Há tanto a falar sobre o conceito deste CD em si quanto de cada música que o integra. O primeiro projeto de Tori Amos na Sony/Epic é um disco ambiciosíssimo, onde ela – mais uma vez – encarna um personagem que guia toda a produção e idéia do álbum. O personagem é Scarlet, e cada uma das canções do disco trata de um trecho da jornada dela por grande parte dos Estados Unidos, retratando tudo que ela enfrentou pelo caminho e seu ponto de vista sobre os eventos que vivenciou e as pessoas que conheceu em sua viagem. Adicionalmente, toda uma experiência foi criada – como é de praxe com Tori nos últimos anos – para dar suporte ao conceito elaborado em Scarlet’s Walk, incluindo um website que trazia fotos e anotações de Scarlet, além de um diário da turnê de Tori Amos para divulgação do álbum e streaming de alguns B-sides – canções que foram feitas nas mesmas sessões mas não entraram na edição final do álbum.
Apesar de formarem, em conjunto, todo o painel da viagem da personagem Scarlet, as dezoito músicas também funcionam perfeitamente por si só, excluídas de uma inter-relação. E, ainda que exista uma variação melódica em alguns momentos do disco, pode-se dizer que todas as canções compartilham de uma incomensurável suavidade e complacência harmônica. É por conta disso que não há risco algum em dizer que “Strange” e “Crazy” são a cara do disco. O modo delicado como o Wurlitzer é utilizado na primeira, junto com a bateria lenta e triste, assim como a presença do piano e de uma orquestração de cordas no refrão, constroem com perfeição a melancolia necessária, presente nas letras de “Strange” – quando Scarlet reflete sobre o modo como camufla a sua personalidade para tentar manter mais uma relação amorosa, decide abandonar mais esse amor. Já nos versos de “Crazy” vemos que Scarlet é quem foi abandonada por um homem que, apesar de não ser o ideal era quem lhe dava alguma segurança e apoio no momento. A canção tem a mesma delicadeza que sente-se em “Strange”, notadamente pelo uso do teclado Rhodes e pela guitarra e bateria lentas e reflexivas, mas não conta com a presença do piano e de orquestração. Contudo, entre as baladas presentes no disco, há algumas que ainda carregam algo da Tori pré-Sony/Epic, como vemos em “Your Cloud”, onde o piano volta a ter maior presença na construção da harmonia da canção, acompanhado apenas pelo baixo quase imperceptível e a bateria de cadência suave – uma constante no disco. “Another Girl’s Paradise” é uma das canções em cuja melodia a bateria é manuseada com um pouco mais de intensidade e com uma rítmica mais elaborada, o mesmo acontecendo com os acordes do piano, mais vistosos na melodia. A sensualidade exposta nos vocais de Tori Amos, intensificados pela guitarra, faz a beleza dessa canção esplêndida, cujos versos falam sobre um mundo tomado pela cobiça e desejo – particularmente o femino. O tom de “Don’t Make Me Come To Vegas” também é o da sensualidade, bem como os acordes do piano continuam mantendo preponderância, mas sua bateria segue uma harmonia sutilmente mais latina, e o baixo surge mais evidente na canção. Na letra, Scarlet tem que ajudar sua sobrinha em Las Vegas, mas teme voltar à cidade devido a um poderoso homem com quem se envolveu, e que a maltratou. “Virginia”, que relembra a forma como a América foi colonizada e tomada pelos europeus, destruindo a identidade e cultura dos nativos americanos, também possui cadenciamento mais complexo da bateria e dos acordes do piano, mas a atmosfera e vocais sensuais de “Another Girl’s Paradise” e “Don’t Make Me Come To Vegas” são substituídos por uma melodia de espetacular tristeza e revolta.
Contudo, não é surpresa que uma das canções mais deliciosas e viciantes do disco seja a curtinha “Wednesday” – qualquer fã de Tori Amos já está acostumado com o habilidade dela neste tipo de composição -, em que a personagem Scarlet encontra-se em uma relação amorosa com um homem cheio de segredos e vive assombrada por amores antigos – não se engane, analogamente esta canção é sobre a América e os americanos. A melodia alterna a sutil agitação das guitarras e da bateria ritmada com a melancolia contemplativa do piano e do vocal no refrão desta faixa.
Scarlet’s Walk, que floresceu do estilo de concepção artística que surgiu em Strange Little Girls é, até o momento, o álbum mais cuidadosamente planejado de Tori Amos, além da obra que influenciou de maneira definitiva, tanto melódica quanto liricamente, os rumos atuais de sua carreira. A sonoridade plácida, contemplativa e suave das canções, assim como as letras mais brandas, menos irascíveis e com maiores colorações sociais e políticas surpreendeu os fãs, acostumados com uma Tori mais pessoal, combativa e furiosa. Apesar de ser considerado o início da perda de parte da vitalidade artística da cantora e compositora, o álbum conseguiu conquistar os fãs – para muitos um dos discos preferidos – e é sempre tomado por eles como referência e prova cabal da superioridade, qualidade, criatividade e profundidade de Tori Amos como artista. Mesmo que alguns tomem este disco como responsável pelos equívocos e falhas recentes de Tori, não há como negar que ele também conseguiu sacramentar e propagar ainda mais uma verdade que todos já conhecem – que Tori Amos é uma das artistas mais importantes do cenário musical dos últimos vinte anos.
Baixe: Tori Amos – Scarlet’s Walk [mp3]
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Baixe: Tori Amos – “Strange (Radio Edit)” e “Pancake (Extra Verses”) [mp3]
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Em 2001, antes de sua banda, o The Cardigans, embarcar na mistura de rock com uma pitada de country que resultou no emocionante disco Long Gone Before Daylight, Nina Persson já ensaiava em seu único – até hoje – projeto independente cujo estilo influenciaria a brusca mudança na sonoridade da banda sueca. Junto com a produção de Mark Linkous, do Sparklehorse, Nina compôs as canções do que foi simplesmente chamado de A Camp, um apanhado de canções por vezes agitadas, em outras melancólicas e sensíveis. O maior exemplo deste último estilo, presente no disco, é “Algebra”, em cujos vocais Nina atinge seu ápice emocional, cantando cada verso com imensa doçura e paixão. Com letras em que uma mulher conta como um homem, apesar da aparência contida e centrada, tinha seu coração “fora do peito” – tamanha era a maneira como não conseguia conter seu amor -, o violão dedilhado com suavidade e a bateria ao mesmo tempo forte e terna incrementam a docilidade da canção. “Frequente Flyer”, sobre uma mulher que não lamenta nunca conseguir ter um paradeiro devido à sua volubilidade afetiva, é igualmente grandiosa em sensibilidade e ternura, apresentando mais vocais delicados de Nina trabalhando perfeitamente com a melodia de bateria suavemente cadenciada e guitarras e teclados lentos e sôfregos. “Elephant”, que fecha o disco, prossegue remando nos infortúnios amorosos, já que em suas letras Nina reclama ter desperdiçado tanto amor com um homem que termina uma relação de uma forma tão sardônica. A bateria continua em uma cadência forte e lenta e os pianos e riffs de guitarra graves e dramáticos ganham mais importância à medida que a canção chega à sua apoteótica sequência final.
Joan Wasser é mais uma daquelas artistas americanas, possíveis apenas nesse mundo contemporâneo, que por não conseguir espaço em um mercado tão inflado, injeta suas composições e sua presença em diferentes e diversos projetos. O trabalho mais pessoal de Joan é feito na companhia dos músicos Ben Perowsky e Rainy Orteca, formando a banda que ganhou o nome de Joan As Police Woman. Com os dois amigos, Wasser promove uma fusão de rock com soul que desponta pela suavidade ao lidar com esse gênero hoje tão maltratado pelos artistas mais comerciais e de expressão mais popular. Isso se tornou possível porque, além de utilizar arranjos bem dosados, Joan Wasser não é dona de um vozeirão, algo tão comum e imprescindível para os grandes nomes do gênero, livrando sua música dos vícios e ranços que tornam o soul, na sua expressão mais contemporânea, tão enjoativo. O dueto “I Defy”, com Antony Hagerty, mostra isso muito bem: a faixa é uma canção de amor com piano, bateria e orquestração de metais refletindo toda a ginga deliciosa do soul, que floresce com mais força no vocal do convidado Hagerty, mas nunca ultrapassa os limites do bom senso. “Anyone”, em que Joan fala sobre como sente-se preparada para amar, já que encontrou quem tanto procurava, prossegue explorando o gênero, já que o vocal, o teclado e a orquestração de metais exalam o calor sôfrego e lânguido que marcam demarcam tão bem as fronteiras do soul.