Um professor cientista acorda como o único sobrevivente em uma nave espacial viajando por outro sistema solar. Inicialmente sem saber como e por que foi parar ali, aos poucos ele recorda os eventos que revelam a importância de sua missão.
Anunciado com toda a pompa e circunstância no CinemaCon de 2024, “Project Hail Mary” teve anteriormente um leilão disputado por Ryan Gosling estar atrelado à produção e por ser uma adaptação de uma história de Andy Weir, cujo livro “Perdido em Marte” virou um sucesso de crítica e público ao parar nas mãos do cineasta Ridley Scott em 2015. Toda essa expectativa sobre “Devoradores de Estrelas” se confirmou em elogios da crítica e um ótimo desempenho ao ser lançado nas salas de cinema de todo o mundo. Agora, depois de assisti-lo, entendo como o filme foi planejado para esse feito.
Iniciando com o protagonista desorientado e isolado no espaço sideral junto de dois outros membros mortos da missão, “Devoradores de Estrelas” começa intrigando o espectador. Por que ele não recorda de nada? Por qual razão ele está tão longe do nosso sistema solar? Que missão é esta? Quanto tempo já se passou desde a partida da Terra? O que aconteceu com os dois membros da equipe? A atmosfera inicial de mistério e a densidade emocional que envolvem o espectador, porém, vão se desfazendo não apenas porque flashbacks vão elucidando parte destas incógnitas, mas também por serem introduzidas sequências e elementos humorísticos recorrentes no enredo, a ponto de beirar a infantilidade, em detrimento de estabelecer uma maior credibilidade a pontos cruciais da trama. Dentro da narrativa estabelecida no filme, por exemplo, é pouco crível a capacidade do microrganismo de sobreviver no vácuo do espaço sideral cobrindo infindáveis distâncias entre os astros da nossa galáxia. A facilidade e rapidez com as quais Ryland e Rocky conseguem estabelecer comunicação plena, sendo ambos seres de constituição e culturas radicalmente diferentes, também não é nada convincente. Mas isso não parece ter incomodado os diretores Phil Lord e Christopher Miller e o roteirista Drew Goddard, uma vez que eles preferem priorizar sequências dignas dos filmes mais pueris da Sessão da Tarde, em uma tentativa preguiçosa e cansativa de estabelecer empatia com o público.

Porém, não há elemento mais flagrante da tentativa dos diretores e roteiristas de fazerem seu filme cair nas graças da platéia que Rocky. A caracterização da criatura rochosa alienígena como um mascote fofo, engraçadinho e até mesmo descolado é tão ostensiva que chega a ser um tanto ofensiva à inteligência do espectador – ao menos daquele pouco sujeito a artifícios dramáticos óbvios. A partir do momento em que o personagem é introduzido no filme, Lord, Miller e Goddard abandonam de vez qualquer intenção de construir uma trama que equilibre sobriamente entretenimento e densidade argumentativa e apelam sem receios a soluções fáceis, ao sentimentalismo e à pieguice – nem mesmo a competência e o carisma de Ryan Gosling conseguem atenuar a visível perda de profundidade da história.
É compreensível que “Devoradores de Estrelas” prefira se ocupar de tomar atalhos emocionais e narrativos para cair no gosto do público quando você descobre que o currículo da dupla de diretores, responsáveis por animações como “Uma Aventura Lego” e “Tá Chovendo Hambúrguer” e comédias como “Anjos da Lei”, é basicamente composto por produções que realmente não tem como maior preocupação a qualidade argumentativa. Contudo, é curioso que o roteirista Goddard tenha conseguido dosar muito melhor a verossimilhança e o humor na sua primeira adaptação de um livro de Andy Weir, “Perdido em Marte”. Há que considerar, claro, que o próprio enredo deste livro posterior de Weir talvez tinha sido parte do problema, mas acredito que o maior diferencial no filme anterior tenha sido o diretor Ridley Scott, cujo currículo assegura que o público não será ludibriado com um filme trajado de ficção científica, mas que na verdade não passa de um “O Mandaloriano e Grogu” gourmetizado.
Baixe: “Devoradores de Estrelas”, de Christopher Miller e Phil Lord (Project Hail Mary, 2026)
[áudio original, 1080p, mp4]
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Professor de escola primária americana, viciado em drogas, desenvolve um comportamento displicente com tudo em sua vida, que já se encontra bastante bagunçada. Uma aluna sua, que tem um irmão preso por tráfico, descobre o seu vício e acaba desenvolvendo estranha relação de amizade com ele.