Tomado pela fúria após perder sua amada, o príncipe Vlad é amaldiçoado por Deus por profanar e blasfemar, tornando-se um vampiro. Após séculos de procura, Vlad encontra a reencarnação de sua amada e planeja reunir-se com ela.
Dirigido, produzido e adaptado do clássico de Bram Stoker por Luc Besson, a mais nova encarnação de Drácula é entregue em um pacote muito bem produzido e luxuoso, em um surpreendente orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, o que demonstra que o cineasta francês detém a capacidade invejável de aproveitar ao máximo um orçamento modesto, algo há muito tempo desconhecido por seus colegas de Hollywood – os grandes trunfos de seu mais novo longa-metragem, porém, param por aqui.
Por ter sido batizado de “Drácula – Uma História de Amor Eterno”, era de se supor que Besson colocaria um pouco mais de foco no romance entre Drácula e sua amada Mina, que é a reencarnação de Elisabeta. Na realidade, a versão de Luc Besson é um romance de fato, e o horror, gênero intrínseco à lendária história criada pelo britânico Bram Stoker, é tão atenuado que chega ao ponto de subordinar-se ao cerne romântico do longa-metragem.
Mas além de ser desbotado nesta versão do clássico, adicionalmente o horror também tem que dividir espaço com um hóspede estranho, que como um vampiro é convidado a entrar pelo diretor e roteirista francês e acaba por “parasitar” o enredo: o humor. A maior vítima deste “parasita” é Van Helsing, que ao ser removido do enredo leva consigo a tensão da história original. Em seu lugar é trazido o maior agente humorístico, o padre-investigador de Christoph Waltz, criação do cineasta francês, que enfrenta todos os perigos com a graciosidade de um bailarino. O humor, porém, não tem apenas o representante de Deus em sua defesa: Jonathan Harker, noivo de Mina/Elisabeta, e os curiosos servos do castelo do príncipe vampiro, outra criação original de Besson, também são seus agentes no enredo. Besson atenua o horror, ressalta o romance e introduz o humor em sua adaptação do clássico de Bram Stoker
Mas é ao finalizar a primeira parte da história que Besson abandona qualquer vestígio de horror e consuma a visão que traçou para o Conde. Para tanto, o francófono aplicou mais duas mudanças cruciais que atuam neste sentido. No segundo ato, Besson desloca o palco da trama de Londres para Paris, acabando por dissipar a densidade da atmosfera gótica da história clássica em detrimento do ambiente de frivolidade da capital francesa, o qual utiliza para promover o reencontro do príncipe com sua amada e retomar a relação de ambos. E na conclusão do enredo (não se preocupe, evitarei spoilers), o cineasta francês aplica aquela que é certamente a mudança mais controversa, operando através do padre-investigador de Christoph Waltz para alterar o desfecho do príncipe vampiro, que não apenas contrasta com a resolução da trama original como destoa da própria narrativa do Drácula projetada pelo próprio Besson no decorrer de todo o seu filme – é tão abrupto e incoerente que você se detém para confirmar se aquilo realmente aconteceu.
Ao término, a impressão que Luc Besson deixa com seu longa-metragem é de que ele diluiu todos os elementos mais simbólicos da história (inclusive o sangue) para adequar seu filme a geração acostumada com as produções algorítmicas da Netflix e com a futilidade da Marvel Disney, num filme que, assim como parte significativa da produção dos dois estúdios citados, é colocado num catálogo para ser consumido, descartado e esquecido logo em seguida – ironicamente, não muito diferente do que faria Drácula com suas próprias vítimas.
O casal Georges e Anne, no alto do seus 80 anos, tem sua rotina alterada quando Anne começa a apresentar sinais de uma enfermidade crônica.
Depois de assistir “Amor”, alguns críticos afirmaram que este é o filme no qual o característico estilo frio, seco e analítico de Michael Haneke se manifesta com mais força, mas acredito que é na verdade a combinação do estilo com a temática incômoda que acaba por tornar esse um dos filmes mais difíceis do diretor. Basicamente duas horas de um tour de force do processo de degradação da saúde de uma senhora de 80 e tantos anos, o longa metragem vai se tornando cada vez mais indigesto à medida que avança, sua última hora sendo a mais angustiante. Com o desfecho revelado logo no início, o espectador que tem a noção de que o diretor austríaco é um observador inclemente por natureza já imagina que enfrentará todo o restante do longa apenas para testemunhar a jornada de sofrimento, desilusão, e desesperança que Anne e George irão encarar – Anne penando por estar consciente de seu estado, por conformar-se com seu destino e inconformar-se com demonstrações de tristeza e piedade; Georges sofrendo com a afirmação desta de que representa um estorvo para ele, com o modo pragmático como Anne às vezes manifesta querer solucionar sua condição e principalmente por presenciar a veloz e severa deterioração da saúde de sua companheira de toda vida.
Por conta de seu naturalismo irrevogável – visível na fotografia em grande parte impessoal e compassiva e na quase completa ausência de trilha sonora – e de sua enorme proximidade com o teatro – praticamente toda a história se passa dentro do apartamento do casal -, “Amour” é um espetáculo pensado para seus poucos atores. Na pele do casal de protagonistas, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva exploram todo o peso e a experiência da idade em suas expressões e gestos, sendo até mesmo seus silêncios marcados por uma carga imensa de significados, mas é Riva, por conta da galopante piora de sua personagem, que acaba ficando com a atuação mais complexa e extenuante dentre os dois: seu trabalho é tão intensamente verdadeiro que na última metade do filme o espectador respira fundo e move-se inquieto na cadeira do cinema a cada vez que uma cena com a atriz é apresentada. A sempre irreprimível Isabelle Huppert, musa de Haneke, tem poucas sequências no longa no papel da filha do casal, mas estas são suficientes para que a atriz imprima o desespero, a dor e a impotência de uma filha diante do penoso processo de morte de alguém que lhe concedeu a vida.
Não há muito mais o que falar sobre “Amor”, a não ser que por conta de toda esta objetividade o filme acabe sendo um tanto previsível, além de arrastar-se um pouco além do necessário, coisas que o tornam o menos pungente longa-metragem do diretor austríaco. Contudo, a lentidão narrativa é uma marca já bastante conhecida do cinema de Haneke, e raramente utilizada por ele de modo gratuito, e o desenvolvimento e desfecho algo previsíveis são intencionais e inevitavelmente necessários – o propósito de um diretor tão engajado como Haneke narrando uma história como esta não é surpreender, mas atestar de modo contumaz o que já é de conhecimento do público, mas que é pouco considerado por este. Assim, despido como é de qualquer artifício que não seja a espinha dorsal do cinema e materializando-se como a mais explícita confissão de que o diretor tem tão pouca misericórdia de seus personagens quanto tem dos espectadores, “Amor” é a obra-síntese absoluta do cinema direto e incisivo de Haneke. Isso, no entanto, não significa que o diretor pormenorize a emoção: é delineando ao seu modo preciso e mordaz as dores e o sofrer do envelhecimento, da enfermidade e da morte que Haneke afirma a vida, o companheirismo e, claro, o amor. A diferença é que, sendo quem é, Haneke o faz sem as concessões, os misticismos e os esoterismos de boutique. Ainda bem.
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No dia do seu luxuoso casamento, realizado no castelo do marido de sua irmã Claire, Justine pressente que a Terra perecerá em uma colisão dentro de pouco tempo com um imenso planeta chamado Melancolia.
A primeira impressão que se tem de “Melancolia”, minutos após tê-lo assistido, é que, assim como aconteceu em “Anticristo”, Lars Von Trier não esmerou-se muito na trama, já que pouca coisa de fato acontece, e assim concentrou todos os seus esforços em alimentar uma vez mais suas obsessões estéticas. Mas analisando com mais cuidado, observa-se que apesar de partilhar alguns “cacoetes” artísticos com o filme anterior, “Melancolia” é um trabalho no qual o diretor dinamarquês, ainda bem, recuperou boa parte de sua força e sensatez artística, tanto no que se refere à estética quanto ao seu conteúdo.
No que tange à primeira instância, visualmente “Melancolia” é um trabalho sóbrio e equilibrado. Ao contrário do filme anterior, estilizado ao extremo pela utilização constante de diferentes combinações técnicas, fossem elas produto da filmagem, fotografia ou edição, desta vez o diretor dinamarquês decidiu adotar um estilo mais sóbrio e consistente: à exceção do longo prólogo ao som do prelúdio de “Tristão e Isolda”, onde Trier despejou todo o seu ardor estético, o restante do filme sustenta-se sobre uma estética requintada, simples e direta, onde apenas dois elementos acabam se sobressaindo por sua utilização um pouco mais ostensiva como artifícios da narrativa: o já citado prelúdio da ópera de Wagner, que em meio à aridez sonora pulsa como o prenúncio da fatalidade, e a imagem imponente e traiçoeiramente plácida do gigantesco planeta Melancholia, que ganha cada vez mais peso na segunda parte do filme.
Mas é na instância primeira de qualquer filme, o roteiro, que residem as grandes virtudes do novo longa-metragem de Lars Von Trier. Montando a trama sobre uma estrutura clara e sólida – um prelúdio que resume os eventos da história, mais dois atos, cada um centrado em um protagonista e um evento (Justine e sua festa de casamento e Claire e o advento do fim do mundo) -, o diretor e roteirista vai desenvolvendo com calma os personagens – é sem pressa que, por exemplo, compreende-se a razão do comportamento um tanto bipolar de Justine na festa do seu matrimônio, quando alternou momentos de sincera alegria com intenso desgosto pelo evento que a cercava -, e explorando vagarosamente a trama tanto para atingir sem resvalos seus propósitos, quanto para não obscurecer o peso do seu próprio desfecho, que por ter sido revelado ao público nos seus primeiros minutos acaba, ironicamente, por despertar ainda maior ansiedade. Assim, retomando total poder sobre seu característico talento em devassar o âmago dos seus personagens (contando pra isso, claro, com o trabalho soberbo de todo o elenco, principalmente das duas protagonistas) e amarrando este processo à própria mecânica de desenvolvimento da trama, o diretor dinamarquês faz da primeira parte do filme tanto o fundamento psicológico que explica o modo como os personagens vão reagir à iminência do fim do mundo quanto uma analogia à própria hecatombe ao mostrar o quão sem sentido são os ritos e formalidades que infestam nossa vida e o quão cínicas e demagógicas são as relações humanas e a vida de aparência construída pela maioria. Deste modo, a festa de casamento de Justine é metaforicamente o próprio fim do mundo, e não metaforicamente a ilustração clara e absoluta da declaração dada pela personagem à sua irmã na derradeira segunda parte do filme: “The Earth is evil. We don’t need to grieve for it”. E não há mesmo porquê sofrer: Lars Von Trier desintegra a Terra e toda a vida existente no universo em um impiedoso exercício de niilismo e pessimismo, mas é ao fazer tudo isso que se redime, com folga, dos excessos de suas últimas obras – ironia tão ao gosto do diretor que, não fosse pura arbitrariedade, poderia pensar ser absolutamente proposital.
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Habitantes de cidade francesa tem que lidar com o retorno de milhares de pessoas que estão entre as 70 milhões por todo o mundo que voltaram repentinamente à vida, todas mortas nos últimos 10 anos e, na sua maioria, idosos.
Embora trate do retorno de milhares de mortos e concentre a retratação do evento à uma cidade, como é tradição dos filmes de zumbis produzidos há tantos anos por Hollywood, o longa-metragem do diretor francês Robin Campillo tem pouca – ou nenhuma – semelhança com estes, afora o fato de utilizar-se de mortos-vivos.
Com direcionamente bem diverso dos filmes que abordam a temática, “Eles Voltaram”, afasta-se dos elementos clássicos do gênero, inclusive no que tange à atmosfera do filme. Enquanto estes tem como tônica o clima de horror pela exploração da violência cada vez mais gráfica, o diretor francês procura manter desde o início de seu longa-metragem a manutenção de uma atmosfera sutil e constante de suspense na história utilizando-se apenas de algumas inserções de uma trilha sonora soturna e, claro, também pela natureza extraordinária do evento que retrata. No roteiro criado em parceria com a roteirista Brigitte Tijou, ao invés de zumbis letárgicos (como nos filmes de George Romero) ou frenéticos (como na incursão de Danny Boyle e dos espanhóis Balagueró e Plaza pelo gênero) caçadores de carne e cérebro humanos, os falecidos do diretor francês acabam fazendo mais jus do que os seus antecessores ao termo “mortos-vivos”, uma vez que surgem de volta à realidade sem a autenticidade da identidade que tiveram em sua primeira existência: retornadas, estas pessoas mostram-se como cópias de si mesmas, do que foram, que só mantém uma rotina de comportamento recorrendo aos poucos registros na memória dos afazeres que mantinham enquanto “vivas”. E como as poucas manifestações afetivas são fruto deste mesmo artifício – ou seja, sentimentos reproduzidos – os “retornados” do filme francês são o que mais próximo se poderia imaginar de seres viventes sem uma “alma” – o que se percebe é que para eles tudo é indiferente, inclusive as emoções dos que estão a sua volta.
Isso só torna ainda mais conflituoso o outro lado do evento, bem explorado por Campillo: a reação dos ainda vivos, seja no plano pessoal ou da coletividade. No primeiro campo, as reações dos parentes e conhecidos ao ver, lidar e conviver novamente com os seus entes antes mortos vão da mais feliz expectativa pelo retorno à recepção mais fria, distante e receosa. A preocupação e frustração com o estado em que retornaram seus parentes e conhecidos, e consequentemente com o futuro destes é mais visível no último grupo, mas ela é subreptícia à todos, sem exceção, sendo apenas reprimida pela constante negação deste fato por aqueles que tentam convencer-se de não há nada de incomum com os “retornados” – e isso, como vai se descobrindo, é bastante inútil. Já no campo da coletividade, desde o seu início “Eles Voltaram” faz excelente retrato da situação que se já é insólita pela sua própria natureza, torna-se ainda mais quando encarada do ponto de vista pragmático de seu impacto sócio-econômico, uma vez que as famílias e a sociedade repentinamente deparam-se com a obrigação de readequar, readaptar e recolocar milhares de pessoas que não tem mais seu lugar no mundo e na vida dos seus familiares ao espaço que haviam deixado com suas mortes e que, na maior parte dos casos, espaço que já nem existe mais.
Toda essa preocupação acaba revelando às autoridades sinais de que há algo em comum e estranho no comportamento dos “retornados”, algo de natureza coletiva, mas a conduta aparentemente distante deles leva a sua relevância a ser desprezada. Esse é o momento que o filme começa a preparar a virada no final da história, e que paradoxalmente acaba não sendo. Como, no entanto, ficam pouco claras explicações e motivações para o evento final e resta apenas o óbvio como a sua razão, a resolução converte-se em algo um tanto frustrante e, por ser óbvia, também previsível. Porém, deve-se considerar que, dado o caráter da história, não restariam muitas opções – uma outra alternativa, talvez, fosse não dar qualquer resolução aos “retornados”. Assim sendo, fosse com uma ou com a outra, acabaríamos mesmo sem explicações e igualmente frustrados, apesar de que provavelmente este não era mesmo o objetivo do longa-metragem francês – ainda que fique a impressão contrária.
Porém, isso não desfaz os êxitos do longa, e que são certamente a sua razão de ser. A discreta ambientação soturna, que converte um meio urbano pacato em um local perceptivelmente obscuro, o clima sólido e sutil de suspense e o retrato simultâneo de desorientação de vidas em particular por dolorosamente redescobrir que o que foi perdido não volta e de toda uma sociedade pelo despreparo em lidar com uma situação inédita são suficientes para mostrar que Robin Campillo é um diretor a ser acompanhado. Apenas, talvez, tenha lhe faltado nesta sua estréia calibrar a sua propensão à sutileza e discrição com uma maior contundência no desenho das situações e personagens. Contudo, se ele preferir não encontrar este equilíbrio, suspeito que seu estilo será marcado pela mesma impassibilidade que seus zumbis demonstram tão bem dominar.
O cantor Marc Stevens, procurando o rumo do local onde faria uma apresentação natalina, perde-se no trajeto noturno em meio à uma floresta desconhecida. Logo encontra alguém e recebe abrigo em uma pousada, sem saber o que o aguarda no lugar.
Filmes como este batem de frente com a cômoda expectativa do público em geral, que apesar de se dispor com razoável tranquilidade a testemunhar a jornada de horror e miséria de um protagonista, o faz dentro daquilo que veio ou foi condicionado a considerar como parâmetro ou conceito para esse tipo de história – idéias pré-concebidas que certamente não correspondem com o roteiro preparado pelo diretor Fabrice Du Welz para “Calvário”, um requinte da bizarrice que não apresenta qualquer garantia de resolução compreensível pontuado por elementos transgressores desconcertantes no destrinchar de temores do ser humano ao se ver encurralado e aprisionado em um ambiente estranho povoado por uma comunidade no mínimo incomum.
É exatamente aqui que já se percebe a primeira instância que dá ao filme seu caráter aterrador e estranho. O elenco de “Calvário” tem suas performances não apenas em sintonia entre si, o que dá ao espectador a exata impressão de que eles realmente fazem parte de uma comunidade, mas também atuam dentro de dimensões precisas de desvio psicossocial, encobrindo um lobo lunático na pele de um cordeiro com certas doses de esquizofrenia ou sem esta necessidade de disfarce para o predador, refletindo assim a condição de desequilíbrio certamente descrita no roteiro, ainda apoiada pela caracterização física que reforça esta condição. Como em “Amargo Pesadelo”, o protagonista repentinamente se depara com uma realidade bizarra
O trabalho excepcional do diretor e sua equipe nos aspectos técnicos é o outro elemento que fundamentalmente contribui para a manutenção, apoio e potencialização do clima de suspense e ameaça que nasce no roteiro e vai sendo delineado ao longo do filme. A atmosfera seca é o elemento que torna palpável o peso aterrador concedido à narrativa, por mais insólita que ela pareça, conferindo assim contornos realistas à uma história que eu diria não o ser em boa parte: a quase inexistência de trilha sonora, a utilização de som captado diretamente nas cenas e a fotografia estudada – que me recordou de “Silent Hill” – que ressalta e denuncia a hostilidade do ambiente, encobrindo-o em uma escuridão quase satânica ou em uma névoa apavorante, constroem e compõe o cenário de modo a tornar a via-crúcis inacreditável e um tanto surreal do protagonista tão real e possível aos olhos do público quanto o seu trajeto cotidiano para o trabalho – e isso sem apelar para violência gráfica excessiva e gratuita ou sustos vulgares.
Ironicamente, é essa a ambivalência de sua concepção, a transgressão presente em sua temática e a violência gráfica quase inexistente, que afasta “Calvário” de boa parcela do público. A primeira faceta deixa os mais puritanos e conservadores ultrajados, enquanto a segunda não chega a suprir o desejo feroz dos maníacos pelo terror gore em ver sangue e vísceras sendo espalhados pela tela. Impossível agradar a todos, claro – mas certamente que o desejo de Fabrice Du Welz nunca foi este, mas sim agradar aos que enxergam mais no terror e suspense do que serras elétricas e matadouros disfarçados de albergues.
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Psicólogo tenta fazer a esposa superar a perda do filho de três anos, morto por cair da janela do apartamento enquanto os dois faziam sexo. Para tanto, ambos se isolam na cabana de uma floresta chamada por eles de “Éden”. Uma vez lá, a relação entre os dois torna-se estranhamente perigosa.
“Anticristo”, mais recente filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier, é o mais perfeito exercício de todas as suas idiossincrasias, tanto em estilo, quanto em conteúdo e também no efeito pretendido sobre o espectador e a crítica. Isso, porém, não quer dizer que este seja o seu melhor trabalho: é justamente pelo diretor ter se aplicado tanto em derramar suas obsessões cinematográficas que cada um destes componentes foi subvertido em um empreendimento marcado por falhas.
Primeiramente, no que tange ao estilo, “Anticristo” é um apanhado das técnicas experimentadas por Von Trier em sua carreira. A direção de fotografia de Anthony Dod Mantle e a condução das cenas do próprio diretor combina e contrasta o apuro visual de filmes como “Europa” com o naturalismo à la Dogma 95 de “Os Idiotas”, a filmagem ao mesmo tempo intimista e livre oriunda de “Ondas do Destino” com a cuidadosamente planejada, presente em sequências de “Dogville”, a montagem e edição abrupta e seca vista nos diálogos de “Dançando no Escuro” com a cautelosamente estudada e adornada, exposta novamente em “Europa”. Apesar de eu não poder afirmar que o resultado não seja homogêneo, muitas vezes o esmero é tão grande que subjuga a cena à técnica, o que potencializa a sensação de artificialidade. As sequências estilizadíssimas que abrem e fecham o filme, por exemplo, buscam conjugar uma atmosfera poética com tanto afinco que a beleza que ali se busca torna-se em boa medida intoleravelmente irritante. A cena que se segue pouco depois, com o passeio de Charlotte Gainsbourg pelo “Éden” retratado por uma fotografia que ressalta o obscuro da floresta e uma câmera lentíssima que objetiva ampliar a surrealidade e a sensação de suspense, é plasticamente fascinante e lembra muito o visual oniricamente perverso e sombrio do game e do filme “Silent Hill”, por exemplo, mas não obtém o efeito aterrorizante nem de um nem do outro. As obsessões estéticas do diretor dinamarquês por vezes suplantam os outros aspectos de “Anticristo”
Com referência ao conteúdo, muito se tem analisado e dissecado os vários elementos presentes nos diálogos e na narrativa de “Anticristo” para se chegar as possíveis significações do filme. Há quem veja uma alegoria que remete ao Gênesis bíblico, há os que enxergam o longa-metragem como uma expiação das próprias compulsões e crenças do diretor, apontando elementos que vertem misoginia, descrédito religioso e masoquismo físico e não-físico, outros já encontram uma representação moderna da perseguição secular às mulheres, há aqueles ainda que fundamentam-se na psicologia para encontrar ali um tratado da loucura, seus embricamentos e extensões enquanto mais alguns procuram no filme elementos de puro horror sobrenatural, apontando a natureza como personificação e também influência do mal. E existem até mesmo os que consideram que o filme congrega muitas destas interpretações conjuntamente. Pessoalmente, eu acredito que de fato há muitos destes diferentes significados sendo trabalhados de forma combinada em “Anticristo”. Observe-se, por exemplo, que o uso do símbolo do feminino na grafia do título do filme aponta a personagem de Gainsbourg como representação do mal, mas isso tanto pode fazer refêrencia ao contexto que interpreta o mal como derivado do mundo natural e presente nas mulheres por serem os seres mais intimamente relacionados à demanda natural, como à interpretação mais psicológica e realista, apontando-a como portadora de uma forma extremamente nociva e traçoeira de insanidade. O sobrenatural e surreal também não pode ser desprezado, já que ele é simbolizado no comportamento bizarro dos animais da floresta, mas eles se manifestam na interação que o personagem de Willem Dafoe tem com o mundo natural ao seu redor, o que dá espaço para interpretá-lo tanto no contexto de vítima como no de agente de toda esta perturbação, seja ela sobrenatural ou efeito de delírio. Pode-se até mesmo enxergar à ambos, ele e sua mulher, como portadores deste mal (sobre)natural, visto que ela comenta também conhecer algumas destas manifestações. No entanto, apesar de intrigante, a polissemia semântica não consegue atingir nível suficiente de densidade e de sustentação, diferentemente do que acontece no enredo metafórico de “Dogville” e “Manderlay”, as duas partes até agora produzidas da trilogia “Terra de Oportunidades”, fazendo o espectador de “Anticristo” sair da sala com a sensação de que faltou alguma coisa. Fosse incrementada uma das possíveis instâncias de significado, ou mesmo removida alguma delas, e talvez o filme ganhasse mais impacto no seu caráter semântico. A dupla de atores faz um belo trabalho, mas o filme não ajuda
Quanto as reações obtidas pelo filme, muito se tem falado, para o bem e para o mal de “Anticristo”, e isso não é novidade alguma. Deixar espectadores chocados, irritados ou mesmo enojados também é notícia velha em se tratando de Lars Von Trier. Não é de hoje que os filmes do diretor despertam tais reações na platéia – e muito disso é vontade confessa de Von Trier, é bom dizer. Muitos dos seus filmes anteriores também levantaram, em considerável medida, o mesmo tipo de reação onde quer que fossem exibidos. Por isso, alguns podem pensar que “Anticristo” seja o mais violento e cruel dos filmes de Lars Von Trier, e de certa forma, realmente é. Porém, penso que a questão não é simplesmente o fato do filme ser provavelmente o mais explicitamente violento, mas se era necessário que ele fosse explicitamente violento. Aliás, é preciso entender do que se trata o termo “explícito” neste filme antes. Ao contrário do que se possa pensar, o explícito aqui é bastante pontual: algumas cenas são realmente gráficas, mas diferentemente da impressão deixada elas são muito poucas, bastante breves e não tem qualquer paralelo com o espetáculo de carnificina do chamado cinema “torture porn”, o que faz as poucas vozes que declararam o parentesco de “Anticristo” com este gênero repulsivo serem fruto de um julgamento equivocado. Apesar disso tudo, confesso não entender a necessidade de sua presença. Por qual razão Von Trier fez questão de focar sua câmera na mutilação e em atos sexuais explícitos simulados e, diga-se, também não simulados, este, por sinal, exibido em close, com requintes de estilização e embelezamento em pouco mais de um minuto de filme? Chocar a platéia parece ser a única motivação. Mas o efeito teria sido muito mais profundo e indelével pela sugestão destes atos – nem preciso citar exemplos, os grandes marcos da história do cinema se encarregam disso. Como estão, por mais breves e poucas que sejam as cenas de violência e sexo desnecessariamente explícito, seu efeito me parece o exato oposto do que se tentou obter. Elas destoam, deixando um estigma um tanto barato no longa-metragem. Por mais que se discuta, se fale, se debata sobre a polêmica do conteúdo, são estes artifícios visuais supérfluos a primeira coisa que qualquer pessoa vai lembrar ou comentar.
“Anticristo” fica assim como o maior deslize até esta altura da filmografia de Lars Von Trier. Como os demais filmes do dinamarquês, há elementos intrigantes e fascinantes no longa-metragem, porém, o esmero excessivo que se converte em puro maneirismo visual produz um ruído na narrativa que só faz tumultuar e diluir o seu efeito, ironicamente desperdiçando a riqueza dos recursos técnicos e não-técnicos ali aplicados. Um exemplo é o belo trabalho de interpretação dos dois únicos atores de seu elenco, que perde grande parte de sua força ao sofrer constantes interferências dos excessos que o subjugam. Esta falta de limite e de considerável foco do longa-metragem é provável que seja fruto do estado perturbado em que ainda se encontrava o cineasta, recém-saído de uma de suas intensas crises depressivas. Penso que o mais sensato seria o diretor ter aguardado o completo reestabelecimento de sua capacidade criativa, algo que ele mesmo confessou não possuir suficientemente durante a produção do filme – só assim ele teria o discernimento necessário para notar que suas obsessões pessoais e artísticas encontravam-se num ponto por demais incensado.
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