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Tag: cinema europeu

“Uma Questão de Imagem”, de Agnès Jaoui.

Comme Une ImageÉtienne é um famoso e veterano escritor francês cuja filha, Lolita, sofre com o desapego do seu pai, com seus próprios complexos de aparência e com sua insegurança. Sua professora de canto, que inicialmente não simpatiza muito com a garota e com sua performance, descobre quem é o pai desta e, sendo grande fã de Etienne e esposa de um escritor iniciante que tenta publicar seu primeiro livro, resolve tentar se aproximar da garota.
Agnès Jaoui, depois do sucesso obtido pelo seu filme anterior, decidiu que o protagonista de seu mais recente longa-metragem teria natureza inversa daquele que tanto conquistou a crítica: de um homem que passa por um processo de mudança e aprimoramento de seu comportamento e gosto rudes, o co-roteirista Jean-Pierre Bacri passa a interpretar um homem que não consegue – e nem tenta – modificar o modo displicente com que trata as pessoas, sempre devidamente menosprezadas pela sua personalidade narcisista e egocêntrica. É a partir deste personagem, e não exatamente ao seu redor, que os eventos tomam lugar e as relações pessoais no filme se desenvolvem: primeiro com os personagens períféricos, como o assistente do escritor, ignorado por este em tudo que não compete suas funções, e a esposa de Étienne, que tem sua educação para com a filha invalidada pelo marido, depois com os protagonistas do longa, como a filha que tenta ganhar um pouco de atenção do pai e, a professora de canto, já um tanto entediada com sua profissão e esperançosa de que seu marido um dia deslanche na que ele escolheu e este último, sem muita esperança de que realmente consiga publicar algo um dia. O interesse da diretora e co-roteirista, visível desde seu filme anterior, é descortinar as coisas que movem e impulsionam as relações humanas e, no caso específico deste filme, nas intenções que se escondem por trás delas: primeiro, a de pessoas que iniciam suas relações com homens como Étienne para se benefeciar de seu prestígio e influência – muitas vezes usando outra pessoa para alcançá-lo, algo muito bem ilustrado no filme pela filha complexada devido seu excesso de peso e seus insucessos artísticos e carente de atenção do pai e da alheia -, segundo a do próprio Étienne que, de forma tão infantil, carece da presença e atenção de todas essas pessoas para reafirmar sua importância para si mesmo – eu não saberia dizer qual dos dois lados seria o mais mesquinho, mas o que eu nem ninguém precisa refletir muito para saber é o quanto isto se relaciona de modo intrínseco com o mundo em que vivemos hoje, repleto de pessoas como Étienne e ainda mais cheio de pessoas que se sujeitam a alimentar a sua egofilia. Pode-se pensar que, no meio desta fogueira de vaidades e expectativas, pessoas como Lolita são as únicas vítimas, mas Agnès Jaoui também se ocupa de analisar seu comportamento e mostrar suas falhas: é através de sua propensão em achar que todos se aproximam dela só por conta do pai famoso e rico que a diretora demonstra a tendência que pessoas inseguras e com baixa auto-estima tem em sempre achar que o interesse que os outros nutrem por elas nunca é genuíno, o que possibilita o risco de, na inércia constante da posição de vítima que elas tomam, acabem julgando como ilegítimas relações que não o são. Mas, nem tudo esta perdido: no encaminhamento do filme, felizmente, vemos que algumas pessoas podem começar a quebrar este círculo vicioso, percebendo o mal que elas fazem a si próprias e aos outros ao alimenta-lo – como a personagem da diretora, a professora de canto Sylvia. O problema é que isso, fora do plano da ficção, não costuma acontecer com muita frequência – eu diria que raramente acontece.
Em “Uma Questão de Imagem” a dupla Jaoui/Bacri aprimora o seu estilo muito além do exposto em “O Gosto dos Outros”, explorando de forma mais competente e realista o drama e compondo soluções um pouco mais elaboradas, como fica claro na sequência que fecha o longa-metragem. Está longe de ter a profundidade e originalidade dos melhores dramas – e mais antigos – de Woody Allen ou a visceralidade de um “Festa de Família”, mas é o sinal de que, com um pouco mais de ousadia o casal de franceses pode achar o caminho.

OBS: ainda não encontrei links para download do filme. Encontrando algum, os links estarão disponíveis aqui.

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“A Pequena Jerusalém”, de Karin Albou.

La Petite JérusalemJovem mulher de família judia, que reside com sua família nos subúrbios de Paris e estuda filosofia, torna sua relação já conflituosa com a religião um tanto mais problemática devido à atração por um colega de trabalho mulçumano. Sua irmã, que não consegue se entregar ao marido por temer infringir preceitos judaicos, descobre que este a traiu e tenta vencer seus pudores.
Em “A Pequena Jerusalém” temos uma abordagem um pouco diferente da dinâmica dos conflitos de personagens femininos com os preceitos religiosos sob os quais levam suas vidas, já que, ao invés de retratar a submissão inexorável de mulheres aos deveres descritos por suas crenças e pelas figuras masculinas que as rodeiam em países onde essa realidade é a norma imperativa, o longa-metragem da diretora Karin Albou trata da dinâmica destes conflitos em um espaço (sub)urbano contemporâneo de uma grande metrópole ocidental. Assim, apesar do que pregam as religiões ainda poder ser preservado na sua essência, a troca de espaço e condição social mostra que a aplicabilidade apropriada de rígidas regras de religiões meso-orientais às mulheres é complicada pelas necessidades econômicas dentro desta realidade estranha à sua crença. As aspirações contemporâneas da personagem Laura, que pretende dedicar-se muito mais ao que dita a filosofia ocidental do que aos deveres e realizações possíveis de uma mulher dentro dos ensinamentos do judaísmo ortodoxo, são a materialização maior desta abordagem.
Mas como, apesar deste traço salutar, o longa é basicamente sobre os conflitos do mundo feminino, ele torna-se consideravelmente aborrecido. É verdade que em “A Pequena Jerusalém” o maior defeito do gênero – a afirmação de que o mundo oposto, o masculino, não detém complexidade e sensibilidade – não se faz tão intenso, mas ainda assim a idéia tradicional do cinema (e da sociedade como um todo, na verdade) sobre o que é genuinamente a representação dos mais profundos conflitos femininos (o matrimônio e suas problemáticas derivadas) deixa o filme com aquele simplismo modorrento dos longas que se centram desta forma na temática – aborrece particularmente a obsessão detalhista de Albou com os dramas do sexo.
Com tudo isso, apesar da abordagem primária diferente da maioria, este longa sobre mulheres acaba cometendo a mesma falha daqueles dos quais tenta diferir – e como seus sucessos são menores do que os defeitos recorrentes à temática que escolheu abordar, sua embarcação sossobra à meia-viagem. O final do filme, felizmente, salva o longa-metragem de estréia da diretora de ser um desastre que prometia ser completo.

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“Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen.

Undergangens ArkitekturDocumentário de 1989 que apresenta como valores, idéias, conceitos e teorias foram encadeados e tomados de forma cada vez mais radical até resultar no movimento Nazista e no sonho de dominação, purificação e embelezamento do mundo pelo Império Alemão.
Peter Cohen expôs em 1989, no seu documentário “Arquitetura da Destruição”, o resultado de uma pesquisa que tomou 7 anos de sua vida: diferentemente da abordagem dada ao tema até então, que se resumia em buscar o impacto e estupefação fáceis nas platéias ao estampar a tela com cenas de extermínio e desgraça promovidas pelo regime Nazista, Cohen estava mais interessado em promover o seu alerta de forma mais inteligente, sutil e profunda, revelando todo o arcabouço de idéias e suposições sobre o mundo, o seu estado de então e o seu futuro, bem como os artifícios utilizados pelo governo alemão para propagar sua idéias e angariar todo o apoio de sua população para torná-las realidade. A epifania de Hitler diante de “Rienzi” de Wagner, sua obssessão com a estética perfeita das artes greco-romanas, sua admiração pelo regime de governo do Império Romano, a sua predileção pela arquitetura faraônica são todos expostos como fontes de inspiração para a formulação e desenvolvimento do regime e ideais nazistas, bem como serviram de instrumentos para sua sustentação e contínua manutenção – sim, porque a arte, a propaganda e a ciência foram utilizadas, cada uma em seus mecanismos mais dinâmicos – exposições em galerias, exibições de filmes, comícios e reuniões – como veículos de propagação dos ideais nazistas, afim de, ao mesmo tempo, legitimar o pensamento Nazista e difamar tudo o que não se enquadrava em seus ideais utópicos. Esse enraizamento do Nazismo com certos preceitos estéticos-artísticos não foi por um mero acaso: segundo o documentário, muitos dos maiores artífices do movimento tinham inclinações artísticas, ou mesmo eram artistas frustrados. O próprio Hitler, que fora recusado na Academia de Viena como pintor, dava vazão à suas ilusões artísticas ao desenhar, planejar e arquitetar – ou ao menos delinear as bases – de grande parte da estética do movimento, de seus eventos colossais, de sua arquitetura megalômana e de sua propaganda.
Assim, o longa-metragem documental de Peter Cohen não causa impacto pelo sensacionalismo mais preguiçoso, pela exploração óbvia e previsível de um episódio histórico envergonhante, mas sim por esclarecer sua gênese de forma profunda, jogando luz sobre aspectos obscuros e muito pouco discutidos, divulgados e escrutinados. É através de sua investigação detalhada, tanto sobre ilusões, conceitos e métodos de Hitler e seus homens de confiança quanto do próprio movimento Nazista e o seu “corpo do povo” – o ariano, claro – que Peter Cohen consegue nos alertar para o perigo que representam conceitos radicais do que é esteticamente aceitável, ideais de beleza levados ao extremo, subversão de discursos integrados em movimentos artísticos e a abordagem pinçada de afirmações científicas. Hitler era realmente um homem inteligente, mas a sua inteligência era, talvez, uma das mais burras que pode ter existido: uma inteligência dissociada de qualquer noção de humanidade e de entendimento das diferenças em detrimento do sonho de evolução para um mundo estático, preso em moldes idealizados de beleza e assepsia – uma idéia tão doentia que a contradição mais básica, a de que a evolução sem a existência da diferença não é evolução, mas meramente um engessamento do desenvolvimento humano, foi completamente ignorada.

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“Maria Antonieta”, de Sofia Coppola. [download: filme]

Maria AntonietaO mais recente filme de Sofia Coppola, Maria Antonieta, é uma biografia da aristocrata franco-austríaca que tem como ponto de partida a saída de Maria de seu país natal, a Áustria, aos 14 anos, para casar-se com o jovem e futuro rei Luis XVI, e encerrando-se com ela e sua família abandonando o palácio de Versalhes, na eclosão da revolução francesa.
O terceiro filme de Sofia Coppola dividiu a crítica devido à suas escolhas pouco ortodoxas e ao conteúdo da estória em si. Na forma dos primeiros tipos de críticas citados, as mais ruidosas foram feitas aos elementos que retiram do filme um caráter total de reconstituição de época. Contudo, é bom elucidar que tanto a trilha sonora que, de forma soberba, mistura composições clássicas com canções do movimento New Wave dos anos 80/90, uma ou outra ousadia explícita, como o par de tênis All Star propositalmente abandonado em meio a sapatos típicos daquela era, quanto as decisões nitidamente contrastantes com a natureza da história, como a escolha de uma atriz americana para o papel de uma monarca européia, a rigor, não se constituem de forma alguma como defeitos deste longa-metragem, e acabam mesmo é ajudando a arejá-lo, tornando-o menos chato, tradicional e sisudo do que normalmente costumam ser filmes de época. Dentro do escopo das críticas ao conteúdo, a ausência de contexto político e social no filme foi o mais comentado, o que de fato corresponde com a verdade. Porém, deve-se levar em conta que, com a decisão da diretora e também roteirista de concentrar completamente o foco do filme nas ações de Maria, Sofia acabou sendo fiel ao que se tem como notícia desta figura histórica, já que, segundo consta, ela realmente não se dava ao trabalho de inteirar-se e tomar partido na condução das políticas de seu reinado, atendo-se apenas ao que seriam consideradas frivolidades destemperadas.
O maior problema, na verdade, seria a própria Sofia Coppola, dona de um modo de filmar um tanto maçante e sem objetivo claro – em outras palavras, ela enrola o quanto pode. O ápice desta sua técnica foi mesmo o aborrecido “Encontros e Desencontros”. Mas aqui essa crítica não seria exatamente justa, visto que Maria Antonieta, devido à sua repulsa aos assuntos mais sérios e ao seu hedonismo, não exatamente se constitui em uma biografada das mais complexas e agitadas – seu mundo e suas vontades, pelo que informam, era mais ou menos o exposto no filme mesmo. Mas ainda é possível notar a insistência quase inconsciente de Sofia ao constatar que, apesar das duas horas finais, uma hora e meia seria mais do que suficiente para que ela contasse tudo o que pretendia neste longa-metragem.
Assim, não vejo outro modo de definir “Maria Antonieta” a não ser como o melhor filme de uma cineasta fraca, o que significa que não há muito o que esperar deste filme. Sem nenhuma surpresa, ele acaba sendo melhor do que o filme anterior de Sofia, mas também não é bom o bastante para que seu status como artista ganhe um “upgrade”. Veja sem medo e sem expectativas.
Baixe o filme utilizando os links a seguir.

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“Paris, Je T’aime”, (direção coletiva). [download: filme]

Paris, Je T'aimeDezoito histórias de cinco minutos, cada uma ocorrendo em um canto diferente de Paris e não necessariamente relacionadas entre si, formam, em conjunto, o longa-metragem “Paris, Je T’aime”, idéia e conceito dos franceses Tristan Carné e Emmanuel Benbihy, respectivamente. A natureza deste longa-metragem torna impraticável uma homogeneidade em termos qualitativos, já que alguns dos curtas que o integram, se não são realmente ruins e equivocados, soam um tanto previsíveis: com “Porte de Choisy”, o diretor de fotografia Chistopher Doyle procura mimetizar o magnetistmo das estorias delirantes de Jean Pierre-Jeunet, mas seu sucesso não vai além da questão estética; Vincenzo Natali, igualmente capricha no visual de “Quartier de la Madeleine”, mas seu conto de humor-negro sobre um homem que encontra uma vampira parece um videoclipe teen; os diretores Joel e Ethan Coen fazem uma caricatura de seus próprios trabalhos com o segmento na estação de metrô de “Tuileries”, cujo artificialismo exagerado dos maneirismos visuais mais irritam do que divertem; Walter Salles e Daniela Thomas, por sua vez, também recorrem a essência dos seus maiores êxitos, mas ao invés de utilizar a paródia como tom, o fazem como quem apresenta um cartão de visitas, tornando a crítica social de ambientação (sub)urbana – que fez a fama da dupla – ecoar com certa obviedade. Por sorte, há mais segmentos bons do que ruins. Para alguns deles, o charme ficou por conta dos diretores e roteiristas utilizarem-se do elemento surpresa como atrativo: tanto o breve conto de amor entre uma jovem atriz e um estudante de línguas cego do distrito de “Faubourg Saint-Denis”, dirigida por Tom Tykwer, a estória escrita e dirigida por Alfonso Cuarón, que sustenta-se no diálogo dúbio entre um homem de meia-idade e uma jovem francesa em “Parc Monceau” e o flerte entre um jovem artista e um belo funcionário de uma casa de artigos para pintura de “Le Marais”, a cargo do diretor Gus Van Sant, escoram-se de modo compentente em um elemento chave que destrincha o entendimento do evento e que era responsável por, intencionalmente, causar confusão no espectador. Porém, os curtas mas simples, que contentam-se apenas em contar sua breve história, são os que conseguem melhor captar a idéia básica que deu vida à “Paris, Je T’aime”: o encontro acidental entre dois solitários parienses, em meio à seu cotidiano anestésico no trecho “Montmartre”, dirigido e co-estrelado por Bruno Podalydès; o rapaz que, em “Quais de Siene”, de Gurinder Chadha, encanta-se por uma simpática garota mulçumana, mesmo sutilmente receoso da óbvia diferença cultural; a delicada mistura de história de amor à primeira vista e crítica social, em “Place des Fêtes”, de Oliver Schmitz, emocionam pela maneira com que o amor é abordado pelo modo que seus personagens são tomados por ele. Mas é o último segmento do longa-metragem, o conto solitário “14th arrondissement”, dirigido por Alexander Payne, em que uma funcionária do correio americano narra sua estadia de uma semana em Paris, que o público testemunha a melhor, mais sincera e mais emocionante homenagem de amor à cidade luz. Não se engane pelo início algo ordinário do segmento – a história ganha emoção cada vez maior à medida que avança para o seu fim.
Ainda que, em alguns momentos, a única coisa que una as histórias seja apenas o seu cenário, o saldo final de “Paris, Je T’aime” é muito positivo: todos os diretores, cada um à seu modo, tentam expor a fascinação que o mundo tem pela capital francesa, que acaba realmente atraindo gente não muito diferente de grande parte dos personagens que povoam este filme. Alguns diretores, inevitavelmente, fracassaram, da mesma forma como muitos dos que buscam uma vida melhor em Paris também fracassam. Mas, aqui, ao menos, os êxitos brilham bem mais do que os insucessos.
Baixe o filme utilizando os links a seguir.

primeira parte:
http://d01.megashares.com/?d01=5d9b2af

segunda parte:
http://d01.megashares.com/?d01=3896cff

legenda (português):
http://legendas.tv/info.php?d=5b9e410ddbcc9aa937ce0d908067912c&c=1

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“Ao lado da Pianista”, de Denis Dercourt. [download: filme]

La Tourneuse De PagesMélanie, uma menina de 10 anos que se preparava para ser admitida em um conservatório, como pianista, falha no teste ao perder a concentração devido à presidente do júri interromper a sua atenção para dar um autógrafo. Dez anos depois, tendo desistido do piano logo depois daquela experiência, Mélanie ganha a confiança do seu chefe por seu trabalho de assistente, e se oferece para cuidar, por um mês, do seu filho. Ao chegar na casa para exercer essa função temporária é que descobrimos que a esposa de seu chefe é Ariane Fouchécourt, a mulher que presidia o júri em que fora recusada.
“Ao lado da Pianista” é um estudo minucioso não apenas da vingança, mas da meticulosidade de ser humano, quando longevamente alimentada por uma frustração: o ar compenetrado, sisudo, distante e introspectivo da Melánie de Déborah François mostra o quanto uma pessoa com tal personalidade é mais perigosa e maquiavélica do que alguém que transpirasse maldade em cada gesto – sem dúvidas, Mélanie Prouvost entra para a galeria de personagens a que já pertence a clássica May Welland de Winona Ryder. Dando apoio à interpretação fabulosa de François (cuja maldade é discreta, revelada apenas em doses homeopáticas quase imperceptívies – traços suaves do expressão de seu sorriso, um soslaio breve, um caminhar levemente mais meticuloso, um gesto um tanto mais brusco), Denis Dercourt construiu o seu filme com economia de recursos: a trilha sonora se faz presente apenas eventualmente e de forma mínima, entregando o longa-metragem ao poder inegável de silêncios – que abrem espaço para o elenco, cujos desempenhos tem a precisão já clássica do cinema francês -, e mantendo as câmeras imóveis e com poucos enquadramentos, sujeitando-as a alguns movimentos lentos e cautelosos apenas para acompanhar o ritmo calculado da protagonista.
O roteiro se enquadra igualmente nesse aspecto minimalista: mesmo que se considere o evento desencadeador da trama pouco crível, a veracidade dos acontecimentos que se seguem torna-se possível apenas pelo desenho da personalidade dos personagens: tudo tornou-se possível devido à dependência e fragilidade de Ariene, à convicção e confiança de seu marido em Mélanie e ao poder de dissimulação e sutil sedução da própria, que não poupou nem o ingênuo Tristan, o filho do casal.
Parece que não há muito a falar sobre o longa-metragem de Denis Dercourt, mas a verdade é que este é um filme que não tem qualquer necessidade mais prolífica: um longa-metragem cujo objetivo único é mostrar o quão destrutivos podem ser os atos de alguém que decide redirecionar a sua atenção para algo bem menos positivo – do piano para um ato de vingança, no caso de Mélanie – só precisa que os atores tenham sido orientados para as sutilezas da natureza deste argumento e que o diretor entenda que o laconismo é o grande segredo de um longa-metragem sobre a dedicação – e as duas coisas encontram-se em “Ao lado da Pianista”.
Baixe o filme utilizando os links a seguir.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005