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seteventos Posts

Karen O & Danger Mouse – Lux Prima [download: mp3]

Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs é uma daquelas artistas inquietas que necessita de vez em quando colocar seu barco a navegar por oceanos que não o seu, e entre um álbum ou outro de sua banda, Karen já lançou um disco solo e compôs músicas para filmes e até mesmo um game (Rise of the Tomb Raider). No recém-lançado Lux Prima, Karen tem companhia para guiar seu barco nesta nova empreitada: o produtor musical Danger Mouse. O álbum que é resultado da parceria está permeado por nostalgia e mistério e uma névoa de coloração cinematográfica suspensa na atmosfera das suas nove canções que navegam no pop, no rock e no trip-hop. A faixa título que abre o disco exibe estas matizes, ilustrando bem a fusão da personalidade musical de ambos os artistas: durante seus mais de nove minutos, uma intro com teclado e vocalizações que vertem psicodelias sobre uma bateria narcotizada encerra-se, dá lugar à uma melodia de bateria, baixo e teclado com gingado elegante sobre a qual Karen desfila seu vocal, e por sua vez é também encerrada e sucedida por um amálgama sonoro de ambas, numa música que não soaria estranha tocando em um cabaret – ou até mesmo em um motel. “Ministry” e “Turn the Light” prosseguem com suavidade, a primeira com vocais e sintetizações etéreas sobre um violão de acordes radiantes, numa ambiência de delírio e fantasia, enquanto a última investe na requebrado sensual do baixo como base para o vocal e sintetizações charmosas e românticas. “Woman” e “Redeemer”, as duas faixas seguintes, optam por se desfazer das sutilezas em troca de uma sonoridade que suscita as trilhas sonoras selecionadas a dedo por Quentin Tarantino para seus longas-metragens: “Woman” com bateria, guitarra e vocal acelerados e ferinos, “Redeemer” com bateria bem compassada e guitarra e teclado cheios de malícia musical. Tirando o pé do acelerador, “Drown” insere ocasionais orquestrações de cordas e metais e um teclado adocicado em meio ao andamento manso da bateria enquanto o vocal de Karen é submerso em um filtro aquoso – referência clara ao título da faixa. Quase no fim do disco, surge algo de genuinamente Yeah Yeah Yeahs em “Leopard’s Tongue”, e isso se deve muito provavelmente ao refrão da canção, que cairia bem em algum canto de Show Your Bones ou It’s Blitz, e mesmo a cadência firme e ligeira da bateria e baixo não soaria completamente estranha na acervo melódico da banda de Karen O. A penúltima faixa do disco, “Reveries”, parece continuar aproveitando referências ao trabalho da cantora, já que a crueza sonora da base de vocal e violão descende diretamente de “Crush Songs”, disco solo de Karen, mas a sobreposição desta base por uma sequência de nuances celestiais, com direito a coro e orquestração de cordas, faria certamente a faixa destoar muito do conjunto daquele álbum. Última faixa do disco, a idiossincrática, “Nox Lumina” parece pairar no ar com suas reminiscências à trilhas antigas de western clássicos italianos compostas por Ennio Morricone, recedendo ao fim para recuperar a intro psicodélica que abriu o álbum, ao mesmo tempo encerrando e retornando ao início da lisérgica jornada sonora dos dois músicos norte-americanos, cuja idéia surgiu lá em 2008, quando Karen, em plena embriaguez, fez um telefonema para Danger Mouse. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas tendo ouvido o disco já diversas vezes, tenho a impressão que a artista jamais tenha se refeito daquele porre.

Baixe: https://drive.google.com/file/d/1CPL-3E_6hbYTGPnWKbL0G7UeoPGSjHc-/view?usp=sharing

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My Brightest Diamond – A Million and One [download: mp3]

Shara Nova, também conhecida como My Brightest Diamond, vem desde o seu primeiro disco flertando com matizes eletrônicas: seus dois primeiros álbuns foram completamente remixados, faixa a faixa, por vários DJs bastante conhecidos (Tear It Down e Shark Remixes, respectivamente). Por essa razão, não é nenhuma surpresa que Shara tenha finalmente decidido inserir as referências mais diretamente em suas composições. Em A Million and One, seu mais recente lançamento, Shara não tem temores de meter a mão nas sonoridades mais vibrantes para dar à luz faixas bastante cintilantes, como o single “Champagne”, com uma programação hipnótica e recheado de vocalizações que “pegam” nos ouvidos na primeira audição, contando também com uma breve aparição de alguns arfantes acordes da guitarra característica de Shara. Em “Supernova” a artista também se refestela no eletronismo, abusando do vocal “sampleado”, beats encadeados e vocais de fundo adocicados. E “White Noise”, que fecha o disco, alterna uma cadência mais sintética e “suja”, com beat e ruídos concebidos na mesa de programação, com outra baseada em um baixo insinuantemente gingado e floreios vocais perpassados por diferentes filtros.
Apesar da forte carga eletrônica destas faixas, porém, não é possível dizer que com A Million and One a cantora pisa com ambos os pés firmemente na pista de dança, como o fazem pensar os títulos das duas primeiras faixas, “It’s Me on the Dance Floor”, onde guitarras, baixos e percussão malemolentes acolchoam o vocal aveludado e quente da cantora norte-americana, e “Rising Star”, concebida sobre uma harmonia de vocais de fundo contínua e bateria e base eletrônica de andamento moderado que suscitam uma atmosfera com algo do hip-hop levemente temperado com rock industrial. Para o bem e para o mal, este é um disco que ainda carrega a personalidade musical da cantora, particularmente de suas últimas produções, onde Shara flertou não só com sonoridades sintéticas, mas com o experimental, a ponto de algumas vezes soar quase cacofônica e atonal. Assim é “Sway”, uma “jam session” cansativa com percussão e vocal soturnos que só é iluminada pela interferência eventual da guitarra, e em menor grau “You Wanna See My Teeth”, menos apática com sua música elaborada, onde camadas de vocais cascateantes serpenteiam sobre a ansiedade sonora de sintetizações, guitarras, percussão e bateria que em grande parte silenciam-se ao final, dando lugar à uma sonoridade etérea e reflexiva. Porém, é com a simplicidade da contemplativa faixa seguinte que a artista atinge o balanceamento ideal do experimento a que se propôs neste disco: com vocal amargurado e melancólico selando o espaço entre ruídos e silêncios do órgão, Shara capta aquela singularidade sonora única de Björk no clássico Homogenic, fabricando uma sutil e elegante balada que rola facilmente ouvidos adentro. E é o contraste desta com outras faixas do disco que faz notar que, assim como a artista islandesa hoje, é por Shara optar muito mais pela forma do que pelo conteúdo melódico que A Million and One acaba perdendo grande parte do seu impacto sonoro – tivesse Shara abraçado com mais ardor e sem hesitação a sua faceta pop em todo o álbum e este certamente figuraria entre os melhores de sua carreira.

Baixe: https://drive.google.com/file/d/1Mhi9Ugxs6uxVO3QkjTmgMR3_n1xlJ_6C/view?usp=sharing

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Julia Jacklin – Crushing [download: mp3]

Com seu segundo álbum, Crushing, lançado semana passada, a australiana Julia Jacklin ainda é uma novata no meio musical, tendo confessado que só em meados de 2016 se deu conta que a música tinha se tornado sua principal ocupação, já que pouco tempo lhe sobrava para seu emprego “tradicional”. Apesar disso, a garota parece ter adquirido maturidade artística suficiente para compor algumas faixas de imensa beleza, caso de “When The Family Flies In”, uma elegia tocante de vocal sofrido e piano abafado que recorda a triste banalidade dos últimos momentos na companhia de um amigo que se foi, e da faixa “Comfort”, que fecha o disco com a simplicidade de um violão de tonalidade folk e um vocal desconcertantemente resignado onde Julia trata sobre alguém que, após abandonar uma relação, tenta se convencer que seu ex-companheiro está bem – como ilustra o verso “don’t know how he’s doing, but that’s what you get, you can’t be the one to hold him when you were the one who left”. “Body”, faixa de abertura e single do disco, é outra amostra da qualidade musical que a australiana já atinge: com um vocal letárgico em letra episódica sobre uma mulher que decide abandonar um relacionamento que percebe não ser saudável e uma melodia enxuta baseada em uma harmonia quase imutável de bateria e baixo e um discreto piano na sequência final, Julia captura a atenção do ouvinte desde o princípio, fatalmente enlaçando-o na cadência melancólica e algo soturna da canção. Há, no entanto, como encontrar no disco tecituras de outros gêneros, como a leve coloração country nas guitarras e na bateria da balada “Don’t Know How to Keep Loving You”, na qual Julia fala de uma paixão que foi exaurida pela convivência de um casal, e o pop/rock moderadamente ritmado da guitarra, baixo e bateria em “You Were Right”, onde, após o término de uma relação, uma mulher confessa ter prazer em desfrutar de todas as coisas então recomendadas por seu companheiro, mas que nunca experimentara por contrariedade à forma insistente que ele as fazia.
No entanto, a australiana ainda é uma artista em formação, e por isso é compreensível que boa parte de suas composições ainda soem tanto opacas (caso de “Head Alone”, com guitarra e bateria abatidos e vocal pouco inspirado, e de “Good Guy”, faixa com instrumental de toques espaçados e um vocal sem brilho em que Julia suplica pela atenção de um rapaz que claramente não tem o mesmo interesse) quanto irregulares (como “Turn Me Down”, que inicia desprovida de ânimo até reverter-se em um frenesi melódico onde a cantora solta a voz sem receios, mas consciente de suas limitações). Ainda assim, o saldo final é compensador, e pelo que se observa nas melhores canções do disco, com mais alguns pés na bunda que a garota dê ou leve, quem sabe, poderemos ter um “breakup album” genuinamente rock n’roll.

Baixe: https://drive.google.com/file/d/1G2eLNdH97uPbqHHjQVOiV3Z9A33hbhGT/view?usp=sharing

Ouça:

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“Lost & Found”, de Andrew Goldsmith & Bradley Slabe [curta-metragem]

Um dinossauro de crochê comete o maior de todos os sacrifícios para salvar a vida da raposa que ama.
Com o uso da clássica técnica de stop-motion, aplicada com primazia em cada detalhe, desde a ondulação da água até o desnovelar dos bonecos, e o apoio de uma trilha sonora que alterna com eficiência entre excitação, euforia e delicadeza, os diretores Andrew Goldsmith e Bradley Slabe trazem, em uma animação de pouco mais de 7 minutos, um dinossauro e uma raposa de crochê em uma pequena história que explora humor, ternura e amor com a eficácia que alguns longas-metragens não conseguem obter em duas horas de duração com o emprego de elencos milionários. Ambientado em um restaurante japonês que foi especificamente criado para servir de cenário para o curta, a conclusão deste singelo filme é de cortar o coração, mas é igualmente um retrato da resiliência e devoção do amor incondicional.

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Isaac Gracie (LP) e Close Up – Looking Down (EP) [download: mp3]

Acabei conhecendo Isaac Gracie através do vídeo do seu single “The Death of You & I”, e apesar do o clip não ir muito além do clichê mais batido possível do rock, com o jovem músico britânico destroçando tudo o que vê pela frente, é impossível não ficar impressionado com a voz ao mesmo tempo macia e potente do jovem dândi. A canção, por si só, também é irresistível, com bateria e guitarras que transitam entre um bolero tépido e o ardor de um rock furiosíssimo onde o jovem britânico solta sem receios a sua voz potente. O disco homônimo que contém a canção, porém, ainda guarda outras belas canções. “Terrified”, a faixa de abertura onde o cantor inglês expõe seus temores de não corresponder as expectativas de alguém que ama, adiciona na família de instrumentos um piano de toques suaves que banha a linda voz de Isaac de modo – perdão do trocadilho – gracioso. “Last Words”, logo em seguida, é uma balada com vocais de fundo e orquestrações que acolchoam os acordes melancólicos do violão do jovem músico que canta sobre alguém que, depois de abusar de sua sorte, pergunta-se como pode ter se permitido chegar à este ponto. Logo depois de “Running On Empty”, gostosa faixa de ritmo acelerado, na tradição do pop/rock inglês, temos “Telescope”, onde o cantor, com vocal, violão e pianos sofridos e bateria bem marcada, canta sobre um amor que percebeu não lhe fazer bem, e do qual agora que se desfazer. “That Was Then”, com uma melodia triste e bem ritmada da guitarra, baixo e bateria sobre a voz em tom penoso de Isaac, investe ainda mais em romances disfuncionais em letras como “she says I’ll never understand, begging me to let her go, if you never lose, will you ever know how to be a better man”. Em “When You Go”, o violão de sutil cadência matinal constrói um lamento que casa perfeitamente com as letras sobre mais um amor disfuncional. Amores despedaçados também são tema de “Silhouettes Of You”, onde o violão e a vocalização de fundo do refrão são a base para um crescendo instrumental da bateria e guitarra que incrementa o flagelo vocal de Isaac. Algumas faixas mais à frente, fechando o disco, a música de “Reverie” alterna entre a prece sorumbática da guitarra, percussão, piano e vocais abatidos e a pujança sonora em sua sequência final, em um deslumbrante despertar melódico.


Porém, se a tônica do LP de estréia é de uma melancolia cálida, Close Up – Looking Down, o EP lançado no final do ano passado, reúne canções mais ritmadas, com uma energia pop/rock que o cantor e seu produtor aparentemente decidiram resguardar em grande parte do disco de estréia. “Show Me Love”, uma faixa clássica do gênero com um andamento rápido da bateria e guitarra acompanhando um vocal mais solto e intenso do cantor britânico, deixa isso claro já na abertura do EP, ainda que a faixa seguinte, “Broken Wheel”, desacelere um pouco com sua harmonia mais cadenciada do violão, percussão e piano sobre um vocal que conserva o mesmo vigor da faixa anterior. “No, Nothing at All” é a faixa mais bem estruturada do disco, onde a guitarra e a bateria bem compassadas preparam-se para um refrão onde ganham uma maior densidade instrumental que lembra os inesquecíveis hits das rádios FM do início dos anos 90. “You Only Live Once”, cover de uma faixa do The Strokes calcada nos alicerces do rock, conclui o pequeno compêndio musical desacelerando o ritmo com a parceira perfeita entre guitarra, bateria e vocal em uma versão mais contemplativa, mas que também convida o corpo a embalar-se em seu compasso manso e sereno.
É uma grata surpresa ainda encontrar bons e jovens artistas interessados em desnudar seus sentimentos e devassar seus corações ao ritmo do velho, bom e insuperável rock. O filão mais popular da música mundial, aquele que ganha todos os holofotes, está tomado por artistas cujo trabalho se assemelha tanto a ponto de você não encontrar algo que os diferencie, num pastiche sonoro que parece ter sido fielmente elaborado pelos produtores baseados em algoritmos que apontam inequivocamente aquilo que vai capturar a atenção da massa de ouvintes, mas o rock sobrevive, ainda que ele esteja discretamente alojado lá na mesa do canto da cafeteria, calma e pacientemente degustando um café, esperando todos aqueles que tem bom gosto e inteligência sentar em sua mesa para apreciar a sua companhia.

Baixe (Isaac Gracie, LP, 2018): https://drive.google.com/file/d/12NCDH-LOaOAbbaag-LZvD2hTZhBFk3MD/view?usp=sharing

Ouça (Extended Edition, inclui 3 faixas do EP):

Baixe (Close Up – Looking Down, EP): https://drive.google.com/file/d/1_KLYbY-v3tygE43m2rIWDzKjXJbOZgP-/view?usp=sharing

Ouça (faixa “You Only Live Once”):

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“The Tree”, de Han Yang e Basil Malek [curta-metragem]

Um homem, já com certa idade e que vive em um desetto, persiste em buscar água para regar uma planta aparentemente sem vida já há muito tempo.
Este pequeno curta de seis minutos e meio, criado por um jovem artista chinês e outro jordaniano, não reinventa a roda, já que aos dois minutos de duração sem tem claramente idéia do que virá a seguir. Sua previsibilidade, no entanto, não se constitui em um defeito, pois é tão somente parte de sua dinâmica que não diminui em nada seu maior trunfo: a emoção. Com uma premissa e traços simples, os dois jovens artistas conseguem, de modo poderoso em um vídeo tão pouco ambicioso, captar uma emoção tão universal e profunda à vida humana que é provável que o espectador se pegue com os olhos cheios d’água no seu final.

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Emily King – Scenery [download: mp3]

Apesar da carreira iniciada em 2004 e de seu primeiro disco em 2007, a jovem cantora americana Emily King lançou, há poucos dias, apenas o seu terceiro LP, chamado Scenery. Rotulada como uma artista de r&b e de soul, há de se reconhecer matizes e influências do ritmo, mas neste disco, ao menos, a moça parece ter escolhido embanhar suas canções com uma boa camada de pop, particularmente na primeira metade disco, onde está o single “Remind Me”, faixa com baixo e guitarras sutis, mas muito bem gingadas e um beat que aquece a melodia, sem queimar sua sutileza sonora. “Teach Me”, segunda faixa do disco onde violões de sabor latino, um piano parcimonioso e uma percussão quase muda tecem um tapete para que o vocal doce e morno da cantora dance harmoniosamente é, de longe, o maior acerto do álbum. O que não significa que não há outras boas faixas no disco. “Caliche”, a quinta canção, é uma delas. Com vocais de fundo generosos, piano e violões de reminiscências jazzísticas e um refrão gostosamente ritmado, constrói-se uma atmosfera algo nostálgica que tem um parentesco distante com o fabuloso disco “Birds”, da neo-zelandesa Bic Runga, que já resenhei aqui no seteventos.com há muitos anos atrás. Mais à frente, “Running” não surpreende ao pagar a cota de gospel da artista, como normalmente o faz boa parte dos artistas do soul e r&b. Fechando o disco está “Go Back”, que com seu discreto crescendo melódico pop/rock de bateria, guitarra e vocais de fundo é a provável candidata a novo single.
Ainda que a decisão da Emily King de não soltar a voz em nenhuma das doze faixas que selecionou para o lançamento seja bastante frustrante, a produção caprichada, melodias bem cuidadas e a bela voz da artista valem uma conferidinha no álbum.

Baixe: http://www.mediafire.com/file/5v8i48tcq5xn4dx/emiking-scene.zip

Ouça:

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“But Milk is Important”, de Anna Mantzaris e Eirik Grønmo Bjørnsen [curta-metragem]

Um homem que sofre de um transtorno de ansiedade ganha repentinamente uma indesejada e insólita companhia.
Utilizando a técnica de stop-motion em um curta de pouco mais de dez minutos, a dupla de diretores Anna Mantzaris e Eirik Grønmo Bjørnsen aborda com muita leveza, humor e sensibilidade a fobia social, um dos transtornos de ansiedade mais debilitantes. Os personagens, criados com um design bastante original, quase não fazem uso de falas, mas elas se fazem desnecessárias, uma vez que o enredo do curta-metragem está baseado em interações tão simples e cotidianas que não apenas fica fácil entender o que está acontecendo, mas consegue eficientemente aproximar o espectador dos conflitos vividos pelo protagonista vítima de um transtorno psicológico. O grande charme da animação, aliás, reside na interação entre este homem e a criatura fofinha, mas tão comicamente impertinente que, afrontando e testando o limite de seus receios, acaba o auxiliando a ousar fazer o que jamais conseguira antes.

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“Aniquilação”, de Jeff Vandermeer [livro, download: ebook]

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Um grupo de quatro especialistas, de diferentes segmentos, são treinadas por uma agência governamental afim de explorar a “Área X”, uma região abandonada há muitos anos após um evento indeterminado deixá-la tão exuberante quanto ameaçadora.
Minha experiência na leitura deste livro foi tão surpreendente que senti aquela necessidade, em mim antigamente tão presente – hoje tão rara – de escrever sobre ele. Me interessei pelo livro ao ter contato com resenhas e comentários breves sobre a obra em alguns sites que eu costumava visitar há algum tempo – e que, curiosamente (mas com razão), nem visito mais. Todos que falavam sobre o livro o faziam sempre tecendo elogios à sua singularidade e bizarria. Não havia como, mais cedo ou mais tarde (e no caso foi mais tarde), eu não me aventurasse em descobrir o que de tão espetacular havia em suas páginas. De fato, encontrei idéias admiráveis ao percorrer as primeiras páginas de “Aniquilação”, no entanto, infelizmente, a medida que avançava, fui me deparando cada vez mais com algo que não deveria nem de perto ter encontrado: frustração.
Devo reconhecer que Jeff Vandermeer consegue, inicialmente, sustentar no leitor um interesse na história de seu livro devido ao engendramento de uma premissa fascinante e de uma atmosfera intrigante que, trabalhando juntas com os primeiros elementos do enredo, incutem uma curiosidade necessária para que a leitura prossiga em bom ritmo. Porém, esse efeito vai se esvaindo, aos poucos, a partir da segunda metade do livro, até que, no fim, quase nada resta a não ser uma considerável decepção. A razão para isso é apenas uma: os personagens, mal desenvolvidos, não exibem qualquer traço de carisma, elemento essencial para que o leitor sinta-se realmente conectado com o livro. É verdade que isso deve-se à própria natureza do enredo (e não há como ilustrar isso sem revelar parte da trama), mas um escritor experiente e criativo encontraria uma forma de construir a empatia entre personagens e leitor sem prejudicar a dinâmica do enredo que criou. Jeff, ao que parece, ainda não chegou nesse ponto de sua carreira, pois mesmo a protagonista do livro é despida de qualquer espécie de carisma, apesar da tentativa infrutífera de Vandermeer, lá pelas últimas cinquenta páginas de sua obra, de vestí-la em alguma sombra de encanto – e a situação só piora quando o leitor começa a notar que nem mesmo as criaturas que permeiam o mundo criado por Vandermeer, que deveriam ser formidáveis e aterradoras, não vão muito além de uma descrição confusa e pueril.
Com certeza os fãs de Jeff Vandermeer consideram que o mundo onírico criado pelo escritor americano é razão suficiente para colocá-lo entre os mais importantes do gênero na atualidade, e devo reconhecer que suas idéias, a princípio, seduzem. Porém, a meu ver, premissa e atmosfera alguma, não importa quão espetaculares sejam, serão suficientes se o leitor terminar o livro sem se importar com o destino dos personagens – tanto pior se o livro for parte de uma série, como é o caso deste, o primeiro de uma trilogia. Sim, a beleza, idiossincrasia e os mistérios da “Área X” intrigam, mas é necessário mais do que isto para que o leitor (ou um leitor como eu, ao menos) invista seu tempo em vários livros para descortinar seus segredos, isso sem falar que ele corre um risco nada desprezível de não obter a solução de boa parte daquilo que o intriga – e pelos comentários que li sobre os dois livros subsequentes, são grandes as chances de este leitor terminar a trilogia com o gosto amargo da insatisfação. É uma pena que Jeff, tão embebido em sua própria engenhosidade, tenha esquecido que sem personagens cativantes, não há paraíso que fique de pé.

Baixe (em português): https://www.mediafire.com/file/83ve3trvdwhpopp/ani-jeff.zip

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“Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski

Um casal e seus três filhos tentam sobreviver em um mundo devastado por criaturas que caçam qualquer coisa que produza algum som.
A princípio pensei ser este filme a estréia de John Krasinski atrás das câmeras, mas na verdade o diretor já tem duas comédias indies no currículo. “Um Lugar Silencioso” é, no entanto, seu primeiro filme de sucesso: tendo gasto não mais do que 20 milhões na produção, o filme teve rendimento de mais de 200 milhões de dólares em bilheteria nos cinemas e arrancou elogios tanto da crítica quanto do público. A boa recepção certamente se deve ao balanceamento inteligente do argumento original (criado por Bryan Woods e Scott Beck e roteirizado por ambos com o auxílio do diretor) que bebe em fontes consagradas cinema ao mesmo tempo que introduz o seu próprio elemento de estranhamento.
Apesar de esta ser a sua primeira incursão nos gêneros do horror e ficção-científica, Krasinski consegue injetar frescor mesmo recorrendo à elementos familiares dessa seara para a construção do seu longa-metragem: há sim fartas doses de inspiração originária de filmes como “Alien”, representado na ameaça do predador alienígena, mas os predadores de “Um Lugar Silencioso” guiam-se unicamente pelo som; também há muito da desolação do planeta de longas clássicos como “O Último Homem da Terra” ou contemporâneos como “Extermínio” presente no longa de Krasinski, porém o diretor americano o faz situando quase a totalidade do seu filme em ambiente não-urbano – decisões que distanciam razoavelmente seu longa da idéia de “mais um filme de alienígena que arrasou o planeta”.
No entanto, o que chama a atenção do espectador desde o início do filme são os aspectos inusitados da história composta por Woods, Beck e Krasinski, que ao compor os características do predador alienígena que dizimou a humanidade, acabam por consequência também concedendo ao longa uma atmosfera singular, perpassado-o por um silêncio sepulcral onde os barulhos mais inaudíveis do nosso cotidiano acabam enormemente amplificados – como o rolar de dados em um tabuleiro e mesmo o suave pisar dos pés na areia -, o que potencializa o suspense ao soar dos ruídos mais pueris que sequer notamos no nosso dia-a-dia. Essa característica bastante particular não fez, no entanto, com que o diretor eximisse seu longa do suporte de uma trilha sonora: ela está lá, cumprindo o seu papel dentro dos padrões mais clássicos do horror e do suspense para preservar o efeito dramático. Krasinski explicou que tomou essa decisão de modo consciente para que o seu longa não soasse como um experimento e pudesse ter uma relação de familiaridade com a platéia, o que faz sentido e, mais uma vez, mantém um equilíbrio entre inovação e tradição na tessitura do longa-metragem.
Devido à eficácia do filme na relação custo x benefício, não é difícil supor que os produtores de Hollywood já pensem em formular uma sequência para o longa – ela, aliás, já foi listada no portal IMDB. Sinceramente, espero que isso fique apenas na idéia: a obra de Krasinski e seus dois roteiristas é daqueles filmes simples e objetivos que funcionam muito bem como em volume único, mas cujo charme e força não sobreviveria ao estender-se por demais capítulos. Vamos torcer para que Hollywood, desta vez, tenha um lampejo de bom senso.

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