Orville Peck, cujo texto que escrevi em fevereiro sobre seu segundo disco acordou o sete ventos de sua segunda fase de hibernação, em muito breve lançará um novo EP, Appaloosa. No dia de ontem o cantor americano liberou “Drift Away”, a segunda faixa do projeto, como single de divulgação deste novo lançamento: uma power ballad no familiar country (e um tiquinho rock) de Peck com violões e guitarras dedilhados em toques doces e vibrantes, bateria lenta, porém decidida e teclado Rhodes melancólico sobre o vocal suplicante do cantor, as letras, bem ao gosto do compositor, refletem nostalgicamente expectativas de jovens do interior sobre a vida adiante, mas nos versos “veja as crianças andando de carona pelas estradas, em 2021 todos os cinemas fecharam, desamparados, eles não tinham para onde ir”, que abrem a canção, Orville aproveita para lembrar como há pouco tempo parte considerável da infância e juventude de muitas pessoas foi afetada pelo infame confinamento da pandemia, cujos (ir)responsáveis também obrigaram cadeias inteiras de serviços a fecharem as portas, uma insanidade asquerosa, que além de todas as consequências econômicas e sociais (com reflexos até hoje) prejudicou uma geração inteira de crianças e jovens por mantê-los confinados e com imensas restrições de interação social e lazer – e nisso concordamos plenamente, Orville.
Com um videoclipe arquitetado pela companhia Canada, que apesar do nome é baseada em Barcelona, a cantora espanhola Rosalía parece querer fazer bastante barulho para seu próximo disco, Lux, a ser lançado no início novembro. O vídeo do single “Berghain” alterna momentos da rotina mundana da personagem, que aparentemente trabalha como diarista, sendo inusitadamente acompanhada por todos os lugares pelo corpo de músicos da London Symphony Orchestra e um coral completo, ambos em plena execução de suas funções na canção, e sequências mais crípticas e surrealistas, como um pássaro que canta na voz de Björk (uma das convidadas para a canção), um cervo que verte sangue pelos olhos e adquire feições humanas enquanto o americano Yves Tumor faz sua participação na faixa, até encerrar-se com a cantora na cama, transmutada em uma pomba branca que levanta-se voando. É difícil tentar tirar significados para todas as imagens criadas pelo diretor Nicolás Méndez, mas é possível entender que na narrativa a personagem sofre de algum mal cardíaco, podendo ser literal, haja visto a sequência no médico onde faz um exame do coração, ou metafórico, já que o objeto que conecta toda a narrativa é justamente uma jóia dourada em formato de coração, que ela examina para penhora em uma das cenas. Há também referências fáceis de captar, como o conto da Bela Adormecida na sequência onde a artista contracena com animais selvagens em um quarto decorado como uma floresta, e outras que apenas os mais experientes podem perceber alguma influência, afinal de contas, para mim, um fã absoluto do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, é difícil não enxergar a brevíssima sequência do cubo de açúcar, suspenso acima de uma xícara de café e lentamente sendo umedecido pela bebida, como uma referência discretíssima a “A Liberdade é Azul” – mesmo a enfermidade cardíaca e a sequência do exame podem ser vistos como referências a outro filme do mestre polonês, “A Dupla Vida de Véronique”. Porém, muito provavelmente eu esteja querendo enxergar demasiada profundidade em um vídeo de uma artista que eu confessadamente não tenho grande intimidade, mas cujo trabalho até então não deixava dúvidas de que se encaixa no que há de mais pueril e mainstream.
Confesso, no entanto, que a faixa “Berghain” é ambiciosa e diverge radicalmente da qualidade do que Rosalía lançou até hoje: sobre o coral escandalosamente épico e o virtuosismo barroco das cordas e percussões da London Symphony Orchestra, a cantora espanhola dá o melhor de si para incorporar uma soprano na interpretação da sua vida, tudo cantado em alemão. Calma, isso é só o início: voltando-se para seu espanhol nativo, Rosalía derrama-se em um canto sofrido e mergulhado em emoção, enquanto coral e orquestra adornam em matizes cinematográficas suas confissões de amor incondicional, ilustrado nas letras pelo cubo de açucar desmanchado-se em café. Achou excessivo? Segura a peteca, que em seguida entra Björk divagando sobre a intervenção divina ser a única capaz de salvar este amor. Nossa, que drama! Acabou? Não, por último o americano Yves Tumor surge para, junto de alguns versos vulgares que não chegam a estragar todo roteiro anterior, concluir a canção com ruídos e distorções no vocal que conferem ares mais modernos e urbanos para a faixa. Sim, “Berghain” é uma overdose teatral e a mistura de musicalidade erudita e contemporânea está longe de ser uma impactante novidade, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que todo esse melodrama pungente não é viciante.
A arrojada cantora britânica Anna Calvi, em entrevista recente, declarou que gosta de fazer covers de artistas que admira porque deste modo consegue “expressar coisas que não consegue articular”. Tendo lançado há mais de dez anos uma ousada versão de “Strange Weather” em companhia de David Byrne e que, verdade seja dita, não se compara a levitante beleza da versão original da franco-israelense Keren Ann, Calvi aliou-se ao americano Perfume Genius (Mike Hadreas) para recriar outra canção – e desta vez foi um pouco mais feliz, a meu ver. Originalmente lançada por Bonnie “Prince” Billy (antes conhecido como Will Oldham) em 1999 como um lamento folk sobre como o entusiasmo fraternal dos homens na juventude muitas vezes converte-se em solidão e ansiedade na vida adulta destes amigos, “I See A Darkness” foi “encontrada” por Johnny Cash no ano seguinte e transmutada em um country/folk acústico ainda mais melancólico, o que talvez tenha inspirado o próprio Bonnie Prince, anos depois, em 2012, a relança-la como um folk/rock mais leve e animado. O cover de Calvi e Hadreas, no entanto, é permeado por um ar de mistério, que no início soa um pouco confuso e a cacofônico, muito devido ao contraste entre o vocal grave de contralto da cantora e a fragilidade na voz aguda de Perfume Genius, mas à medida que a canção avança e a icônica guitarra de Calvi ecoa e treme no ar com seus riffs afiados, a melodia se encontra, ganhando sintetizações que lhe preenchem com uma textura noturna mais quente e fluorescente.
Incomum, idiossincrática, singular, exótica. Escolha o adjetivo que preferir, a cantora anglo-grega Sol Seppy (que tem seu disco de estréia e um EP disponíveis aqui no blog) é alguém que realmente não reflete a concepção popular de músico ou artista, tanto na sua musicalidade diáfana quanto na sua personalidade arredia, sempre mantendo discrição quase completa sobre sua vida particular e dispensando qualquer tipo de divulgação ou promoção dos poucos discos e músicas que eventualmente decide lançar. O resultado, obviamente, é que essa cantora e compositora de imenso talento é conhecida de muito poucos, mantendo sua existência restrita aos domínios do indie e dos mais viciados em música e fazendo-se notar por estes somente quando, sem a menor cerimônia, decide lançar alguma coisa. É exatamente isto que aconteceu há dez dias atrás, quando Sol liberou o single “The Alaska Wilds”, que como muitas de suas composições, transpira delicadeza e sobriedade: com nada além de um piano de acordes mansos e intimistas e seu vocal macio e aconchegante para conceber a melodia etérea e serena que não chega a atingir três minutos de duração, a britânica, para nosso deleite, consegue demonstrar que ainda é dona da excepcional habilidade de extrair beleza dos mais parcos recursos.
Depois de lançar “Talk” (comentado por aqui em agosto), que traz nuances pop/rock e liricamente defende que os homens devem falar sobre seus conflitos internos para que preservem a saúde mental, o novo single do britânico Alexander Wolfe traz duas canções que fazem um recorte do início e fim da história do personagem cuja jornada aparenta ser o tema condutor de Everythinglessness, seu novo disco que será lançado em 2026. Em ambas o violão pinçado conduz as melodias construindo o melancólico alicerce emocional que aflora fortemente nas faixas em conjunto com o vocal de Wolfe, embebido em sentimento, mas enquanto na primeira camadas de vocal de apoio, bateria e guitarra pontuam a música com tensão e mágoa, na segunda estes unem-se de modo homogêneo para um sereno crescendo rítmico que eleva-se em ascensão magnífica no seu final. A atmosfera das faixas não diverge por pura arbitrariedade: talentoso e perspicaz, Wolfe compôs as melodias como um retrato perfeito do conteúdo lírico de ambas, pois em “The Toughening”, ao visitar o pai para expor sua desorientação ao descobrir que a mãe sofre de uma doença grave, o jovem personagem é inundado por reprimendas para que contenha as emoções e mantenha-se forte para dar suporte a ela, enquanto em “The Softening”, já depois de um longo tempo da morte da mãe, o rapaz revê o pai e extravasa furiosamente toda sua dor em uma confissão sobre como ele nunca o escutou e que a repressão de seus sentimentos quase o levou ao suicídio. Ainda que pareça ter marcado a trajetória deste homem com uma série de martírios, o cantor britânico aquece os últimos versos de “The Softening” com uma centelha de esperança, cantando com delicadeza, “ele, com sua raiva ardendo, vira-se para seu pai, que não havia falado todo esse tempo, e ele se dá conta: ele estava escutando”.
Há projetos musicais promissores que duram alguns anos, lançam um par de discos interessantes, e por motivos desconhecidos se desfazem, de modo que seus componentes trilham diferentes rumos em suas vidas. Luckless, projeto da artista neozelandesa Ivy Rossiter, é um desses casos: hoje uma DJ e produtora musical radicada na Alemanha que acabou vinculando-se com um público pelo qual, digamos, não tenho muita simpatia, a cantora e compositora formou, em companhia do conterrâneo Will Wood, um duo musical que lançou não mais que dois discos na primeira metade da década passada. No primeiro deles, a dupla muniu-se apenas de guitarra e bateria para compor uma dezena de músicas excepcionais que transpiram a essência do mais primoroso rock alternativo e exibem traços de gêneros adjacentes, como o grunge, o que fica evidente nas canções “Hawks” e “Fermina Daza”, ambas baseadas em harmonias cíclicas da guitarra Silverstone de Ivy Rossiter. Na primeira, a cantora apossa-se do instrumento introduzindo uma sequência minimalista de riffs graves que faz par com o seu registro vocal baixo, escoltados com comedição pela bateria de Will Wood, mas no refrão a sonoridade dos instrumentos é encorpada para acompanhar o vocal mais emotivo da dupla, onde Ivy canta “quando eu acordar a noite, você vai me confortar e me abraçar, como corações expostos?”. Já na segunda, a palavra “home” é sussurrada continuamente por Will Wood como um mantra na qual a Silverstone distorcida de Ivy e a própria bateria de Will sobrepõem-se em um tropejo marcial premente, que retrai em um breve interlúdio lírico, apenas para retornar com mais urgência e transmutar-se em uma fabulosa apoteose sonora.
Porém, a proximidade com o grunge não fica apenas na dualidade complementar da dinâmica de retração/explosão sonora destas duas faixas, mas também na carga emocional do vocal juntamente com uma melancolia prevalecente nas melodias. São exemplos “Sound I See” (que inicia com certa serenidade, mas encorpa-se no refrão em um crescendo onde brilham tanto o vocal de Ivy quanto o instrumental denso e enérgico do duo) e “Skin & Bones” (que alterna introspecção e intensidade na cadência consternada de bateria e guitarra para servir de apoio ao vocal que também intercala-se entre súplica frágil e demanda imperiosa).
Ainda nessa estréia a dupla também conseguiu exibir sua habilidade na confecção de canções com arranjos mais trabalhados, como nas místicas “Cold In Our House” e “Let It Leak Out”, que guardam algo de dream rock nas guitarras etéreas e seus ruídos luminescentes que permeiam ambas as faixas, e “Bring This To An End”, uma power ballad que fecha o disco trazendo ternura e assertividade emotivas tanto no vocal quanto na música que avoluma-se à medida que avança.
Mas é a segunda faixa, “Hummingbird Heart”, que resume todo o talento da dupla na composição de melodias marcantes que tomam de assalto os ouvidos: conduzida inicialmente por uma guitarra e bateria hesitantes, em um compasso contínuo e controlado, a melodia intensifica-se em uma escalada rítmica brilhante, que sem usurpar sua graciosidade etérea e sua delicadeza emocional, culmina em um clímax melódico onde os instrumentos encadeiam-se em um pulso ligeiro como o coração do colibri que dá título a canção.
É verdade que o processo de popularização tanto do acesso quanto da produção cultural proporcionado pelas inovações tecnológicas teve impacto negativo na qualidade do que é produzido, mas penso que os longos anos ouvindo música e resenhando-a neste blog também contribuem para tornar cada vez mais incomum a possibilidade de ser arrebatado por um disco de algum artista ou banda na atualidade. Felizmente, a mesma popularização ofertada pela internet, aliada a uma boa dose de obstinação de um blogueiro já veterano, também possibilita você se deparar com o disco impecável de mais de dez anos atrás de uma banda obscura do Nova Zelândia que não existe mais – é como dizem: sou brasileiro e não desisto nunca.