Desde seu disco de estréia, Liz Durrett vem lapidando mais e mais suas canções, ampliando a gama harmônica das músicas, a poética de suas letras e a intensidade das emoções por ambas despertada. E a garota tanta trabalhou que em seu terceiro disco, Outside Our Gates, todas as canções despertam interesse de quem as ouve pela beleza à elas inerente, em todas suas gradações e modalidades. A exemplo disto, a modulação invariável dos vocais e o equilíbrio melódico da guitarra, baixo e bateria de “Wild As Them” concede-lhe rítmica bastante tradicional, típica de um single, mas isso não lhe retira o encanto produzido pela artista e seu produtor, Eric Bachmann, presente com ainda maior fulgor em faixas menos lineares, como pode ser conferido no balanceamento entre estes instrumentos e as notas emanadas dos violinos em “All of Them All”, que soam como um forte vento de outono que carrega em seus braços invisíveis todo sofrimento existente.
Mas isso nem se compara ao trabalho ainda mais fabuloso da dupla em outras músicas, ainda mais intensas em sua carga de sentimentos e sensações. É o caso da flutuante melodia dos toques cálidos no violão, piano e bateria e dos acordes resignados das guitarras que evaporam notas no vácuo sonoro em “In The Eaves” e dos vocais e violão telúricos, etéreos de “The Sea a Dream”, canção que aposta de modo certeiro na simplicidade para encontrar a frequência exata das sensações de quem a está ouvindo. “Lost Hiker” também envereda por uma solidez silenciosa, apoiando-se tão somente em piano, baixo e guitarra lentos e tímidos, cadência que lembra muito as melhores composições de Cat Power no disco You Are Free. Com Cat também assemelha-se a atmosfera de “Always Signs“, mas o faz inversamente a “Lost Hiker”, confiando na elaboração de um ruído mais assumidamente rockeiro ao capturar o aroma das guitarras, baixo, bateria e vocais em síncope farta que sua colega americana tão bem soube compor no seu disco de 2003.
E se você pensa que acabou por aqui, engana-se. As emoções ainda afloram sobremaneira em mais duas faixas de Outside Our Gates, já que dificilmente alguém consegue conter-se ao desfrutar da beleza do cantar abatido de Liz acompanhando o violão, guitarra e orgão de acordes desamparados, lentos e sôfregos como um choro que foi abafado para esconder a dor na arrebatadora canção “Not Running”, ou ainda quando se é invadido pela ternura desmedida do arranjo das cordas e sopros que acompanham o vocal, violão e bateria de aroma doce, adornado pelo pizzicato que cintila brilhantemente na metade final da primorosa e irretocável “You Live Alone”.
Certamente embebido em emoção depois de desfrutar destas preciosidades, não há como o ouvinte não concordar que as composições de Liz Durrett tem, ao menos agora, o incrível poder de hiperventilar sensações adormecidas, esquecidas dentro de si, como um verdadeiro estimulante sonoro. E pensar que há tanta gente por aí com uma dezena de álbuns no currículo e nem sequer compreenderam como se consegue atingir o que essa garota fez já no seu terceiro lançamento. Mas tem um lado bom na existência deste bando de incapazes: a multidão de artistas sem talento serve, ao menos, para abrilhantar ainda mais aqueles que o tem de sobra.
Baixe: Liz Durrett – Outside Our Gates (2008) [mp3]
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Aproveitando o intervalo que sua banda The Cardigans tirou desde a última apresentação da turnê do fantástico disco Super Extra Gravity, Nina Persson voltou-se ao seu side-project, A Camp, que fez sua estréia em 2001 com um disco que injetou elegância ao country-rock. O novo álbum ainda conta com interferências do parceiro Niclas Frisk, de Mark Linkous, que produziu a primeira incursão do A Camp, e de músicos presentes na primeira incursão do grupo, como a americana Joan Wasser (da banda Joan As Police Woman), mas novas participações ganham papel integral, como Nathan Larson, marido de Nina e James Iha, ex-guitarrista do Smashing Pumpkins. Em Colonia, o novo disco, as referências ao country-rock somem quase que por completo, cedendo lugar à um pop que remete ao produzido no meio do século passado e que difere razoavelmente do que Nina já fez no início da carreira do The Cardigans, já que o produzido pelo A Camp é menos festivo e acelerado, preferindo fazer florescer melodias que sempre tem um “que” de tristeza e pisando no acelerador com muito maior parcimônia. É claro que esse caráter mais melancólico de Colonia fica mais óbvio em baladas de melodias tranquilas e sóbrias como “It’s Not Easy To Be Human”, que interrompe os poucos versos acompanhados de guitarra e sintetizações de tonalidades doces, calmas e tristes com uma epifania sonora de violinos e vocais de fundo sutis, e “The Weed Had Got There First”, cujo compasso letárgico e profundamente romântico é resultado da combinação das queixas de Nina ao microfone, do andamento lento da bateria, das cordas em ondulações levemente sensuais e da discreta participação da guitarra e de sintetizações, mas a atmosfera plangente está igualmente presente, ainda que de modo atuenado, nas canções mais sonoramente fartas. Isso se reflete na cadência arrastada da guitarra e da bateria e nos sopros e coro glamourosos que se alastram por todos os cantos da faixa “Stronger Than Jesus”, primeiro single do novo álbum, no ritmo imperioso que a bateria impõe no refrão da música suspendida por coros e pianos celestiais e pelas cordas graves que lançam-se em jatos precisos na melodia de “Love Has Left The Room” e até mesmo na aparente extroversão dos vocais e do compasso power-rock da bateria e do baixo e na pontuação deliciosamente dramática produzida pelas palmas e riffs de guitarra em “Here Are Many Wild Animals”.
Americana de Los Angeles, Mia Doi Todd tem entre seus dotes a graduação em estudos orientais e a pesquisa feita sobre a Butoh, dança contemporânea japonesa das mais idiossincráticas – conhecimento que a levou inclusive a criar e montar coreografias para um grupo de dança dos Estados Unidos. Mas seu dom natural é mesmo relativo à outro campo do mundo da arte, a música.
E para ilustrar essa música que utiliza como referência a sonoridade de uma época cuja estética foi e é tão explorada, foram feitos dois vídeos que tomam caminhos bem distintos. Para o fotógrafo e diretor francês que atende pelo pseudônimo Danakil, “Antibodies” serviu como inspiração para abordar uma narrativa abstrata, onde uma aeromoça nua em um quarto de hotel de aeroporto lida com o dilema de sua gravidez enquanto tateia languidamente um peixinho ornamental e brinca com as sensações provocadas por uma agulha. Enquanto isso, lá fora, uma bolha de sabão de enormes proporções vagueia sem rumo pelo aeroporto vazio. A despeito do peixinho sem fôlego, que é mesmo uma maldade, o vídeo é de uma imensa beleza plástica, tudo graças a linda modelo que empresta-se ao papel da aeromoça e a fotografia de Danakil, que confere muita classe ao filme.
Já para a também fotógrafa Maria Ziegelböck, austríaca radicada na França, as referências musicais contidas na melodia pulsaram mais forte: o vídeo por ela preparado é um compêndio de sequências com anônimos deixando seus corpos serem levados pelo ritmo saboroso da canção em uma pista iluminada por alguns spots de luz. Sem dúvidas que lembra a icônica sequência de “Flashdance”, mas isso não reduz as qualidades desta versão, muito bem filmada e editada.
Difícil saber o que levou a nova-iorquina Carla Bozulich a rebatizar o seu projeto, no seu segundo lançamento, com o nome do primeiro disco. Evangelista, o disco, é agora o nome da banda. Mas isso, pouco importa: as idéias partem mesmo é de sua mentora, Carla. E em Hello, Voyager, o arcabouço criativo da artista americana foca-se nos domínios do rock, mas dentro dele, apresenta-se com tonalidades bem variadas. Carla e sua banda, por exemplo, trazem no álbum duas faixas instrumentais, mas a atmosfera de ambas é bem diversa: enquanto “For the L’il Dudes” intriga com suas cordas assustadoramente soturnas, “The Frozen Dress” causa arrepios com o coro de murmúrios e lamentos vocais sobrepostos às guitarras que reverberam acordes graves e enrugados. Para algum ouvinte mais apressado, por sinal, a atmosfera algo esdrúxula de ambas as faixas poderia ser motivo para taxar a banda de experimental. No entanto, a impressão não corresponde à realidade da essência sonora deste trabalho da banda de Carla.
No seu primeiro álbum solo, Jenny Lewis, vocalista da banda Rilo Kiley, juntou forças com as gêmeas Watson para produzir canções de forte apelo country. Seu segundo disco, agora sem a companhia das duas garotas, guarda ainda algumas reminescências da primeira investida, onde o gênero marca presença de dois modos distintos. Vestindo os trajes mais tradicionais do country, “See Fernando” monta no ritmo puxado das guitarras, bateria e violão densos e ligeiros, enquanto “Carpetbaggers” investe mais no trotejar alinhado da guitarra, do violão e do vocal de Jenny e do convidado Elvis Costello, o que só torna mais evidente o gingado típico do gênero. Em uma roupagem bem mais caótica, costurando 9 minutos de uma verdadeira miscelânea de gêneros, “Next Messiah” transforma a toada country, com ritmo montado em cima da bateria e vocal de fluxo curto e fechado, em um swing rock sutilmente dançante, dando liberdade à guitarra e bateria em um solo denso, que então é interrompido e subvertido em uma melodia com ares de malemolente ginga blues-rock para finalmente fechar a canção com a rítmica do refrão que iniciou a melodia.