Fazendo o caminho inverso de neo-zelandesa Ivy Rossiter (da dupla Luckless, já resenhada por aqui), que mudou-se para Berlim para deixar para trás sua banda e dedicar-se a carreira de DJ e produtora musical, Avalon Emerson é uma americana que ao viver longos anos em Berlin acabou “transmutando” sua carreira como DJ e produtora para a criação de álbuns e singles com composições mais tradicionais que situam-se entre o dreampop e o synthpop. Esta, ao menos, é a impressão que trazem as 3 faixas liberadas como EP de Written Into Changes, seu álbum a ser lançado em março, e em cuja primeira canção, “Eden”, a americana faz uso de sua experiência como produtora para construir uma melodia dançante, com baixo gingado, violão de acordes sutis e bateria eletrônica bem cadenciada sobre as quais deslizam sintetizações atmosféricas e o vocal vaporoso de Avalon. Americana vive em Berlim e ao lado da carreira com DJ vem experimentando composições pop mais tradicionais
Guitarras e violões também se fazem presentes na faixa seguinte, “Jupiter and Mars”, mas aqui eles servem ao propósito de estruturar uma base para, junto com uma bateria eletrônica discreta e synths adicionais, confeccionar uma atmosfera dreampop doce e nostálgica. A prévia do álbum termina com a faixa título, “Written Into Changes”, que não inicia do melhor modo, com um vocal distorcido e um registro que soa dissonante das faixas anteriores, mas felizmente é logo suprimido no refrão por vocais mais graciosos e coerentes com a melodia ambiente pop em downtempo atmosférico e pontuado por sintetizações cintilantes – um lembrete de que ainda que seja mais convencional do que a cena eletrônica, é necessário muita sensibilidade para não cometer deslizes ao aventurar-se no mundo do pop.
Lykke Li anunciou recentemente que The Afterparty, seu próximo disco a ser lançado em maio, será provavelmente o seu último. Até o momento, nenhuma confirmação absoluta ou mesmo razão específica foi dada pela artista ou seus representantes sobre a possibilidade de encerramento da sua carreira, mas é uma pena que a cantora esteja mesmo cogitando parar, pois desde o lançamento Youth Novels, seu primeiro disco que já foi resenhado aqui no Sete Ventos, a sueca mostrou-se uma artista inquieta e talentosa, com especial destaque na representação estética de sua sonoridade, seja no projeto visual de seus discos, seja em seus videoclipes. “Lucky Again” constrasta melodia animada com letras melancólicas e pessimistas
Mas enquanto seus fãs torcem para que a cantora mude de idéia eles já podem ter um gostinho do próximo disco com o single “Lucky Again”, lançado hoje pela cantora. Para a faixa que une orquestração de cordas suntuosa, baixo bem gingado e pontuada por um sample percussivo com o típico “DJ scratch”, Lykke utilizou como inspiração a harmonia ascendente celestial dos violinos presentes na faixa “Spring 1”, de autoria do consagrado compositor contemporâneo Max Richter, que por sua vez é uma recriação moderna da “Primavera”, parte da clássica obra do italiano Antonio Vivaldi, a esplêndida “As Quatro Estações”. A melodia, construída sobre bases tão edificantes, contrasta frontalmente com as letras da canção, com versos melancólicos e pessimistas como “eu grito na escuridão, não há luz, é um buraco negro, está tão escuro lá fora”. Se levarmos em conta apenas as letras, a cantora demonstra uma exaustão emocional que talvez motive o encerramento de sua carreira, ou isso pode significar que ela precise apenas de um tempo, como já foi o caso antes – para o bem a saúde da música pop mundial (há muitos anos em estado lastimável), vamos torcer para que seja este último.
Com seu segundo álbum agendado para março, a banda americana Brigitte Calls Me Baby lançou “Slumber Party” como primeiro single de prévia do disco: com guitarras de riffs densos e freneticamente acelerados em companhia de baixo e baterias muito bem sincronizados, o vocalista Wes Leavins invoca o espírito de seu crooner ancestral para narrar – com uma pontinha de melancolia – o “drama” de sua sexta-feira a noite: ser aceito ou não naquela festa “cool” da vizinhança para a qual está até mesmo levando seu DVD de “Veludo Azul” de David Lynch como oferenda. Porém, eu me pergunto: será que o povo dessa festança não preferiria “Persona” de Ingmar Bergman? Embora o visual do grupo lembre Duran Duran, o parentesco mais próximo é o post-punk do inicio dos anos 2000
Deixando o paradigma intelectual de lado, embora o visual do grupo lembre Duran Duran nos frutíferos anos 80, a faixa traz os americanos emulando o mesmo fervor juvenil do post-punk que permeou o início dos anos 2000, como Franz Ferdinand e Interpol, bem como a vigorosa espontaneidade do indie rock de bandas quase desconhecidas (menos para os leitores do Sete Ventos) dos anos 2000 e da década passada, como Scissors For Lefty e Liily – aguardemos março para constatar se o disco reflete a qualidade do single.
Depois de um par de experimentos por volta de 2020, o britânico Will Barradale uniu-se ao produtor e amigo Mike Peden para cristalizar seu projeto musical, que batizou como A Thousand Mad Things – um dos versos do demo que lançou há cinco anos atrás. O primeiro fruto desta parceria artística é o EP Cry and Dance, um compêndio de cinco canções nos domínios do darkwave e synth pop onde extravasa suas influências musicais de bandas e artistas da cena pop alternativa dos anos 80 – como na primeira faixa, “Wide Awake”, onde o beat pop-dançante e os synths de bass ondulantes, que preenchem a melodia com matizes ao mesmo tempo dark e vibrantes, tem forte influência do Depeche Mode em início de carreira e do new wave de bandas como The Human League. “Girl”, tem uma certa pegada de Soft Cell na cadência mecânica do beat contínuo que é base da melodia, enquanto a melancolia de uma sutil orquestração de cordas dá a deixa para que Will, com suas várias encarnações vocais sobrepostas, invista na emoção ao cantar sobre uma amiga inconsequente que o importuna em meio a um idílio erótico com um provável bad boy. O conteúdo das letras funciona como um prelúdio para a faixa seguinte, “Local Guys”, onde uma batida motorik intoxicante funde-se a melancólica dos synths e do baixo eletrônico para a poção perfeita onde Will incorpora uma fusão de Peter Murphy (do Bauhaus) e Dave Gahan para sublimar seu canto sobre o masoquismo emocional ao ser destratado pelos homens (possivelmente de uma sexualidade oposta a sua) que buscava obsessivamente a altas horas pelas ruas da Inglaterra. EP de A Thousand Mad Things traz um darkwave dançante e soturno inspirado no pop alternativo dos anos 80
Na penúltima faixa, “She’s On The Run”, Will e Mike investem em um beat dançante de cadência controlada e um baixo eletrônico marcante, que criam a pista perfeita para que as sintetizações algo voláteis de tessituras assumidamente misteriosas dancem com desenvoltura na canção que fala sobre uma garota que compulsivamente busca se relacionar com os piores homens – a versão alternativa “She’s On The Run (She Bleeds)” intensifica a sensação de urgência através de uma cadência ainda mais dançante em detrimento da atmosfera dark e adiciona um caráter onírico ao submeter os vocais a reverberações, ecos e delays. Despindo-se das vestes soturnas do darkwave e da euforia das bases dançantes das faixas anteriores compostas em parceria com Peden, Will Barradale opta por fechar o EP com os vocais etéreos sobrepostos a uma base eletrônica delicada em “My Car”, que evocam a mesma atmosfera contemplativa, sutil e serena do Legião Urbana de tonalidades mais intimistas que podemos ouvir em “Por Enquanto”, “Índios” e “Vento No Litoral” – a conclusão ideal não parar chorar depois de dançar, como sugere o título do disco, mas talvez para equalizar o espírito depois de toda a agitação urbana que a precede.
Quando ainda se encontrava na Colômbia, em meados dos anos 2000, a artista de hoje no Sete Ventos se apresentava simplesmente com o primeiro nome, Lucrecia, criando algumas composições de indie pop com matizes de synth e dream pop. Passados alguns anos, a cantora avaliou que seu país oferecia oportunidades muito limitadas para seguir com sua carreira musical, e deste modo mudou-se para a Europa, mais especificamente Barcelona. Uma vez lá, sua música tornou-se mais experimental e arrojada, levando-a realizar várias colaborações com artistas do cenário alternativo do continente e oportunidades para compor trilhas de seriados e filmes independentes. Contudo, seu espírito irrequieto não a permitiu permanecer definitivamente na Espanha: mudando sua alcunha para Lucrecia Dalt, a colombiana se estabeleceu por anos em Berlim e atualmente está ainda mais longe, no estado do Novo México, nos Estados Unidos, onde vive com seu namorado, o cantor alternativo David Sylvian (que já colaborou com o músico japonês Ryuichi Sakamoto).
Ontem Lucrecia lançou o EP Caes, canção derivada do seu mais recente disco, A Danger To Ourselves. A faixa título é a mesma versão presente no álbum, trazendo uma percussão de ritmo arrastado sobre a qual soa o belo vocal de Dalt em tom suplicante, que acompanhada de vocais ao fundo de Camille Mandoki, em alternância com um coro de vozes masculinas e uma série de “eletronismos” contidos, constroem uma sonoridade entre sensual e misteriosa que talvez possa ser classificada como art-pop. A segunda faixa, “Caes (u Suerte)”, despe a canção de todos os componentes percussivos e eletrônicos, e ao trazer a acústica do violão melancólico de Victor Herrero e a emoção da voz de Luz Elena Mendoza (acompanhada do seu grupo Y La Bamba) e do vocal cálido e grave de Niño de Elche, incorpora na melodia texturas da música tradicional latino-ibérica com um delicado véu de suspense e horror. Por fim o produtor de música eletrônica de Miami, Nick Léon, retoma a canção original acelerando um pouco o andamento da harmonia para inserir um beat da cadência sutilmente dançante e uma série de ecos, delays e reverberações sintéticas que transmutam a canção para uma atmosfera mais clubber – o que levou a última versão alternativa da canção no EP/single a ser apropriadamente intitulada de “Caes (Nick Léon Dub)”.
O anonimato, ou um simulacro dele, é um artifício que alguns músicos costumam adotar por razões diversas. Sem que seus rostos sejam de fato um segredo, Jonathan Bree e Orville Peck o fizeram como uma tentativa marketeira de diferenciação no gênero musical que atuam. Sia e Björk adotaram o mecanismo tardiamente em suas carreiras, possivelmente como um modo de retardar a percepção do público sobre o seu envelhecimento. Já grupos como Daft Punk até hoje preservam segredo sobre esse aspecto para manter os benefícios da privacidade – ou talvez para tentar sustentar o interesse contínuo do público através do mistério de sua aparência. Blood Cultures em sua primeira fase, com apenas um integrante.
O banda de indie pop eletrônico Blood Cultures, composta inicialmente por um único músico, mas agora com quatro, pode ser encaixada nesse último grupo, mas vai um pouco mais fundo no expediente: ninguém sabe nem mesmo o nome dos sujeitos que sempre se apresentam com o rosto encoberto, normalmente com uma máscara artesanal sobreposta a camadas de capuz (antes eram burkas cobrindo um traje executivo). O grupo na fase atual, com quatro membros.
Na semana passada, os “tímidos” rapazes lançaram um novo disco, o segundo pelo selo Pack Records, depois de dois outros álbuns produzidos e distribuídos sem este suporte. Servindo como trilha sonora do indie game de mesmo nome e trazendo vocais processados em estúdio e uma produção bem cuidada, Skate Story: Vol. 1 é um compêndio de doze faixas onde o pop eletrônico é a chave mestra que abre as portas de diferentes influências sonoras. “Emptylands”, por exemplo, é moderadamente uptempo, mas tem como seu elemento principal os sintetizadores, hora como uma harmonia ondulante vintage que suscita o cinema de mistério dos anos 80, hora como um denso fluxo melódico de puro neon noturno. Já em “Where The City Can’t See”, a intro com vocal e teclado de sonoridade abafada e envelhecida não deixa dúvidas de sua herança lo-fi, mas logo a doçura da harpa e das harmonias sintetizadas trazem generosas doses de chillwave, por sua vez adornado com a urbanidade de samples dos anúncios do metrô de New York que pontuam a música – não é puro acidente, uma vez que o grupo reside na região da metrópole e o videoclipe da música (abaixo), com uma edição arrojada e moderna, a usa como cenário, seja com imagens de arquivo ou de registros atuais – e apesar de todo o esmero, os rapazes ainda deixam escapar algumas provas do péssimo estado atual de uma das cidades mais famosas do planeta.
Na faixa seguinte, porém, o tom é outro: iniciada com synths e vocalizações discretas ao fundo que sugerem um clima quase fantástico, “Into Pure Momentum” é logo conduzida por um beat rápido que não nega seu gosto pelo drum ‘n’ bass e a pista de dança. Mas o ritmo diminui em sequência, já que as agudas sintetizações extraterrenas, o longínquo teclado envelhecido e o distorcido vocal melancólico são todos conduzidos pela lenta cadência pulsante de um synth de tessitura eletro-dark em “Overlord”. “Unarchiver” chega na sequência querendo voltar para a pista com sua batida sintética e uma fartura de camadas de distorção nos vocais e no coral ao fundo, concedendo um ar psicodélico à canção. Já no fim do disco, a aceleradíssima batida densa, suja e caótica, repleta de distorções, que se alterna a uma ambiência soturna e misteriosa sugere “Hole In The Sun” como a trilha sonora ideal para uma boss fight tensa e caótica em uma atmosfera sombria, enquanto a delicadeza da textura rarefeita do mezzo lo-fi fractal de “The Age of Disbelief”, por sua vez, atua como um lenitivo, concluindo a trilha do game Skate Story com a placidez aliviada de quem acabou de enfrentar, com sucesso, uma dura batalha.