha-se ao extertor de sofrimento de um condenado. “The River” é outra canção de desilusão e incompatibilidade afetiva, novamente apresentando belos versos de tonalidades poéticas – nada mais literário do que transpor ao ambiente que cerca os personagens a variação de seus emoções e a intensidade da sua dor. A melodia é lindíssima, baseada principalmente em um piano de acordes perfeitos, de andamento triste e arrependido, com bateria discreta e alguma sonoridade sintética ao fundo. “No Girl So Sweet” apresenta em sua temática mais um romance marginal, fadado mais a trazer dor do que alegria aos amantes, com músicalidade marcante, de loops intensos, bateria acústica forte e guitarras muito bem compostas, que complementam o tom gritante do vocal distorcido de PJ Harvey. Finalmente temos a faixa título do disco, que surpreende ao despir-se quase inteiramente do eletronismo e priorizar uma musicalidade mais simples e sensual, baseada em bateria, um baixo de acordes fantasticamente esparsos e vocal lento e preguiçoso da cantora. A letra fala sobre mais um casal refletindo sobre o estado de seu relacionamento desigual.
Apesar de Is this desire? flertar com ruídos e sonoridades compostas sinteticamente, o produto final tem mais alma rock do que se poderia imaginar. Isso é resultado de uma produção muito bem planejada, que priorizou a utilização de experimentações apenas dentro do exigido. De musicalidade sofisticada e temática que explora romances marginais despedaçados pela confusão e imaturidade emotiva de seus personagens e pelas fatalidades da vida, este é um dos melhores álbuns de rock que já tive a sorte de ouvir e se faz obrigatório para entender a trajetória desta artista complexa e inovadora que é a britânica PJ Harvey – mais do que obrigatório para fãs de música. Baixe já o disco utilizando o link e senha abaixo.

senha: seteventos.org

http://www.megaupload.com/?d=GLQVZ1A2

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005