Mélanie, uma menina de 10 anos que se preparava para ser admitida em um conservatório, como pianista, falha no teste ao perder a concentração devido à presidente do júri interromper a sua atenção para dar um autógrafo. Dez anos depois, tendo desistido do piano logo depois daquela experiência, Mélanie ganha a confiança do seu chefe por seu trabalho de assistente, e se oferece para cuidar, por um mês, do seu filho. Ao chegar na casa para exercer essa função temporária é que descobrimos que a esposa de seu chefe é Ariane Fouchécourt, a mulher que presidia o júri em que fora recusada.
“Ao lado da Pianista” é um estudo minucioso não apenas da vingança, mas da meticulosidade de ser humano, quando longevamente alimentada por uma frustração: o ar compenetrado, sisudo, distante e introspectivo da Melánie de Déborah François mostra o quanto uma pessoa com tal personalidade é mais perigosa e maquiavélica do que alguém que transpirasse maldade em cada gesto – sem dúvidas, Mélanie Prouvost entra para a galeria de personagens a que já pertence a clássica May Welland de Winona Ryder. Dando apoio à interpretação fabulosa de François (cuja maldade é discreta, revelada apenas em doses homeopáticas quase imperceptívies – traços suaves do expressão de seu sorriso, um soslaio breve, um caminhar levemente mais meticuloso, um gesto um tanto mais brusco), Denis Dercourt construiu o seu filme com economia de recursos: a trilha sonora se faz presente apenas eventualmente e de forma mínima, entregando o longa-metragem ao poder inegável de silêncios – que abrem espaço para o elenco, cujos desempenhos tem a precisão já clássica do cinema francês -, e mantendo as câmeras imóveis e com poucos enquadramentos, sujeitando-as a alguns movimentos lentos e cautelosos apenas para acompanhar o ritmo calculado da protagonista.
O roteiro se enquadra igualmente nesse aspecto minimalista: mesmo que se considere o evento desencadeador da trama pouco crível, a veracidade dos acontecimentos que se seguem torna-se possível apenas pelo desenho da personalidade dos personagens: tudo tornou-se possível devido à dependência e fragilidade de Ariene, à convicção e confiança de seu marido em Mélanie e ao poder de dissimulação e sutil sedução da própria, que não poupou nem o ingênuo Tristan, o filho do casal.
Parece que não há muito a falar sobre o longa-metragem de Denis Dercourt, mas a verdade é que este é um filme que não tem qualquer necessidade mais prolífica: um longa-metragem cujo objetivo único é mostrar o quão destrutivos podem ser os atos de alguém que decide redirecionar a sua atenção para algo bem menos positivo – do piano para um ato de vingança, no caso de Mélanie – só precisa que os atores tenham sido orientados para as sutilezas da natureza deste argumento e que o diretor entenda que o laconismo é o grande segredo de um longa-metragem sobre a dedicação – e as duas coisas encontram-se em “Ao lado da Pianista”.
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