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Tag: cinema

“Cisne Negro”, de Darren Aronofsky [download: filme]

black-swan (2010)

Nina, bailarina de famosa companhia de New York luta para encontrar a interpretação perfeita de dois dos mais famosos personagens do mundo do ballet enquanto, ao mesmo tempo, é aterrorizada por situações estranhas.
Darren Aronofsky é um cineasta que costuma ter idéias promissoras e muito bem realizadas, porém, em algum ponto de sua execução o diretor americano acaba sempre cometendo equívocos que atrapalham o conjunto final do longa-metragem e frustrando, portanto, as expectativas do público. Foi assim com praticamente todos os seus filmes anteriores, sem dúvidas sendo o pior caso o de “A Fonte da Vida” – praticamente uma hecatombe. Todo o entusiasmo gerado por “Cisne Negro” me fez pensar que finalmente ele tinha encontrado a medida. Infelizmente, a tradição se manteve mais uma vez.
“Cisne Negro” é, como já poderia se prever, mais um filme de impecável realização na filmografia do diretor. Mas isso não é de causar surpresa alguma, já que Aronofsky é conhecidamente um daqueles cineastas que conseguem achar o tom certo para tramas de naturezas diversas que decide abordar, o que se configura na principal contribuição para que seus filmes sustentem um clima sólido durante toda a sua duração e para lhe conferir a ótima reputação que detém estréia após estréia – reputação um tanto quanto exagerada, já que beira o hype que cerca David Fincher, por exemplo, mas na maior parte é justificável a celeuma em torno de Darren já que isso se deve à sua competência ao lidar com as diferentes camadas de uma produção cinematográfica (técnicas e artísticas) e conceber um todo mais coeso e coerente. Com o apoio da interpretação em grande parte física e gestual de Natalie Portman, a sedutora composição de Mila Kunis, a presença sempre magnética do francês Vincent Cassel, além da fotografia e cenografia frias e depressivas e da trilha sonora climática, o diretor consegue encenar com considerável precisão o avançar de um surto psicótico e paranóico em uma mulher de personalidade reprimida e fragilizada sem que ninguém, à exceção de seu ente mais próximo, se dê conta disso – algo, diga-se, bem comum de se ocorrer. Sob esse ponto de vista, o diretor obteve sucesso e atingiu plenamente seu objetivo.

black-swan (2010) movie stills 01
Portman se destaca com sua interpretação bastante física, mas o filme peca ao trair expectativas intencionalmente

Há, porém, dois pontos que mudam consideravelmente esta avaliação, ambos da ordem da promoção e também concepção do longa-metragem que acabam, em consequência, problematizando a trama por trair prováveis expecativas do espectador. O primeiro está relacionado ao gênero ao qual o filme foi enquadrado inicialmente, o terror. Aronofsky se utiliza de alguns artifícios do cinema de horror, mas eles não apenas não são suficientes para caracterizá-lo como pertencente ao gênero como são, a meu ver, um tanto desnecessários e desconcertados. Segundo, e em parte relacionado ao primeiro, o diretor de “Cisne Negro” parece ter considerado por algum tempo durante a produção do longa-metragem sustentar nele um caráter de mistério – e “Cisne Negro” até chegou a ser promovido com tais pretensões -, o que daria sustentação à utilização das poucas e frágeis sequências de horror, mas em cerca de 20 minutos de sessão do filme já não há, intencionalmente, qualquer segredo sobre a natureza dos estranhos eventos da trama e o público já se dá conta de que qualquer perturbação experimentada pela protagonista é fruto de seu crescente estado de desequilíbrio, o que torna o filme não mais do que o retrato do gradual avançar de um surto de ordem psicótica e a platéia, portanto, a sua testemunha silenciosa. Isso de modo algum faz deste um filme ruim, mas a meu ver o longa deixaria de ser apenas um bom filme e poderia se revelar uma experiência muito mais impactante se de fato a dúvida fosse seu elemento chave e toda a subversão comportamental perpetrada por Nina não ficasse quase completamente no plano do delírio. Claro que por ser fruto de expectativa, isso não é inteiramente culpa de Aronofsky. Contudo, se desta forma considerado, o filme, que ainda assim não deixa de ser um êxito, o é sobre o alicerce de falsas ousadias escondidas sob um manto de ortodoxia dissimulada – bastava somente suprimir e inserir alguns elementos aqui e ali e o ballet mórbido de “Cisne Negro” seria convertido de um grasnido breve e tímido para um canto que ecoaria bem mais triunfante, trágico e perene.

Baixe: “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky (Black Swan, 2010)
[áudio original, 1080p, mp4]

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português

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“Como Terminei Este Verão”, de Aleksei Popogrebsky [download: filme]

kak ya provyol etim letom (how i ended this summer, 2010)

Sergei e Pavel são dois meteorologistas que trabalham em um ponto isolado do ártico russo cumprindo tarefas frequentes. Um evento inesperado, porém, vai alterar toda a rotina e a relação entre ambos.
Mais recente filme de um diretor de filmografia pouco extensa, “Como Terminei Este Verão” foi ganhador do Urso de Prata de excepcional contribuição artística e de melhor ator, prêmio este dividido entre os dois únicos intérpretes do filme, Grigoriy Dobrygin e Sergei Puskepalis. Filmado com extremo afinco e detentor de uma direção de fotografia irreprimível, é bastante justa a premiação pela beleza plástica e esmero técnico da produção – há, inclusive, planos abertos que remetem ao enigmático fulgor de pinturas impressionistas. O mesmo, porém, já não pode ser dito da dupla premiação dada aos atores: embora os dois russos tenham desempenho convincente e bastante competente, não acho que este seja um filme que justifique tal premiação – e isso, na verdade, nem se deve aos atores, mas ao argumento do filme. Escrito pelo diretor, “Como Terminei Este Verão” se resume às rotinas de trabalho de Sergei e Pavel que, a certo ponto, são alteradas por uma tragédia relacionada ao primeiro, fato este que adiciona uma tensão intermitente a relação já fria e distante entre ambos.

kak ya provyol etim letom (how i ended this summer, 2010) movie stills 01
A dupla de atores faz um bom serviço, mas o diretor hesita sobre qual o tom do seu filme

Argumentos áridos já foram exploradores em filmes dos mais consagrados cineastas russos, onde a direção encontrou modos de converter a natureza pacata e estanque da trama em seu maior elemento de interesse, transformando tais elementos em aprofundamento da dimensão humana e amplificando os sentimentos dos personagens de modo indireto. O diretor Aleksei Popogrebsky se propõe a fazê-lo, mas a impressão que se tem é que o cineasta não estava tão certo se realmente era este seu objetivo, já que o filme permanece o tempo todo reticente no tom da narrativa, nunca decidindo entre esta abordagem mais introspectiva ou a rítmica e o despojamento do cinema comercial mais contemporâneo. Toda essa hesitação só acaba por acentuar o considerável vazio argumentativo, algo que já é intensificado pelo desnecessário prolongamento da história, que tem quase duas horas de duração. É só depois do “turning point” da trama que o diretor consegue adicionar uma dose de relevância ao seu longa-metragem ao mostrar que o destino dos protagonistas poderia bem ser outro tivessem eles desmanchado a mútua falta de comunicação e aspereza na relação entre ambos, algo que ensaia acontecer, mas não ocorre devido aos receios de um e pela introversão de outro. A esta altura, porém, não é mais possível conquistar suficientemente a atenção do espectador: ironicamente, a consideração deste pelo longa-metragem já encontra-se tão fria quanto a desolada paisagem do filme russo – meia hora a menos de duração e o diretor e seus protagonistas terminariam este verão bem mais aquecidos.

Baixe: “Como Terminei Este Verão”, de Aleksei Popogrebsky (Kak Ya Provyol Etim Letom/How I Ended This Summer, 2010)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Amores Imaginários”, de Xavier Dolan. [download: filme]

Francis e Marie, dois amigos que moram em Montreal, se encantam por Nicolas, jovem que surge no círculo de amizades de ambos, e pouco a pouco o encantamento cria uma silenciosa erosão na relação de ambos.
O que impressiona de imediato neste segundo longa-metragem de Xavier Dolan é que com apenas 21 anos o jovem canadense já tenha definido uma estética firme, sólida e apurada como poucos cineastas. Ao co-produzir e encarregar-se da direção, roteiro, concepção de figurino, cenografia e edição da película, Dolan manteve absoluto controle sobre componentes essenciais para elaborar sem interferências a atmosfera repleta de elegância, charme e uma doce e delicada nostalgia que encobre o filme do início ao fim. A despeito de fascinar, porém, a beleza plástica engendrada pelo diretor tem seus reveses: como todo cineasta em início de carreira que tenta se impor, Dolan peca pelo excesso ao tingir constantemente seu filme nas matizes e texturas de seu olhar embebido em beleza. O uso ostensivo de câmera lenta combinado à uma trilha sonora composta por peças eruditas e canções indie e pop nostálgicas e contemporâneas que amplificam o efeito da imagem tornam, a certa altura, a estética previsível, quando não esvazia-a de sentido, mesmo tendo o cineasta justificado o efeito superficializante de sua estética como reflexo deste mesmo estado das emoções de seus personagens. Porém, os reveses do visual do filme, mesmo intoxicado pela própria beleza, não se constituem no seu maior problema, mas sim o seu conteúdo.
Com a atonicidade da dinâmica de sua história, parece evidente que com seu “Os Amores Imaginários” Dolan presta uma homenagem à uma faceta da Nouvelle Vague, impressão esta reforçada pela estética do filme. Retratos da rotina nada extraordinária de romances, incluindo triângulos amorosos, eram uma das temáticas caras ao movimento do cinema francês, porém, nos clássicos do gênero o seu grande diferencial não eram comumente os acontecimentos da trama, mas seus agentes: os personagens. E esta é exatamente a fraqueza de Dolan: ao invés de uma pessoa repleta de magnetismo, fascinante e sedutora, alguém que poderia despertar paixões inconsequentes a ponto de atribular amizades até então inabaláveis, o jovem que coloca silenciosa e traiçoeiramente os amigos Francis e Marie como adversários que disputam a sua atenção é o exato oposto disso: uma figura sem encanto, opaca e até um tanto infantil – nem é preciso dizer que assim, boa parte da razão de ser do filme deixa de existir. Mas também os protagonistas da trama falham em despertar o completo interesse pelo longa: há uma certa artificialidade presente nos dois personagens que não permite à platéia que desenvolva o necessário nível de empatia para que a trama ganhe importância.

les amours imaginaires (heartbeats, 2010)  movie still 01
O trio de protagonistas é o ponto mais fraco do filme do jovem diretor

Ironicamente, porém, são os interlúdios reflexivos que pontuam por três vezes a trama – sequências em que amigos dos protagonistas trocam experiências e impressões sobre relações afetivas, em tom informal e semi-documental – que acabam trazendo mais sagacidade e sensibilidade à “Os Amores Imaginários”. É da boca destes jovens homens e mulheres que surgem os comentários mais realistas e precisos sobre as dificuldades amorosas. E, como se isso não fosse o bastante para eclipsar os protagonistas, é entre estes personagens absolutamente periféricos que encontra-se a jovem stalker de lisos cabelos escuros e óculos de resina que se constitui na mais divertida e espontânea das figuras do filme, e talvez não por um acaso, o abre: ao contrário da trama dos protagonistas, seus comentários e observações cheios de ironia e auto-depreciação elegantes captam completamente a atenção do espectador ao ponto de você quase esquecer que este não é o foco principal do longa canadense, o que é realmente uma pena – tivesse o filme se centrado na presença cheia de graça e inteligência destes personagens ocasionais da trama, as atribulações e acidentes afetivos não pareceriam tão pueris quanto o fazem parecer a trinca de protagonistas. Do jeito que está, a credibilidade dos dramas dos amores de Xavier Dolan não vai mesmo além de sua imaginação.

Baixe: “Amores Imaginários”, de Xavier Dolan (Les Amours Imaginaires/Heartbeats, 2010)
[áudio original, 1080p, mkv]

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“A Passagem”, de Marc Forster [download: filme]

stay (2010)

Sam Foster, psiquiatra, assume o caso de um homem amargurado e transtornado depois que a encarregada do tratamento se afasta por questões pessoais. Inicialmente contrariado, Henry Letham, o paciente, logo mostra seu apego por Sam, que não muito depois começa a se sentir envolvido em eventos incomuns relacionados à Henry.
Filme imediatamente anterior à “Mais Estranho que a Ficção”, no longa-metragem “A Passagem”, o diretor Marc Forster traz novamente personagens que atravessam juntos uma trama pontuada por elementos que destoam do plano real – porém, diferentemente do filme seguinte, onde desde o início se tem a certeza sobre o que está ocorrendo, é a dúvida que envolve o espectador neste longa-metragem com roteiro escrito por David Benioff. O texto mergulha o psiquiatra de Ewan MacGregor pouco a pouco nos aparentes devaneios do paciente com tendências suicidas de Ryan Gosling, homem torturado pela culpa relativa à um acidente que pode ou não ser real tanto quanto os distúrbios que o psiquiatra começa a vivenciar, todos relacionados ao paciente e aqueles que são de suas relações. Dando apoio à estes componentes que contrariam a percepção da realidade, além do trabalho excepcional dos protagonistas Ewan McGregor e Ryan Gosling, que projetam a alma torturada e a certeza fragilizada de seus personagens, respectivamente, e da presença magnética de Naomi Watts, a fotografia com contraste forte e ostensivo uso de halos luminosos e a edição que funde a cenografia de uma cena à seguinte e amplia a desorientação narrativa materializam fenomenalmente a sensação de incerteza do médico, levando esta sensação também ao público, que se vê o tempo todo intrigado por micro-flashes repetitivos de um evento que pode ser ilusão ou lembrança, “déjà vus” misteriosos de acontecimentos aparentemente sem importância e episódios bizarros.

stay (2010) movie stills 01
Tanto a edição quanto a fotografia estilizadas são elementos chave da narrativa de “A Passagem”

A narrativa, assim, ao mesmo tempo que é linear, avança entrecortada por uma série de sequências, eventos e falas que negam a veracidade do que está sendo visto, interrompendo a compreensão da narrativa com um pulso contínuo de dúvida cujos elementos não necessariamente se interligam, o que torna difícil, durante a desenrolar da trama, materializar uma teoria suficientemente sólida que negue ou confirme a realidade do que se vê. É apenas na surpreendente e emocionante conclusão da história que o espectador tem subsídios para por em ordem o que está ocorrendo, elucidando a dinâmica da trama e sua razão de ser e revelando que a narrativa obtusa e todo o exercício de estilo exposto na edição e fotografia não são maneirismos gratuitos, e sim um trabalho muito bem pensado que tenta “fotografar” um mecanismo complexo de um evento cujo retrato é certamente impossível de se obter, mas que nas mãos de Forster e seus colaboradores tornou-se o mosaico impressionante de um momento único e definitivo na vida de um ser humano. É mais um pequeno brilhante longa na filmografia de um diretor um pouco irregular, como muitos em Hollywood. Porém, como costuma acontecer, são cineastas com filmes bem menos intrigantes e relevantes que recebem todo o hype de público e crítica – se é que estes foram um dia relevantes.

Baixe: “A Passagem”, de Marc Forster (Stay, 2005)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”, de José Padilha [download: filme]

tropa de elite 2 (elite squad 2, 2010)

Capitão Nascimento, após uma operação polêmica no presídio de Bangu I, mas apoiada pela população, acaba ganhando um alto cargo na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. É de lá que ele planeja atuar de modo mais efetivo contra o crime da cidade – logo, porém, descobre-se que o oficial não estava tão atento às mudanças na dinâmica do crime na cidade quanto pensava.
No início, a notícia da sequência de “Tropa de Elite” me soou bastante mercenária, derivada que foi do sucesso da primeira instância da história. Certamente que esta deve ter sido a motivação inicial, pra não dizer a principal, mas ao contrário do que normalmente acontece no cinema comercial, o diretor José Padilha e sua trupe de colaboradores e roteiristas não deixaram de dar toda a atenção à qualidade na segunda empreitada contra o crime carioca do já icônico Capitão Nascimento – pelo contrário, o empenho da equipe foi tanto que “Tropa de Elite 2” consegue o impensável: supera a primeira parte da saga do oficial do BOPE. Porém, isso só foi possível devido à mudanças na essência do argumento da saga de Nascimento – algo que, certamente, não vai agradar à uma parcela considerável do público do primeiro filme.
Em “Tropa 1”, eram as atividades do BOPE no combate à criminalidade do Rio de Janeiro e a ilustração dos imensamente rígidos métodos de treinamento e seleção de soldados do grupo que compunham o cerne argumentativo do longa-metragem. Por consequência disso, o filme resultou em um excelente longa-metragem de ação explosiva e desenfreada, agrandando públicos dos mais variados tipos – mas ele não ousava ir muito além disso. Em “Tropa 2”, porém, com a saída de Nascimento do comando do BOPE para atuar na Secretaria de Segurança, o grupo de operações especiais perde o protagonismo em detrimento do registro desta nova esfera de atuação do capitão, o que, consequentemente, diminuiu consideravelmente o teor de ação da trama para dar espaço na história à ilustração das relações políticas e de poder e de suas várias imbricações, artimanhas e obscenidades morais e éticas decorrentes. Com essa narrativa mais reflexiva e abrangente, há grandes chances que os fãs do clássico cinema de ação, público este que compõe boa parte dos entusiastas do primeiro filme, considere “Tropa 2” um tanto mais chato e monótono que a primeira parte. Porém, este roteiro sensivelmente mais rico, que amplia a abordagem dos mecanismos e da dinâmica do crime do seu micro-foco, a sua porção mais visível, ordinária e imediata, para o macro-foco, dissecando o “backstage” da criminalidade, as suas ramificações além das fronteiras do subúrbio e da própria polícia, a exploração constante do crime pelos detentores do poder e, ainda, a potencialização da importância ficcional de Nascimento para a mudança da natureza do crime nos subúrbios e favelas da cidade do Rio de Janeiro, torna esta segunda parte bem mais relevante do ponto de vista crítico.

tropa de elite 2 (elite squad 2, 2010) movie stills 01
“Tropa 2” tem um enredo mais rico que deixa um pouco de lado a ação frenética do primeiro filme

A mudança de abordagem também trouxe para a superfície um elemento que foi pouco explorado no primeiro filme: a instância humana da trama. Enquanto em “Tropa 1” toda a carga emocional era derivada da adrenalina das incontáveis sequências de ação e suspense que ocupavam grande parte do longa, nesta segunda parte ela muda de natureza e ganha maior destaque ao ter como origem os problemas familiares de Nascimento, que tenta levar à frente a relação bastante desgastada com o seu filho. Deste modo, a contínua sensação de tensão, que sufocou grande parte do lado humano do filme anterior, cede mais espaço para o retrato da vida pessoal conturbada de Nascimento, explorando mais intensamente a emoção do público, que acaba, assim, tendo uma ligação mais pessoal e profunda com a história e com seu protagonista – e aqui, claro, deve-se fazer dizer que isso também se deve, e muito, à atuação impecável de Wagner Moura.
“Tropa de Elite 2” é um longa-metragem claramente amadurecido: se o primeiro filme registra a ferida no corpo, o segundo retrata o vasto processo de infecção generalizada que se dá a partir do combate ineficiente contra esta. Com a equipe de produção estabelecendo como meta tornar tanto a trama como seu principal personagem mais densos e complexos, Nascimento muda e torna-se mais humano e realista ao ter alargada, pela experiência que vive no filme, a sua compreensão da criminalidade tão mais quanto o próprio retrato do crime na cidade do Rio o é, fazendo crível a transformação de um policial que vê o inimigo apenas na crime rotineiro e seus agentes mais aparentes para um homem abalado e perdido ao ser surpreendido pelo tamanho e alcance opressivos desta criminalidade, que se regenera à cada derrota sofrida. Porém, o choque sofrido é o baque necessário, pela tradição das sagas do cinema, antes de um epílogo triunfal ou shakespeariano – a saber, a morte do protagonista, o que, no caso deste filme que retrata tão bem a realidade carioca, seria o mais provável. Por esse motivo, talvez seja mesmo “Tropa de Elite 2” a conclusão mais adequada para a saga do oficial do BOPE: é melhor deixar Nascimento perdurar no imaginário coletivo em sua interminável e difícil luta contra o que ele chama de “sistema” do que encerrar sua carreira sacrificando-o no correr desta batalha – é um tanto menos realista e épico, mas acho ser mais justo para um personagem que já entrou para a história como uma dos maiores criações do cinema contemporâneo do nosso país.

Baixe: “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”, de José Padilha (Elite Squad 2, 2010)
[áudio original, 1080p, mp4]

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“Direito de Amar”, de Tom Ford [download: filme]

a single man (2009)

George, professor universitário que tenta lidar com a perda do namorado com quem conviveu longos 16 anos, encontra o caminho para dissolver a rotina dolorosa que enfrenta há 8 meses.
Se ao observar os créditos iniciais do primeiro projeto cinematográfico de Tom Ford, que o celebrado estilista dirigiu e teve participação na produção e no roteiro, não se tem sinais suficientes de que este quis estabelecer absoluto controle sobre os rumos de “Direito de Amar”, não há como não perceber isso ao iniciar-se o longa-metragem: a fidelidade com que a cenografia, figurino e direção de arte remontam a atmosfera elegante dos personagens de classes abastadas dos anos 60 e a fotografia esplêndida e cristalina que ressalta ainda mais a perfeita caracterização de época demonstram o quanto o agora cineasta americano, quando não foi direto responsável por algum aspecto de sua produção, teve certeza de cercar-se apenas de quem o fizesse com o apuro que certamente trouxe de sua ocupação principal até antes de aventurar-se no cinema. E apesar de dedicar-se com tanto afinco para garantir a excelência técnica que enche os olhos em cada mínimo detalhe de seu filme, Ford não deixou de dar a atenção necessária à esfera artística de sua produção. O roteiro, composto por ele e David Scearce a partir do livro homônimo de Christopher Isherwood, cadencia com muito cuidado e enorme inteligência as experiências simples do cotidiano que ganham nova e singular importância neste dia crucial da vida de George com as lembranças de momentos importantes e felizes que ele viveu ao lado do homem que tantou amou e com quem partilhou grande parte de sua vida. Isso, claro, foi de enorme auxílio à caracterização segura, precisa e enormemente emocionante dos atores ao desempenhar seus personagens – em especial Colin Firth que, em atuação escandalosamente irretocável apoiada em uma caracterização econômica e comedida, consegue expor em gestos mínimos toda a carga de sofrimento que o personagem carrega desde que perdeu aquele que dava sentido à sua existência, expressando também de modo delicado toda a intensidade de sensações que experimenta neste dia.

a single man (2009) movie stills 01
A emoção contida do personagem de Firth resume esta excelente estréia do estilita Tom Ford como diretor

O único senão, talvez, esteja justamente nos artifícios cinematográficos aos quais Tom Ford recorreu para retratar o vigor sensório que George experimenta neste dia de sua vida que o filme retrata: os enquadramentos – closes, em particular – e a utilização desnecessária de câmera lenta em conjunto com a aplicação da trilha sonora – que diga-se, é de uma beleza ímpar – em algumas sequências do filme acabam por fazer o oposto do que objetivava o cineasta, reduzindo tais experiências à sua mera superfície – ou seja, por conta deste maneirismo estético, a atenção do espectador acaba desviada do sentido para a imagem em si. Não é difícil supor que nestes momentos falou alto a alma de estilista do novo diretor. Isso, porém, é mero detalhe, talvez até uma implicância gratuita. Diante da abismal delicadeza que a história ganhou nas mãos de Tom Ford, que conseguiu explorar toda a enorme carga de emoções da narrariva de um homem cansado do amargor e sofrimento trazidos pela perda de seu amor sem acometer a história um instante sequer com pieguices e emoções baratas, as pequenas obsessões estéticas do diretor não são nem de longe suficientes para desmerecer os imensos méritos de Ford e deste seu esplêndido filme de estréia – é a alvorada de um cineasta extremamente promissor que, sem dúvidas, já ganha a sensibilidade como a sua mais valorosa e representativa marca.

Baixe: “Direito de Amar”, de Tom Ford (A Single Man, 2009)
[áudio original, 1080p, mp4]

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005