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Tag: cinema

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro [download: filme]

frankenstein (2025)

Um homem é socorrido no ártico pela tripulação de um navio encalhado ao ser perseguido por uma criatura forte e misteriosa, e então conta sua história para o capitão. Ele é Victor Frankenstein, que quando criança, após perder a mãe no parto do irmão, desafia o seu pai cirurgião, jurando se tornar melhor que ele. Muitos anos depois recebe a visita de seu irmão, sua futura cunhada e o tio desta, um rico mercador de armas que resolve patrocinar as pesquisas de Victor.
Em ocasiões eventuais, a Netflix resolve isentar-se de seu estilo de produção formulaica e dispor de seus fundos (tão imensos que está a ponto de adquirir e assimilar toda a corporação Warner) para financiar grandes nomes do cinema em projetos autorais – foi assim com Alfonso Cuarón e seu “Roma” e Martin Scorsese e seu “O Irlandês”. No ano passado foi a vez de Guillermo del Toro realizar o sonho que nutria pelo menos desde 2007: fazer a sua versão do clássico Frankenstein. Dispondo de um vistoso orçamento na casa dos 120 milhões de dólares, o diretor dá vazão ao seu estilo grandiloquente em cenários deslumbrantes com uma produção rica e detalhada. Porém, mesmo que o cineasta mexicano sempre impressione com o visual muito particular dos seus filmes, ele nem sempre acerta no campo artístico.
Em sua interpretação da obra-prima da britânica Mary Shelley, que também roteirizou, Del Toro a transpõe para o industrial e bélico século XIX, divide-a em quatro atos – prólogo, história de Victor, história da criatura e epílogo – e promove modificações na trama – Elizabeth, por exemplo, não é esposa de Victor, mas sua cunhada. As mudanças não são acidentais: ao situar a trama mais de cem anos adiante del Toro suavizou os aspectos de horror e trouxe modernidade e luxo; ao dividir o ponto de vista do desenvolvimento da trama, o mexicano tentou condicionar o público à sua perspectiva sobre os protagonistas; e mudanças como a promovida sobre Elizabeth extirparam o caráter romântico da trama para dedicar-se mais a relação entre Vitor e criatura. Juntas, todas essas propriedades permitem a Del Toro realizar completamente sua visão da obra, onde Victor é o vilão e a criatura é o herói – e a meu ver é aí que está o problema de seu filme.

frankenstein (2025) movie stills 01
Removidos horror e romance, Guillermo del Toro concentra-se na personalidade de seus protagonistas

Em seu longa-metragem, Victor Frankenstein é egoísta, narcisista, arrogante, insensível, invejoso, inconsequente e obcecado. A grande motivação emocional de sobrepujar a inevitabilidade da morte deixa de ser o trauma pela perda da mãe e passa a ser o orgulho infantil de superar seu pai rígido e frio. A criatura, por sua vez, além de visivelmente menos grotesca, é retratada como inocente, amorosa e pura, naturalmente com boas intenções e incapaz de causar mal que não seja para sua própria defesa. Mesmo ao atacar Victor, ela o faz por se sentir rejeitada, traída e ignorada por este. Ou seja, Del Toro não apenas removeu de seu Victor quaisquer traços que poderiam lhe angariar alguma simpatia ou mesmo identificação com o público, ele os transferiu para a criatura. Como consequência, a despeito de suas duas horas e meia, a trama de seu “Frankenstein” se torna menos complexa do que a da história original e seus personagens mais caricatos – o impacto e densidade da obra de Shelley, com seus personagens multifacetados, dão lugar ao higienismo narrativo e a simplificação de seus agentes. Embora isso não seja, a meu ver, alguma novidade na filmografia do Guillermo Del Toro, isso nunca esteve tão visível quanto agora, ao adaptar uma das obras mais seminais da literatura mundial, transformando-a, a despeito de toda a estética apurada e a sanguinolência explícita, em uma trama piegas perpetrada por personagens flagrantemente rasos – algo que não difere muito de boa parte das novelas produzidas em seu país de origem.

Baixe: “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (Frankenstein, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

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“Drácula”, de Luc Besson [download: filme]

dracula (2025)

Tomado pela fúria após perder sua amada, o príncipe Vlad é amaldiçoado por Deus por profanar e blasfemar, tornando-se um vampiro. Após séculos de procura, Vlad encontra a reencarnação de sua amada e planeja reunir-se com ela.
Dirigido, produzido e adaptado do clássico de Bram Stoker por Luc Besson, a mais nova encarnação de Drácula é entregue em um pacote muito bem produzido e luxuoso, em um surpreendente orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, o que demonstra que o cineasta francês detém a capacidade invejável de aproveitar ao máximo um orçamento modesto, algo há muito tempo desconhecido por seus colegas de Hollywood – os grandes trunfos de seu mais novo longa-metragem, porém, param por aqui.
Por ter sido batizado de “Drácula – Uma História de Amor Eterno”, era de se supor que Besson colocaria um pouco mais de foco no romance entre Drácula e sua amada Mina, que é a reencarnação de Elisabeta. Na realidade, a versão de Luc Besson é um romance de fato, e o horror, gênero intrínseco à lendária história criada pelo britânico Bram Stoker, é tão atenuado que chega ao ponto de subordinar-se ao cerne romântico do longa-metragem.
Mas além de ser desbotado nesta versão do clássico, adicionalmente o horror também tem que dividir espaço com um hóspede estranho, que como um vampiro é convidado a entrar pelo diretor e roteirista francês e acaba por “parasitar” o enredo: o humor. A maior vítima deste “parasita” é Van Helsing, que ao ser removido do enredo leva consigo a tensão da história original. Em seu lugar é trazido o maior agente humorístico, o padre-investigador de Christoph Waltz, criação do cineasta francês, que enfrenta todos os perigos com a graciosidade de um bailarino. O humor, porém, não tem apenas o representante de Deus em sua defesa: Jonathan Harker, noivo de Mina/Elisabeta, e os curiosos servos do castelo do príncipe vampiro, outra criação original de Besson, também são seus agentes no enredo.

dracula (2025) movie stills 01
Besson atenua o horror, ressalta o romance e introduz o humor em sua adaptação do clássico de Bram Stoker

Mas é ao finalizar a primeira parte da história que Besson abandona qualquer vestígio de horror e consuma a visão que traçou para o Conde. Para tanto, o francófono aplicou mais duas mudanças cruciais que atuam neste sentido. No segundo ato, Besson desloca o palco da trama de Londres para Paris, acabando por dissipar a densidade da atmosfera gótica da história clássica em detrimento do ambiente de frivolidade da capital francesa, o qual utiliza para promover o reencontro do príncipe com sua amada e retomar a relação de ambos. E na conclusão do enredo (não se preocupe, evitarei spoilers), o cineasta francês aplica aquela que é certamente a mudança mais controversa, operando através do padre-investigador de Christoph Waltz para alterar o desfecho do príncipe vampiro, que não apenas contrasta com a resolução da trama original como destoa da própria narrativa do Drácula projetada pelo próprio Besson no decorrer de todo o seu filme – é tão abrupto e incoerente que você se detém para confirmar se aquilo realmente aconteceu.
Ao término, a impressão que Luc Besson deixa com seu longa-metragem é de que ele diluiu todos os elementos mais simbólicos da história (inclusive o sangue) para adequar seu filme a geração acostumada com as produções algorítmicas da Netflix e com a futilidade da Marvel Disney, num filme que, assim como parte significativa da produção dos dois estúdios citados, é colocado num catálogo para ser consumido, descartado e esquecido logo em seguida – ironicamente, não muito diferente do que faria Drácula com suas próprias vítimas.

Baixe: “Dracula – Uma História de Amor Eterno”, de Luc Besson (Dracula, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
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“Redemoinho”, de Denis Villeneuve [download: filme]

maelstrom (2000)

Bibiane, herdeira do legado de famosa estilista e mergulhada em uma fase inconsequente de sua vida, acaba por envolver-se em um evento que vai alterar o curso de sua vida.
Idiossincrático, “Redemoinho” não apenas assume sua ficcionalidade desde o início ao dirigir um pedido de desculpas ao povo norueguês por tudo ser invenção, mas revela seu caráter algo peculiar ao ter sua história narrada pontualmente por peixes que tecem comentários filosóficos sobre as desventuras da protagonista até serem um a um abruptamente interrompidos quando têm suas cabeças decepadas. Assim descrito, o filme dirigido e roteirizado por Dennis Villeneuve pode soar forçosamente artificial e pedante, mas a composição inteligente da trama não apenas remove qualquer possível sombra disto, ela consegue evitar que a protagonista, uma mulher envolvida em relações afetivas pueris, com comportamento displicente e inconsequente que acaba por envolvê-la em um acidente sério, não chegue a despertar a antipatia do público: desnudando explicitamente os defeitos de sua anti-heroína sem deixar de revelar suas angústias, anseios e emoções sinceras, Villeneuve aproxima a personagem do público, tornando-a mais palpável e realista, evitando assim que a audiência julgue-a tão somente pelos seus erros.
Porém, muito além da sensibilidade na construção de sua protagonista, o que de fato concede ao filme o seu enorme charme é a sua constituição híbrida e homogênea de realidade e surrealidade. Ao mesmo tempo que o cineasta canadense encobre com consideráveis camadas de bizarria irônica e humor-negro vários componentes do seu filme – além da já citada introdução e do insólito narrador da história, a abordagem contamina a seleção e utilização da trilha sonora, a inserção de personagens coadjuvantes e periféricos e a concepção da trama, que é pontuada por intervenções e retrocessos que encorpam a trama e coincidências ao acaso que não chegam a interferir inteiramente no livre-arbítrio dos personagens, mas que pontuam suas decisões e auxiliam na sustentação da atmosfera parcialmente idílica – ele nunca deixa de manter o delicado equilíbrio desta abordagem com a malha realista da história e os eventos dramáticos que o perfazem, de um certo modo aproximando “Redemoinho” do realismo fantástico presente em parte da literatura latino-americana de ontem e de hoje, um trabalho muitíssimo cuidadoso que se manifesta tanto no que há de menos quando no que há de mais sutil no filme. O resultado disto é um longa-metragem supreendentemente leve, um misto de comédia romântica, drama e fábula pós-moderna que vai sorrateiramente fascinando o espectador por conseguir captar e materializar em sua trama a sensação que algumas vezes experimentamos de que o insólito está à espreita na nossa vida e de que quando menos esperarmos nos veremos em meio à artimanhas do destino e eventos incomuns – incluindo os peixes narradores.

Baixe: “Redemoinho”, de Denis Villeneuve (Maelström, 2000)
[áudio original, 1080p, mp4]

Baixe: legendas (português)

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“Gente como a Gente”, de Robert Redford [download: filme]

Depois de retornar de hospital psiquiátrico, onde foi internado após tentativa de suicídio ao sentir-se culpado pela morte do irmão em um acidente, Conrad tenta retomar sua vida ao lado do carinhoso pai e da mãe com quem não consegue estabelecer uma ligação mais profunda.
“Gente como a Gente”, baseado no livro Ordinary People de Judith Guest, felicíssima estréia na direção do ator Robert Redford, é um drama americano à moda antiga: não há ousadias estéticas ou formais, apenas uma história muito bem contada com personagens cativantes e os atores ideais os interpretando, e é justamente o trio de protagonistas, composto por Donald Sutherland, Mary Tyler Moore e o então estreante Timothy Hutton como o angustiado Conrad que sobressaem logo aos olhos do público por conta da grande cumplicidade destes com seus papéis – a começar por Mary Tyler Moore, na caracterização impecável da mãe distante, fria, egocêntrica e egoísta. A personagem não é apresentada imediatamente com todas estas características, mas inicialmente como uma mulher que tenta vencer sua falta de afinidade com o filho caçula, algo que logo descobrimos ser a manifestação mais visível de sua total indisposição e inabilidade com as responsibilidades da maternidade e do matrimônio – um papel que não é apenas difícil porque distanciava-se e muito daquilo com o qual o público estava habituado a vê-la, até então conhecida por uma série familiar cômica da TV, mas porquê é o retrato de uma mulher não necessariamente má, mas que visivelmente não consegue vencer suas limitações para encarar o papel de mãe e esposa quando a vida deixa de ser o plano perfeito que se imaginava antes. Claro que para obter o tom ideal desta complexa personagem, sua composição deveria ter afinidade com o personagem do filho, e nisto Mary não teria do que reclamar: Timothy Hutton, ganhador do Oscar por esta performance, é o complemento perfeito. A composição do jovem Conrad, no começo arredio com sua mãe e por vezes com a tendência de magoá-la provocando-a ao alfinetar sua inabilidade, mas que logo tenta, com sinceridade, estabelecer um elo afetivo concreto com ela, é feita pelo ator como a de um jovem conturbado e angustiado, mas que ao mesmo tempo tenta incansavelmente buscar de volta a paz, alegria e prazer que tinha na vida – uma interpretação complexa, repleta de nuances sutis e mudanças graduais que poderiam acabar mal para um estreante, mas que teve a felicidade ser realizada pelo ator certo no seu momento ideal. Já Donald Sutherland , que era então já um ator bastante experiente que trabalhou com diretores consagrados como Altman, Pakula, Kaufman e mesmo Fellini, surge aqui em um papel bastante comum à sua trajetória cinematográfica até hoje: a do personagem que ocupa um lugar discreto na maior parte da história do filme, algo que, por sinal, impede até hoje o ator de tornar-se um rosto mais conhecido pelo público. Se ficasse a cargo de um ator menos competente, provavelmente teríamos ou um pai muito apagado ou então um homem resistindo visivelmente para não tomar para si a atenção, mas na pele de Sutherland temos a medida exata do personagem: um homem que nutre imenso carinho e preocupação pelo seu filho, mas que luta com sinceridade consigo mesmo para permitir que o garoto supere suas dores e traumas por si próprio – uma interpretação extremamente complexa porque nasce nos pequenos detalhes e preenche apenas os espaços permitidos, um feito nada menos que brilhante.
Quanto ao trabalho de Redford na direção, claro que não se deve desconsiderar a condução dada por ele à seu filme. Além da delicadeza e sensibilidade no tratamento da trama imensamente emocionante, Redford teve a sensatez e sabedoria de não usurpar o material excelente que tinha em mãos, preservando fielmente no roteiro escrito por Alvin Sargent a estrutura original da história, que centra-se nas conturbações após os eventos que desintegraram a estabilidade da família de Conrad – a morte do filho mais velho e a tentativa de suicídio dele próprio – fazendo assim um verdadeiro estudo da erosão familiar após acontecimentos que abalaram suas estruturas em uma abordagem não muito comum no cinema, mas que, ironicamente, é que normalmente acaba tendo os melhores resultados. Porém, esta que é inquestionavelmente uma das maiores obras-primas sobre dramas familiares concebidas até hoje no cinema americano é mais fruto de uma conjunção incomum de oportunidades e talentos do que da aptidão de Robert Redford como cineasta, já que depois deste longa-metragem a pequena filmografia do criador do Sundance Festival está tomada de filmes medianos e insossos que nem se comparam à estréia. É aquela velha história da obra que se torna muito maior do que o artista – e, provavelmente, até mesmo Redford concordaria com isso.

Baixe: “Gente como a Gente”, de Robert Redford (Ordinary People, 1980)
[áudio original, 1080p, mp4]

Baixe: legendas (português)

Download: subtitles (english)

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“O Sétimo Continente”, de Michael Haneke [download: filme].

der siebente kontinent (the seventh, continent, 1989)

Em meio à monotonia de seus afazeres diários, Georg, sua esposa Anna e a pequena filha Evi, família austríaca de classe média, toma uma decisão surpreendente.
Com uma carreira já consideravelmente longa dirigindo filmes para a televisão austríaca, quando fez sua estréia no cinema com o longa-metragem “O Sétimo Continente”, em 1989, o diretor alemão Michael Haneke já tinha seu famoso estilo meticuloso e clínico completamente depurado. Baseando-se em uma história real que chocou a Áustria nos anos 80, Haneke desconcerta o espectador ao permanecer mais de dez minutos iniciais do filme focando suas câmeras apenas na interação dos três personagens com objetos e itens do seu cotidiano, sem nem por um momento revelar seus rostos e emoções, recorrendo ao artifício em pelo menos mais duas longas sequências da película, a última delas particularmente perturbadora. Em se tratando de Haneke, esse recurso estilístico não é meramente uma decisão de caráter estético, é certamente uma ferramenta importante para atingir seu objetivo. É com o uso deste recurso que Haneke retrata a interminável sucessão diária de ações mecânicas que ocupam a maior parte de nossa vida, algo do qual com muito pouca frequência nos damos conta. Mas ele não para por aí: ao separar estas cenas por intervalos “cegos” com a tela completamente vazia, o diretor alemão sugere que entre o eterno roteiro de ações inócuas há verdadeiros vácuos de vivência onde nossa existência fica praticamente em estado de suspensão. Achatadas por essa rotina de automação e descaracterização de nossa subjetividade e humanidade, mesmo as poucas cenas que retratam a interação afetiva entre os personagens, a bem da verdade, ou acabam de algum modo mostrando-se perfiladas como parte desta automação ou não se mostram suficientemente fortes e concretas para vencê-la: é por essa razão que mesmo quando Anna expressa seu carinho pela filha Evi ou quando Georg e sua mulher fazem amor com alguma satisfação visível tudo parece carecer de uma dimensão mais real, já que estes atos são atravessados por uma letargia emocional que impede que tais sensações possam ser vividas e expressas em sua completitude e profundidade e retira-lhe sua real significação como algo essencial para levar à frente nossas vidas.
A conclusão disto surpreende o espectador, mas ao mesmo tempo, não poderia ser outra, e frente o impasse existencial que muitos à certa altura experimentam por não encontrarem razão e sentido para o que fazem, Georg, Anna e Evi tomam uma decisão drástica que sela o destino da família e, curiosamente, a executam com a mesma serenidade e mecanicidade que envolve todos os atos rotineiros cuidadosa e inteligentemente retratados pelo diretor alemão.
Sempre polêmico e incômodo sem apelar ou cometer concessões, ao registrar fria e implacavelmente a trajetória desta família, Haneke impiedosamente submete a platéia a ocupar a posição desagradável de testemunha dos fatos e, sem alternativa, obriga esta à inescapável reflexão sobre as relações humanas na vida moderna – e assim o diretor inaugurou a exploração da temática que lhe é tão cara e que persegue com incansável obstinação até hoje e lapidou definitivamente a pedra fundamental do seu cinema altamente provocador. Um cinema que não é para os mais sensíveis, é bom dizer.

Baixe: “O Sétimo Continente”, de Michael Haneke (Der Siebente Kontinent/The Seventh Continent, 1989)
[áudio original, 720p, mp4]

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Download: subtitles (english)

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“Sauna”, de Antti-Jussi Annila [download: filme]

Eerik e Knut são irmãos e fazem parte de uma das duas comissões estabelecidas para definir as fronteiras pós-guerra entre Rússia e Finlândia em 1595. Apesar de todos os crimes que carregam do conflito, é um ato aparentemente sem consequências graves que começa a cobrir as suas vidas de um horror inimaginável.
Sendo apenas seu segundo filme lançado até o momento, “Sauna” é um espetáculo cinematógrafico primoroso e apurado do diretor finlandês Antti-Jussi Annila que desde sua cena introdutória intriga e arrebata pela imensa qualidade do conjunto composto pelo diretor e toda sua equipe. Do modo mais imediato, nota-se prontamente a sublime excelência dos componentes técnicos do longa-metragem, mas ao longo do filme percebe-se que aqui, ao contrário do que acontece em muitos longa-metragens de terror, a estética não é um artifício meramente gratuito ou explorado como um clichê ordinário, mas sim uma ferramenta de apoio inteligentemente utilizada pelo diretor para potencializar a trama de “Sauna”: a ambientação e cenografia irretocáveis, a trilha sonora formidável, os enquadramentos estudados e cuidadosos e a fotografia espetacular são todos utilizados em conjunto não apenas para construir e reforçar a atmosfera enigmática e sombria, mas para delinear esplendidamente os contornos da personificação do mal onipresente da trama. Exemplo disso é a espetacular caracterização da sauna que dá título ao filme como um casebre funesto e horripilante que levanta-se sobre um espelho d’água espectral dentro dos domínios do pântano.
E, por falar na história, é justamente o roteiro de Iiro Küttner que torna este um daqueles poucos filmes de horror que vão muito além da construção de um clima e de um argumento amedrontadores. A trama arquitetada por Iiro, que versa sobre um horror desconhecido e incompreensível que vai aos poucos perseguindo e cercando um grupo de homens em um ambiente soturno e desolado, parece à primeira instância pouco clara, pontuada que é por eventos e elementos extremamente bizarros que parecem não receber qualquer explicação, mesmo uma sobrenatural. Contudo, é somente depois de finalizado o longa e tendo analisado atentamente alguns elementos e falas que passam quase despercebidas durante o filme que se compreende que há uma ambiguidade complexa que acaba por dar margem à mais de uma interpretação possível para a natureza de sua história, a mais brilhante e mirabolante delas sendo uma alegoria das mais impactantes que tem como resultado um estudo magistral sobre culpa e punição que mesmo boa parte dos filmes de drama não costumam tratar com tamanha competência.
É claro que essa fuga do lugar-comum do gênero, por conta da história que não se permite decifrar pronta e completamente e pelo diretor não se entregar à violência gratuita, além do fato da produção não pertencer ao circuito mais tradicional do terror – o longa é fruto de esforços conjuntos entre a Finlândia e a República Tcheca -, acabou por relegar o filme ao conhecimento de bem poucos espectadores, e isso até mesmo entre os que tem o terror e suspense como suas preferências. Porém, é justamente este conjunto de características que tornam esta uma produção tão singular: seu objetivo está muito longe de simplesmente dar sustos e horrorizar com closes detalhados em tomadas de violência explícita. Annila sabe que pode bem mais do que isso, e igualmente pode o público – por esse motivo o diretor decidiu não menosprezar a inteligência da platéia e lhe entregar algo bem mais ambicioso, profundo e efetivo, resgatando, mesmo que apenas por pela breve duração de seu filme, a inegável superioridade dos longas de horror mais psicológico, gênero tão esquecido e relevado pelas platéias já há muito tempo em detrimento de espetáculos cada vez mais pueris de carnificina vulgar que só fazem manchar a reputação e dar munição àqueles que o consideram um gênero menor do cinema – ainda bem que sempre teremos diretores como Antti-Jussi Annila para provar com suas obras impressionantes o quanto isto não é verdade.

Baixe: “Sauna”, de Antti-Jussi Annila (Sauna, 2008)
[áudio original, 1080p, mp4]

Baixe: legendas (português)

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005