Casal de classe média-alta recebe, certa manhã, uma fita de vídeo constando filmagem de longa sequência da entrada de sua residência, acompanhada ainda de um desenho obscuro de traços infantis. Não demora muito e outras fitas e desenhos sucedem-se, sendo que uma destas revela relação com as origens do patriarca da família. O apresentador de TV e sua esposa, ambos envolvidos com o mundo literário, sentem-se mais e mais ameaçados e intrigados com a origem das fitas e com as intenções de quem as produziu.
Juliette Binoche e Daniel Auteuil são as escolhas corretas para este que é o filme mais recente do alemão Michael Haneke. Os dois são atores excepcionais, capazes de desempenhar papéis de todas as gamas possíveis. Aqui, eles interpretam um casal culto de classe média alta, mas que tem, ao mesmo tempo, uma natureza ordinária – não são muitos os atores que conseguiriam unir estas duas diferente nuances no mesmo personagem. Saindo do mérito interpretativo, Haneke merece todos os elogios pois, como no seu filme anterior, arquiteta uma estória complexa que se esconde sob a abordagem clássica do cinema europeu. O que a primeira vista parece um argumento que explora a insegurança da vida urbana, mostra-se, em uma camada mais profunda, uma discussão bastante cara ao cineasta: a situação dos imigrantes na França deste início de século. Georges Laurent, o personagem de Auteuil, age baseado em motivações justas, procurando proteger sua família a todo custo, mas na tentativa de encontrar o mentor das fitas misterioras, Laurent define para si um culpado e, como no passado, humilha e recrimina alguém que já sofre e encontra-se em uma situação infeliz, sem nunca ter prova definitiva de que suas suspeitas procedem e suas ações justificam-se. Alguns poderiam afirmar que o personagem age deste modo porque encontra-se tão confuso quanto o expectador, já que Haneke não apresenta no filme respostas claras à estas indagações, porém não são as respostas às dúvidas surgidas a razão de ser de “Caché”, mas sim esta analogia, muito bem posta, entre as atitudes da França e dos franceses com relação à estrangeiros, particularmente aqueles originários das ex-colônias do país. “Caché” é excepcional em sua abordagem sociológica, mas também figura como um longa de expectação consideravelmente incômoda, devido à sua temática realista e seus conflitos eminentes e constantes. A decisão de não adotar trilha sonora durante todo o filme amplia o desconforto do expectador, potencializa o realismo da trama e aproxima-o ainda mais dos acontecimentos da estória. Além dessa secura na abordagem do longa-metragem, a maneira como Haneke exibe as filmagens dos cassetes, tomando a tela com as imagens destes, põe o expectador na mesma situação dos personagens que tem sua privacidade e segurança repentinamente ameaçadas – uma idéia que, combinada com a natureza do roteiro e de seus argumentos, explora magistralmente a relação entre filme e expectador, tornando esta relação insuportavelmente tensa, mantida em um desagradável suspense contínuo.
Haneke é, a cada filme, um dos cineastas europeus com a proposta mais consistente, aliada à uma técnica apurada e um gosto pela polêmica – não à de natureza gratuita ou leviana, mas a polêmica necessária, aquela que questiona e induz à reflexão. Além de muita coisa mais, cinema também é isso, uma maneira de despertar o pensamento humano sobre a realidade e a consequência de suas ações. Apesar de, até este momento, Haneke ter se mostrado um cineasta coerente, tenho que revelar que até mesmo ele rendeu-se aos encantos de Hollywood: neste momento, o diretor está finalizando uma refilmagem, com elenco americano, de um dos seus primeiros e mais contundentes longas, chamado “Funny Games”. Vamos torcer para que esse projeto seja apenas uma curiosidade singular e pessoal do diretor, e que ele retorne logo para continuar a produzir no seu continente natal, visto que, no cinema americano, dificilmente alguém consegue produzir algo tão relevante e complexo quanto seus dois últimos filmes.
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Mesmo não sendo fã da banda Radiohead, gostando apenas de algumas poucas faixas de seus álbuns, resolvi arriscar ouvir The Eraser, o álbum solo do vocalista da banda. Foi uma boa idéia – mesmo o disco não se revelando estar entre as minhas preferências, há ali um projeto sonoro bastante coeso e faixas bem acima da média.
O disco inicia com a idiossincrasia da faixa título do álbum que, como a maior parte das faixas do disco, é essencialmente eletrônica. O sampler de um piano repete-se continuamente ao fundo, enquanto ruídos intencionalmente sujos encorpam a base da canção e sobrepostos pelo vocal anasalado de Yorke, que ao mesmo tempo segue e foge da limitada melodia. Na parte final da canção a base eletrônica é re-sampleada e ganha um ruído abafado ainda maior, sumindo aos poucos e deixando o cantarolar baixo do cantor para encerrar a música. A letra trata dos jogos de aparência, as traições e segundas intenções que integram ambos os lados de uma relação afetiva. Logo depois temos “Analyse”, um dos pontos altos do disco, com letras que falam sobre a insistente busca humana de um sentido maior na vida que, geralmente, deixa os que travam esta busca mais confusos do que antes de terem a iniciado. A melodia é bem menos minimalista e seca do que a anterior: os acordes do piano ousam ser mais melódicos e emotivos, acompanhados por uma base eletrônica complementar constante que, apesar de bastante sincopada, complementa estranhamente bem a beleza do piano e vocais fabulosamente sensíveis de Thom Yorke. “The Clock”, a faixa seguinte, tem baixo bem mercado e um loop curto constante, feito à base de ruídos eletrônicos e samplers hiper-minimalistas de guitarra e de percussão. O vocal de Thom aparece em várias camadas diferentes pela melodia, que no âmbito geral produz uma sensação de desconforto urbano pós-moderno. A letra, como indica o título da canção fala do tempo, mas dentro do espaço da relação afetiva e das ilusões e desejos dentro delas construídas. “Skip Divided” é a canção em que Yorke menos utiliza os seus famosos falsettos, preferindo cantar com uma voz menos empostada e mais natural. Funciona muito bem dentro da melodia de tons noturnos, recheada de eletronismos obscuros e vocais de fundo distorcidos e redistorcidos que, de tão bruxuelantes, me lembram as melhores passagens da inspiradíssima trilha sonora de Wojciech Kilar para o filme “Drácula”, idealizado por Francis Ford Coppola. Na letra, Thom Yorke disseca a dor, agonia e descontrole doentios que a simples visão e proximidade de alguém por quem nos apaixonamos pode despertar. “And It Rained All Night” inicia com uma miríade de ruídos eletrônicos que se entrelaçam em uma espiral sonora, até serem estranhamente sobrepostos pela acústica de baquetas de bateria sendo batidas uma contra a outra. O loop das baquetas prossegue continuamente, enquanto surge na música mais um riff marcante do baixo e um teclado que lembra o som de um temerim, algo claramente inspirado em filmes de terror e suspense cheios de soturnas figuras alienígenas – loops e samplers sujos de ruídos indistintos ou de guitarras deformadas também perfazem a melodia delirante da canção. A letra contribui na preservação do clima perturbardo da melodia, falando sobre uma noite de sono perdida por um ruído incômodo de chuva, o que abre espaço na mente cansada para ser tomada por delírios de Nova Iorque ser completamente alagada por águas torrenciais – faixa de clima mórbido interessantíssimo. “Harrowdown Hill” é outra canção que se destaca no álbum, apresentando um baixo (ou guitarra?) de presença forte na música, funcionando quase como uma bateria, cujos acordes dedilhados se repetem ciclicamente durante toda a canção. Sonoridades sobressalentes são construídas pelos loops minimalistas que complementam a base da canção e também pelo constante orgão de leve variações melódicas, que potencializa a sensibilidade do vocal de Yorke e produz uma pausa na sequência final, acompanhada brevemente por acordes espaçados e adocicados de piano que deixam o ouvinte suspenso na melodia por alguns instantes. Yorke declarou que sua letra foi baseada na morte de David Kelly, o cientista que derrubou, usando provas e estudos, as motivações britânicas – e consequentemente americanas – para a invasão do Iraque. Mas, analisando a revelia deste dado, pode-se dizer que a letra trata do desejo humano de fuga e de revolta diante da confusão e desprezo sobre as individualidades e sentimentos.
The Eraser não compraz ainda uma sonoridade que grade em extremo, nem faz seu criador passar muito mais notado por aqueles que nunca o tiveram como preferência. No entanto, o disco revela que Thom Yorke é capaz de modificar a sua idiossincrática veia criativa para atingir uma outra parcela de público sem, no entanto, colocar em risco a identidade musical criada com tanto esmero e afinco à frente da banda Radiohead. É um grande mérito já que, algumaa vezes, projetos solo descambam para algo sem novidade alguma, servindo apenas ao propósito de apaziguar o ego de uma artista que se sentia tolhido ou pouco livre para expressar-se.
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Sim, eu já tinha postado este álbum por aqui. No entanto, tinha feito isso sem escrever uma resenha. Me dei ao direito de refazê-lo, agora que o escutei com cuidade e avalei. (Re)Aproveitem.
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A agente especial do FBI Clarice Starling, fragilizada por uma missão mal-sucedida e com sérios problemas no Bureau devido ao incidente, recebe uma oferta de um representante do alto escalão do governo, numa tentativa de ajudar a resolver um sério problema, ao mesmo tempo que poderia ganhar respeito e reconhecimento pelo seu trabalho novamente: a agente voltaria ao caso que a tornou famosa dez anos antes para resolver um pequeno detalhe deixado para trás: o Dr. Hannibal Lecter. E este encontra-se em Roma, Itália, onde tenta obter o emprego de “marchant” em uma importante biblioteca do país. Mas como Lecter voltou a figurar na lista dos dez mais procurados do FBI, é uma questão de tempo para que alguém descubra sua verdadeira identidade.
Eu poderia dizer que este é um filme desnecessário mas “assistível”, isso se ele terminasse logo quando o Dr. Hannibal Lecter foge da Itália. Porém, o diretor Ridley Scott não se conteve e foi muito, mas muito além. A partir da saída do canibal culto da Itália, o que se vê no filme é uma sucessão de sequências inconcebivelmente exageradas, que tem o objetivo claro de chocar. Um exemplo apenas, dentre vários possíveis: a cena final, o “jantar” arquitetado por Lecter para Clarice, não é apenas absurda em sua total inverossimilhança, mas também absolutamente desnecessária para a construção dos personagens. O que me faz pensar que tais sequências chocam muito mais pelo desgosto de destruir dois personagens, construídos com tanto cuidado e esmero no filme anterior, do que pelo horror das cenas em si. Isso, por si só, seria imperdoável. No entanto, este não é o único dos defeitos do filme. Saindo do roteiro, temos o problema dos atores e dos rumos de seus respectivos papéis. Apesar de Juliane Moore fazer o papel de Clarice de forma bastante eficiente, não há como não sentir falta de Jodie Foster: Clarice Starling ficou na memória com o jeito frágil e ao mesmo tempo seguro injetado por Foster, e o público nunca acaba sendo totalmente convencido de que Clarice agora é Juliane Moore, que transformou a personagem numa mulher amarga e fechada. O próprio Anthony Hopkins comete um erro ao carregar nas tintas de Hannibal Lecter nesta sequência, saturando no nível da altivez e petulância do personagem. O livro de Thomas Harris, e por consequência o roteiro de David Mamet, também tem seus méritos na destruição dos dois personagens, pela idéia do argumento em si. Basta comparar o argumento do filme de Johnatan Demme com o de sua sequência para enxergar o problema deste último: o filme anterior não era exatamente sobre Hannibal, mas sobre uma jovem agente que buscava pistas sobre um perigoso criminoso através do perfil desenhado por outro criminoso, igualmente perigoso. Assim sendo, Hannibal, apesar de ter destaque na trama, dividia espaço com dois personagens igualmente interessantes – o assassino que sonhava em se vestir, literalmente, com uma pele de mulher, e a agente do FBI, inexperiente mas absolutamente competente. O roteiro de “Hannibal” não foi tão engenhoso, resumindo-se a uma estória de crimes hediondos e suspense contínuo, apoiado pela incursão do sangue na tela orquestrada pelo exacerbação do responsável por estes atos. À primeira vista o roteiro parece engenhoso, devido ao nível de requinte das barbaridades perpetradas por Hannibal, mas isso é pura enganbelação, uma vez que o filme se resume somente à isto. E não adianta argumentar declarando que neste longa-metragem há um maior aprofundamento na personalidade dos protagonistas: o escritor, o roteirista e o interprete do personagem-título fizeram apenas potencializar – desnecessariamente – os traços da personalidade do Dr. canibal, pegando apenas o exemplo mais evidente. E isso fica muito nítido ao observar que, durante várias passagens do filme, tenta-se fazer crêr em um enorme – e acreditem, realmente enorme – poder de sedução, controle e domínio do senhor Lector sobre qualquer outro mortal, obtendo sucesso ao ordenar qualquer um de mutilar a si próprio, por exemplo. E, convenhamos, isso não dá para engolir da maneira que é posto no filme. O que me leva à minha observação final sobre a natureza do longa-metragem “Hannibal”: a sequência de o “Silêncio dos Inocentes” não passa de mais um filme que se resume à glamourizar um assassino e os seus crimes, jogando para escanteio toda a profundidade, pluralidade argumetativa e riqueza na concepção dos personagens que tornou o primeiro filme tão adorado e celebrado. É, no mínimo, uma tentativa lastimável de levar à frente uma “franquia” cinematográfica. Não foi por mero acaso que Johnatan Demme e Jodie Foster não quiseram fazer parte da empreitada. Isso seria imperdoável. Só sobrou Anthony Hopkins, que insistiu – ou foi convencido por um polpudo cachê – em devorar, no mau sentido, o personagem lapidado com tanto cuidado no primeiro filme.
Já fui mais radical e tive uma pré-disposta implicância com bandas de rock que pertencem ao chamado “indie”. Porém, já faz alguns longos meses que meus ouvidos se abriram para uma experimentação ainda maior – e isso vem acontecendo cada vez mais, a medida que o tempo passa: deve ser porque estou ficando velho. O fato é que esta abertura me permitiu encontrar bandas muito boas, como Death Cab for Cutie – cujo maravilhoso último disco já tratei aqui no blog – e Thirteen Senses. Iniciantes no ramo, os ingleses desta banda conceberam um álbum de estréia que agrada em cheio à qualquer fã de música alternativa ou independente, algo que assemelha-se à maior parte dos artistas que pertencem à este grupo mas que, ao mesmo tempo, tem uma identidade bem clara.
O álbum começa com o single “Into the Fire”, cujo destaque dentro da melodia vai para o piano de acústica maravilhosa, mas que trabalha belamente junto com a bateria ritmada mas suave e a guitarra de acordes sobrepostos e bem planejados. O vocal de Will South vai junto com a harmonia, alternando entre o delicado e o mais exaltado – apesar de que sua voz nunca deixa de ter algo de sussurrante e aveludada. A letra é suavemente poética, composta de versos que incentivam e desafiam. “Thru the Glass” tem introdução que inicia lenta, com bateria distante e guitarras algo lamentosas, mas logo a canção ganha ares mais agitados, com entrada de acordes mais rascantes de múltiplas guitarras e bateria mais forte. A melodia alterna entre estes momentos mais intensos e algo mais suave, acompanhando o vocal, muitas vezes em falsetto, de Will South. A letra trata dos ímpetos e desejos repentinos que nos trazem uma vontade de fugir e fazer algo inesperado que não faríamos normalmente – é realmente uma canção linda. “Gone” – que trata de nossas ilusórias tentativas de provocar uma mudança que, já sabemos, não ocorrerá – chega com uma introdução bárbara de violões e guitarras que remetem a sonoridade esparsa e melancólica do Cranberries de início de carreira. A bateria é encorpada, mas o vocal delicado de Will está perfeitamente entrosado com a melodia triste e arrependida. “Do No Wrong” tem uma letra poética muito bem trabalhada sobre revolta e inconformismo. O vocalista põe um cantar ainda mais suave e aveludado do que o utilizado até o momento, o que combina com o dedilhar absolutamente transcendental das guitarras ao fundo e o piano, a bateria e as guitarras, que compõem a harmonia principal da canção, apresentam-se mais encorpados durante o refrão. Resignação é a temática dos versos meio episódicos da belíssima “The Salt Wound Routine”, que investe em bateria suavemente “rocker”, piano de acordes dramáticos, guitarras que acompanham a melodia e orquestração de cordas ao fundo, que amplia o sentimento de conformismo. “Saving” prossegue no poetismo contemplativo que trata novamente de conformismo, agora também com uma sensação que mistura fracasso e desistência. A música é baseada em piano e bateria de melodias cadenciadas, com guitarras e baixos acompanhando, e um epílogo melódico solo no piano fechando a canção. Tristeza e sentimento de resignação diante da incapacidade de ir além é o que nos traz as letras de “Lead Us” – já diz o título: alguém nos guia, não somos nós que tomamos a frente e desbravamos o caminho. A melodia utiliza com imensa beleza o piano e as guitarras, de acordes dedilhados que se destacam na música. “Last Forever” fala de um amor mas que sempre sobrevive, mesmo sacodido por alguns contratempos, e tem uma melodia que investe em uma bateria mais incorpada e guitarras mais profusas, além de um vocal um pouco mais alto no refrão. “History”, composta de versos de amor curtos, traz na sua melodia a participação de um teclado à frente da melodia da música, que inicia-se com ele, tranquila, e ganha corpo com a entrada da guitarra de acordes rápidos e da bateria de cadência rápida, ainda que suave. Porém logo a música volta a trafegar em uma suavidade guiada pelo teclado e por guitarras de acordes esparsos. “Undivided”, que traz versos que tratam de amizade e despreparo diante das situações na vida que nos desafiam, tem melodia muito bem trabalhada, com uma introdução baseada em acordes silenciosamente dramáticos no piano, e que ganha intensidade com o uso da bateria, guitarras e baixo, tão logo encerra-se o vocal. Em seguida temos a melodia de consistência suave e triste de “Angels and Spies”, com vocal lento e melancólico, e onde o piano e as guitarras quietas ganham a companhia da bateria somente na sua metade final. A letra sobre algum sentimento de complacência e alívio, diante do fim da sensação de confusão e do sofrimento que se impunha ainda há pouco. “Automatic” belíssima, fecha o disco com sua letra intensamente poética e música baseada no vocal sofrido e em acordes meio lentos e espaçados do piano e da guitarra, ganhando uma mudança melódica em sua parte final, onde os acordes do piano, mais adocicados, e a guitarra de acordes mais exaltados, intensificam a melancolia.
O disco de estréia desta banda, originária da mesma Cornwall que hoje é a casa de Tori Amos, tem a beleza complacente e algo transcendente de bandas como Death Cab for Cutie, e em alguns momentos lembra um pouco Keane, provavelmente devido à incidência do dramatismo produzido pelo piano. É sem dúvidas uma banda promissora, cujo trabalho tem a mesma qualidade da banda de Ben Gibbard, bem como compartilha com esta as letras intensamente poéticas e a melancolia sempre onipresente. É de ouvir vezes seguidas, ainda mais se for aproveitando uma caminhada descalço em uma praia ao entardecer.
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Dois policiais de Miami disfarçam-se como transportadores de drogas para entrar em um cartel internacional, com o objetivo de melhor atingir seus compradores em Miami. Contudo, os dois decidem por entrincherar-se ainda mais no grupo, com o objetivo de também tentar desmantelá-lo. Ao agirem desta forma, os dois acabam envolvendo-se perigosamente, colocando suas vidas e as daqueles que os cercam em perigo.
Não sou um fã do seriado original – nunca assisti sequer um capítulo deste que foi um dos seriados mais ícônicos dos anos 80 e possuo conhecimento puramente periférico. Sendo assim, estou impossibilitado de estabelecer qualquer comparação mais aprofundada entre ele e o longa-metragem, seu derivado.
Se o seriado primava pelo estilo e pela produção, construindo estórias envolventes e cheias de adrenalina mas apresentando personagens e situações caricatas e “clichéticas”, então o filme é bastante fiel à sua fonte de inspiração: policiais destemidos que ao se envolverem, sem hesitação, em um cartel poderosíssimo e extremamente perigoso, não demonstram temer, em momento algum, as consequências de tal relação; sexo algo videoclípico e glamourizado; uma cena de combate longa, arquitetada em cada mínimo detalhe. Tudo isso não perfaz, de modo algum, um longa-metragem original e supreendente, constituindo-se, na verdade, em uma abordagem já mais do que vista no cinema e TV. No entanto, apesar de ter montado um filme nada inovador, o diretor explora um pouco mais a fundo as situações e os seus personagens – mesmo sendo eles caricatos -, e suponho que ele tenha feito isso de maneira um pouco mais aprofundada do que algum episódio do seriado original normalmente o faria. Além disso, Michael Mann concebe seu filme de maneira competente, e não recheia o filme de cenas de ação – o que eu vejo como uma decisão acertada -, tentando apenas encobrir um roteiro frágil. Um dos pontos chaves do roteiro de um filme policial são os crimininosos, e estes estão bem representados no filme de Mann: o cartel apresentado no filme é bastante convincente e realista, pois atualiza criminosos que por ventura habitavam o seriado dos anos 80 para aqueles que infectam o século XXI – altamente globalizados, com conexões em diversos países do mundo e agindo de maneira organizada e com o apoio que a tecnologia atual dá à estes. Claro que a idéia de que dois policiais de Miami, com a ajuda de mais alguns colegas, organizando sozinhos uma operação internacional que tem a pretensão de desmantelar um grupo criminoso tão poderoso faz o realismo ficar um pouco mais distante, mas trata-se de uma adaptação do seriado “Miami Vice” – portanto, não havia como não fazê-lo desta forma. A decisão de produzir o filme em vídeo digital, incluindo cenas noturnas que apresentam imagem granulada, com algum ruído bem visível – ocasionado pelo aumento da sensibilidade na captação da imagem no escuro – também foi certeira, pois iajuda a incrementar o estilo do filme e compensa, na composição visual, o realismo perdido pela certa inverossimilhança da operação que é a base do roteiro, e que já citei logo acima.
Deste modo, o filme de Mann não se apresenta como um marco do gênero, mas é, acima de tudo, uma produção requintada que mistura algumas boas idéias de roteiro à outras na identidade estética do longa-metragem. Como filme policial, ele faz o que deve: diverte, explora bem a tensão do expectador e consegue mostrar um bom romance proibido – mas não vai além disso e, como já disse, nem sei se poderia mesmo ir, já que se trata da adaptação de um seriado que também não era muito diferente. E, como isso é Hollywood, mesmo depois de todo o carnaval, temos um final que, podemos ousar dizer, é feliz. E isso, definitivamente, não é nada realista.
PJ Harvey (redução de Polly Jean Harvey) é uma cantora e compositora britânica magnífica, e em cujas composições a artista costuma entregar-se completamente. Entre todos os seus discos lançados até o momento, sem dúvidas o idiossincrático Is This Desire? foi o disco no qual a cantora mais derramou-se em vocais e instrumentação. O álbum foi uma fuga repentina do rock seco e cru, com vocais entoados geralmente em tons graves, predominante nos disco anteriores, para algo bastante diverso: ruídos de sonoridade suja, produzidos eletronicamente, piano, baixo e guitarras distorcidas são a tônica melódica deste disco sombrio e repleto de fobias.
“Angelene” abre o álbum e faz parte das canções mais calmas e acústicas dele: um piano triste, guitarras e baixos em acompanhamento e bateria cadenciada constroem a moldura para o vocal largadamente rock de PJ Harvey, que canta sobre as falsas esperenças e as ilusões de uma vida menos degradante de uma garota de programa. “The Sky lit up” tem letras que celebram uma noite de atos irresponsáveis, ou simplesmente desplanejados e cuja sonoridade revela a primeira das canções em que foi construída uma melodia repleta de ruídos eletrônicos retalhados, com bateria sintetizada feita de samplers e loops cíclicos, tudo compondo um conjunto melódico esplêndido, de tons repressivos e negros. O vocal de PJ Harvey é intenso e repleto de curvas tonais de graves e agudos, particularmente no ápice final da canção. “The Wind” alterna declamações sussurradas e vocais agudos, sob harmonia primordialmente sintética composta por loops, baixo, guitarra e bateria de sutilezas soturnas e com alguma frugalidade dark pontual. A letra fala sobre uma dama de espírito e personalidade algo mediavel, cheia de ingenuidades românticas, tentando aplacar seu sofrimento e solidão afetiva isolando-se em uma colina a escutar o soprar do vento. Aprimorando ainda mais a temática dreprê-underground, “My Beautiful Leah” trata em seus versos curtos da busca de um homem pela sua amante desaparecida, ao que parece, há meses. A base é primordialmente sintetizada, toda construída com eletronismos sujos, batida repetitiva e pratos pontuais que intensificam o desespero custusamente controlado do eu lírico das letras. O vocal de PJ Harvey permanece a totalidade da canção em um tom baixo, inseguro e sofrido. “A Perfect Day Elise” conta, de modo episódico, o ato criminoso ocorrido no calor do desespero de um homem rejeitado – é uma das melhores que conheço em termos de rock, ao mesmo tempo intensamente poética e realista. A melodia é um primor punk-rock, composta de loops e samplers de cadência forte, ruídos sujos pontuais e vocais intensos, modificados por uma filtragem eletrônica, o que intensifica a atmosfera de romance fadado à fatalidade e à desgraça – se um dia eu dirigisse um longa-metragem, estejam certos que uma das opções para fundo do crédito de abertura seria esta música. Pra lá de melancólica e depressiva, “Catherine” narra o interminável lamentar de um homem que sofre por amor, na sua inconsolável dor de cotovelo. A melodia permanece o tempo todo na mesma toada, construída com uma programação de teclados minimalistas e com vocal diferenciado de PJ Harvey, sofrido e suplicante. Essa é mais canção que mostra a impressionante capacidade que a cantora compor vocais tão diversos de uma canção para a outra, parecendo mesmo outra pessoa a guiar as letras – e isso não é, de forma alguma, competência exclusiva de pós-produção da canção. “Electric Light” prossegue no tom dark-minimalista, explorando mais uma melodia de base eletro-acústica, com silenciosos ruídos sintetizados acompanhados por uma batida de cadência repetitiva e letras breves, mais de complacência amorosa. Em “The Garden” temos, ao que parece, a exploração episódica de um romance gay, já que os protagonistas da letra são dois personagens masculinos. Mesmo que a analogia de homossexuais com seres alados divinos seja, para mim, algo absolutamente cafona e de mal gosto, os versos são sofisticados e apresentam o episódio em conformidade com a temática do disco. A melodia utiliza um orgão sutil ao fundo, sob bateria e loops encorpados, bem como belos acordes dramáticos de piano que pontual com classe e melancolia a melodia de quando em quando. O título da próxima canção, “Joy” é de um sadismo e ironia absolutos, visto que as letras que exploram e falta de esperança de uma mulher e sua imobilidade diante das desgraças da vida são tudo, menos contentamento. A música completa o tom opressivo das letras, sendo quase que inteiramente construída em programação, com profusão de loops sujos, soturnos e macabros, e tendo como ápice o vocal desigual de PJ Harvey, que assemelha-se ao extertor de sofrimento de um condenado. “The River” é outra canção de desilusão e incompatibilidade afetiva, novamente apresentando belos versos de tonalidades poéticas – nada mais literário do que transpor ao ambiente que cerca os personagens a variação de seus emoções e a intensidade da sua dor. A melodia é lindíssima, baseada principalmente em um piano de acordes perfeitos, de andamento triste e arrependido, com bateria discreta e alguma sonoridade sintética ao fundo. “No Girl So Sweet” apresenta em sua temática mais um romance marginal, fadado mais a trazer dor do que alegria aos amantes, com músicalidade marcante, de loops intensos, bateria acústica forte e guitarras muito bem compostas, que complementam o tom gritante do vocal distorcido de PJ Harvey. Finalmente temos a faixa título do disco, que surpreende ao despir-se quase inteiramente do eletronismo e priorizar uma musicalidade mais simples e sensual, baseada em bateria, um baixo de acordes fantasticamente esparsos e vocal lento e preguiçoso da cantora. A letra fala sobre mais um casal refletindo sobre o estado de seu relacionamento desigual.
Apesar de Is this desire? flertar com ruídos e sonoridades compostas sinteticamente, o produto final tem mais alma rock do que se poderia imaginar. Isso é resultado de uma produção muito bem planejada, que priorizou a utilização de experimentações apenas dentro do exigido. De musicalidade sofisticada e temática que explora romances marginais despedaçados pela confusão e imaturidade emotiva de seus personagens e pelas fatalidades da vida, este é um dos melhores álbuns de rock que já tive a sorte de ouvir e se faz obrigatório para entender a trajetória desta artista complexa e inovadora que é a britânica PJ Harvey – mais do que obrigatório para fãs de música. Baixe já o disco utilizando o link e senha abaixo.
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