A cantora e compositora, ex-vocalista da cultuada banda 10,000 Maniacs, teve excelente recepção da crítica e do público com o lançamento do seu terceiro disco solo, entitulado Motherland. Toda essa celebração é realmente justa, já que neste álbum Natalie mostra impressionante destreza ao percorrer diversos ritmos em um mesmo trabalho, todos exalanda uma sonoridade muito particular e letras que são pura poesia. “This house is on Fire” abre o disco com o impacto de uma mistura que poderia soar leviana, não fosse a habilidade de composição da artista ao embalar, em uma mesma canção, o ritmo do reggae com uma orquestração com sublime inspiração arábica, tudo ligado por uma bateria de ritmo forte e declarado. Não bastasse a beleza dessão união melódica incomum, a letra da canção também causa arrepios, já que seus versos quase messiânicos tecem duras críticas ao comportamento belicista e irascível que impera em certas partes do mundo, e declaram, em tom profético – apesar de Natalie negar sê-lo nas letras -, que os resultados disso serão catastróficos. Por coincidência, ou pura clarividência da artista, os eventos do 11 de setembro tomaram lugar dois dias depois do lançamento do disco. A faixa seguinte, “Motherland”, que apresenta uma suavíssima sonoridade country, evidencia os reveses do comportamento humano contemporâneo, clamando por um retorno à vida mais natural e pacífica, o que acaba funcionando como uma segunda parte da canção anterior, em tom mais ingênuo e menos revoltoso. Em sua primeira escuta, “Saint Judas”, com sua forte melodia blues, já conquista o ouvinte, que se sente impelido a cantar junto com Natalie e acompanhar a beleza gospel da cantora Mavis Staples. Sua letra retrata a crueldade dos ataques à negros na época do segregamento racial americano – um soco no estômago. “Put The Law On You”, cujas letras revelam a decepção de alguém que ama frente as traições de seu companheiro, é melodicamente desesperada no seu derramamento romântico, com excepcional uso de orgão e saxofones. É também no blues/rock que a melancólica faixa “Build A Levee” se constrói, ainda com backing vocals da cantora gospel, e em cujas belos versos canta-se os perigos que as mulheres encontrarão nos homens – a sedução, a mentira, o abandono. Em uma melodia esplêndida, que apresenta um luminoso crescendo, enquanto a voz de Natalie permanece suave e afetuosa, “Golden Boy” é considerada uma das melhores composições da artista, trazendo versos espetaculares que usam o massacre da escola americana Columbine como mote para tecer uma crítica à maneira como se constroem os ídolos modernos. Também em arranjo idílico, de clima cinematograficamente fantasioso e fabular, “Henry Darger” tem letras que citam as criações de uma das figuras mais idiossincráticas que já se teve conhecimento – Darger foi o criador de uma estória de mais de 17.000 mil páginas, pinturas e desenhos de um mundo de heróis e aventuras infanto-juvenis, morrendo sem nunca ter obtido conhecimento do grande público. Em “The Worst Thing”, Natalie Merchant apresenta uma melancólica e doce sonoridade espanhola, tudo apoiando o sentimento de perda e dor dos versos que procuram alertar sobre a ilusão da felicidade que a paixão traz, tão somente para tornar a queda ainda maior quando esse ilusão se desfizer – é uma canção sublime. O álbum termina com o blues de “I’m Not Gonna Beg”, cuja melancolia sonora que Natalie arquitetou se repete nas letras que demonstram alguem que foi rejeitado por quem amava, mas que ainda tenta deixar esta relação demonstrando orgulho e amor próprio – só esta canção já valeria o disco inteiro. Baixe essa demonstração de versatilidade musical pelos links baixo.
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O mundo da chamada música “independente” está repleto de bandas com uma sonoridade semelhante, algo que as identifica de forma imediata ao ouvinte por lhe sugerir uma sonoridade mais reflexiva, bem como suas letras, verdadeiramente poéticas. A banda americana Death Cab for Cutie é considerada um dos maiores expoentes desta vertente do gênero rock.
Com a liberação na internet do primeiro single do aguardadíssimo novo disco da banda britânica Muse, um verdadeiro furor discursivo tomou de assalto as comunidades dedicadas ao trio. A sonoridade de “Supermassive Black Hole” assustou os fãs mais ferrenhos, angariando o ódio destes e a simpatia dos mais despreocupados. No entanto, a suspeita de ambas as “facções” que rapidamente se formaram era quase idêntica: o novo disco da banda mostraria um Muse bem diferente daquele adorado e conhecido pelos fãs.
Depois de um hiato de quatro anos, Fiona entrou em estúdio para gravar, junto com o então parceiro Jon Brion, o álbum que planejava lançar em 2003 – mas percalços mudaram a estória de seu terceiro disco. Reza a lenda que a gravadora apresentou boa dose de má vontade em lançar o disco na versão que se apresentou primeiramente e “sugeriu” mudanças. Com toda a problemática que surgia, a artista acabou se desestimulando – e abandonou o projeto por algum tempo. No entanto, como o disco foi produzido sob a égide da era digital, o inevitável aconteceu: o disco vazou inteiro na internet. Os fãs da cantora ensadeceram, deliraram, gritaram, protestaram. A gravadora, observando o interesse gerado pelo acontecimento, chamou Fiona e decidiu por não tolher sua liberdade de criação. E a cantora, surpreendentemente, decidiu reconstruir praticamente todo o disco, contando com nova produção de Mike Elizondo e Brian Kehew, e compor uma nova canção que integraria a forma da segunda versão do álbum.
Em 1999, Fiona Apple retornou com seu segundo álbum, When the pawn… – disco vigoroso já no seu título, composto por 90 (!) palavras -, onde novamente demonstra composições cujas letras prosseguem cheias de rancor e estórias de conflito afetivo. No entanto, diferentemente de Tidal, When the pawn… é sonoramente mais vigoroso e forte, adequando-se muito mais ao gênero rock, já que as músicas apresentam-se melodicamente mais sincopadas pela influência do gênero. É o que acontece em “On the bound” – canção despida de qualquer esperança, com acordes curtos, secos e cortantes de piano, acompanhado de bateria e metais fortes -, “To your love” – com letras que falam sobre um amor que causa, simultaneamente, dependência e repulsa, sonorizadas por um piano minimalisticamente ritmado e fundo composto por percussão pontual e bateria que salta aos ouvidos – “A mistake” – melodicamente mais equilibrada, onde a cantora tece letras que pretendem justificar, ou ao menos mostrar indiferença, à sua tendência de cometer erros – e “The way things are” – balada com radiantes acordes de piano, onde Fiona solta a voz no refrão que canta lindamente o desestímulo e a lamentação de um amor sem muito futuro.
A cantora e compositora Fiona Apple tinha apenas 18 anos quando lançou seu álbum de estréia, Tidal. Para alguém que tem constante contato com os adolescentes de hoje, ainda causa surpresa tal lembrança – já que mais da metade destes jovens, hoje, estão insuflados por um imenso vazio cultural. o trabalho da garota é de uma profundidade e complexidade inimaginável para alguém de sua idade. Melodias sofisticadas e repletas de sutilezas jazzisticas, letras que tratam de temas como amor e culpa com elegante ironia e um vocal em estilizadíssimo tom grave são coisas que fazem este disco soar estranhamente atraente para qualquer ouvido disposto a iniciar uma imensa evolução sonora em sua cultura musical.