Pular para o conteúdo

Tag: rock

White Lies – “Nothing On Me” (single) [download: mp3]

white lies - nothing on me (single)

Liberado esta semana nas plataformas digitais pela banda britânica White Lies, o single “Nothing On Me” é breve, mas intenso: logo após sintetizadores ondulantes abrirem a canção num rápido crescendo, a melodia é tomada de assalto por uma súcia de eletronismos transbordantes, confessadamente inspirados no rock progressivo dos anos 70, seguido de uma onda de guitarras exuberantes e de uma bateria frenética que faz referência ao motorik beat, cuja origem encontra-se nos anos 60, em bandas da Alemanha Oriental como Kraftwerk e Can. Sobre essa melodia ruidosamente hiperbólica, que só consigo descrever como ser conduzido em alta velocidade em um veículo desgovernado dentro de um túnel intensamente iluminado, a voz sutilmente rouca do vocalista Harry McVeigh reflete o efêmero e abstrato estado de confusão após uma discussão com alguém querido – o que coincide com o frenesi melódico da faixa.

Baixe:
White Lies – “Nothing On Me” (single) [mp3]

Ouça:

Deixe um comentário

The Edge & Sinéad O’Connor – “Heroine (Theme From Captive)” (Single) [download: mp3]

the edge and sinead o'connor - heroine single

No agora distante ano de 1986, em sua primeira empreitada profissional relevante, a irlandesa Sinéad O’Connor uniu-se brevemente a um conterrâneo seu para ajudar a compor e dar voz a canção tema de um filme até hoje pouco conhecido: Captive, longa-metragem dirigido por Paul Mayersberg que o também irlândes The Edge, então já reconhecido como o guitarrista da banda U2, escreveu em co-autoria com o compositor Michael Brook. Introduzida por uma perseverante harmonia de cordas ao teclado e sobreposta por um vocal mais contido e precoce da cantora, que aparentemente ainda não havia amadurecido o canto marcante e ousado que surgiu já no seu primeiro disco, a faixa é pontuada pelos característicos acordes atmosféricos e reverberantes da guitarra de The Edge, que formaram a identidade de sua banda naquela década, e claro, uma bateria que se avoluma na sequência final da melodia, produzindo a sonoridade tão singular da musicalidade pop e rock dos saudosos e excepcionais anos 80. Apesar do obscuro filme sobre o sequestro da filha de um magnata não ter obtido êxito de público e crítica, ao menos serviu para registrar a gênese musical da cantora cujo talento e voz excepcionais, infelizmente, perdemos em 2023.

Baixe: The Edge & Sinéad O’Connor – “Heroine (Theme From Captive)” (Single) [mp3]

Ouça:

Deixe um comentário

HotKid – “Rip It Into Pieces” (single) [vídeo, download: mp3]

hotkid rip it into pieces single

Inicialmente uma dupla, agora um trio, a banda canadense HotKid costuma centrar suas composições ao redor das cordas de guitarras – muito por influência da adoração da líder do grupo, Shiloh Harrison, por elas. E é por isso que no seu single “Rip Into Pieces”, lançado em 2011, o instrumento se apresenta de modo tão proeminente, em riffs fartos e alucinantes que são heroicamente acompanhados por uma bateria igualmente frenética e densa. Shiloh também não se envergonha de colocar toda a potência do seu vocal, externado a plenos pulmões e pontuado por berros desvairados de pura energia rockeira, para coroar a extravagante melodia. O videoclipe que acompanha o single segue a mesma toada insana, com uma cornucópia de sobreposições de imagens e cores, luzes estroboscópicas, câmeras lentas e aceleradas, explosões e muita fumaça cenográfica – moderação e comedimento, definitivamente, são conceitos inexistentes para esta banda!

Baixe: HotKid – “Rip It Into Pieces” (single) [mp3]

Ouça:

Vídeo:

Deixe um comentário

The Cranberries – In The End [download: mp3]

the-cranberries-in-the-end

É algo difícil não sentir que os versos “do you remember, remember the night, at a hotel in London”, que abrem In The End, álbum que marca o fim da banda irlandesa The Cranberries, estão de alguma forma associados, como uma espécie de presságio do acontecido, com a estúpida fatalidade que tirou a vida da vocalista Dolores O’Riordan em um hotel em Londres. Mas sabe-se que, na verdade, a impressão não passa de uma daquelas bizarras coincidências da vida, e seria tolice permitir que isso interferisse na apreciação das canções do modo como foram idealizadas por Dolores neste álbum que foi finalizado pelos membros restantes da banda (os irmãos Noel e Mike Hogan e Fergal Lawler). Assim pode-se aproveitar devidamente a melodia agitada da bateria sempre firme de Fergal e da guitarra e baixo fluídos dos irmãos Hogan em “It’s All Over Now” tanto quanto se pode desfrutar plenamente o vocal sofrido de Dolores e a melodia sutilmente apoiada por orquestração de cordas, que versa entre a melancolia resignada e a aflição amargurada, em “Lost”.
Dissipada a perturbação, é possível distinguir melhor os acertos e erros do disco – e estes, felizmente, são poucos. É o caso de “A Place I Know”, que figura entre os equívocos por desperdiçar os toques reluzentes no violão que introduzem a canção com um refrão tedioso e sem brilho, e de “Crazy Heart”, faixa promissora que acabou escondida por trás da melodia e vocal apagados – dentre todas as faixas, é a única que deixa realmente nítido que os vocais são fruto de uma sessão de demos e que, provavelmente, este jamais teria sido selecionado como a versão final para a canção.
Mas foi justamente ao se utilizarem de material vocal que não foi originalmente concebido como o definitivo para as canções que Noel, Mike, Fergal, e o produtor Stephen Street conseguiram demonstrar toda a qualidade musical da banda irlandesa, em um excepcional exemplo de competência, devoção e amor pela música. O resultado deste esforço notável são as faixas “Wake Me When It’s over”, que traz vocal e violão em afinada sintonia e refrão denso, recheado com a sonoridade da guitarra e da bateria, “Catch Me If You Can”, com uma intro encantadora que apresenta um piano fugaz e distante, logo solapada por uma melodia envolvente com vocal, orquestração de cordas e bateria carregadas de emoção, e “Summer Song”, que cativa já nos primeiros instantes pela luminosa harmonia entre o vocal de Dolores e a instrumentação posteriormente concebida pelos seus amigos e companheiros de banda.
Inevitavelmente, a agridoce e melancólica faixa-título foi escolhida para fechar o disco e, consequentemente, a carreira da banda irlandesa: “take my house, take the car, take the clothes, but you can’t take the spirit”, canta Dolores com vocal delicado e gracioso sobre violão, baixo e bateria serenos. Os versos talvez soem um pouco piegas, mas a verdade é que, embora o The Cranberries chegue ao seu fim, o “espírito” desta banda – sua sonoridade única e inimitável – jamais vai perecer.

Baixe: The Cranberries – In The End [mp3]

Ouça:

Deixe um comentário

Fafá de Belém – Humana [download: mp3]

fafa-de-belem-humana

A brasileiríssima Fafá de Belém, conhecida por sua musicografia genuinamente popular de verve romântica e festiva, aos 62 anos se traja em contemporaneidade, elegância e arrojo musical com o disco Humana. Sob a batuta do produtor Zé Pedro (muito conhecido do tempo em que era DJ do programa Superpop, versão Adriane Galisteu) e direção artística de Arthur Nogueira a partir da concepção da artista paraense, o disco de dez faixas apresenta composições originais e gravações com melodias coletivamente concebidas pelos músicos da banda. Tirando um par de faixas que não parecem se encaixar no projeto (“O Resto do Resto”, que não empolga com seu arranjo de MPB blasé, e “Eu Sou Aquela”, que apesar da qualidade das letras, tem arranjo cansativo, soando repetitiva por não diferir do que a intérprete já fez anteriormente ao longo da carreira), o disco é uma lufada de frescor no atual cenário musical brasileiro, cujos artistas, tanto os consagrados e veteranos da MPB (que jocosamente costumo chamar de “aristocracia artística”) quanto novatos estão mais preocupados em fazer panfletarismo político-ideológico do que música, e mesmo quando resolvem fazê-la, esta é inevitavelmente transformada em panfleto, que se não é algo bastante oportunista, no mínimo é cafona e datado, com prazo de validade fatalmente determinado. Deste modo, mesmo que alguém possa ler a divertida faixa “Alinhamento Energético” (com letras deliciosamente debochadas da artista indie Letrux e recebendo aqui um tratamento de primeira da banda, com bateria requebrada e guitarra e teclado inspirados) como tendo algum posicionamento desta ordem (em poucos dias desde o lançamento de Humana, muita gente já correu pra fazer essa interpretação míope do disco), não se encontra fundamentação alguma para tanto que não seja a vontade de fazer esta leitura, e ainda que esta fosse verdadeira, a despeito disso a faixa reteria todo seu charme e inteligência, diferentemente das “músicas de protesto” concebidas tanto por medalhões da MPB quanto por artistas independentes desde meados do ano passado que, via de regra, tem qualidade sofrível (e estou sendo bem gentil, na verdade são medíocres). E, olhem, Fafá não veio mesmo ao mundo a passeio, como se pode perceber na faixa de abertura do disco, “Ave do Amor”, composição original de Ana Rocha em parceria com o diretor artístico de Humana: iniciando com toques acetinados no piano, a faixa logo ganha ímpeto pelo toque firme na bateria e contornos de indie rock devido ao trabalho genial da guitarra e baixo. O rock, por sinal, é a alma de outra das gravações originais do disco: “O Terno e Perigoso Rosto do Amor”, criada por Adriana Calcanhotto a partir do poema homônimo de Jacques Prévert, esbanja volúpia blues rock para ficar em pé de igualdade com o vocal de Fafá, transbordante de ardor e sensualidade. Porém, em “Eu Não Sou Nada Teu”, de autoria de Zé Manoel, pianista do álbum, Fafá encobre seu vocal no retrato mais fiel da dor, concedendo ao público uma interpretação soberba e impecável em versos como “pois a ausência dos vivos é pior de aguentar, morre em minha vida, como meu pai o fez, doce é a despedida de quem se vai de vez”.
A artista paraense e sua banda, porém, não capricharam tão somente nas faixas lançadas originalmente neste disco, as reinterpretações de músicas já conhecidas (ou nem tanto) também receberam igual atenção e dedicação, como “Revelação”, sucesso conhecido na voz do cearense Fagner. Na versão de Fafá, vocal e melodia transitam entre delicadeza, furor e introspecção. “Não Queiras Saber de Mim”, regravação de música do cantor português Rui Veloso, surge aqui triste e amargurada, com piano doce e frágil e bateria e guitarra recolhidos. “Dona do Castelo”, originalmente cantada por Jards Macalé e muito conhecida na gravação de Adriana Calcanhotto, prossegue no clima tristonho, mas tanto a bateria quanto a forte interpretação da paraense se sobrepõe firmemente ao restante do instrumental. E apesar de a versão de Fafá para “Toda Forma de Amor” não fugir do usual das reinterpretações de clássicos de Lulu Santos, já que preserva a atmosfera pop/rock que é a característica do cantor brasileiro, é compreensível que assim tenha sido feito para fechar este belo projeto com todo o gás, com a cantora cantando a plenos pulmões “eu não nasci pra perder, nem vou sobrar de vítima das circunstâncias”. De fato: Fafá, que sempre foi discretamente colocada de escanteio tanto pelos ditos intelectuais da academia quanto pela elite artística do país como uma artista menor por ter trafegado essencialmente pelos caminhos da legítima música popular, deixou quaisquer lamentações de lado e meteu o pé na porta para melar o clubinho da aristocracia artística brasileira, que está muitíssimo ocupada em vomitar demagogias ideológicas para retroalimentar suas vaidades na modorrenta e patética disputa de quem é mais politicamente engajado, e se colocar como a dona daquele que é possivelmente o melhor disco brasileiro do ano – o público, que está sedento por música de qualidade acima de qualquer outra questão, Fafá, agradece.

Baixe: Fafá de Belém – Humana [mp3]

Ouça:

Deixe um comentário

Liily – I Can Fool Anybody In This Town (EP) [download: mp3]

No EP de estréia I Can Fool Anybody In This Town, os cinco jovens de Los Angeles que formam a banda Liily deixam claro que bastam bateria, baixo e guitarra para fabricar melodias arrebatadoras, como “Toro”, que abre o disco disparando um refrão grudento no qual o instrumental explode em uma orgia sonora, e “The Weather”, onde o vocal, as supressões instrumentais, os acordes sinuosos e cortantes de guitarra e a bateria encorpada e possante sopram um vento, assim, Arctic Monkeys.

liily – i can fool anybody in this town (ep, 2019) post 01
Liily usa no EP de estréia a instrumentação clássica do rock para produzir seu som enérgico e gritante

E por falar na banda britânica, “Sepulveda Basin”, além de ser um respiro momentâneo da tônica acelerada do disco, poderia facilmente emplacar sua bateria, baixo e guitarras graciosas em Humbug, o disco que marcou a guinada sonora dos jovens ingleses para um rock mais melódico. “I Can Fool Anybody In This Town”, faixa título do disco, tem como destaque a parceria entre guitarra e bateria em um compasso curto e vívido, ao contrário de “Nine”, que mantém a aceleração, mas reflete na melodia a mesma aflição de versos como “what if I can’t bleed when I cut with your razor?”. A banda conclui o EP com o vocal rascante, a guitarra afiada e a bateria intensa de “Sold”, uma faixa vibrante na qual a banda demonstra que, mesmo ainda sendo novata na abarrotado cenário do indie e do rock alternativo, possui toda a auto-confiança das veteranas.

Baixe:
Liily – I Can Fool Anybody In This Town (EP) [mp3]

Ouça:

Deixe um comentário
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005