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Tag: ralph fiennes

“Conclave”, de Edward Berger [download: filme]

conclave (2024)

Com a morte do papa, um conclave é formado para a eleição do novo pontífice. E este será tudo, menos pacífico.
O conceito de um filme de duas horas que se resume a retratar o decorrer de um conclave provavelmente não pareceria muito atraente para o público em geral – o primeiro obstáculo seria desconhecer do que se trata um conclave. No entanto, o longa-metragem de Edward Berger não apenas passa longe de ser chato mesmo para o público médio como também recupera um cinema que a Hollywood de hoje tem deixado cada vez mais para trás.
Em cada um dos seus componentes, “Conclave” apresenta o que há de melhor: um elenco afinadíssimo que reúne estrelas consagradas (como Ralph Fiennes, sublime ao dimensionar com precisão cada pequeno detalhe, físico ou emocional, do seu decano) e atores menos conhecidos; um diretor de fotografia capaz de composições elegantes mesmo nas sequências mais simples; o compositor que cria uma trilha sonora que a princípio soa insistente, mas que logo entende como potencializar os eventos do longa-metragem com sua beleza; o diretor de som que capta a magnitude deste ambiente mesmo nos sons mais delicados; um editor que compõe sequências com apurada perspicácia; o roteirista que consegue adaptar a história de Robert Harris em uma trama instigante e envolvente. De posse dessa equipe tão capacitada, Edward Berger transforma um evento que parece austero e burocrático em uma trama de investigação que prende o espectador, sustentando a atenção deste durante o decorrer de seus 120 minutos.

conclave (2024) post 01
“Conclave” não traz apenas intriga e mistério no Vaticano – traz também o cinemão que Hollywood esqueceu

Porém, isso não é feito apenas ao compor com maestria uma série de mistérios e intrigas que despertam o interesse do público na trama. Até mesmo quando as chamadas “temáticas sociais” que há mais de dez anos têm pautado, com seu didatismo pedante e moralista, boa parte das produções de cinema e TV, saturando e afastando grande parte do público, Berger o faz sob a luz do dogma cristão, que se enquadra perfeitamente na temática da sua obra, e não como mecanismo de doutrinação político-ideológica. É por isso que mesmo ao eventualmente abordar estes assuntos que têm sido empurrados ad nauseam em um caráter manipulativo, “Conclave” não causa repulsa e desdém, mas sim uma solidária aceitação: ao tratar este temas sob a ótica da compaixão religiosa, Berger recupera a universalidade com a qual temas como estes eram abordados na Hollywood de outrora, uma prática que a “meca” do cinema abandonou há muito tempo.
“Conclave” acaba se materializando como a recordação da excelência em grande parte perdida pelo cinema americano: um cinema do tempo em que Hollywood ainda mantinha viva a preocupação de entreter platéias com excelência técnica e artística e mantendo a ótica universal ao apresentar suas histórias. É triste perceber que a era desse cinema, que carregava milhões de pessoas fascinadas às salas de exibição todos os anos, provavelmente não voltará mais. Com sorte, ainda teremos filmes como o de Edward Berger, insistindo em nos lembrar que o cinema pode ser muito mais do que ele é hoje.

Baixe: “Conclave”, de Kane Parsons (Backrooms, 2024)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
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“O Jardineiro Fiel”, de Fernando Meirelles.

The Constant GardenerDiplomata acomodado desconfia das circunstâncias da morte de sua esposa, uma ativista que lutava contra a exploração da miséria, e resolve investigar por conta própria o acontecido. Logo descobre que a versão oficial para a morte de sua mulher está longe de ser a verdade.
Meirelles quis, em seu primeiro filme de produção estrangeira, não pisar em falso em momento algum, equilibrando a produção de maneira que despertasse a atenção de público e crítica sem chamar muita responsibilidade para si. O ponto de equilíbrio é bastante claro: enquanto vê-se uma produção financeiramente generosa, bastante requintada visualmente e com locações na Europa e na África, percebe-se que o diretor decidiu que iria conseguir controlar os rumos de seu longa na escolha da atriz para o papel de Tessa. Foi recusando atrizes da maginitude pública de Nicole Kidman e Kate Winslet – com a desculpa de não terem a idade apropriada -, e escolhendo uma atriz competente mas sem notoriedade pública excessiva, que o diretor garantiu para si as rédeas do controle autoral de seu longa-metragem, evitando tanto que sua produção fosse eclipsada pela fome de auto-promoção de atrizes como estas quanto que a presença de uma destas mulheres gerasse expectativas em excesso com relação ao seu filme. Foi assim que Rachel Weisz acabou sendo a escolhida para o papel, e o filme ganhou os contornos pleanejados pelo diretor brasileiro.
Fernando Meirelles consegue manter o conhecido nível de qualidade de suas produções em sua primeira incursão pelo mercado internacional. Os atores estão muito bem em seus papéis, limitando de forma inteligente suas atuações para não prejudicar a atenção do público com relação à estória do longa. O roteiro adaptado consegue organizar a fragmentação de sua estória de modo que o conceito não atrapalhe a compreensão do seu conteúdo. A fotografia, a montagem e a edição tem algo de saturação, imediatismo e imersão, sensações que potencializam o envolvimento do público com o desenvolvimento dos acontecimentos do filme. E a direção de Meirelles sabe deixar o registro de seu estilo sem prejudicar a unidade de cada uma das características já citadas. A palavra que melhor define o mais recente filme do diretor brasileiro é, sem dúvidas, “equilíbrio”.
Desta forma, “O jardineiro fiel” é realmente um filme muito bom, mas não se configura como uma obra-prima. Primeiro, pelo obra em si, que mostra ser um filme acima da média, mesmo entre as produções estrangeiras, mas não se torna referência imediata. Segundo, porque o filme é menos um marco na estória de diretores brasileiros que arriscam carreira internacional e muito mais um degrau acima no caminho percorrido há anos pelo trabalho competente dos cineastas brasileiros – ou seja, não se trata de que ganhamos respeito e reconhecimento internacional agora, mas sim de que já o estamos fazendo há um bom tempo, e este filme representa um avanço ainda maior neste caminho.
Por tudo isso, deve-se assitir à “O Jardineiro Fiel” com o nível de exigência no ponto certo. Nem todo artista nasceu para fazer história: a grande maioria está aí para contribuir na medida certa para o engradecimento da cultura e da arte.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005