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The Cardigans – Gran Turismo. [download: mp3]

The Cardigans - Gran TurismoGran Turismo é um álbum bastante rítmico, mas sua essência é algo seca, fazendo o uso mínimo de acústica – há total ausência de orquestrações dessa ordem aqui -, ou mesmo transformando os intrumentos que tem esta sonoridade num som mais chapado. Isto não é, de forma alguma, uma crítica. A banda The Cardigans construíu no seu álbum de 1998 melodias sincopadas idiossincráticas: assim como o The Cranberries no seu álbum de estréia, difícil achar uma ourtra banda que tenha feito um disco com uma identidade tão própria como este quarto lançamento da banda sueca.
O disco abre com a maravilhosa “Paralyzed”, que em seus versos fantásticos descreve de maneira precisa como o amor é um sentimento que devassae e desestrutura a realidade de quem o atravessa – o verso “This is where your sanity gives in and love begins” é simples, mas absurdamente efetivo. A melodia é a outra faceta fantástica da canção: como na maior parte do disco, é concebida uma batida seca e fugaz, que mistura o sintético e o acústico, e obtem-se uma base sincopada irresistível. A guitarra aqui servem de fundo harmônico, mesmo em sua construção minimalisticamente distorcida, e são usadas para dar apóio ao vocal totalmente cool de Nina Persson. “Erase/Rewind” continua com bateria sincopada, mas traz as guitarras mais para frente na harmonia, além de alguns acordes de violões e teclados que agora fazem o papel de fundo que a guitarra fazia na faixa anterior. Como sinaliza o título, a música traz versos simples que falam sobre a mudança de planos sobre aquilo que afirmamos. “Explode” tem letras e vocais de melancólia e desesperança afetiva, apesar do companheirismo também confesso nelas. A música, em si, compõem-se em uma balada linda, com bateria desnudada de acústica me primeiro plano e novamente com as guitarras – pra lá de sonoramente metalizadas – compondo um acompanhamento da emotividade do vocal de Nina, particularmente no refrão. A próxima faixa, “Starter”, tem breve introdução de teclados nostálgicos e deixa mais visível a mistura de bateria acústica e eletrônica, trazendo as guitarras de riffs breves no refrão e acordes levemente esparsos no restante da melodia. As letras falam sobre como as ações do passado persistem em exercer sua influência e mostrar-se presentes mesmo quando decidimos deixar tudo para trás e ensaiar um recomeço. “Hanging Around”inicia-se com um ruído sintetizado mínimo, e logo mostra os acordes deliciosos da guitarra e apresenta a bateria bem composta e com som propositalmente abafado. Não faltam também frugalidades esparsas na percussão e nos teclados e baixos, onde tudo acaba se misturando – bem ao gosto da banda – na parte final da melodia. As letras tratam de como, as vezes, tentamos mas não conseguimos compor uma identidade e acompanhar quem amamos – um dos meus versos preferidos deste disco está nessa música: “I hang around for another round until something stops me”. Em seguida temos “Higher”, linda balada repleta de suaves vocais de fundo, que ajudam a montar o painel de tristezas amorosas e da tentativa de elevação das letras. A melódia da canção se baseia em instrumentação sutil, com guitarra e baixo de acordes leves e espaçosos, bateria minimalista e teclados de apoio. “Marvel Hill” tem versos simplísticos que falam sobre como sempre buscamos algo só para nos sentirmos insatisfeitos e desejar muito mais. A melodia é uma das mais idiossincráticas do disco, fazendo uso eventualmente estranho de melodias secas, metálicas e algo “sujas” da guitarra e dos teclados e com uma bateria eletrônica mais evidente sobre a acústica. “My Favourite Game” é o grande hit do disco, merecidamente: a música, que tem letras de fúria e revolta amorosa, tem melodia pop/rock irresistível, com um riff certeiro de guitarra que pontua a música, bateria acústica muito e bateria sintetizada que incorpa muito bem a sonoridade da canção – o ápice rock do álbum. “Do You Believe” tem apenas 8 versos, que questionam as crenças ingênuas do amor, mas é tremendamente deliciosa em cada um deles. Guitarra, baixo e bateria acústica/sintetizada encorpam a sonoridade cadenciada que introduz a música e surge toda vez que some o vocal de Nina Persson; um orgão ao fundo faz o acompanhamente das letras nos momentos mais tranquilos, quando a vocalista entoa os versos em tom de descrença. “Junk Of The Hearts” é mais uma balada linda da banda, onde violões dão o ar da sua graça para adoçar a melodia desta música algo melancólica – isso praticamente no fim do álbum -, acompanhando o bela trabalho da bateria, baixo e teclados, que ajudam a compor o cenário de tristeza, e que ganha força com riffs mais viçosos de guitarra no refrão. O vocal de Nina é triste e afetuoso, transmitindo com precisão o lamento afetivo que compõem as letras. Por último temo “Nil”, uma pequena peça instrumental concebida toda com o teclado, cuja melodia é calma e algo depressiva – é linda e, com certeza, renderia ainda mais com um vocal de Nina em tom baixo.
Com certeza, depois do sessentista Life e do pop/rock de First Band on the Moon, a banda inovou ainda mais o seu trabalho com esse álbum, jogando pela janela a indentidade que, à época, a crítica musical construia da banda, vista como um grupo de musicalidade composta basicamente por uma nostlagia pop festiva dos anos 60. É certo que mesmo os discos anteriores tratavam do sofrimento amoroso, mas em “Gran Turismo” a banda começa a fazê-lo com sinceride emocional, transmitindo nas melodias exatamente a dor que se encontra nas letras. O disco foi um marco no trabalho de composição da banda, influenciando definitivamente tudo o que seria feito posteriormente. É obrigatório para qualquer pessoa que queria conhecer, a fundo, esta fantástica banda sueca.
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“Terror em Silent Hill”, de Chistophe Gans.

Silent HillRose, tentando entender o que aflige seu filha adotada de seis anos, vai com ela para a única pista que tem da origem da criança, uma cidade chamada Silent Hill, há muitos anos abandonada por conta de uma catástrofe. Mesmo sabendo destes eventos, e contra a vontade de seu marido, Rose ruma para a cidade.
A tão aguardada adaptação do famoso e idolatrado jogo de horror da game house Konami é bastante fiel à criação original. A cidade tem a atmosfera bem próxima da que os fãs conhecem tão bem, graças ao trabalho de fotografia e cenografia de profissionais que já trabalharam com Gans e até com David Cronenberg; a trilha sonora, composta pelo mesmo Akira Yamaoka do jogo original e por Jeff Dana, foge bastante das trilhas típicas do gênero – mais baseadas em orquestrações de corda – e segue o espírito do jogo, sendo construída muito mais em cima de ruídos e sons sintetizados; as atuações são suficientemente competentes e o argumento adaptado da estória original do game foi bem bolado, já que mudanças eram necessárias na transposição de uma mídia – vídeo game – para outra – cinema que tem suas próprias particularidades e exigências argumentativas.
Porém, uma das principais críticas ao filme, feita pelo portal brasileiro A-Arca, tem o seu embasamento, ainda que eu considere-a apenas parcialmente. No texto do dito site, é comentado que o principal ponto negativo do filme é não despertar medo no expectador, o que seria um grande defeito da adaptação, visto que o filme é justamente baseado em um jogo que é considerado dos mais competentes em explorar e causar horror – o autor do texto chega a mesmo a citar uma comparação com a clássica série “Além da Imaginação” por conta disto. Como disse no início, eu concordo em parte. Explico: de fato, o filme não causa medo, mas compará-lo com o citado seriado não é adequado, visto que “Silent Hill” é um longa muito mais violento. Desta forma, eu concordo que o filme de Chistophe Gans não cause medo, mas acho que o diretor consegue explorar consideravelmente a tensão do expectador e causar mesmo horror em algumas sequências do filme. É um defeito, mas não chega a estragar o filme. A meu ver, há outros três defeitos muito maiores no filme. O primeiro deles é a ausência do famoso e espetacular tema musical do jogo, umas das características mais importantes da identidade de “Silent Hill” – é de causar pena em qualquer fã não ouvi-lo em nenhum momento do filme. O diretor e o compositor Yamaoka perderem, no mínimo, uma grande oportunidade de homenagear a criação original da Konami. O segundo defeito é a mudança de protagonista do enredo, no lugar de Harry Mason entra Rose Da Silva (que sobrenome pouco norte-americano, não?). O diretor e o roteirista Roger Avary chegaram mesmo a conceber a estória sem um papel paterno, mas devido à reclamação do estúdio, introduziram Christopher Da Silva no argumento. Entendo que a mudança tem suas vantagens na adaptação, uma vez que uma mãe conseguiria cativar mais o público com o seu desespero e emotividade em relação à situação de sua filha, bem como o fato de transformar a mãe na protagonista aproxima o filme da leva atual de filmes de terror de sucesso, baseado em estórias originalmente criadas no oriente. No entanto, aos olhos dos fãs – me incluo aí no grupo -, isso não vai deixar de ser, de alguma forma, uma heresia algo desnecessária. Um trabalho de roteiro e atuação bem compostos tornaria um protagonista masculino tão cativante quanto um feminino. O último dos três defeitos, sob o meu ponto de vista, é a conclusão da estória. Não vou aqui ser insensato o bastante para revelar o fim do filme, basta dizer que o fato de Silent Hill ainda persistir no destino de Rose e da menina Sharon – esta mesmo de maneira provavelmente irreversível – é desnecessário. Adotar o final clássico do game, mesmo pensando em uma posterior sequência, não faria mal algum.
Mas eu diria que, entre mortos e feridos, o filme ainda tem como resultado final o mérito de manter, na adaptação, toda a atmosfera do jogo – toda a composição visual é excelente. E, além disso, o roteirista e o diretor ousaram uma modificação considerável, tornando o filme ainda mais violento do que o jogo que, se eu bem me lembro – já que o joguei há muitos anos -, explora e causa horror sem usar muito a violência gráfica. E, definitivamente, a sequência final na igreja impressiona pela violência – é uma verdadeira orgia de sangue. Isto é uma característica que difere bem a estória e a composição do filme daquelas que compõem o jogo, mas eu acho que a mudança entrou bem no roteiro concebido para o filme – a Alessa do longa-metragem sofreu tanto no seu passado que merecia realizar aquela vingança diabólica, de fato.
Assim sendo, é evidente que alguns fãs vão reclamar depois de assistir ao “Silent Hill” de Christophe Gans, mas é preciso entender que simplesmente transformar o que é um jogo em um filme apresentaria um resultado final pouco convincente e profissional – na mudança de mídia é necessário conceberem-se algumas adaptações, sempre. E, mesmo com alguns defeitos que não passam despercebidos e algumas liberdades criativas, “Silent Hill” é uma boa adaptação de um game e, provavelmente, uma bela introdução para uma série cinematográfica. Ou alguém aí duvida de “Silent Hill 2”?

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“Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman.

Viskningar Och RopKarin e Maria cuidam de sua irmã Agnes em seus momentos finais de vida, com a ajuda integral de Anna, a empregada desta família abastada.
Muitos críticos afirmam que “O Sétimo Selo” seria a obra-prima máxima de Ingmar Bergman. No entanto, que validade tem tal afirmação diante de um cineasta cujas obras são quase sempre geniais? “O Sétimo Selo” é apenas uma das grandes obras de Bergman, e “Gritos e Sussurros” é uma das suas obras-primas mais contundentes.
De estrutura teatral, mas tecnicamente luxuoso, o longa-metragem é um dos retratos mais cruéis do estertor físico e mental humano, um painel sem concessões da mesquinharia e egoísmo, mas também um testemunho da resignação, fé, compaixão e placidez espiritual. Explorando um pensamento cristão com destreza, o filme mostra a vida como palco do sofrimento e dos defeitos humanos mais condenáveis e a morte como o encontro com aquilo que define nosso destino inevitável, quer este encontro ocorra com resignação ou não. Enquanto Maria, mimada e fútil, e Karin, fria e distante, não conseguem estabelecer contato entre si como membros de uma mesma família e vivem uma vida de conformismo social, avaliando-se sempre como infelizes e incompletas, Agnes, mesmo com todas as crises de sofrimento físico e psicológico, exige muito pouco do que lhe resta de vida, desejando apenas algum companheirismo e um pouco de afeto. Como já se pode prever, suas irmãs nunca seriam capazes de lhe oferecer isto, uma vez que encontram-se ali apenas por conta da mesma formalidade social que as colocou em seus casamentos de aparência, e apresentam-se mais preocupadas com o que julgam ser seus dramas pessoais do que em auxiliar a diminuir o sofrimento da irmã. À Agnes só resta Anna, a empregada que, tendo há alguns anos perdido a única filha por conta de uma enfermidade, lhe oferece o conforto e amor maternal necessários neste momento, com implacável compreensão e afeto. O luxo e a impecabilidade técnica não são pura frivolidade ou esteticismo vazio do diretor. Para expressar esse mundo de aparências e convenções sociais, era mesmo necessário retrata-lo de maneira convincente, em todos os seus detalhes: o guarda-roupa esplêndido e inacreditável, a arquitetura soberba e a mobília irretocável só confirmam esta realidade tão cheia de cerimônias e frivolidades. O uso intenso de um tom de vermelho vivo nas paredes dos cômodos também tem seu objetivo: esta é cor do sangue, portanto cor que remete à vida – e não há como falar de vida sem falar também em morte.
Dois momentos no filme mostram o quão espetacular um cineasta pode ser. Primeiro, a longa seqüência que apresenta um dos momentos de maior sofrimento de Agnes, em que permanece horas com uma respiração cortante e ríspida. A cena é de uma agonia quase insuportável, e quem sobrevive a esta cena, por si só, pode considerar-se vitorioso como espectador de cinema. A segunda é a cena em que as irmãs Karin e Maria ensaiam, enfim, um entendimento e aproximação: é espetacular a consciência de Bergman de manter privado o conteúdo da conversa entre estas duas mulheres, substituindo-o por uma peça musical soberba e mantendo apenas a imagem das duas irmãs trocando carinhos.
Porém, o momento mais tocante do filme é mesmo a sua cena final, quando Anna nos apresenta uma lembrança de Agnes, registrada em seu diário: em um dos seus poucos momentos de tranqüilidade física, passeando no jardins da mansão da família em companhia de Anna e suas duas irmãs, ela reflete, mesmo consciente de sua situação terminal, o quanto sente-se feliz só por estar vivendo aquele momento de união com suas irmãs, a quem amava tanto. Tendo testemunhado, momentos antes, a indiferença de Karin ao seu amor e o nojo de Maria com a situação da enferma, é impossível evitar lágrimas nos olhos diante do testemunho da elevação espiritual de Agnes, do alto de todo o sofrimento pelo qual passava e passaria. Não há mais o que dizer depois disso – e Bergman, soberbamente genial, entende que só lhe resta encerrar o filme ali mesmo.

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The Cranberries – Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? [download: mp3]

The Cranberries - Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?O vocal de Dolores O’Riordan é a marca distintiva mais forte da banda irlandesa The Cranberries. Apesar das comparações feitas à época com a também irlandesa Sinéad O’Connor, a banda logo superou as críticas que apontavam similaridades entre seus trabalhos, e mostrou que sua música era muito distinta não apenas da grande cantora e compositora irlandesa, mas de todo o cenário musical da época. E isto não é nada difícil de perceber: com uma acústica exótica muito difícil de definir, onde até as guitarras soam como algo excepcionalmente estranho, as músicas de letras simples e sensibilidade acachapante que compõe o disco de estréia do Cranberries surpreenderam até ouvidos dos mais experientes.
“I Still Do” abre o disco marcando o terreno da banda: múltiplas camadas de vocais e backing vocals construindo uma reverberação distante, trabalhando em conjunto com guitarras e baixos de acordes dramaticamente esparsos e um piano profundamente minimalista. A letra, composta de uns poucos versos, fala da dor afetiva com a naturalidade de quem sofre por amor. “Dreams”, que continua investindo na temática lírica central do disco – as lamentações amorosas -, transformou-se em um sucesso estrondoso. Para entender o sucesso que o single fez, basta ouvi-lo: a música é uma balada pop que atinge o ouvinte como poucas, onde todos os instrumentos foram trabalhados de forma absolutamente integrada para construir uma melodia que desse apoio total ao vocal devassadamente em emotivo de Dolores. A música tem uma força tão impressionante que tornou-se um dos marcos maiores da identidade da década de 90 – não há como não mergulhar-se em lembranças da época ao ouvir “Dreams”. Em “Sunday” temos uma ligeira variação na melodia, deixando de ser preponderantemente melancólica para travestir-se de uma exaltação sutil e elegante – tudo por conta dos acordes marcantes do baixo e da beleza reluzente das cordas que compõem, particularmente, a abertura de tom contemplativo e o fechamento suavemente irascível da melodia. A letra de “Sunday” reflete os questionamentos de alguém que se sente rejeitado e retrata o comportamento inseguro e confuso de quem se vê em tal situação. A próxima faixa, “Pretty”, mostra como mesmo utilizando poucos recursos a banda consegue manter a sua sonoridade inovadora: a música esbanja simplicidade em seus poucos versos repetidos, que são um misto de ode e conclamação amorosa, e na sua melodia repleta de languidez, com sua base concebida no teclado idiossincrático, bateria e guitarras. “Waltzing Back” expressa em seus versos econômicos o temor de ter alguém retirado de nossa convivência. No entanto, a melodia não emoldura estas letras em uma sonoridade triste, mas o faz em tonalidades de urgência dramática e súplica furiosa, utilizando-se um teclado de acordes acúsiticos e os intrumentos básicos da banda, guitarra, bateria e baixo. Em “Not Sorry” os vocais de Dolores soam especialmente belos, trafegando entre o tom sussurrante e o brado mais lamuriante. As letras, em tom de confissão, falam sobre alguém que sofre, mas que ainda preserva seu orgulho. A melodia faz uso espetacular dos teclados, especialmente no refrão hiper-dramático, compndo sons reverberantes e distantes que se encaixam na expressão sofrida, mas altiva da vocalista. “Linger”, cujas letras tratam de alguém que declara àquele que ama que sente estar sendo enganado, é mais uma balada esplêndida, com guitarras e violões que constroem uma melodia pop muito bem estudada, de tonalidades nostálgicas absolutamente certeiras. As canções “Still Can’t” e “How” tem melodia semelhante, em ambas os instrumentos formam uma música forte, tempestuosa e urgente. As letras das duas canções também expressam sentimentos contíguos de estupefação e cólera em uma relação amorosa cuja dedicação nunca é recíproca. “I Will Always” e “Put me Down” também guardam semelhanças e complementam-se: enquanto uma fala de um amor que se encontra em seu limite, a beira do seu fim, a outra trata da decisão de abandonar uma relação que não traz mais o contentamento. A melodia de ambas é tranqüila e doce: com presença marcante de violões e teclados, e tonalidades contemplativas de bateria, baixo e guitarras, a música ganha cores mais dramáticas nos refrões, onde Dolores sempre demonstra toda a potencialidade e sensibilidade de seu vocal, especialmente nos vocais de fundo de “Put me Down” que tem algo de celestial e elevante.
O primeiro disco do The Cranberries foi o trabalho mais marcante da banda até hoje. O álbum seguinte consegue captar muito ainda da inovação sonora deste primeiro, mas a semântica composta de mágoa e ira afetiva das letas e as melodias reverberantemente tristes, repletas de nostalgia acústica e de cólera e orgulho afetivo atingiram a perfeição em Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We. Com o advento do terceiro disco, apesar de ser um bom trabalho, a banda já preferu abandonar a identidade que fazia dela um marco diferencial no mundo da música pop-rock. Resta, para aqueles que preferiam o som mais exótico inicial, apreciar os dois primeiros discos para saciar a vontade de escutar algo que foi tão inovador que jamais se repetiu novamente.
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“Chocolate”, de Lasse Hallström.

ChocolatEm um pequeno vilarejo da Espanha, onde a vida é ditada pelo prefeito carola, uma mulher, mãe solteira e nômade assumida, chega na cidade para montar sua “chocolateria” e choca a sizuda população com seu estilo de vida despreocupado e inconsequente. Porém, a medida que a população se rende aos encantos dos chocolate e à simpatia de quem os produz, todos começam a questionar suas vidas e começam a modificá-las.
“Chocolate”, de Lasse Hallström tinha razões suficientes para ser um bom filme: Um elenco de bons atores, com estrelas européias e norte-americanas, um diretor reconhecidamente adorado pela crítica e um estúdio e distribuidora que usufurem de muito prestígio na atualidade, desde a indicação de “O Paciente Inglês” para o Oscar. O problema é que “Chocolate” não é um bom filme.
Começando pelos aspectos menos problemáticos, o elenco até está bem, mas nenhum dos papéis é bom o suficiente para merecer qualquer destaque: até uma atriz excelente, como Juliette Binoche, não chama a atenção do público com sua atuação, já que um personagem como o seu não exige muito esforço do ator. A fotografia do filme dá para o gasto, e a cenografia faz o seu papel. Mas o maior problema é mesmo a estória de “Chocolate”. O roteiro, como vocês podem conferir na sinopse acima, tem uma estorinha tão prevísível, tão batida e repleta de clichês que qualquer expectador de cinema mais experiente já sabe o que vai acontecer no filme inteiro. Não bastasse isso, esse mesmo espectador via ficar com um gosto nada doce na boca, já que é impossível evitar uma certa sensação de dèja vú com o argumento do filme de Hallström, por demais semelhante à um clássico do cinema de arte europeu, “A Festa de Babette” e mesmo com o recente “Como água para chocolate”. E, além de tudo isso, “Chocolate” ainda carece de franqueza: porque tentar fazer o filme passar por um filme de arte, quando todo mundo percebe que um longa metragem cheio de estrelas e astros do cinema, bancado por um estúdio americano que de uma hora para a outra viu-se endinheirado, jamais seria um filme de arte ou mesmo uma produção “independente”? A razão, na verdade, é bem óbvia: porque o engodo tem efeito. A maioria massiva do público termina de ver o filme jurando que, agora, também aprecia cinema de arte – tenha santa paciência. Contudo, àqueles que tem uma maior percepção artística não vão deixar de notar um outro grande problema: o filme inteiro deixa patente uma produção apressada e descuidada. A cenografia não convence direito, soando tão falsa como numa produção novelesca da TV, e o descuido chega em níveis tão absurdos que, se você prestar atenção na parte superior da tela, vai descobrir uma participação especial no filme, não creditada entre os nomes do elenco: o microfone suspenso. É de cair o queixo a maneira como o dito instrumento faz um verdadeiro baile na tela, totalmente à vontade e com uma naturalidade ainda maior do que muitos dos atores em seus papéis. Isso é o sinal cabal de que o longa-metragem foi feito sem qualquer apuro e com enorme falta de cuidado e atenção. A impressão que fica é de que o diretor Lasse Hallström fez o seu filme em meio à outras atividades que julgava mais importantes no momento, enquanto tomava café, via TV ou conversava no telefone celular, concluindo-o de maneira absorta, como o faz um colegial qualquer com um trabalho escolar. No final, a verdade é uma só: todos queriam apenas fazer um falso filme de arte que enganasse o bastante apenas para angariar um bom dinheiro e algumas premiações. E isso, definitivamente, não é fácil de engolir, como o seria um chocolate.

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Sinéad O’Connor – Universal Mother. [download: mp3]

Sinéad O'Connor - Universal MotherSinéad O’Connor lançou em 1994 aquele que considero o seu melhor disco até hoje. Universal Mother é um apanhado fantástico de músicas em que a compositora derramou seus sentimentos, frustrações e dores, dedicando a mesma intensidade emotiva na interpretação das canções e na composição das melodias. O disco abre com “Germaine”, trecho de um discurso da escritora feminista Germaine Greer. Logo em seguida somos surpreendidos com o cantar rascante de Sinéad em “Fire on Babylon”, música de bateria forte, metais messiânicos e cordas que remetem à música tradicional àrabe onde O’Connor faz das tripas coração, tamanha a emoção com que canta. As letras são um primor do trabalho de composição da artista irlandesa, uma vez que declaram os horrores da guerra usando o mito bíblico de Babilônia do livro das Revelações/Apocalipse como analogia. A faixa seguinte, “John, I Love You” substitui o tom urgente por uma emotividade construída em uma melodia bem mais delicada, que lembra vagamente uma canção de ninar. A letra é também repleta de emoção, já que é um hino de amor materno, onde a mãe tenta mostrar ao filho os desafios, frustrações e belezas da vida. Quando a música prossegue para o encerramento, a melodia do piano sofre sutil alteração, unindo sua harmonia com a melodia da música seguinte, “My Darling Child”, mais uma canção sublime com letras simples, compostas por frases de admiração e amor de uma mãe para sua criança. Levando a temática do disco o mais próximo possível de sua essência, a próxima faixa traz um dos filhos de Sinéad O’Connor, Jake Reynolds, na época ainda criança, cantarolando versinhos ingênuos e breves sobre a condição humana. “Red Footbal” leva à frente a temática da canção que a precede, mas em uma composição mais madura e reflexiva que traça uma analogia entre o sofrimento de um animal aprisionado em um zoo e a opressão pelo qual muitos seres humanos passam. A melodia, que inicia-se introvertida e reprimida, apresentando apenas piano e voz, caminha aos poucos para uma orgia harmônica onde cresce pouco a pouco a bateria, até explodir em um climax revanchista. Sucedendo esta canção temos um cover de Kurt Cobain, “All Apologies”, cuja melodia despoja-se de excessos, sendo composta apenas de voz e violão algo minimalista, e com letras que questionam as relações humanas. As duas músicas seguintes estão, com certeza, entre as mais belas canções de Sinéad: ambas as canções tem suas melodias compostas apenas pela voz de Sinéad, em um cantar que concentra inacreditável emoção e dor, e por um piano de acordes cortantemente melancólicos, de levar qualquer ouvinte às lágrimas. As letras também são emocionantes: em “A Perfect Indian”, composta pela própria cantora, Sinéad canta a dor de alguém que só vê alegria em sua família quando esta é pura aparência – como um sorriso forçado em uma foto, por exemplo – e em “Scorn Not His Simplicity”, temos a sensação de impotência de uma mãe diante da descoberta de que seu filho não é como as outras crianças – a letra não deixa claro se seria uma defiência física ou cerebral ou um problema decorrente de um acidente. É de dar um nó na garganta o sentimento de culpa e abandono que esta mãe experimenta ao ter idéia de como ele não poderá mais compartilhar de tudo que faz da infância algo inesquecível. “All Babies” continua abordando a infância, mais agora de uma maneira mais universal e lírica, declarando que são elas as coisas mais adoradas por Deus – na melodia, mais uma vez, o piano hiper-emotivo é o destaque, embora nesta canção a harmonia ainda faça ótimo uso de baixo e bateria. “In This Heart”, por sua vez, depoja-se totalmente de instrumentação, explorando emoção inimaginável apenas com os vocais de Sinéad e de um esplendoroso coro gospel em modo algo minimalista. A letra é extremamente simples, mas consegue sintetizar sensibilidade fulminante em seus versos que falam sobre perda, dor e resignação. Como um mantra, a próxima canção, “Tiny Grief Song”, tem suas letras compostas por versos repetidos, novamente “a capella”, sem qualquer instrumentação – é exatamente o que informa seu título: uma pequena canção do sofrimento. Em “Famine” Sinéad foge da identidade melódica, compondo algo próximo de um funk e que lembra os hits mais elegantes do US3, que tanto sucesso fez na década de 90. A letra também muda de tom, já que o sofrimento humano continua sendo abordado, mas agora parte para um discurso mais político e regional: a opressão irlandesa imposta pela invasão britânica. Fechando o disco, retornamos à uma canção que conjuga letras e melodia como um mantra: “Thank you for hearing me” é uma das canções favoritas dos fãs, em cujas letras vemos a gradação dos sentimentos humanos despertados pelas relações humanas, particularmente as afetivas: primeiro o contentamento e alegria quase plenos, passando ao sofrimento e a dor e, então, ao posterior fortalecimento que estas últimas acabam favorecendo.
É esta última canção, provavelmente, a síntese deste trabalho lançado por Sinéad O’Connor: alegria, dor, sofrimento e fortalecimento humano são os temas de Universal Mother, especialmente quando relacionados à maternidade ou à infância. E, por incrível que pareça, isto se configura como um problema: algumas pessoas tem uma dificuldade e um preconceito tolo com toda obra que desperta a tristeza e a melancolia ou explora os sentimentos de dor e sofrimento – talvez seja esta a razão de o disco não ter feito sucesso. Contudo, quem tem a inteligência de vencer tais limitações culturais vai se esfalfar com este álbum – é o registro definitivo da plenitude musical de uma artista soberba.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005