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Tag: cinema europeu

“Minha Vida Sem Mim”, de Isabel Coixet. [download: filme]

my life without me (2003)

Ann, uma jovem casada e com duas filhas, descobre, depois de sofrer um desmaio repentino, que tem um tumor em metástase avançada. O resultado: não mais do que dois meses de vida. Tendo em mãos esse prognóstico, Ann decide tomar algumas medidas antes de sua morte.
A partir da idéia do livro de Nanci Kincaid, a diretora Isabel Coixet explora a descoberta, por uma jovem mãe de família, de sua morte iminente e as resoluções, tomadas por ela, a partir desta descoberta. Se caísse nas mãos erradas, a história da jovem que vive em um trailer nos fundos da casa da mãe, que sobrevive como faxineira em uma escola e que casou e engravidou na adolescência do único homem com que se envolvera na sua vida, certamente acabaria virando folhetim da pior qualidade, um inevitável dramalhão inundado pelo sentimentalismo mais barato e pela pieguice mais óbvia, que de quebra serviriam como veículo perfeito para a chamada “superinterpretação” do mais ávido candidato à receber uma estatueta dourada californiana. No entanto, nas mãos dessa diretora espanhola, a sensibilidade não é afogada pelo lugar-comum e por um elenco de olho em premiações fáceis. Ao contrário, ela ganha elegância, classe, inteligência e muita delicadeza: ao invés de dar chance à uma tsunami de desespero, sofrimento e amargor auto-inflingidos pela sensação de impotência frente ao destino inevitável, ou mesmo ao seu oposto extremo, ao hedonismo irrefreado, devidamende despertado por uma turnê de experiências inconsequentes na tentativa de viver tudo o que não vivera até então, a diretora-roteirista faz com que a protagonista, antes já uma mulher equilibrada e conformada com sua realidade, mergulhe em um estado de ainda maior compreensão sobre sua situação, que a faz encarar a inevitabilidade e proximidade de sua morte com uma serenidade implacável, dando-se ao direito de derramar apenas algumas poucas lágrimas enquanto busca muito mais reafirmar o que viveu e vive do que saborear novas experiências. E o elenco, composto apenas de nomes modestos do cinema norte-americano, auxilia não apenas pelo seu desempenho na medida exata – particularmente o de Sarah Polley, que voltaria a trabalhar com a diretora no seu próximo longa, já comentado por aqui -, mas também pela credibilidade e verossimilhança que concede aos seus papéis de pessoas comuns – algo muito trabalhoso de ser atingido com as estrelas e astros de Hollywood de beleza perfeita e fama imensa, que dificilmente conseguem imprimir o realismo que um rosto menos popular imprime.
E isso tudo faz a diferença entre este longa-metragem de Isabel Coixet e tantos outros que já vimos sobre os “bastidores” da jornada para a morte de um ser humano: ao invés de explorar a emoção do público como em uma montanha russa, onde todas as sensações parecem intensas mas, na verdade, não vão além de experiências falsas e fulgazes, “Minha Vida Sem Mim” o faz com a mesma sutileza de uma paisagem passageira à janela de um trem em movimento, que deixa em quem a observa sensações bem mais indeléveis e verdadeiras.

Baixe: “Minha Vida Sem Mim”, de Isabel Coixet (My Life Without Me, 2003)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

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“Senhores do Crime”, de David Cronenberg [download: filme]

eastern promises (2007)

Obstetra, sensibilizada com a morte de uma garota de 14 anos no parto, procura dados sobre sua família, no diário encontrado com ela, para poder informar sobre o nascimento do bebê. É através deste diário que ela entra em contato com uma família de mafiosos russos em Londres, colocando em risco a vida dela e de sua mãe e tio.
David Cronenberg já foi conhecido por explorar a loucura, o estranho e o surreal em filmes de suspense, terror e ficção científica. Nestes longas, a sua obsessão com o corpo, abordando-o e explorando-o de forma bizarra, era conhecida como a sua marca registrada. Desde “Marcas da Violência”, Cronenberg mudou radicalmente o foco de seu cinema: mesmo que, de alguma forma, ainda mostre sinais de sua fixação pelo orgânico – presente no detalhismo da violência que gosta de expôr -, esta passou a ser mero reflexo do ambiente e temática que agora decidiu explorar, a do submundo do crime. Nesta esfera narrativa, o diretor canadense decidiu explorar personagens que, de algum modo, desestabilizam este ambiente: enquanto no longa anterior seu foco caiu sobre alguém que queria deixar de pertencer à este mundo, em “Senhores do Crime” ele inverteu a premissa, colocando como um dos protagonistas um homem que se esforça para entrar nele, mas que ao mesmo tempo evita os excessos típicos dos que dele fazem parte – ambos interpretados nos dois filmes pelo mesmo ator, Viggo Mortensen. Uma característica interessante do roteiro é que ele tem uma tendência a poupar o excesso de desgraças shakespearianas que é típico do gênero, mas ao mesmo tempo, a certa altura do filme, ele também torna-se um tanto previsível, visto que já se pode antever algumas coisas relativas à um dos protagonistas, e ainda acaba, nos seus últimos minutos, deixando de retratar eventos que poderiam incrementar o seu epílogo, preferindo apenas citar a resolução de tais eventos ao avançar no tempo e mostrar o destino que os personagens tomaram. Tais problemas na concepção do roteiro, bem como a própria condição linear e tradicional de “Senhores do Crime”, fazem do longa-metragem apenas mais um que se alinha à média dos que tematizam sobre a máfia e o mundo do crime. E isso, infelizmente, o faz estar bem longe de algo que se espera de David Cronenberg, que mesmo quando tem nas mãoes um material que pisa bem firme com o pé no chão é capaz de recheá-lo de sequências e soluções que lhe conferem a marca notória de seu cinema idiossincrático – como aconteceu em “Marcas da Violência”.

Baixe: “Senhores do Crime”, de David Cronenberg (Eastern Promises, 2007)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Baixe: legendas (português)

Download: subtitles (english)

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“A Vida Secreta das Palavras”, de Isabel Coixet [download: filme]

la vida secreta de las palabras (the secret life of words, 2005)

Hanna é uma garota parcialmente surda que, devido a sua personalidade introspectiva, incomoda seus colegas de trabalho pelo seu completo desinteresse em socialização. Por conta disso, ela é orientada a tirar férias. Tão logo ela chega no local escolhido ela se oferece, ao ouvir uma conversa em um restaurante, para a vaga de enfermeira em uma plataforma marítima de extração de petróleo, onde deverá tomar conta de um operário que sofreu um acidente. É neste lugar, e principalmente no contato com Josef, o enfermo, que Hanna começa a modificar o seu temperamento – o que vai revelar coisas um tanto dolorosas sobre a vida de ambos.
“A Vida Secreta das Palavras” acerta nos dois pontos cruciais onde o filme comentado aqui na semana passada falhou retumbantemente. No que tange à construção de personagens, a diretora e roteirista fez um belo trabalho ao desenhar pessoas que cativam o espectador, a despeito de todos os personagens terem, em alguma medida, um desinteresse pelo convívio social: tanto os protagonistas, encarnados por Sarah Polley – que faz uso econômico de expressões, de falas e de olhares para a construção de uma mulher conscientemente reclusa, que nutre uma aparente falta de ânimo e interesse por tudo – e Tim Robbins – que retrata de forma equilibrada a personalidade expansiva de Josef, dado à incessantes piadas de cunho sexual e flertes, mas que logo também revela-se sensível e culto -, quanto os personagens periféricos, como o chefe da plataforma, o cozinheiro e o oceanógrafo, exibem carisma suficiente para manter não apenas o público atento, mas também verdadeiramente interessado no porvir de suas histórias.

la vida secreta de las palabras (the secret life of words, 2005) movie stills 01
Protagonistas tão diferentes com dores tão particulares em um filme que emociona sem nunca cair no sentimentalismo fácil

E à estas histórias, contidas no argumento do filme, Isabel Coixet dedicou especial cuidado, compondo-as carregadas de um drama que, apesar de sua visceralidade e cores fortes, nunca cai no sentimentalismo fácil e barato pelo modo como são desvendadas – com cautela e sem muita pressa. O trabalho conjunto destes aspectos, auxiliados ainda por uma trilha sonora sofisticada, que traz canções de artistas como Tom Waits, David Byrne, Antony and the Johnsons e Chop Suey, forma um longa-metragem que expõe tragédias, tanto as pessoais como as que são frutos dos horrores cometidos pela humanidade, de uma forma discreta e sutil, permitindo-se mostrar apenas o suficiente para que a platéia seja sensibilizada por estes personagens imobilizados pelo sofrimento causado pelas suas tragédias, que faz alguns deles viver de forma automática, quase mecânica, na esperança inconfessa de algo que os remova desta agonia silenciosa.

Baixe: “A Vida Secreta das Palavras”, de Isabel Coixet (La Vida Secreta de las Palabras/The Secret Life of Words, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

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“Contraponto”, de Terry Gilliam. [download: filme]

TidelandJeliza-Rose é uma garotinha tão estranha que, sem o menor pudor, auxilio o seu pai no consumo de drogas. Tão logo sua mãe, igualmente viciada, morre por conta de uma overdose, ela acompanha seu pai na viajem à “Jutilândia”, tão prometida por ele diversas vezes, tendo como primeira parada a casa abandonada de seu avó, jogada em meio à uma paisagem vasta e rústica que alimenta ainda mais a já fantasiosa mente de Jeliza.
“Contraponto”, baseado no livro de Mitch Cullin, tem o mérito de figurar como um dos piores, se não o pior, longa-metragem de toda a filmografia do diretor Terry Gilliam. Seus problemas são unicamente dois, e um derivado do outro – personagens e roteiro -, mas a intensidade deles é tamanha que mais nada dentro da concepção do filme consegue cativar suficientemente o espectador para que uma avaliação minimanente positiva dele seja feita. A lógica da problemática é bem simples de se entender: se os protagonistas do filme – um rockeiro fracassado e viciado cujo momento de maior proximidade com sua filha é quando pede para esta que a ajude a preparar sua dose diária do heroína; uma taxidermista com fobia de abelhas tanto quanto de pessoas, e que só vê como possível estabelecer relações com estas depois de mortas e devidamente empalhadas; seu irmão com problemas mentais, perdido em ilusões marítimas e ambições um tanto quando destrutivas e, finalmente, a gatorinha Jeliza-Rose, que passa seus dias inundando-se em fantasias com as quais cresceu sempre acostumada a confundir com a realidade – falham em despertar a menor dose de simpatia no público, a estória que os envolve, se já não parece interessante – pois apenas retrata as ilusões da garotinha, sozinha na casa abandonada de sua vó e em contato com gente desprovida de qualquer interesse em estabelecer comunicação com a realidade -, tem essa feição ampliada ainda mais pela falta de empatia dos personagens, tornando-se um verdadeiro teste de paciência cinematrográfico. Visto que estes dois aspectos são a base da formação de qualquer bom filme de ficção, fica difícil elogiar qualquer outro componente ou característica de “Contraponto” – mesmo que eles tenham algum vago caráter de qualidade, sua importância frente à dos personagens e do roteiro é consideravelmente menor.
Mas Terry Gilliam é assim mesmo, um homem de extremos: quando o diretor britânico, ex-integrante do grupo Monty Python, acerta a mão, geralmente ele o faz de maneira sublime – como em “O Pescador de Ilusões” e “12 Macacos” -, mas quando ele erra, ele o faz em igual medida, cavando fundo a cova do seu próprio filme. Se ele continuar acertando uma vez a cada dois equívocos, já vale o serviço prestado ao cinema – e como “Contraponto” é o seu segundo equívoco seguido, vamos torcer para que o próximo seja um acerto realmente compensador.

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senha: contempt

legendas disponíveis (português) [via legendas.tv]:
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“Estamos Bem Mesmo Sem Você”, de Kim Rossi Stuart. [download: filme]

Anche Libero Va BeneGaroto, criado pelo pai na companhia da sua irmã mais velha, vê o cotidiano de sua enxuta família ser interrompido pela chegada repentina de sua mãe, que já outras vezes abandonou e retornou ao convívio de filhos e marido por conta de romances ao lado de homens financeiramente mais estáveis.
Ao deparar-me com a notícia deste filme do ator e diretor Kim Rossi Stuart – que também atua no papel do pai desta família disfuncional – tive a esperança de encontrar mais um longa-metragem italiano que herdasse o estilo sóbrio e elegantemente sensível de “O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti – há até uma cena de “cantoria automotiva descontraída” muito semelhante à do filme de Moretti e que, sem dúvidas, confessa abertamente a inspiração no cinema deste diretor. Mas a expectativa foi frustrada por um certo gosto pelo exagero mais italiano e pelo dramalhão mais mexicano, ambos devidamente alimentados pelo diretor e seus três co-roteiristas em mais sequências do que o que seria saudavelmente permissível durante o filme: tanto o personagem de Renato, o pai, hora com seus arroubos de fúria e em outras com sua constrangedora animação exacerbada, quanto Stefania, a mãe, que passa a maior parte do filme com cara de coitada vitimada, e por isso acaba não convencendo no momento que se veste de impetuosa e inoportuna coragem tentando desvencilhar-se da barreira sentimental (desconfiança) que tem com seu filho, são responsáveis pelos momentos mais irritantes e constrangedoramente piegas – a redundância é necessária, acreditem – do longa-metragem. E com tudo isso, quem sai ganhando é o personagem do filho caçula, Tommaso, que é – não por acaso, provavelmente – o verdadeiro protagonista deste filme, guiando com seu olhar melancólico, sua desconfiança silenciosa e sua perspicaz maturidade todo o filme. O garoto, de um lado sentindo-se por vezes atropelado pelo pai turrão e opinioso e de outro sentindo-se invadido pela intimidade forçada e falsa que sua “mãe esporádica” quer construir faz crer que não poderia ter outro comportamento se não o de uma criança comedida e um tanto tímida. No entanto, entendo como sendo esta a natureza própria da personalidade de Tommaso, muito mais do que fruto de um trauma ou desgosto com os descaminhos de sua família – e o comportamento mais fartamento emotivo, jovial e alegre de sua irmã, envolvida nos mesmos episódios desta família, serve para mostrar que isso é verdade. É por conta unicamente de sua presença sempre delicada e por mostrar o quanto os pais muitas vezes erram ao considerar sempre como algo não-saudável o comportamento arredio, solitário e tímido de uma criança, sem nunca parar para refletir que esta pode ser uma das muitas possíveis personalidades que um ser humano pode vir a desenvolver, e que isto deveria ser visto como algo muito natural e não como algo nocivo, que “Estamos Bem Mesmo Sem Você” vale ser assistido – não fosse o roteiro repleto de passagens do mais barato folhetim e o prazer do diretor em evidenciá-los ainda mais, o filme poderia deixar muito mais do que isso para o espectador.
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legendas (português) [via legendas.tv]
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“Coisa Ruim”, de Tiago Guedes e Frederico Serra. [download: filme]

Coisa RuimAo mudar-se de Lisboa para um vilarejo, uma família começa não apenas a viver conflitos no relacionamento de seus membros, mas enfrenta também a ocorrência de fenômenos estranhos nos domínios da residência antiga que veio a ocupar.
Este filme ganhou a fama de adentrar em um gênero que não é comum a produção de longa-metragens portugueses, o do terror. Contudo, não é difícil peceber que “Coisa Ruim” não é bem, na verdade, um filme que pertence à este estilo: apesar de o argumento composto por Rodrigo Guedes de Carvalho apoiar suas linhas básicas em uma história que possui características muito comuns ao terror, tanto a forma como esta temática foi desenvolvida e aprofundada pelo roteirista, bem como a abordagem dada pelos diretores Tiago Guedes e Frederico Serra, mais afasta “Coisa Ruim” do parentesco com este gênero do que o aproximam dele: a condução lenta, onde os acontecimentos tomam lugar de forma vagarosa, evitando a todo custo o artifício do repentino, um dos traços mais emblemáticos do terror, o modo como as feições do sobrenatural e fantástico da história são explorados de forma comedida, dificilmente assumindo a dianteira nas cenas, a utilização de uma trilha sonora atípica, que com distorções de guitarra e baixo faz algo bastante diverso do obtido com a tão usual orquestração de cordas, tudo aqui contribui para tornar este um “filme de terror” que se recusa a sê-lo de todo.
Mas, a propósito, qual seria a importância em rotulá-lo, classificá-lo, catalogá-lo? Talvez, o grande mérito de “Coisa Ruim” esteja justamente neste ponto: apesar do bom desempenho dos atores – muito naturais em seus papéis – do roteiro sóbrio – que faz boa inserção de crendices e lendas no decorrer dos eventos retratados – e da direção competente – que explora bem os cenários naturais e faz uso econômico tanto do enquadramento quanto do movimento de câmera – nunca alcançarem níveis de excelência e sublimação que o tornassem um longa-metragem excepcional, a já citada atipicidade dos artifícios nele utilizados e da abordagem dada à uma história desta natureza, que impedem o seu enquadramento e agrupamento à um gênero em particular, é que foram responsáveis pela sua popularidade insólita, pela recepção tão positiva por crítica e público. É apenas isto que faz de “Coisa Ruim” um filme a ser visto: faltam-lhe predicados que lhe garantissem o selo de um grande filme, mas toda essa sua simplicidade trabalha a favor do seu caráter extremamente incomum.
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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005