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Tag: rock

Melissa Auf der Maur – Out Of Our Minds (+ 3 faixas bônus). [download: mp3]

Melissa Auf der Maur - Out of Our Minds

O novo e tão adiado álbum de Melissa Auf der Maur, lançado no primeiro trimestre deste ano, é o contraponto musical às duas outras partes do projeto Out Of Our Minds (ou apenas “OOOM”): um curta-metragem de 30 minutos e uma graphich novel completam o trabalho concebido pela artista que mistura fantasia, vikings e viagens no tempo. Parece um tanto descabido, não? Pois bem, devo confessar que desde a verdadeira overdose de álbuns conceituais lançados por Tori Amos nesta década, alguns deles excelentes, outros apresentando-se um tanto confusos e forçados, acabo preferindo a simplicidade objetiva dos discos que se contentam tão somente em ser um apanhado de músicas bem trabalhadas e embaladas em um visual caprichado. E como aconteceu com alguns destes últimos discos de Tori Amos, a faceta conceitual de Out Of Our Minds, em si, não apenas é difícil de se apreender como na verdade não representa ganho algum às canções, e assim sendo, penso que o melhor é avaliar o disco pelo seu caráter musical apenas, descartando qualquer conexão ou relação necessária com o conceito criado por Melissa.
Avaliado sob esta abordagem, Out Of Our Minds mostra-se um belo trabalho, com uma atmosfera mais estudada do que a do álbum de estréia: aqui, a cantora e compositora canadense mostra que não tem qualquer preocupação em sustentar o tempo todo uma sonoridade pretensamente rockeira, preferindo seguir seu instinto. Faz sentido: cartilhas são para iniciantes ou os que não tem confiança e segurança suficiente. E é assim que a cantora abre o disco com “The Hunt”, uma faixa instrumental em que bateria, baixo, guitarra e o eventual aporte dramático de um piano sucedem-se sobre o pulso do baixo marcado pela batida do coração até serem suplantados por vocalizações da artista, que fecham a canção com o suspense de uma caçada, como sugere o título. A faixa que dá nome ao álbum vem em seguida, guiada pela frequência irresistível dos acordes de guitarra e uma bateria de toques equilibrados, tem no verso “If you’re listening/You’re a dreamer/So come in/Come sit by my fire” o convite irrecusável para o ouvinte acompanhar a cantora canadense em seu tão aguardado lançamento. “Isis Speaks”, com letras que retratam o delírio da cantora com uma figura feminina, chega com riffs cristalinos de guitarra, em uma melodia em que bateria, baixo e vocais relacionam-se de modo mais homogêneo. Entra “Lead Horse”, uma faixa instrumental algo monotonal, mas que faz uma boa transição para o segundo grupo de canções do álbum, entre elas “22 Below”, que apoiada por acordes taciturnos de guitarra, canta uma condenação à mesquinharia humana com vocal melancólico e por volta de sua metade é revertida por um interlúdio de guitarra intenso que lança a canção ao ar e coloca-a num vôo melódico hamonioso que a encerra. Abandonando o clima da faixa anterior, em “Meet Me On The Dark Side” Melissa faz o público saborear um pouco de seu pop/rock, guiando seu baixo em uma cadência charmosa para fazer abertura para as notas maciças da guitarra, os vocais com coloração mais macia e temperar a melodia com um punhado de acordes de cravo que coroam a música com uma dose de elegância. “This Would Be Paradise” é a terceira e melhor faixa instrumental do disco, e traz como único elemento vocal o trecho de um discurso do reverendo canadense Tommy Douglas – que comenta epistolarmente a contradição entre o potencial intelectual do homem e sua enorme tendência a agir de modo estúpido – acompanhado por uma melodia que mistura a sonoridade sempre folk de uma autoharp à uma camada generosa de acordes de baixo e sintetizações, tudo evocando a imagem de uma paisagem que vai se revelando pouco à pouco destruída e arrasada. “Father’s Grave”, dueto com Gleen Danzig, é mais uma música de tonalidades depressivas e tristes, e não à toa, visto que, entre as notas graves da guitarra e baixo e o andamento pesado da bateria, o lamento de Melissa e seu convidado versa sobre uma garota que precisa de apoio para chegar ao túmulo de seu pai – é praticamente uma marcha fúnebre. Mas a tristeza não dura muito, pois “The Key” é outra canção com melodia pop/rock sólida, conduzida pelo pulso quente e firme da guitarra, do baixo e dos vocais e uma bateria que sabe se colocar no momento exato que a música pede. “The One”, penúltima faixa do disco, prossegue pelo mesmo ritmo, com um instrumental de guitarra, baixo, bateria e vocais que compõe um todo consistente, mesmo não fugindo muito da sonoridade de um single tradicional. Fechando Out Of Our Minds, em “1000 Years” Melissa Auf der Maur dedilha seu baixo com um gingado incrível, sutilmente sensual, acompanhado pela bateria e pela guitarra e banhado por um vocal irretocável, que flutua entre diferentes registros e impressões de sentimentos. Vocalizações esplêndidas, ao final da canção, remetem à atmosfera idílica da faixa instrumental que abre o disco, faixa que após alguns instantes de silêncio surge como hidden track, reinterpretada em uma tecitura erudita ao piano e encerrada pela cantora lançando a pergunta “is it better to be further away or close?” Bem, Melissa, depois de mais um bom disco, cheio de belos momentos, eu digo: close, Melissa! Very, very close!

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Ida Maria – Katla. [download: mp3]

Ida Maria - Katla

Não se engane ao ouvir “Quite Nice People”, a primeira faixa de Katla, segundo disco da norueguesa Ida Maria: apesar da toada de vocal tranquilo, violão e piano adocicados e bateria leve, a garota gosta mesmo é das farpas rockeiras que nascem a partir da faixa seguinte, “Bad Karma”. Sem medo de uma overdose melódica, Ida esguela-se nos versos da canção para acompanhar sua guitarra rascante e a bateria firme e não faz muito mais no refrão além de “la-la-las” em meio à riffs caudalosos de sua guitarra. Parece simples demais? Pode ser, mas a garota sabe fazer isso muitíssimo bem. Já na faixa seguinte, “10000 Lovers”, Ida brinca ainda mais com a música, numa espécie de rock de cabaret de ritmo gingado e guitarras malemolentes, atacando a melodia com uma fartura de vocais e backings que transformam a canção em um imenso desatino boêmio. O cio da norueguesa nas letras de “Cherry Red” são apenas a verbalização do que já ocorre no pulso bem marcado da melodia pop cheia de marcações de bateria e vocais lúdicos com gritinhos delirantes – mas a garota não acha isso suficiente, e ainda enfia um interlúdio intencionalmente esteoretipado de chanson française para escancarar um pouco mais o teor sexual da faixa – doida! E se havia alguma dúvida até este ponto de que Ida se diverte muito com sua música, ela sucumbe diante da sandice “I Eat Boys Like You For Breakfast”: possuída pelo espírito de uma mariachi inconsequente, a menina põe no menu de suas personalidades musicais a latina vingativa com seus vocais poderosos em meio ao arranjo de metais, da guitarra, do baixo e da bateria sangrando uma salsa turbinada pela frequência rockeira da cantora. E como quem já prevê questionamentos depois de tanta traquinagem, a guria se despe da latina e põe trajes de uma PJ Harvey em seus melhores dias de improvisação para quase dez minutos de guitarra, baixo, bateria e vocais em jam session de rock lânguido, sôfrego e melindroso em “Devil”. E como não pensar que Ida Maria sofre de transtorno de personalidade múltipla se a cadência melancólica do piano, bateria e baixo e a tonalidade dos vocais de “My Shoes” vertem discretos vapores do charme de Fiona Apple em início de carreira? Mas a evidente ninfomania musical da norueguesa não tem limites e ainda leva a garota a rasgar seu vocal em um blues-rock na faixa bônus, que ela começa soltando um “I’m gonna behave” no microfone – não, Ida: para nosso deleite, assim como o vulcão islandês que estampa a capa do seu disco, esperamos que você continue não se comportando.

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Yoav – Charmed and Strange [download: mp3]

Yoav - Charmed and Strange (2008)

Conheço o disco de estréia do cantor e compositor israelense Yoav desde que foi lançado, mas como acontece com alguns discos e alguns artistas, Charmed & Strange foi relegado à um repouso por tempo indeterminado em minha biblioteca de música. Quando isso acontece, revisito descompromissidamente o álbum de quando em quando até que ele atinja um nível aceitável de simpatia. Claro que às vezes isso simplesmente não ocorre, e o destino do disco é o irremediável descarte, mas se insisto por um longo tempo, neste caso praticamente dois anos, é porque sei que a hora certa vai chegar.
A música criada pelo rapaz moreno com rosto de traços rudes e expressivos e voz juvenil é predominantemente acústica, em grande parte armada tão somente sobre guitarra e violão. Normalmente, a limitação de um músico à estes instrumentos invariavelmente enquadra sua produção dentro dos domínios do folk, mas nas mãos desse cantor dotado de uma destreza e flexibilidade impressionantes no manejo deles e, principalmente, dono de uma grande criatividade, ela não se contenta em permanecer dentro das fronteiras deste gênero: usando e abusando das alterações obtidas por pedais, Yoav engendra loops e beats tanto no dedilhar das cordas quanto tirando proveito do corpo dos instrumentos, fazendo as vezes de bateria e percussão batendo com as mãos – o resultado é uma música que emana um fulgor que na vertente acústica dificilmente seria obtido por apenas uma pessoa em um estúdio ou palco, já que em suas apresentações ao vivo o rapaz repete, em real-time, grande parte dos procedimentos. A faixa de abertura, “Adore Adore”, deixa nítido o que ele é capaz de fazer com sua técnica, já que tanto a batida que cresce ligeira quanto os toques precisos que o cantor arranca de sua guitarra, tão cortantemente amargurados quanto o seu vocal melancólico, impressionam sem muito esforço. E se a primeira música não for suficiente pra mostrar a versatilidade do cantor com sua guitarra e pedais, da segunda, “Club Thing”, isso não passa despercebido: introduzida por um beat marcadíssimo e sutilmente dançante e entoada em um registro vocal que alterna entre a voz macia e um falseto delicado, Yoav vai encorpando a melodia com a alquimia dos seus riffs, live loops e toques em sua guitarra e violão até fazer surgir uma mistura de pop e rhythm’n blues que ferve com uma soturna sensualidade. Isso, não significa, porém, que o compositor omita de suas criações a utilização de instrumental de apoio, como pode ser visto na discreta sintetização ao fundo em “Sometimes…”, que tem como destaque o beat curto e veloz que o cantor arranca do violão enquanto seus toques em segundo plano nas cordas fazem a melodia brilhar com luminosidade e calor, e em “Wake Up”, cuja batida e acordes tão característicos do estilo acústico do cantor arrastam-se em marcha até serem encorpados e continuamente acompanhados por uma sintetização de cordas que potencializa a enorme beleza da melodia. Mas mesmo resumindo-se ao seu pequeno arsenal, o cantor consegue mergulhar em ritmos e influências: “There Is Nobody”, por exemplo, tem a sutilíssima fragância do pop europeu dos anos 90 tanto na sua metade inicial, feita de acordes secos e ásperos sobre o ecoar de um pulso bem marcado, quanto no sua última parte, um intenso cavalgar mais melódico de riffs e uma batida mais consistente que nas mãos de um bom produtor de música eletrônica certamente seria convertida e uma faixa inusitadamente dançante, como aquelas feitas à época. Contudo, provavelmente é a angústia e melancolia palpáveis de “Beautiful Lie” que a põe como a melhor faixa deste primeiro disco do cantor israelense: introduzida pelos acordes espaçados da guitarra que reverberam enquanto o cantor lança sua bela voz, a canção tem mais da metade de sua duração constituída de um vibrante solo harmônico de guitarra, feito de toques breves, ligeiros e virtuosos, que expande-se em uma harmonia de exuberante emoção. E pra quem está pensando que o rapaz só gosta de exibir-se virtuoso, o tradicionalismo das notas suaves, simples e discretas da triste balada “Angel and the Animal” comprovam que ele sabe compor dentro do estilo pop/rock mais clássico, o que também, espertamente, serve como “respiro” para não cansar o público em meio à quase um álbum inteiro de experimentações percussivas e acústicas – ufa!

Baixe: Yoav – Charmed and Strange (2008) [mp3]

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Spoon – Transference. [download: mp3]

spoon - transference

Como aqueles Fiatzinhos à álcool do início dos anos 90 numa fria manhã de inverno, certos discos não dão partida logo de primeira – ao menos é essa minha impressão com Transference, o mais recente álbum dos americanos do Spoon. A faixa de abertura do disco, “Before Destruction”, com bateria e acordes de guitarra embaçados e uma melodia morna construída sobre um pulso maçante, não exatamente oferece de entrada o que de melhor a banda pode fazer. Em “Is Love Forever” a banda já tem uma melhora de desempenho com a injeção maior de ânimo da melodia pela batida mais forte e as guitarras de notas mais marcadas e vibrantes, mas ainda não é suficiente para remover a indiferença que resiste em quem se dispõe a ouvir o disco. Contudo, é bem quando você já considera descartar o álbum que os rapazes americanos salvam a própria pele: a terceira faixa “The Mystery Zone”, chega como a tábua de salvação ao mostrar o talento da banda em inundar os ouvidos com uma melodia onde o baixo exala charme com sua vibração sutil, a guitarra e a bateria hipnotizam com a parceria em uma marcha firme e contínua e o orgão faz o arremate final ao preenche-la com o calor agradável de suas notas. “Who Makes Your Money”, tira o pé do acelerador e baixa a rotação do motor uns bons ciclos com uma música onde o baixo novamente faz a liga da melodia que traz acordes de guitarra equilibrados, teclado sutil e uma bateria contida mas segura, mas o refrão um tanto monótono traz de volta a sensação de que a banda não vai conseguir convencer. Mas como aconteceu antes, “Written in Reverse” captura novamente a atenção do público com seu swing inequivocamente sexy: o vocal deliciosamente solto e latente de libido, as guitarras arfantes, os acordes suplicantes ao piano e a bateria potente seduzem completamente os sentidos e despertam uma vontade violenta de eleger um belo alvo para arrancar a roupa em um strip-tease fulminante e algo mais. Logo em seguida, a banda não falha em sustentar o ânimo do ouvinte em “I Saw The Light”, faixa armada em dois tempos que parte de uma vertente de acordes de guitarra em uma base de bateria em cadência firme e breve e reverte-se abruptamente em um compasso bem marcado e contínuo junto com o piano, organizando um crescendo no qual a guitarra é reincorporada à melodia em clima de jam session. Em “Out Go The Lights” o grupo muda a tonalidade para uma melodia mais melancólica com um que vocal vagueia entre o tom suplicante e o ressentido, assim como os acordes da guitarra, que surgem em um lamento metálico que se sobrepõe à bateria em cadência discreta. Mas, ao que parece, a tristeza de “Out Go The Lights” foi apenas um intervalo para o compasso infalível da bateria de “Got Nuffin”, penúltima música do álbum, atravessada por volteios de guitarra e um piano de notas reprimidas e breves ao fundo. Fechando Transference com “Nobody Gets Me But You”, na qual a banda mergulha em um melodia minimalista, explorando com esmero variações discretas e detalhes harmônicos tanto na base construída pela bateria, baixo e guitarra quanto no toques prodigiosos ao piano que temperam o pulso da faixa, fica a certeza de que a banda poderia ter investido na faceta sutilmente experimental desta e de outras faixas e talvez conceber assim um disco mais homogêneo, já que como está, Transference sofre de uma certa incosistência ao intercalar sequências aborrecidoras com momentos enormemente inspirados e felizes – estes últimos valem cada byte do download, mas baseado apenas neste álbum, ainda assim não há como apagar a impressão de que o Spoon é mesmo daquelas bandas cuja irregularidade frustra imensamente seu desejo de ser acolhido como fã – na próxima, quem sabe.

Baixe: Spoon – Transference [mp3]

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Fyfe Dangerfield – Fly Yellow Moon (2CDs deluxe edition + 1 faixa extra) [download: mp3]

Fyfe Dangerfield - Fly Yellow MoonQuem ouve o primeiro lançamento solo de Fyfe Dangerfield e não simpatizou com o segundo disco de sua banda, Guillemots, chega a conclusão de que o cantor e compositor guardou o melhor de si para seu próprio disco – ou, ao menos, que aquilo que vinha compondo não se enquadrou no que a banda pretendia produzir em Red. Qualquer que seja a razão deste primeiro disco solo, eu só posso dizer que fico extremamente satisfeito em saber que Fyfe, ao contrário do que fez pensar Red, não perdeu nada da sua imensa capacidade de escrever canções que irradiam emoção, como vimos na estréia do Guillemots, Through The Windowpane. E mais em forma do que nunca, Fyfe vivencia em suas canções a mais completa plenitude da euforia amorosa – como no primeiro single do disco, “She Needs Me”, uma música cheia de versos diretos, como “I’m yours you can do what you like to me” e que não se contenta com pouco, explodindo em uma tsunami de arranjos orquestrais que acompanham incessantemente a marcação dada pelo baixo e bateria e a efusividade dos toques do piano e do vocal, e também “When You Walk In The Room” na qual, introduzida por um conjunto bem arranjado de distorções eletrônicas e alguns sussurros, Fyfe quase não cabe em si com seu vocal tão animado quanto as farpas de guitarra que saltam brilhantes entre a base contínua de piano e bateria que recheiam a melodia – assim como a melancolia silenciosa que o amor também acaba por trazer – visto na combinação de violão, cordas e vocal macio em “Dont Be Shy”, que suscita as melhores composições de Tanita Tikaram em Lovers In The City e Sentimental, na tristeza de “Barricades”, conduzida por um piano de acordes graciosos e um vocal que expira romantismo e elegância tanto quanto o belo arranjo de violinos que lhe serve de apoio, na suavidade dos acordes tranquilos ao violão e piano de “Livewire”, cuja percussão procura ser sutil para não interferir no encatamento da melodia, e em “Firebird”, que apesar de adotar o mesmo violão e piano em parceria com discretíssimo arranjo de cordas da canção anterior, os utiliza à imagem da graciosidade de cantigas medievais de amor luso-galegas.
Mas muito além de tornar possível que Fyfe trafegasse com desenvoltura entre alegria, mágoa e todas as suas gradações, a euforia amorosa exacerbada do artista britânico serviu como poderoso estimulante para a sua faceta de compositor: além das 10 faixas da primeira edição lançada do álbum, o rapaz escreve diversas faixas bônus, algumas versões alternativas e um cover. Destas, há a abissal beleza de “If I Was Lost”, guiada por guitarra, órgão e vocal distantes e manchados por uma consternação de partir o coração, a amargura do violão gélido, percussão quase surda e guitarras reluzentes de “Appreciating You” e o eletronismo cálido e riffs de guitarra de “Computer Game”, de uma simplicidade harmônica quase juvenil. São 13 canções a mais no total que geraram o relançamento do disco com 4 faixas bônus e uma terceira versão extra, em disco duplo. É muito amor nesse coração, é não seu Dangerfield? É sim, e só pra fazer cair por terra aquela minha velha teoria de que sofrimento é o elixir mais produtivo para um artista.

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Menomena – Mines. [download: mp3]

Menomena - MinesOs três rapazes de Portland estão com disco novo na estante, e a primeira impressão, ao olhar a imagem da capa do disco, é que talvez eles não estejam tão estranhos quanto antes. A resposta é, sim e não. Observe bem a capa do disco. Ao invés da miríade de personagens e desenhos idiossincráticos do disco anterior – imagem de autoria do cartunista Craig Thompson que foi premiadíssima, diga-se – ou do rabisco simples e quase infantil do disco de estréia, o novo álbum é apresentado com a foto da escultura desmembrada de uma sereia em meio a verde mata de um parque. Não parece ousado diante do que foi anteriormente feito, mas a questão é que na sua apresentação física – vinil ou CD – a foto tem efeito tridimensional, como naqueles livros de figuras que fizeram tanto sucesso nos anos 90. Claro, isso não é nada novo, mas você normalmente veria tal efeito aplicado justamente em uma capa bem menos clássica e mais caótica graficamente, e não em uma simples foto. É um bom modo de resumir visualmente a música que vai ser entregue junto com esta imagem: estranha e ousada sim, mas que nunca deixa de ser rock para se perder em devaneios descabidos.
Contudo, isso não é novidade para todos que já conhecem a banda, pois estes sabem que o Menomena sempre foi assim. Mas estes também vão notar que o trio americano esta mais focado musicalmente nesta nova empreitada, iniciando o novo trabalho de um modo diferente do que usalmente o fez: ao contrário do que aconteceu nos dos dois discos anteriores, desta vez a banda faz a abertura com uma faixa mais contemplativa. “Queen Black Acid” tem bateria de batida pesada e consternada e guitarra, baixo e vocais melancólicos e amargurados. Nos versos, estampa-se o sofrimento de um homem que, como a Alice de Lewis Carroll, sente-se desnorteado ao perceber pouco a pouco o desinteresse amoroso de sua companheira. Mas a banda já pisa no acelerados na segunda faixa: em “TAOS”, de teor nitidamente sexual nos versos em que um homem diz lidar com uma fera quase incontrolável e insaciável dentro de si, a banda põe a serviço da melodia os loops instrumentais que são tão simbólicos em suas melodias, jogando doses fartas de uma bateria escandida ensandecidamente, guitarras de toques barulhentos e ásperos e saxofone e pianos em arranjos que pulam em segundos do mais harmônico para o mais viciado. Mais a frente no disco, “BOTE” segue em ritmo ainda mais disparado e entumescido: introduzida por bateria esmurrada em velocidade frenética, guitarras e baixos de riffs esquizofrênicos e arfantes e saxofones em vertentes caudalosas constroem a melodia que é provavelmente a mais intensa do disco, e talvez de todas compostas pela banda até aqui. Coroando essa preciosidade musical em que a banda compara a derrocada da soberba humana com a de um marinheiro que descobre que sua embarcação não é imbatível, Danny Seim não economiza na potência do seu vocal, concedendo uma interpretação poderosíssima que reduz a pó a maior parte das bandas do cenário atual do rock. “Lunchmeat”, que vem logo em seguida e traz o mundo tomado pela insurrência do sobrenatural, com sereias entoando cantos mortais e demônios surgindo na areia do deserto, é uma Menomena mais clássica neste novo álbum: em cima de uma intro sutilmente climática, a banda joga sem aviso um banjo desafinado e o sucede pela harmonia de um beat sem arestas da bateria e dos riffs de guitarra apenas para transformar o estranhemento inicial em pleno deleite sonoro. Fechando o disco com os vocais e pianos reflexivos e tristes de “INTIL” e seus versos que criticam o modo como as pessoas camuflam suas personalidades para sustentar relações afetivas, a banda mostra que não tem receio de seguir um trajeto mais tradicional melódica e liricamente – e que o faz tão sublimemente quanto quando salta sem receio ao imenso vale dos seus ímpetos criativos. É justamente por fazer uso dessa imensa capacidade de enveredar por diferentes tonalidades musicais sem se preocupar em soar indie e alternativo, o que retiraria grande parte da autenticidade das composições, mas por prazer, diversão e paixão que os rapazes garantem alma e calor genuínos ao seu rock, levando aqueles que os ouvem a tornarem-se vítimas voluntárias e felizes de seus desvarios musicais.

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O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005