Escutando com mais atenção o segundo álbum da banda Coldplay, comentado por mim aqui no blog semana passada, conclui que, apesar da beleza intensa de suas melodias, a dramaticidade excessiva das composições, tanto melodicamente quanto liricamente, deixa um gosto de pretensão suspenso nos ouvidos. O lançamento posterior da banda, X&Y, é um trabalho com muito menor ostentação sonora, visivelmente menos inchado. A tônica do álbum é a rítmica de agitação leve, que exala um breve e agradabilíssimo calor sonoro. Este calor é obtido pelo uso inteligente de programação eletrônica, cujas sonoridades compostas pelo grupo foram introduzidas de forma homogênea nas melhores canções, ao mesmo tempo conferindo-lhes um perceptível destaque na melodia. Assim são “Square One”, “Talk” e “Speed of Sound”. “Square One”, que fala sobre expectativas e reciprocidade nas relações humanas, chama atenção pelo refrão encorpado por guitarras ansiosas e pela sua sequência final contemplativa, baseada em violão. “Talk”, que comenta a confusão, a falta de rumo e sentido da vida contempôranea, surpreende por explorar esplendorosamente a introdução da canção “Computer Love”, da banda alemã Kraftwerk. Porém, no lugar do teclado, as guitarras ficam encarregadas de dar novas cores ao trecho retirado da criação do grupo alemão. E “Speed of Sound”, feita de versos de lirismo abstrato e reflexivo, gerou debates por iniciar-se com acordes de piano que lembram, vagamente, a canção “Clocks”. No entanto, e apesar das críticas por esta similaridade, a música tem identidade propria, sendo um pouco menos minimalista que a do álbum anterior.
Até mesmo as baladas do grupo sofreram alterações devido à maturação artística da banda. No novo disco, fica-se com uma impressão nítida de que elas tem um sentimentalismo menos grandiloquente em suas melodias, uma dramaticidade bem reduzida se comparadas à de “The Scientist”, por exemplo, o que as faz canções menos incômodas para o ouvinte, já que o dramatismo pretensioso das belas baladas do disco anterior arrebatam nas primeiras audições, mas tornam-as cansativas depois de algum tempo. Desta forma, músicas como “What If” e “Fix You” tornam-se músicas bem mais longevas, menos sujeitas ao aspecto nocivo de sucessivas audições. “What If”, que pondera sobre as consequências do afastamento de uma relação afetiva, carrega o piano para o fronte musical novamente, em acordes lentos e tristes, mas menos sofridos do que em composições anteriores da banda, o refrão floresce no ar, sem o peso de querer transformar a música em um hit instânteneo. “Fix You”, que fala sobre o apoio incondicional à alguém que se sente cansado e derrotado, temos um orgão usado de maneira radiante na melodia, que divide-se entre uma primeira parte mais silenciosa e plácida e sua sequência final, arrebatadora.
Porém, a música que me deixou mais estarrecido em todo o disco foi “Twisted Logic”, cujos versos parecem ser mesmo de cunho eco-político. Utilizando a instrumentação tradicional do grupo, a banda conseguiu, novamente utilizando a tônica comedida do álbum, criar uma canção ainda mais pungente que a espetacular “Politik” do disco anterior – a brevíssima reverberação, que ensaia um retorno da melodia na sequência final da música, é de arrepiar.
Depois de três discos, há quem diga, com alguma razão, que o Coldplay é, ou quer ser, o “novo U2″ – obviamente que a maior parte das pessoas que o dizem são fãs da banda irlandesa. Faz sentido se pensarmos que alguns aspectos deste disco o aproximam de “Zoroopa” do U2 (comentado há pouco no seteventos.org), como a participação de Brian Eno e o desejo de que a canção escondida do disco fosse cantada por Johnny Cash, se refletirmos sobre as performances ao vivo do grupo, que ganham o status de experiência única pelos fãs, também encontraremos semelhanças, bem como a tendência ao ativismo politizante das duas bandas. Contudo, o Coldplay, mesmo em seus momentos e facetas mais populistas, é uma banda bem menos afeita à grandiloquencia ambiciosa do U2. E X&Y, com sua vísivel atmosfera equilibrada, é um bom exemplo do caráter mais sutil da banda.
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Coldplay é uma banda capaz de canções irresistíveis e outras aborrecedoras. Seus três discos lançados até agora tem essa mesma cararacterística: cerca de metade do disco, ou ainda menos, anima muito, enquanto a outra metade faz o oposto. A Rush Of Blood To The Head é o disco da banda que tem maior quantidade de boas músicas, superando o álbum de estréia e o seu sucessor. “Politik” é a primeira das boas músicas, canção cuja melodia tem dois momentos distintos, mas que na verdade são a variação de uma mesma música: um mais silencioso e intimista, baseado quase que somente em acordes minimalistas de piano, e a sua variação grandiloquente, que intensifica exponencialmente a melodia antes discreta, invadindo o espaço que antes era habitado pelo silêncio com uma profusão de orquestração de cordas, bateria, piano e guitarras – insturmentos que já estavam ali, mas em absorto silêncio. A letra poética tem uma abordagem universal, tratando de coisas que desejamos por toda nossa vida, nas relações humanas que travamos. A faixa seguinte, “In My Place”, é um single clássico, com uma melodia pop/rock bastante atraente e bonita, com bom uso de riffs de guitarra e de bateria cadenciada, com letras românticas simples. “God Put A Smile Upon Your Face” usa em primeiro plano riffs insinuantes de violão, que tem um sutilíssimo sabor meio country/rock. Logo a melodia rock toma a música, quando surgem então uma bateria fortemente sincopada e guitarras que delineam o restante de música, preenchendo todo o espaço restante. A letra fala de maneira irônica sobre como perdemos tempo em algo que parece muito mais uma competição do que uma relação afetiva, por estar repleta de egoísmo, orgulho e esnobismo. “The Scientist” é uma balada linda, guiada em primeiro plano pelo piano triste e sensível, apresentando ainda um violão que mimetiza os mesmos acordes do piano, guitarras, bateria e baixo discretos, e backing vocals e base orquestrada complementar. A letra amplifica a emoção da melodia, falando sobre o desejo de voltar no tempo para recomeçar uma relação que já não existe mais, evitando e corrigindo todos os erros que levaram ela ao seu fim. “Clocks” cuja cujos versos algo retratam pensamentos confusos sobre o que achamos que somos e aquilo que queremos, é a última destas canções. A melodia faz desta, junto com “Politik”, as duas melhores canções do disco: ela foi feita utilizando o mesmo acorde mínimo de piano e leves variações deste pontuando, ciclicamente, toda a música, que vai ganhando a participação de outros instrumentos, mas sempre baseando-se na repetição da mesma melodia mínima. Ainda que sejam só cinco faixas que interessem, A Rush Of Blood To The Head já se destaca pela qualidadade destas canções, que fisgam o ouvinte desde a primeira audição, permanecendo na cabeça por horas, dias. Vale a pena conferir o álbum, mesmo que seja apenas por estas poucas – mas excelentes – faixas.
É mais do que verdade afirmar que tenho enorme ignorância no que se refere ao trabalho da banda irlandesa U2. Deles tenho conhecimento de poucas músicas de toda a carreira, algumas de suas origens, outras mais recentes. Mas esse ignorância confessa tem uma razão de ser: o único disco da banda que conheço integralmente é Zooropa, de 1993. Infelizmente, tentei começar a conhecer U2 no trabalho mais desafiador de sua carreira, e isso acabou gerando uma enorme frustração e desinteresse com os outros álbuns. Ouso declarar, dentro de minha ignorância, que tive o azar de começar com o melhor disco da banda, um dos únicos que ouvi até hoje que apresenta sete faixas fabulosas, consecutivamente.
Mesmo não sendo fã da banda Radiohead, gostando apenas de algumas poucas faixas de seus álbuns, resolvi arriscar ouvir The Eraser, o álbum solo do vocalista da banda. Foi uma boa idéia – mesmo o disco não se revelando estar entre as minhas preferências, há ali um projeto sonoro bastante coeso e faixas bem acima da média.
Belas surpresas reservam a internet. Ao me deparar com o perturbador vídeo de Emily Haines (veja aqui no blog), fiquei deveras impressionado com a sua música e, inevitavelmente, seguiu-se uma busca pelas canções de seu segundo álbum solo. Garimpei a web inteira, encontrei o álbum e fiquei surpreendido. Knives Don’t Have Your Back pode não ser feito completamente de músicas fenomenais, mas aquelas que são fenomenais, o são integralmente. “Doctor Blind”, o single cujo vídeo já citei e aqui postei, é abusivamente moderno e delirante: nas letras, entre versos algo delirantes, o vocal de tom desesperançado de Emily pede à um médico a prescrição de drogas para aplacar o sofrimento psicológico de seu companheiro; a melodia é feita num piano de acordes tristes e bateria de cadência lenta e pesairosa, acompanhados por bom uso de orquestração de cordas complementar. Em “Detective Daughter”, cuja letra fala sobre conflitos de identidade com os quais todos podemos nos deparar em certa altura da vida, temos uma melodia hipnótica que usa, além do piano triste e reflexivo, acordes longos de guitarra e bateria eletrônica básica. “The Lottery” trata da liberdade sexual e da sua necessidade na vida humana, trazendo um melodia onde orquestrações de cordas sofisticadas ganham mais corpo na música, complementando o piano de acordes um pouco desiguais e o vocal sutilmente irônico de Emily. Em “The Maid Needs A Maid” Emily revela uma canção de amor para uma outra mulher, revelando os detalhes ordinários de sua beleza e comportamento que a fascinam. A melodia é baseada apenas em piano, cujos acordes graves são tão bem compostos que realmente fazem desnecessária a participação de qualquer outro instrumento. “Mostly Waving”, cujos versos curtos falam sobre o comportamento inadequado, tem como seu maior atrativo a música fabulosa: além do piano minimalista de acordes essencialmente graves, temos uma bateria suavemente cadenciada que evita atrapalhar a participação da orquestração de metais, que é o grande salto da melodia, junto com a ironia sutil que Emily põe em seu vocal solto à meia-voz e nos vocais de fundo bastante lúdicos. Os metais também estão presentes em “Reading in Bed”, porém a orquestração destes é mais suave e lenta, compondo apenas a sequência final da música e acompanhando o trabalho ao piano, onde Emily volta à explorar a sua destreza em compor acordes feitos de pequenos ciclos melódicos que se repetem e se modificam ligeiramente durante a música – uma representação legítima do chamado “minimalismo”. A letra fala sobre a vida ordinária de um homem qualquer, cuja tristeza provém de um livro que tem sempre à mão. “The Last Page” trata os percausos e medos que temos durante a vida com necessários de ser enfrentados, o que minimiza e diminui o seu impacto. A melodia é dividida em duas partes diferentes, primeiramente baseada apenas em piano de toques esparsos, ganhando a participação discreta de um orgão por alguns instantes; na segunda parte da música surge uma bateria de cadência algo orgânica, que se mantém durante os instantes finais da canção enquanto o piano, o orgão e um baixo sutil somem da melodia. A última música do disco, “Winning” é daquelas canções soberbas que fecham discos de maneira tão perfeita que é impossível evitar ouvi-la novamente. A letra, de lirismo pós-moderno e dissonante, fala sobre a tentativa de consolar o sofrimento de alguém sem deixar de mostrar-lhe como isto não vai ser fácil, mas que será feito uma hora ou outra. A música, novamente centrada apenas no piano, casa com perfeição com o vocal melancólico mas encorajante de Emily, tendo, na sua parte final, uma das sequências melódicas mais belas que já ouvi, primorosa em seu modo fulminante de atingir as emoções do ouvinte utilizando tão pouca coisa – é de ouvir ininterruptamente, dissecando, saboreando e decifrando cada um dos seus preciosos e esplenderosos segundos.