A algo imateral voz de Beth Gibbons é normalmente lembrada sempre associada ao uso de samplers, ruídos estranhos, batidas sinistras e maneirismos de DJs dos mais diversos. Isso porque ela é mais conhecida trabalhando com a sua banda, o Portishead, que até hoje só lançou dois discos, ambos soberbos no desvendamento de um mundo melancólico e sombrio. Porém, depois do lançamento do último disco da banda britânica, Beth deu-se o direito de ceder seu talento para contribuir com um projeto aqui e ali, e entre estas aventuras lançou, em parceira com Paul Webb, assinando sob o pseudônimo Rustin Man, o disco Out of Season. Nele Gibbons dá vazão à um lado mais acústico de sua personalidade musical, utilizando-se basicamente de violão e baterias, acompanhados de perto por orgão e piano que aprofundam o senso de nostalgia que permeia todo o disco. As melodias das faixas “Mysteries” e “Show” são bem características desta faceta mais plácida, ainda que amarga, que a artista revelou: na primeira, na escolta do violão de acordes pálidos e da “colcha” de vocais tristes ao fundo permite-se apenas ruídos e sonoridades suaves que aprimorem a rusticidade da música, na segunda, um lamento tardio sobre um mundo repleto de ilusões e sofrimento, o clima plangente é obtido tão somente com o uso de uma pequena harmonia de acordes no piano repetida incansavelmente e vez ou outra envolvida em um contrabaixo tão lento e arrependido quanto o vocal de Beth Gibbons. Em outros momentos Gibbons e Webb autorizam-se melodias um pouco mais grandiloquentes, como as de “Spider Monkey” e “Funny Time Of Year”: enquanto na primeira os violões, baixos e guitarras ensaiam um crescendo melódico, que não se realiza por completo, para sonorizar os versos sobre as feições fugazes e traiçoeiras de tudo que vivemos em meio à ditadura irreversível do tempo, em “Funny Time Of Year” este crescendo atinge a sua plenitude no lamento emocionante de violões, bateria, guitarra, baixo, acordeão, teclados e no vocal transbordante de sentimento de Beth Gibbons, que mostra aqui porque é tão prestigiada tanto pelos fãs como pela crítica do meio.
Assim, Out of Season funciona como uma espécie de stripped-down Portishead: apesar da sonoridade mais acústica, que recorre bem menos à inserção de orquestrações de metais e cordas e de ruídos e interferências eletro-mecânicas que usurpem a melodia, o clima obtido com elas é o mesmo presente nos álbums da famosa banda de Beth Gibbons, explorando detalhada e soberbamente a melancolia, agonia, sofrimento e solidão em cada verso e nota das canções.
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3 Comentários
Alguns, eu diria até muitos, gostam de comparar a banda britânica Keane com seus conterrâneos do Coldplay. Mas isso, na verdade, carrega consigo uma boa dose de injustiça e confusão: a banda de Tom Chaplin, Tim Rice-Oxley e Richard Hughes foi fundada antes da de Chris Martin – o que faz, então, a lógica da semelhança ser inversa. Porém, como não é raro no mundo da música, o estilo da banda foi sendo lapidado com o passar do tempo e, talvez, alguma influência – de “mão única” ou recíproca – é bem possível de ter ocorrido.
Até os fãs de PJ Harvey não esperavam que a cantora e compositora britânica fosse tão longe em seu mais recente disco, White Chalk: depois de tantos anos revirando e experimentando dentro das fronteiras do rock mais seco e punk, em 2007 a cantora renasce como uma entidade romântica e quase fantasmagórica do século XIX que utiliza o piano como base de inspiração melódica para suas criações. Mesmo o seu vocal tão singularmente rockeiro, que PJ sempre fez questão de utilizar em todas as variações de graves e agudos que consegue atingir, agora é sustentado quase o tempo todo nesta última faceta, em notas altas e distantes, muitas vezes transmutadas por filtros que intensificam ainda mais seu caráter imaterial. As melodias fogem da trama básica do rock como o diabo foge da cruz, geralmente compostas com o já citado piano, além de banjos, gaitas e harpas, com interferência mínima de bateria, como se pode ver na belíssima faixa de abertura, “The Devil”, em que a cantora fala sobre uma alma atormentada pelo amor e na faixa título, que resgata memórias e emoções despertadas pela paisagem bucólica do paredão de penhascos da região de Dorset, na Inglaterra. Mais adiante, tanto na terceira faixa, “Grow Grow Grow”, de letras que suplicam por ajuda para entender melhor como é crescer e melodia agridoce e brumosa, com um elenco de pianos que vão do mais econômico e minimalista ao mais virtuoso, quanto no piano de acordes graves e vocais monotonais do single “When Under Ether”, que fala sobre uma mulher que sente a vida esvaindo-se dentro de si no momento em que sofre um aborto, Harvey suscita a atmosfera de Is This Desire?, ainda que estas canções estejam tomadas pela sonoridade preponderante de White Chalk. Contudo, se você quer entender inteiramente este projeto inusitado da cantora britânica ouvindo uma única música, a última faixa do disco, “The Mountain”, serve como a foto instântanea desta PJ Harvey que se despe da carne e se converte completamente em espírito: entoando os versos difusos e amargos sobre a perda de confiaça em quem amamos, a cantora se esvai em falsetos exasperados e gritos desesperados sobre uma miríade de acordes de piano, dramáticos e tempestuosos como uma ventania norturna.
Um compositor de jingles para campanhas publicitárias, que um dia foi tecladista de uma banda de um sucesso só, passa a achar tão intolerável o estado de sua vida e as pessoas com cuja companhia tem que lidar, como sua namorada dominadora e seu melhor amigo, um homem egocêntrico e narcisista que, por um acaso, também vem a ser seu chefe e ex-colega de banda, que começa a achar nos sonhos a satifisfação que não encontra na vida real.
Contrastando diretamente com a opulência instrumental e o transbordamento pop de The Cappuccino Songs, o mais recente álbum de Tanita Tikaram, Sentimantal, aproveita do anterior apenas o desprendimento suave dos vocais bem colocados, deixando a impressão de uma vontade consciente da artista de que este novo disco soasse como o exato oposto do lançado em 1998: no lugar da quandriloquência e do extravasamento, quietude e instrospecção. Foi neste clima de intimidade que nasceram as melhores canções do disco, “My Love”, com versos que lamentam uma relação que, ao perder sua força e sua franqueza, só faz causar enorme sofrimento, e “Play Me Again”, em que a cantora suplica de forma contida por afeto. Em ambas as músicas, acordes desmesuradamente plácidos e estudados de piano, bateria leve e cautelosa, guitarras tímidas e quase desapercebidas e notas arredondadas e calmas de orquestrações de cordas e metais enfatizam fabulosamente o vocal de discreta gravidade de Tanita.
De boas intenções o inferno está cheio, e de DJs/produtores que elencam vocalistas – muitas vezes mais de um ao mesmo tempo – para interpretar sua canções cheias de balanço o mundo da música está tão cheio quanto. Boa parte deles quer ganhar fama e popularidade trilhando o caminho dos representantes mais famosos do estilo, como Groove Armada e Nouvelle Vague, fazendo uma alquimia sonora com funk e hip hop ou pop e bossa, respectivamente. A verdade é que dificilmente dou atenção à qualquer uma dessas duas tendências predominantes – se não soam totalmente irritantes quando esses produtores derramam nas composições mais hip-hop/funk do que o bom senso permite, o incômodo acaba sendo outro (ainda que em muito menor grau), já que, de tão lugar-comum, essa vontade de soar “brasileiro” acaba como um negócio maçante.