Sinéad O’Connor lançou em 1994 aquele que considero o seu melhor disco até hoje. Universal Mother é um apanhado fantástico de músicas em que a compositora derramou seus sentimentos, frustrações e dores, dedicando a mesma intensidade emotiva na interpretação das canções e na composição das melodias. O disco abre com “Germaine”, trecho de um discurso da escritora feminista Germaine Greer. Logo em seguida somos surpreendidos com o cantar rascante de Sinéad em “Fire on Babylon”, música de bateria forte, metais messiânicos e cordas que remetem à música tradicional àrabe onde O’Connor faz das tripas coração, tamanha a emoção com que canta. As letras são um primor do trabalho de composição da artista irlandesa, uma vez que declaram os horrores da guerra usando o mito bíblico de Babilônia do livro das Revelações/Apocalipse como analogia. A faixa seguinte, “John, I Love You” substitui o tom urgente por uma emotividade construída em uma melodia bem mais delicada, que lembra vagamente uma canção de ninar. A letra é também repleta de emoção, já que é um hino de amor materno, onde a mãe tenta mostrar ao filho os desafios, frustrações e belezas da vida. Quando a música prossegue para o encerramento, a melodia do piano sofre sutil alteração, unindo sua harmonia com a melodia da música seguinte, “My Darling Child”, mais uma canção sublime com letras simples, compostas por frases de admiração e amor de uma mãe para sua criança. Levando a temática do disco o mais próximo possível de sua essência, a próxima faixa traz um dos filhos de Sinéad O’Connor, Jake Reynolds, na época ainda criança, cantarolando versinhos ingênuos e breves sobre a condição humana. “Red Footbal” leva à frente a temática da canção que a precede, mas em uma composição mais madura e reflexiva que traça uma analogia entre o sofrimento de um animal aprisionado em um zoo e a opressão pelo qual muitos seres humanos passam. A melodia, que inicia-se introvertida e reprimida, apresentando apenas piano e voz, caminha aos poucos para uma orgia harmônica onde cresce pouco a pouco a bateria, até explodir em um climax revanchista. Sucedendo esta canção temos um cover de Kurt Cobain, “All Apologies”, cuja melodia despoja-se de excessos, sendo composta apenas de voz e violão algo minimalista, e com letras que questionam as relações humanas. As duas músicas seguintes estão, com certeza, entre as mais belas canções de Sinéad: ambas as canções tem suas melodias compostas apenas pela voz de Sinéad, em um cantar que concentra inacreditável emoção e dor, e por um piano de acordes cortantemente melancólicos, de levar qualquer ouvinte às lágrimas. As letras também são emocionantes: em “A Perfect Indian”, composta pela própria cantora, Sinéad canta a dor de alguém que só vê alegria em sua família quando esta é pura aparência – como um sorriso forçado em uma foto, por exemplo – e em “Scorn Not His Simplicity”, temos a sensação de impotência de uma mãe diante da descoberta de que seu filho não é como as outras crianças – a letra não deixa claro se seria uma defiência física ou cerebral ou um problema decorrente de um acidente. É de dar um nó na garganta o sentimento de culpa e abandono que esta mãe experimenta ao ter idéia de como ele não poderá mais compartilhar de tudo que faz da infância algo inesquecível. “All Babies” continua abordando a infância, mais agora de uma maneira mais universal e lírica, declarando que são elas as coisas mais adoradas por Deus – na melodia, mais uma vez, o piano hiper-emotivo é o destaque, embora nesta canção a harmonia ainda faça ótimo uso de baixo e bateria. “In This Heart”, por sua vez, depoja-se totalmente de instrumentação, explorando emoção inimaginável apenas com os vocais de Sinéad e de um esplendoroso coro gospel em modo algo minimalista. A letra é extremamente simples, mas consegue sintetizar sensibilidade fulminante em seus versos que falam sobre perda, dor e resignação. Como um mantra, a próxima canção, “Tiny Grief Song”, tem suas letras compostas por versos repetidos, novamente “a capella”, sem qualquer instrumentação – é exatamente o que informa seu título: uma pequena canção do sofrimento. Em “Famine” Sinéad foge da identidade melódica, compondo algo próximo de um funk e que lembra os hits mais elegantes do US3, que tanto sucesso fez na década de 90. A letra também muda de tom, já que o sofrimento humano continua sendo abordado, mas agora parte para um discurso mais político e regional: a opressão irlandesa imposta pela invasão britânica. Fechando o disco, retornamos à uma canção que conjuga letras e melodia como um mantra: “Thank you for hearing me” é uma das canções favoritas dos fãs, em cujas letras vemos a gradação dos sentimentos humanos despertados pelas relações humanas, particularmente as afetivas: primeiro o contentamento e alegria quase plenos, passando ao sofrimento e a dor e, então, ao posterior fortalecimento que estas últimas acabam favorecendo.
É esta última canção, provavelmente, a síntese deste trabalho lançado por Sinéad O’Connor: alegria, dor, sofrimento e fortalecimento humano são os temas de Universal Mother, especialmente quando relacionados à maternidade ou à infância. E, por incrível que pareça, isto se configura como um problema: algumas pessoas tem uma dificuldade e um preconceito tolo com toda obra que desperta a tristeza e a melancolia ou explora os sentimentos de dor e sofrimento – talvez seja esta a razão de o disco não ter feito sucesso. Contudo, quem tem a inteligência de vencer tais limitações culturais vai se esfalfar com este álbum – é o registro definitivo da plenitude musical de uma artista soberba.
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No seu disco solo de estréia, a francesa Camille produziu algo menos inovador do que seu lançamento seguinte, mas produziu o álbum igualmente excelente, que soa certamente mais francofônico, porém apresenta também influências do pop-jazz mais tradicional e também algo que remete à bossa nova. “1,2,3”, música que foi utilizada na publicidade do perfume “Promesse”, da maison Cacharel, inicia como uma delicada caixinha de música e uma Camille mais calma, desdobrando-se em uma melodia mais ritmada, que lembra muito as composições apresentadas pelos músicos anônimos que invadem as esquinas da capital francesa, geralmente com o acordeão como instrumento preferido. “Paris” é uma deliciosa ode à capital, com musicalidade que se mostra melancólica, mas que logo é invadida por um belo arranjo alegre, assumidamente francofônico, com direito a assobio e tamborilar de dedos e fartamente composto por orquestração de cordas e piano – caminhar pela cidade francesa ouvindo esta composição da cantora deve ser inconcebivelmente prazeroso. “La Demeure D’un Ciel” é um pop acústico encantador, onde escuta-se apenas um violão e a voz despreocupada de Camille. Depois da despretensão da faixa anterior, somos supreendidos com “Les Ex”, onde Camille brinca à vontade nos vocais, mostrando um pouquinho das maravilhas que escutaríamos no seu segundo álbum, e ainda traz o ruído do que se supõe ser uma briga conjugal – não a voz dos amantes se desentendendo, mas o barulho do espatifar de toda sorte de louças – impossível evitar alguns risos. “Mon Petit Vieux” volta a delicadeza, onde melodia e vocais de Camille são postos de maneira comedida e doce, à maneira de um pop-bossa francês – af! isso existe? A faixa “Ruby”, única cantada em inglês no disco, foi gravada em uma sessão única, sem separação do vocal da cantora e do violão simples, e preservando um ruído surdo, daqueles que lembram gravações em aparelhos toca-fita amadores, o que lhe confere uma atmosfera verdadeiramente nostálgica. A faixa título do álbum, “Le Sac De Filles”, e a canção “Je Ne Suis Pas Ta Chose” tem forte parentesco com o que há de melhor no pop contemporâneo brasileiro – sem, no entanto, soar blasé e forçosamente cool como alguns artistas brasileiros, como Bebel Gilberto -, pois ambas apresentam vocais cheios de romantismo e entrega, com melodias de instrumentação farta e cheias de iluminoras sonoras vocais e não-vocais – o refrão das duas música é tão sedutor que não há como evitar cantar um francês absolutamente macarrônico, só para ter o prazer de acompanhar a elegância pop de Camille. A última faixa do álbum, “Là Où Je Suis Née”, nos brinda com uma melodia algo triste e emotiva ao piano, onde Camille empresta um vocal melancólico e adocicado, fazendo par com a maravilhosa flauta doce que surge no meio da canção – simplesmente linda, fechando o disco com a sonoridade ideal e precisa e conquistando de vez a simpatia do ouvinte, que se sente impelido a ouvir novamente o disco todo. E qual pessoa de bom gosto se negaria esse prazer? Baixe o disco pelos links que seguem logo depois da lista de faixas e use a senha informada para descompactar os arquivos.
Dois jovens que tiveram breve contato em escola católica, o cineasta Enrique e o aspirante a ator Ignácio, se reencontram na vida adulta e relembram os abusos sofridos por Ignácio por um dos padres. Ignácio, no reencontro, apresenta um roteiro de cinema escrito por ele e inspirado na infância que os dois compartilharam.
Camille é conhecida na França simplesmente assim, pelo seu primeiro nome, sem o uso do sobrenome, Dalmais. E Camille é, definitivamente, a coisa mais contemporaneamente bem sucedida que a França já conseguiu lançar, cantando em sua língua materna. As comparações com a islandesa Björk são frequentes, mas isso ocorre tão somente devido a semelhança de Le fil, segundo álbum de Camille, com Medúlla, o último álbum de Björk: ambos utilizam de maneira forte sons produzidos pelo própria voz de suas intérpretes/compositoras como o principal artifício sonoro das canções. E, diferentemente do álbum da cantora islandesa, considerado difícil e, para alguns, quase “inescutável”, Le fil é um espetáculo delicioso para os ouvidos. Camille sabe ser pop, jazzística, pós-moderna, lúdica e, como não poderia deixar de ser, francofonicamente elegante. O grande achado da garota é revelado pelo título do disco: “le fil”, significa “o fio”, e ele é representado sonoramente no disco por um murmúrio, um cantar monocórdico que percorre e liga todas as músicas, do início ao fim do álbum. Ele não é sempre audível, a maior parte das vezes é recoberto pela melodia das músicas, mas está lá presente, e é notado sempre que há um silêncio dentro da harmonia da música. Isso acaba por criar uma unidade sonora entre todas as canções, mas ao contrário do que se possa pensar, não as torna absolutamente iguais. Há espaço para tudo no mundo de Camille. E tudo feito quase que esclusivamente pela sua voz. O disco abre com “La jeune fille aux cheveux blancs”, que, claro, começa com o ponto de partida do “fio” sonoro e, em alguns instantes, é invadido pela voz esplendorosa da cantora, que entoa os versos da música, enquanto, ao fundo, ela é invadida por uma variedade enorme de diferentes coros repetidos de sua voz, fazendo o acompanhamento como breves “estacatos”, bateria ou violão vocais. Depois de sermos tomados pelo lirismo dessa música, somos supreendidos pelo tom absolutamente lúdico e vivaz de “Ta Douleur”, onde Camille não se nega a fazer os sons mais estranhos possíveis com a boca para servir de fundo aos versos animados da canção, que revela o uso de um trompete apressado lá pelo meio da melodia. “Assisse”, a terceira faixa, traz um cantar menos diferenciado em tons, sintetizado em várias vozes que cantam a mesma melodia. Contudo, como Camille mostra nesse disco nunca deixar de ser uma surpresa maravilhosa, perceba que os “acordes” de voz que fazem a breve introdução da canção imitam uma guitarra. E, para nosso prazer, não somos poupados nem de uma repentina limpeza que Camille faz na sua garganta – sim, aquele “hãn hãn” eternizado pelas pastilhas Vick. Pós-moderno como é, o disco também não deixa de apresentar uma mesma canção dividida em três diferentes partes, com três diferentes andamentos e variações no verso e melodia. “Janine I” é uma canção simples, cantada com pressa pela francesa, com uma batida cíclica, produzida por sua voz- claro – ao fundo; “Janine II” tem andamento muito mais lento e preguiçoso, revelando um baixo quase apático como acompanhamento; “Janine III” é a mais ligeira, e traz os versos cantados numa velocidade difícil se acompanhar, junto com um trompete igualmente delirante – e, aos poucos, mostra um acorde que vai fechar a canção, simulando um distanciamento quase sideral da melodia, ou som de um carro de corrida se afastando, se preferir – muitíssimo divertida. “Vertige” traz um coro no fundo que simula algo que pode ser interpretado como gostas de chuva em um pedaço de lata, ou, quem sabe um relógio; tudo emoldurando a breve melodia principal. “Senza” transpira beleza em sua melodia que incita algo bem primaveril, um belo dia de céu azul limpo e sol radiante, com aqueles breves lampejos de melancolia que esses dias lindos costumam revelar – ao menos eu sinto isso com frequência. “Au port” apresenta um batida rápida, produzida em uma caixa ou coisa semelhante, adornando a harmonia lindíssimamente altiva da voz de Camille, acompanhada por um teclado que encorpora um som metálico e um trompete, ambos sempre discretos ou pontuais. “Rue de Ménilmontant”, penúltima faixa do álbum, tem a beleza tranquila de uma balada algo triste. Mas a balada mais bonita do disco é mesmo “Pour que l’amour me quitte”, que mostra uma Camille mais despreocupada em ser contemporânea, cantando simplesmente e deixando-se acompanhar pelo som de um baixo (ou um teclado?) cintilante e cíclico. Em “Baby Carni Bird”, somos apresentados à uma Camille mais jazzística, cantando alguns versos em inglês inclusive, e mostrando que não há nenhuma obrigação em um pop-jazz ser pausteurizado ao ponto de parecer sempre qualquer coisa feita por Norah Jones. Contudo, a faixa mais retumbante é “Pâle Septembre” – veja vídeo ao vivo aqui no blog. Nesta música somos introduzidos em um cantar sofrido e uma melodia silenciosa, pontuada ao fundo por breves acordes de um teclado. Logo, surgem os belos corais de fundo de Camille, simbolo maior do disco, para sermos apresentados à versos em inglês cantados em harmonia quase silenciosa. Tudo isso prepara o ouvinte para ser surpreendido com a beleza explosiva que surge à seguir, em uma sequência melódica que revela uma Camille lírica e profusa como nunca, com direito à uma orgia de todos os instrumentos musicais usados até então discretamente no disco. É como se estivéssimos submersos por um longo período em um oceano, ou vagando no espaço, e fóssemos arremesados repentinamente em uma floresta repleta de sons de sua fauna e flora – a sensação é inesquecível, e a música entrou de imediato, desde sua primeira audição, na minha lista concorridíssima de “músicas para se ouvir ao se jogar do topo de um arranha-céu”. Não bastasse isso, ainda temos a maravilhosa última faixa do disco: “Quand je marche” é tranquila e romântica, deliciosa de se ouvir seguidamente. E o disco fecha com o “fio” sonoro sendo acompanhado de frases de Camille gravadas, aparentemente, fora de um estúdio – já que o álbum é mesmo uma bela ode ao dom humano do falar, nada melhor deixa-lo soar naturalmente ao seu fim. Baixe agora esse disco esplendoroso através dos links a seguir.
Depois do sucesso de La Revancha del Tango, o Gotan Project – também conhecido como Jectpro Tango – retorna com o álbum Lunático. A música engendrada pelo trio europeu-americano prossegue insinuante, sensual, sedutora, hipnótica, delirante e poderosa, mas agora também ganha tonalidades acústicas sutis. Não resta dúvidas que o destaque absoluto do álbum é o single “Diferente”, que cativa imediatamente o ouvinte com sua melodia tecno-tango dançante, saborosa e irresistível: impossível passar por essa mistura magistral de beats, samplers, contrabaixo, acordeão e tecituras orquestrais sem voltar o player para ouví-la uma vez mais. De atmosfera menos romântica, “La Vigüela” também fascina, com seus versos recitados em dueto parte robotizado e sua harmonia assumidamente eletrônica, ainda que adornada pelo fogo do ritmo genuinamente argentino. “Arrabal” delicia os ouvidos com o vocal encantadoramente preciso de Cristina Vilallonga com a melodia da canção, recheada de violões e acordeão que duelam entre si, sobre a batida eletrônica suave ao fundo. A destreza musical do Gotan Project é tanta, que até vocais embebidos na fonte do gênero rap conseguem angariar a simpatia e apreciação do ouvinte na faixa “Mi Confesion”. Isso porque, obviamente, o subtexto aqui é o tango pós-moderno do trio, e as letras são poéticas e delicadas, diferentemente daquela coisa irascível e “inescutável” do gênero. As faixas que se apresentam mais instrumentais também tem seu lugar no novo álbum, como na orquestração soberbamente luminosa que enfeita “Criminal” e a recriação, que suaviza o sorumbatismo mas intensifica o drama de “Paris, Texas”, tema clássico da obra-prima de Win Wenders composto por Ry Cooder. “Lunático”, faixa-título do disco, com seu acordeon de tons breves, quase sem fôlego, remete à brevidade das corridas de cavalo – não por um acaso, já que seu nome foi herdado do cavalo de corrida que Carlos Gardel possuía. Contudo, a grande surpresa do segundo trabalho do Gotan Project são as faixas quase ou totalmente despidas de eletronismos. “Amore Porteño” prossegue melodicamente em uma toada desesperançada e trágica, o que coincide com o teor de seus versos. “Celos” segue na mesma toada, mas apropria-se ainda mais de um teor jazz/cabaré, denotado mais visivelmente pelos ruídos captados ao vivo.
Com a liberação na internet do primeiro single do aguardadíssimo novo disco da banda britânica Muse, um verdadeiro furor discursivo tomou de assalto as comunidades dedicadas ao trio. A sonoridade de “Supermassive Black Hole” assustou os fãs mais ferrenhos, angariando o ódio destes e a simpatia dos mais despreocupados. No entanto, a suspeita de ambas as “facções” que rapidamente se formaram era quase idêntica: o novo disco da banda mostraria um Muse bem diferente daquele adorado e conhecido pelos fãs.