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Rachel Yamagata – Elephants…Teeth Sinking Into Heart. [download: mp3]

Rachel Yamagata - Elephants...Teeth Sinking Into HeartQuatro anos separam Happenstance, o disco de estréia de Rachel Yamagata, de seu mais novo lançamento, o álbum Elephants…Teeth Sinking Into Heart. E não há como não chegar à conclusão de que o tempo fez muito bem à artista: enquanto no primeiro a garota criou algumas boas faixas com enorme potencial de hits instantâneos, mas que não conseguiam ir mais fundo do que isto, neste seu segundo álbum Rachel traz à tona canções cuja sofisticação melódica, sabe-se, foi fruto de um amadurecimento que só se atinge com tempo suficiente para refletir e polir melhor aquilo que é gestado.
“Elephants“, a faixa que dá título ao primeiro disco deste álbum duplo, assim dividido por ser composto de duas atmosferas musicais distintas, é o retrato exato do aperfeiçoamento atingido por Rachel no cerne emocional das canções que compõe toda essa primeira parte de sua nova criação: para sonorizar a brilhante analogia entre as amarguras do amor e a selvageria predatória da cadeia alimentar das selvas, a garota explorou reverberações melancólicas em acordes de guitarra e piano, lançando mão também de uma bateria de andamento lento e pesairoso e de uma orquestração que preenche a melodia com matizes ainda maiores de sofrimento e mágoa. “Sunday Afternoon” é outra canção em que Yamagata e o produtor Mike Mogis operam com o emocional da canção sem resvalar um milímetro sequer da exacerbante classe e elegância que são a marca maior da primeira parte do álbum: guitarras de vibrações idílicas, bateria sorumbática, violão de acordes metálicos e uma orquestração de suave fulgurar tecem, na primeira parte da canção, nuances substancialmente pastorais que aos poucos são revertidas em um arranjo mais vigoroso e levemente sensual, finalizado por uma sequência plácida e serena. E apesar do trabalho primoroso no arranjo, muito da experiência fabulosa despertada ao ouvir a música é produzido pelo vocal da americana, que exprime a dor e tristeza de alguém que confessa tentar, de uma vez por todas, abandonar um amor que só lhe causa sofrimento cada vez maior – é a faixa que com mais intensidade sintetiza a atmosfera atormentada do disco.
Porém, ainda que ela subsista em todas as canções, essa atmosfera é suavizada em alguns tons em algumas faixas do disco, particularmente nas baladas. É o que ocorre nas canções “Over and Over”, que como a maior parte das músicas da primeira metade do álbum abusa do infalível arranjo de cordas, mas sem nunca deixar de apostar no protagonismo dos acordes de piano e bateria que exalam aroma de inequívoca paixão, e na extrema simplicidade de “Duet”, que emprega apenas um violão de acordes suaves para a composição harmônica que acompanha o vocal de Rachel e seu convidado, o cantor Ray Lamontagne.
Mas este é um álbum duplo, e o contraponto à melancolia rascante do primeiro disco é o furor faiscante de Teeth Sinking Into Heart, a segunda parte, composta de canções de um rock profuso, como se confere na fartura de guitarras, baixo, bateria e múltiplas camadas vocais de “Sidedish Friend”, na qual é declarada à aversão à qualquer tipo de compromisso afetivo, e na rítmica mais fechada e menos aguda produzida pela guitarra, bateria, baixo e marimba da faixa “Pause That Tragic Ending”, cujo acabamento é dado pelo arranjo de cordas algo febril.
Muito além do fato de que a artista explora as gradações de seu potencial artístico em cada uma das partes do disco – não há algo de muito novo nisso, pois Happenstance já encerrava no seu interior tanto a placidez de Elephants quando o frenetismo de Teeth Sinking Into Heart -, o grande diferencial deste novo lançamento para o primeiro é o testemunho de que o requinte que florescia na estréia foi tão aprimorado e amadurecido que ele torna-se palpável da primeira a última nota do álbum. Por isso que, diferentemente da própria Rachel, eu não me surpreendo que uma das maiores gravadoras do mercado dê suporte incondicional à um disco que se dá ao luxo de trazer uma faixa de quase dez minutos de duração. Posso apostar que para a Warner Records, o valor da artista não é o das cifras que ela possivelmente reverta nas vendas ou na popularidade que suas canções possam ganhar no rádio, TV ou cinema, mas o fato de que a presença de Rachel é um reforço considerável ao cast de artistas de primeiro escalão da gravadora, agregando ao selo a qualidade inquestionável de seu trabalho – algo bem mais duradouro do que o dinheiro fácil feito com o “gado” que compõe a maior parte dos contratados da indústria da música.
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Agradecimentos ao Zé, que por vezes incorpora o meu feed musical.

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Emiliana Torrini – Me and Armini. [download: mp3]

Emiliana Torrini - Me and ArminiA islandesa Emiliana Torrini, depois de dois álbuns lançados internacionalmente – o primeiro, Love In The Time of Science, passeando pelo pop eletrônico enquanto o segundo, Fisherman’s Woman, divagando por sonoridades folk suaves – demonstra, com o lançamento do seu mais novo disco, que já não é mais uma artista com potencial, mas uma compositora amadurecida e em pleno controle e poder de sua capacidade criativa.
Em Me and Armini, a cantora exibe-se segura em compor não apenas dentro dos domínios do rock alternativo, que é a tônica maior do disco, mas de versar com toda tranquilidade e beleza em outros gêneros. A faixa título do disco, por exemplo, é um reggae recheado pela brandura do vocal de Emiliana, além do gingado tranquilo e carinhoso da bateria e guitarra – a letra também agrada aos ouvidos, tecendo uma ironia sutil ao dar voz à uma mulher que aguarda pacientemente que seu amante abandone a sua companheira em detrimento de sua própria companhia, a despeito de todos lhe dizerem que ela perde seu tempo. E as primeiras faixas só preparam os ouvidos para a qualidade inquestionável do trabalho que se testemunha à frente.
“Birds” chega arrasando sem qualquer necessidade de pisar fundo na melodia: com a segurança de quem sabe muito bem o que está fazendo, Torrini e seu produtor, Dan Carney, empregam no instrumental da canção violões, bateria, guitarra e baixo – este último dando um show à parte na “fuga” melódica da canção – manuseados com considerável parcimônia, além de algumas frugalidades à cargo de coisas como um teremin e piano, conferindo à canção uma tonalidade sonora que acaricia os ouvidos de modo fulminante. Faz sentido: a letra é de uma poesia ímpar, fascinando o ouvinte com a comparação tecida entre o desdobrar de um novo dia e a encenação de uma peça teatral a ponto de ninguém resistir acompanhar o canto da voz macia e doce de Torrini nestes versos. Na faixa seguinte, “Heard It All Before”, a islandesa já tinge o disco com as cores do seu rock: as guitarras, baixo, teclado e bateria escandidos com energia, as palmas e mandolim pra dar um tempero lúdico e o vocal no timbre e potência ideais servem como a carga inicial do armamento rock da compositora. Antes de prosseguir, porém, a garota faz graça ao colocar violão e guitarra ao mesmo tempo serenos e secos em “Ha Ha” para sonorizar o sarcasmo de uma mulher que desdenha de um sujeito que é incapaz de levar qualquer coisa à cabo, muito graças à sua boemia. “Jungle Drum” retoma a verve rock de Emiliana apresentando baixo, bateria e guitarra envenenados por um ritmo frenético, onde o vocal da cantora faz uma parceria imprescindível para compor o andamento e ilustrar com onomatopéias sonoras a louco pulsar de um coração intoxicado pela paixão, comparado nas letras à cadência feroz de tambores da selva. Mais à frente, “Gun” – que trata dos crimes e pecados de homens e mulheres mergulhados em relações fracassadas e ilegítimas – desacelera no ritmo, mas não no fervor de sua atmosfera rockeira: pontuada por gemidos, sussuros e por uma respiração ofegante carregados de erotismo, nada além de baixo e guitarras rascantes, com inserção ocasional de uma bateria febril, são usados como instrumentos para a concepção de uma melodia ferina e sensual. Algumas faixas a mais e chegamos ao fim do disco com “Bleeder”, uma canção profundamente delicada, que com a ajuda de piano de acordes ligeiros e distantes, de alguns acordes simples no violão e de uma orquestração de cordas de sutileza cativante serve ao propósito de registrar as confidências de uma mulher que tenta confortar o homem que ama, mostrando que ele é tão sujeito à ser rendido pela manifestação de emoções fortes quanto qualquer outro ser no mundo.
Comparada no ínício da carreira à conterrânea Björk por alguns críticos musicais apressados, Torrini logo reduziu essas declarações à vozes sem eco, afirmações sem relevância que merecidamente caíram em descrédito já no lançamento do seu segundo álbum. Com Me and Armini, Emiliana Torrini sedimenta de vez uma identidade musical própria – a de uma artista que ignorou o porto de idiossincrasias que a crítica musical enxerga existir na arte produzida na sua terra natal para singrar com sua nau à procura de mares e oceanos de sonoridades versáteis, porém mais simples, deixando para trás e à deriva o estereótipo com o qual os islandeses costumam ser embalados.

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Sharleen Spiteri – Melody. [download: mp3]

Sharleen Spiteri - MelodyExuberantemente pop. Essa é a definição mais breve e exata do primeiro disco de Sharleen Spiteri, vocalista da banda escocesa Texas. Com o lançamento de Melody, temos mais uma cantora se embrenhando no filão do pop nostálgico que virou a nova e mais rentável aposta das gravadoras e produtores da música britânica. E, se por um lado temos a repetição de uma fórmula já garantida de sucesso, por outro ela é feita com uma competência que garantiu um bom punhado de faixas irresistíveis no álbum – algumas até flertando com outras vertentes do pop, igualmente nostálgicas.
“It Was You”, que abre o disco, é uma delas: recheada com orquestrações de metal e sopros luxuosos em um swingue acelarado, puxado pela bateria, Sharleen já começa sem pudor de ser confessional, exorcizando o fim de um relacionamento de 10 longos anos ao declarar na letra da canção que, se algo morreu dentro dela, foi aquele que a abandonou. “All the Times I Cried”, onde vemos Sharleen dando voz à uma mulher desiludida com a mudança de comportamento do seu companheiro, continua investindo nas melodias cobertas de metais e cordas pomposas, ainda que agora, devido aos acordes delicados no piano, que é solicitado pela melodia no contraponto reflexivo da música, o tom seja ligeiramente mais triste. Já em “Stop, I Don’t Love You Anymore” a música não sossega um minuto sequer, já começando com arranjo de metais a pleno vapor e bateria e guitarra de pontuações dramáticas nos primeiros segundos da canção.
E já que se trata de um disco calcado na música pop, não poderia faltar em Melody baladas de fazer fechar os olhinhos e ficar perdido em devaneios românticos, certo? Sharleen sabe disso, pois caprichou em duas das baladas presentes no disco. Em “I Wonder” ela não deixa barato, colocando pra trabalhar um coro gospel, teclado, guitarra, baixo e bateria, todos com a malemolência do soul, dando ainda robustez ao refrão com orquestração de cordas e com o seu próprio vocal, crispando em sentimento, para sonorizar as queixas de uma mulher que diz ao companheiro que a abandonou que ela não esquecerá o sofrimento que passou quando eles se encontrarem novamente. E “Françoise” não faz por menos, explorando uma outra tonalidade, menos grandiloquente e mais sutil: apesar de ter sido feita em homenagem à cantora Françoise Hardy, o sabor que a brandura da guitarra e a docilidade do piano deixam é o daquelas músicas delicadas e de atmosfera idílica que ganharam fama em romances do cinema italiano dos anos 60, algumas das mais notórias na voz de Gigliola Cinquetti.
Contudo, é a vibrante alegria de “Don’t Keep Me Waiting” que faz desta a melhor faixa do disco: desavergonhadamente pop, a melodia transborda, sem medo de ser feliz, num ritmo intoxicante para o corpo, onde tudo, o arranjo pulsante de metais e cordas, a vivacidade do piano, da bateria e principalmente dos vocais, faz da vontade de dançar o imperativo ao ouví-la já nos seus primeiros segundos – e, diga-se, é difícil resistir à este convite.
Melody é um disco sem segredos: melodias harmonicamente perfeitas nos seus momentos inspirados, feitas sem qualquer ambição que não fosse a de colar nos ouvidos o dia inteiro e fazer quem as ouve cantarolá-las descontraidamente à qualquer momento – mesmo nos mais impróprios. Não é um álbum pra entrar na sua lista de obssessões favoritas, mas apenas pra ficar lá, na sua estante ou no seu acervo de mp3, prontinho a qualquer hora pra ser desfrutado pelo que ele é, um disco com algumas boas canções pop, sem surpresas e sem rodeios.
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Duncan Sheik – Phantom Moon. [download: mp3]

Duncan Sheik - Phantom MoonEu já disse por vezes aqui que alguns artistas e discos levam tempo pra crescer entre minhas preferências. Alguns eu conheço e ouço há anos, mas quando perguntado do que eu gosto, não chego a citá-los prontamente porque não atingiram ainda o ponto em que podem ser considerados artistas favoritos. Contudo, há pouco um deles saiu da minha lista de ostracismo cultural e se aproximou dos que perfazem as minhas preferências – o cantor e compositor americano Duncan Sheik. De todos os discos que lançou, só ouvi até hoje seus três primeiros álbuns – onde seu trabalho exibe uma enorme atmosfera pop/folk -, e apesar de que Humming é o que mais escutei, foi Phantom Moon que me fez olhar novamente para o artista, de lá de seu local de repouso na minha cultura musical. O disco é um trabalho requintado e cuidadoso tanto de melodias quanto de letras – estas, por sinal, escritas pelo dramaturgo e poeta americano Steven Sater -, nas quais ainda que variem consideravelmente em tonalidade e intensidade, acabam por compor um todo de homogênea melancolia. Na faixa “Mouth On Fire”, por exemplo, para transmitir na melodia a mesma magnânima estupefação do eu lírico das letras – que vê tudo o que entende e crê perder todo o seu sentido diante do que vive no momento -, Duncan pôs em serviço violões de acordes suplicantes e ligeiros para trabalhar com bateria, arranjo de cordas e com as várias camadas de seu vocal, construindo uma música que só reduz sua densidade melódica sôfrega no seu último minuto e meio. É justamente o oposto do que nos é apresentado em “Lo and Behold”, onde o cantor e compositor se utiliza de piano, orquestração de cordas e da beleza inequívoca de sua voz jovem, macia e pungente para, de modo supremamente fabuloso, construir na música e nos sentidos do ouvinte um crescendo melódico que suplanta de modo inevitável todas as suas sensações – algo que condiz com as letras, inspiradas na enorme emoção de Simão ao ser apresentado à Jesus no no templo de Jerusalém, passagem do evangelho de São Lucas. Em outras canções, no entanto, a variação é menos intensa, já que Sheik cultiva uma sutileza maior no andamento delas. Exemplos disso estão na melodia fulgurante de “Time and Good Fortune”, que com matizes criadas por violas, bateria e orquestrações evoca a placidez de um cenário bucólico esplendorosamente invadido pelos raios do sol, na cadência suave e gentil da guitarra, bateria e piano da balada “Far Away”, que exibe o calor ameno de uma paixão madura, na perfeição do compasso folk/rock graciosamente vigoroso entre violões, órgão, percussão e vocal da faixa “A Mirror In The Heart”, que imprime sensações de revelação e urgência, e na plangente serenidade dos violões e do vocal de Duncan em “Requiescat”, que explora sonoramente a mesma resignação da súplica, nas letras, pela paz de espírito de alguém que se foi, e pelo equilíbrio de quem ficou.
Phantom Moon é nitidamente daqueles discos que não se repetem na carreira de alguém – ficam lá aprumados em sua inatingível superioridade, resultado de um momento ímpar no qual o artista encontra-se imbuído de uma inspiração inigualável. Ao mesmo tempo que isso é uma verdadeira preciosidade para um músico, pelo simples fato de que tal obra foi concebida, também se converte em um empecilho, uma vez que dificilmente se consegue superar, ou mesmo atingir, igual nível de qualidade em obras posteriores. Mas essa busca é, felizmente, o “santo Graal” que é a força-motriz por trás de todas as expressões artísticas, o alimento mais que necessário para sua continuidade.
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Lykke Li – Youth Novels [download: mp3]

lykke li - youth-novels (2008)

Digam a verdade: o nome Lykke Li já vem à mente associado à alguma cantora oriental daquele j-pop bem tutti-fruti. Estranhamente, ele é o pseudônimo de uma artista sueca que já morou em diversos países do mundo, como Índia e Marrocos. Talvez por essa vivência tão versada em cosmopolitismo, a garota anuncie já no nome uma certa ambivalência sonora: há no seu disco canções de um pop glamoroso e cintilante tanto quanto há algumas de um outro, mais experimental, que só entra ouvido adentro se arrastando com alguma aspereza. Em sua maioria, as canções do primeiro grupo perfazem o gênero de forma mais rasgada e assumida, como acontece nas faixas “I’m Good. I’m Gone” – recheada com piano, bateria e palmas em andamento fortemente cadenciado que ganha ainda um brilho fabuloso no refrão com a entrada de um vibrafone e vocais adicionais -, “Breaking It Up” – cuja introdução de piano, violoncelo e coro multivozes, que é repetida no refrão, é encaminhada para uma música de síncope bem marcada pelo vocal de Lykke e por palmas, que concedem uma sonoridade mais orgânica à melodia -, “Let It Fall” – onde a melodia lúdica e jovial em loop de cadência travada casa como goibada e queijo com a letras em que a cantora confessa gostar de sentir lágrimas correndo pelo seu rosto por causa de seu sabor e pela sensação agradável que desperta na pele – e na graciosa “Dance. Dance. Dance” – que para dar voz à confissão de uma garota que só consegue se expressar e libertar de sua timidez enquanto dança, faz uso de uma melodia que funde o sabor pop nostálgico do saxofone e do baixo com a sonoridade da percussão tilintada e do coro que remete à algo como ritos festivos africanos.

lykke li - youth-novels (2008) post 01
A estréia de Lykke Li em 2008 trouxe alternava pop cintilante com experimentalismo

O trajeto mais experimental do disco, por sua vez, possui uma concepção melódica mais artesanal, como se pode conferir na inspiração latina da faixa “This Trumpet In My Head”, que soa como um lamento improvisado por uma viola flamejando em melancolia e por um trompete de tonalidade algo lutuosa e na canção “Time Flies”, feita de um piano, vocal e bateria de pulso sonoro soçobrante laceados por um vocal frágil e doce da cantora sueca.
Youth Novels desliza em um ou outro passo quando sua mentora mergulha na idiossincrasia abrasiva, buscando não limitar-se à exploração de uma sonoridade pop mais óbvia, mas acerta o passo justamente quando não demonstra medo de ostentá-la sem receios. Aí sim, a garota demonstra todo o seu potencial: sua capacidade de compor faixas para, sem qualquer pudor, sacodir esqueletos e bater cabelos.

Lykke Li – Youth Novels (2008) [mp3]

Ouça (Spotify):

Lykke Li - Youth Novels - 2008
Lykke Li - Youth Novels - 2008

Ouça (Deezer):

Lykke Li - Youth Novels - 2008
Lykke Li - Youth Novels - 2008

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Cartier – Love (Vários Artistas) [download: mp3]

cartier - love (lou reed, sol seppy, various artists) (2008)

Projetos musicais que reúnem cantores e bandas em prol de caridade ou causas sociais acabam nunca interessando de fato porque os artistas ligados ao projeto não se dão ao trabalho de produzir algo que tenha realmente qualidade, se contentando com covers ou, quando muito, liberando algo que não passou pelo seu próprio crivo. Mas a coisa pode ser ainda pior quando aquilo que vai ser produzido reúne os artistas em parcerias desiguais e sob as amarras criativas do tema em questão – geralmente causas sócio-ambientais. Felizmente, mesmo que algumas coisas acabem não sendo exatamente um atrativo, esse não é o caso do projeto, “Love Cartier” com o qual acabei me deparando há poucos dias, uma iniciativa bem pensada da famosa joalheria francesa que, como já indica o nome, tematiza sobre o amor. Parte de um projeto que inclui a produção e venda de jóias cujos ganhos são revertidos para a caridade, a “perna” artística do projeto compreende o lançamento gratuito na internet de 12 canções compostas e interpretadas, em sua grande maioria, por artistas da nova seara de música independente. E, devo confessar que muitos deles eu sequer tinha ouvido falar na minha vida. É o caso do britânico Dan Black, que contribuiu para o projeto com “Liz And Jonny”, um pop/rock com uma programação e um riff no teclado compondo uma síncope bem desenhada, daquelas realmente pegajosas que fazem o ouvinte entoar a letra em falsetes semelhantes ao timbre do vocal de Black, tamborilar os dedos no ritmo da música e fazer um beat-box imitando a pegada da bateria sem se dar conta. Outro ilustre desconhecido para mim é Hawksley Worksman, que trouxe para a coletânea de músicas da Cartier a faixa “The Ground That We Stand On”, uma balada muito inspirada e emocionante, com fartura de vocais de apoio ampliando o lirismo da melodia, acompanhados de um arranjo feito de toques firmes porém doces tanto nas cordas do violão quanto na superfície da bateria e percussão, além de algumas sintetizações que agem como uma cola, unindo todos os elementos sonoros sem deixar qualquer fresta. Pauline Croze, por sua vez, não é exatamente uma desconhecida para mim, mas como nunca tinha me dado ao trabalho de conferir alguma composição sua, acaba dando no mesmo. “Sur l’écorce” é a faixa que compôs para a Cartier, uma canção onde os acordes das várias e diferentes camadas de guitarra soam tão metálicos, agudos e um tanto rústicos quanto o é o vocal da cantora francesa, o que resulta em uma canção que causa estranhamento à primeira audição, mas que ganha simpatia depois que lhe é dada mais atenção.
Claro, como eu acabei desenvolvendo a síndrome do indie desde que este blog sedimentou sua existência na blogosfera, alguns dos ilustres desconhecidos não o são de todo para mim. Sol Seppy, por exemplo, é uma das artistas do mundo indie que mais adoro e admiro desde que ouvi sua única obra até hoje, o disco The Bells of 1 2. Sua composição para esta coletânea, “I Am Snow” é o simulacro do seu estilo espetacularmente doce, taciturno e etereamente difuso, construída com toques delicados e doces em um piano distante, um violão silencioso e uma programação que evoca tanto o conforto melancólico da escuridão da noite quanto o contentamento radiante da claridade do dia, tudo acompanhado do vocal fabulosamente pacífico e terno desta artista que merece ser muito mais conhecida.
Mas entre os artistas de menor projeção podemos encontrar outros que já tem uma história bastante longa no mundo da música. Um deles é o compositor japonês Ryuichi Sakamoto, famoso pelas suas inúmeras contribuições na músicas pop, na música erudita e na composição de trilhas sonoras, sempre com incontáveis parcerias lhe fazendo companhia. Para o projeto Love Cartier, Sakamoto sentou-se no seu piano e trabalhou em uma de suas indefictíveis improvisações, produzindo uma peça de enorme placidez e serenidade acústicas. Sentindo necessidade de algo a mais, o compositor enviou a composição para um de seus muitos amigos e colaboradores, o compositor austríaco Christian Fennesz, que adicionou à peça suas conhecidas intervenções eletrônicas, compostas sobre guitarras trabalhadas, distorcidas e subvertidas em softwares de áudio – o resultado é “Mor”, uma composição delicada e sofisticada, transbordando ternura e melancolia.
Entre as doze composições escolhidas e ofertadas, sobrou espaço até para que alguém não tem exatamente uma carreira no mundo da música. A atriz francesa Marion Cotillard, apesar de ganhar fama com o Oscar que recebeu por um papel que tudo tem a ver com o mundo da música, na verdade, até hoje, só fez algumas poucas participações neste meio, assim como o faz aqui neste projeto, com a belíssima balada “The Strong Ones”, cuja melodia atinge em cheio os ouvidos com o vocal quente e macio da atriz e cantora sobre violão, bateria e guitarras de cadência lenta e melancólica – dá vontade de deitar no chão e dar vazão à toda sua sensibilidade acompanhando a cantora nas letras da canção, que falam sobre como mesmo aqueles que se julgam fortes se descobrem inequivocamente frágeis diante da força incomensurável do amor.
Mesmo que nem todas as músicas que integram o projeto possam agradar ao público, o projeto já tem grande utilidade ao dar à chance para que qualquer um tenha contato, de uma só vez, com artistas desconhecidos com um trabalho de qualidade, ao trazer novas composições de artistas que por ventura já conhecemos e adoramos e, de quebra, ao mostrar que nem todo projeto musical que advém de ideais de caridade pode ser chato, aborrecido e artisticamente pobre e cafona – esse, talvez por conta de sua idealizadora e patrocinadora, exibe uma elegância e charme gratificantes.
Baixe todas as faixas em um pacote único ou selecione aquelas que mais possam lhe interessar, utilizando o site oficial do projeto, o Love Cartier – e não deixe de comentar aqui no seteventos.org sobre suas próprias impressões com relação às canções.

Baixe:
Cartier – Love (Vários Artistas) [mp3]

Ouça: Cartier – Love (Vários Artistas)

1. Lou Reed – “The Power of the Heart”

2. Grand National – “Drive Around Another Time And Stop”

3. Dan Black – “Liz and Jonny”

4. Pauline Croze – “Sur L’écorce”

5. Hawksley Workman – “The Ground We Stand”

6. Sol Seppy – “I Am Snow”

7. Thomas Dybdahl – “Everybody knows”

8. Phoenix – “Twenty-One One Zero”

9. Little Dragon – “Infinite Love”

10. Ryuichi Sakamoto & Christian Fennesz – “Mor”

11. Marion Cotillard – “The Strong Ones”

12. Khalil Fong – “Love In This World”

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005