Pular para o conteúdo

Sete Ventos Posts

“La Chimera”, de Alice Rohrwacher [download: filme]

la chimera (2023) movie stills 01

Na Itália dos anos 80, um ex-arqueologista inglês viola tumbas com antiguidades para contrabandeá-las junto do seu grupo de comparsas ao mesmo tempo que reflete sobre a ex-namorada desaparecida.
Em seu longa-metragem de 2023, “La Chimera”, fica nítida a admiração da diretora italiana Alice Rohrwacher pelo cinema da primeira metade do século passado – em particular cinema mudo e o italiano: seu enredo é povoado com figuras excêntricas e folclóricas, sua trama é pontuada por trovadores que narram musicalmente acontecimentos da trama, e no plano técnico, em alguns momentos a diretora acelera a velocidade da ação, em uma referência ao cinema mudo. Mas é também evidente que a cineasta quer definir sua própria identidade estética, como quando, em certas sequências, a câmera gira lentamente no eixo vertical em 360 graus, ou mesmo ao modificar a proporção da imagem. Porém, se não estiver apoiado em um enredo envolvente e em personagens bem desenvolvidos, nada disso atinge significado.

la chimera (2023) movie stills 01
A diretora Alice Rohrwacher se encanta demais com atmosfera e estética do que com o conteúdo em “La Chimera”

Por não se tratarem de produções que visam puramente o entretenimento, como a maioria absoluta do chamado “cinema comercial”, filmes autorais europeus (normalmente o que se entende por “cinema de arte”) se apoiam basicamente em seu roteiro e personagens como atrativos para seu público – o que levaria a crer que estes são os pontos fortes do longa-metragem da diretora italiana. Contudo, o enredo de “La Chimera” pouco ou quase nada tem a interessar, ambientado em recônditos italianos desprovidos de qualquer encanto em uma trama com tão poucos conflitos e acontecimentos tão pouco relevantes que claramente não justificam suas duas horas de duração. Os personagens que povoam esse cenário à margem da sociedade, todos a seu modo tentando levar vantagem sem fazer muito esforço, igualmente tem muito pouco a apresentar: seja a trupe de mascates violadores de tumbas ou a assembleia de filhas interesseiras da ex-sogra do protagonista, todos permanecem no plano do caricato, compostos apenas de rascunhos de personalidade usados como instrumentos ou gatilhos da comicidade (rasa) ou da emoção (superficial) dos eventos da trama – e sim, estou incluindo aqui a personagem da atriz brasileira Carol Duarte, que não vai além do arquétipo moral da trama pintado com um verniz de peculiaridade para tentar angariar a simpatia do público. O protagonista de Josh O’Connor é o único que ensaia alguma profundidade, mas o enredo do filme, escrito pela própria diretora, sabota qualquer tipo de desenvolvimento ou crescimento do ex-arquéologo, que permanece refém do seu passado e de suas ambições ordinárias, literalmente aprisionado por elas no desfecho do longa-metragem.
Quando o filme se encerra, fica nítido que Alice Rohrwacher se encantou tanto com a atmosfera “felliniana” da sua história e acabou tão enfeitiçada pela cintilância de seu próprio estilo, que não percebeu que as deficiências de seu filme transformam todas as referências artísticas de sua narrativa em puro pastiche e seus exercícios estéticos em artifícios pueris. Em seu “La Chimera”, a cineasta na verdade blefa com o público, tentando simular que tem mais a colocar na mesa do que realmente está em suas mãos – um filme que parece uma relíquia etrusca de alto valor, mas é, como um personagem do filme comenta sobre uma das relíquias contrabandeadas pela trupe, tão somente um bibelô decorativo de origem ordinária.

Baixe: “La Chimera”, de Alice Rohrwacher (La Chimera, 2023)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

Acesse o Índice de Filmes disponíveis para download no blog

Link quebrado? Me avise pela caixa de comentário abaixo!
Gostou do filme? Não gostou? Comente abaixo! Agradecimentos também são bem-vindos!

Deixe um comentário

Brigitte Calls Me Baby – “Slumber Party” (single) [download: mp3]

brigitte calls me baby - slumber party (single, 2026)

Com seu segundo álbum agendado para março, a banda americana Brigitte Calls Me Baby lançou “Slumber Party” como primeiro single de prévia do disco: com guitarras de riffs densos e freneticamente acelerados em companhia de baixo e baterias muito bem sincronizados, o vocalista Wes Leavins invoca o espírito de seu crooner ancestral para narrar – com uma pontinha de melancolia – o “drama” de sua sexta-feira a noite: ser aceito ou não naquela festa “cool” da vizinhança para a qual está até mesmo levando seu DVD de “Veludo Azul” de David Lynch como oferenda. Porém, eu me pergunto: será que o povo dessa festança não preferiria “Persona” de Ingmar Bergman?

brigitte calls me baby - slumber party (single, 2026) post 01
Embora o visual do grupo lembre Duran Duran, o parentesco mais próximo é o post-punk do inicio dos anos 2000

Deixando o paradigma intelectual de lado, embora o visual do grupo lembre Duran Duran nos frutíferos anos 80, a faixa traz os americanos emulando o mesmo fervor juvenil do post-punk que permeou o início dos anos 2000, como Franz Ferdinand e Interpol, bem como a vigorosa espontaneidade do indie rock de bandas quase desconhecidas (menos para os leitores do Sete Ventos) dos anos 2000 e da década passada, como Scissors For Lefty e Liily – aguardemos março para constatar se o disco reflete a qualidade do single.

Baixe:
Brigitte Calls Me Baby – “Slumber Party” (single) [mp3]

Ouça (Spotify):

Brigitte Calls Me Baby - Slumber Party (Single)
Brigitte Calls Me Baby - Slumber Party (Single)

Ouça (Deezer):

Brigitte Calls Me Baby - Slumber Party (Single)
Brigitte Calls Me Baby - Slumber Party (Single)

Deixe um comentário

“Frankenstein”, de Guillermo del Toro [download: filme]

frankenstein (2025)

Um homem é socorrido no ártico pela tripulação de um navio encalhado ao ser perseguido por uma criatura forte e misteriosa, e então conta sua história para o capitão. Ele é Victor Frankenstein, que quando criança, após perder a mãe no parto do irmão, desafia o seu pai cirurgião, jurando se tornar melhor que ele. Muitos anos depois recebe a visita de seu irmão, sua futura cunhada e o tio desta, um rico mercador de armas que resolve patrocinar as pesquisas de Victor.
Em ocasiões eventuais, a Netflix resolve isentar-se de seu estilo de produção formulaica e dispor de seus fundos (tão imensos que está a ponto de adquirir e assimilar toda a corporação Warner) para financiar grandes nomes do cinema em projetos autorais – foi assim com Alfonso Cuarón e seu “Roma” e Martin Scorsese e seu “O Irlandês”. No ano passado foi a vez de Guillermo del Toro realizar o sonho que nutria pelo menos desde 2007: fazer a sua versão do clássico Frankenstein. Dispondo de um vistoso orçamento na casa dos 120 milhões de dólares, o diretor dá vazão ao seu estilo grandiloquente em cenários deslumbrantes com uma produção rica e detalhada. Porém, mesmo que o cineasta mexicano sempre impressione com o visual muito particular dos seus filmes, ele nem sempre acerta no campo artístico.
Em sua interpretação da obra-prima da britânica Mary Shelley, que também roteirizou, Del Toro a transpõe para o industrial e bélico século XIX, divide-a em quatro atos – prólogo, história de Victor, história da criatura e epílogo – e promove modificações na trama – Elizabeth, por exemplo, não é esposa de Victor, mas sua cunhada. As mudanças não são acidentais: ao situar a trama mais de cem anos adiante del Toro suavizou os aspectos de horror e trouxe modernidade e luxo; ao dividir o ponto de vista do desenvolvimento da trama, o mexicano tentou condicionar o público à sua perspectiva sobre os protagonistas; e mudanças como a promovida sobre Elizabeth extirparam o caráter romântico da trama para dedicar-se mais a relação entre Vitor e criatura. Juntas, todas essas propriedades permitem a Del Toro realizar completamente sua visão da obra, onde Victor é o vilão e a criatura é o herói – e a meu ver é aí que está o problema de seu filme.

frankenstein (2025) movie stills 01
Removidos horror e romance, Guillermo del Toro concentra-se na personalidade de seus protagonistas

Em seu longa-metragem, Victor Frankenstein é egoísta, narcisista, arrogante, insensível, invejoso, inconsequente e obcecado. A grande motivação emocional de sobrepujar a inevitabilidade da morte deixa de ser o trauma pela perda da mãe e passa a ser o orgulho infantil de superar seu pai rígido e frio. A criatura, por sua vez, além de visivelmente menos grotesca, é retratada como inocente, amorosa e pura, naturalmente com boas intenções e incapaz de causar mal que não seja para sua própria defesa. Mesmo ao atacar Victor, ela o faz por se sentir rejeitada, traída e ignorada por este. Ou seja, Del Toro não apenas removeu de seu Victor quaisquer traços que poderiam lhe angariar alguma simpatia ou mesmo identificação com o público, ele os transferiu para a criatura. Como consequência, a despeito de suas duas horas e meia, a trama de seu “Frankenstein” se torna menos complexa do que a da história original e seus personagens mais caricatos – o impacto e densidade da obra de Shelley, com seus personagens multifacetados, dão lugar ao higienismo narrativo e a simplificação de seus agentes. Embora isso não seja, a meu ver, alguma novidade na filmografia do Guillermo Del Toro, isso nunca esteve tão visível quanto agora, ao adaptar uma das obras mais seminais da literatura mundial, transformando-a, a despeito de toda a estética apurada e a sanguinolência explícita, em uma trama piegas perpetrada por personagens flagrantemente rasos – algo que não difere muito de boa parte das novelas produzidas em seu país de origem.

Baixe: “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (Frankenstein, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

Acesse o Índice de Filmes disponíveis para download no blog

Link quebrado? Me avise pela caixa de comentário abaixo!
Gostou do filme? Não gostou? Comente abaixo! Agradecimentos também são bem-vindos!

Deixe um comentário

“Drácula”, de Luc Besson [download: filme]

dracula (2025)

Tomado pela fúria após perder sua amada, o príncipe Vlad é amaldiçoado por Deus por profanar e blasfemar, tornando-se um vampiro. Após séculos de procura, Vlad encontra a reencarnação de sua amada e planeja reunir-se com ela.
Dirigido, produzido e adaptado do clássico de Bram Stoker por Luc Besson, a mais nova encarnação de Drácula é entregue em um pacote muito bem produzido e luxuoso, em um surpreendente orçamento de cerca de 50 milhões de dólares, o que demonstra que o cineasta francês detém a capacidade invejável de aproveitar ao máximo um orçamento modesto, algo há muito tempo desconhecido por seus colegas de Hollywood – os grandes trunfos de seu mais novo longa-metragem, porém, param por aqui.
Por ter sido batizado de “Drácula – Uma História de Amor Eterno”, era de se supor que Besson colocaria um pouco mais de foco no romance entre Drácula e sua amada Mina, que é a reencarnação de Elisabeta. Na realidade, a versão de Luc Besson é um romance de fato, e o horror, gênero intrínseco à lendária história criada pelo britânico Bram Stoker, é tão atenuado que chega ao ponto de subordinar-se ao cerne romântico do longa-metragem.
Mas além de ser desbotado nesta versão do clássico, adicionalmente o horror também tem que dividir espaço com um hóspede estranho, que como um vampiro é convidado a entrar pelo diretor e roteirista francês e acaba por “parasitar” o enredo: o humor. A maior vítima deste “parasita” é Van Helsing, que ao ser removido do enredo leva consigo a tensão da história original. Em seu lugar é trazido o maior agente humorístico, o padre-investigador de Christoph Waltz, criação do cineasta francês, que enfrenta todos os perigos com a graciosidade de um bailarino. O humor, porém, não tem apenas o representante de Deus em sua defesa: Jonathan Harker, noivo de Mina/Elisabeta, e os curiosos servos do castelo do príncipe vampiro, outra criação original de Besson, também são seus agentes no enredo.

dracula (2025) movie stills 01
Besson atenua o horror, ressalta o romance e introduz o humor em sua adaptação do clássico de Bram Stoker

Mas é ao finalizar a primeira parte da história que Besson abandona qualquer vestígio de horror e consuma a visão que traçou para o Conde. Para tanto, o francófono aplicou mais duas mudanças cruciais que atuam neste sentido. No segundo ato, Besson desloca o palco da trama de Londres para Paris, acabando por dissipar a densidade da atmosfera gótica da história clássica em detrimento do ambiente de frivolidade da capital francesa, o qual utiliza para promover o reencontro do príncipe com sua amada e retomar a relação de ambos. E na conclusão do enredo (não se preocupe, evitarei spoilers), o cineasta francês aplica aquela que é certamente a mudança mais controversa, operando através do padre-investigador de Christoph Waltz para alterar o desfecho do príncipe vampiro, que não apenas contrasta com a resolução da trama original como destoa da própria narrativa do Drácula projetada pelo próprio Besson no decorrer de todo o seu filme – é tão abrupto e incoerente que você se detém para confirmar se aquilo realmente aconteceu.
Ao término, a impressão que Luc Besson deixa com seu longa-metragem é de que ele diluiu todos os elementos mais simbólicos da história (inclusive o sangue) para adequar seu filme a geração acostumada com as produções algorítmicas da Netflix e com a futilidade da Marvel Disney, num filme que, assim como parte significativa da produção dos dois estúdios citados, é colocado num catálogo para ser consumido, descartado e esquecido logo em seguida – ironicamente, não muito diferente do que faria Drácula com suas próprias vítimas.

Baixe: “Dracula – Uma História de Amor Eterno”, de Luc Besson (Dracula, 2025)
[áudio original, 1080p, mp4 zipado]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português español english

Acesse o Índice de Filmes disponíveis para download no blog

Link quebrado? Me avise pela caixa de comentário abaixo!
Gostou do filme? Não gostou? Comente abaixo! Agradecimentos também são bem-vindos!

Deixe um comentário

A Thousand Mad Things – Cry and Dance (EP) + “She’s On The Run (She Bleeds)” (Single) [download: mp3]

a thousand mad things - cry and dance (ep, 2025)

Depois de um par de experimentos por volta de 2020, o britânico Will Barradale uniu-se ao produtor e amigo Mike Peden para cristalizar seu projeto musical, que batizou como A Thousand Mad Things – um dos versos do demo que lançou há cinco anos atrás. O primeiro fruto desta parceria artística é o EP Cry and Dance, um compêndio de cinco canções nos domínios do darkwave e synth pop onde extravasa suas influências musicais de bandas e artistas da cena pop alternativa dos anos 80 – como na primeira faixa, “Wide Awake”, onde o beat pop-dançante e os synths de bass ondulantes, que preenchem a melodia com matizes ao mesmo tempo dark e vibrantes, tem forte influência do Depeche Mode em início de carreira e do new wave de bandas como The Human League. “Girl”, tem uma certa pegada de Soft Cell na cadência mecânica do beat contínuo que é base da melodia, enquanto a melancolia de uma sutil orquestração de cordas dá a deixa para que Will, com suas várias encarnações vocais sobrepostas, invista na emoção ao cantar sobre uma amiga inconsequente que o importuna em meio a um idílio erótico com um provável bad boy. O conteúdo das letras funciona como um prelúdio para a faixa seguinte, “Local Guys”, onde uma batida motorik intoxicante funde-se a melancólica dos synths e do baixo eletrônico para a poção perfeita onde Will incorpora uma fusão de Peter Murphy (do Bauhaus) e Dave Gahan para sublimar seu canto sobre o masoquismo emocional ao ser destratado pelos homens (possivelmente de uma sexualidade oposta a sua) que buscava obsessivamente a altas horas pelas ruas da Inglaterra.

a thousand mad things - cry and dance (ep, 2025) review 01
EP de A Thousand Mad Things traz um darkwave dançante e soturno inspirado no pop alternativo dos anos 80

Na penúltima faixa, “She’s On The Run”, Will e Mike investem em um beat dançante de cadência controlada e um baixo eletrônico marcante, que criam a pista perfeita para que as sintetizações algo voláteis de tessituras assumidamente misteriosas dancem com desenvoltura na canção que fala sobre uma garota que compulsivamente busca se relacionar com os piores homens – a versão alternativa “She’s On The Run (She Bleeds)” intensifica a sensação de urgência através de uma cadência ainda mais dançante em detrimento da atmosfera dark e adiciona um caráter onírico ao submeter os vocais a reverberações, ecos e delays. Despindo-se das vestes soturnas do darkwave e da euforia das bases dançantes das faixas anteriores compostas em parceria com Peden, Will Barradale opta por fechar o EP com os vocais etéreos sobrepostos a uma base eletrônica delicada em “My Car”, que evocam a mesma atmosfera contemplativa, sutil e serena do Legião Urbana de tonalidades mais intimistas que podemos ouvir em “Por Enquanto”, “Índios” e “Vento No Litoral” – a conclusão ideal não parar chorar depois de dançar, como sugere o título do disco, mas talvez para equalizar o espírito depois de toda a agitação urbana que a precede.

Baixe: A Thousand Mad Things – Cry and Dance (EP) + “She’s On The Run (She Bleeds)” (Single) [mp3]

Ouça (Spotify):

A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)
A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)

Ouça (Deezer):

A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)
A Thousand Mad Things - Cry and Dance (EP)

Ouça (Spotify):

A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)
A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)

Ouça (Deezer):

A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)
A Thousand Mad Things - She’s On The Run (She Bleeds) (Single)

Deixe um comentário

“Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski [download: filme]

zimna wojna (cold war, 2018)

A crônica da conturbada relação amorosa entre o músico Wiktor e a cantora Zila, de origem simples, atravessa quase duas décadas, começando na Polônia comunista do início dos anos 50 e cruzando fronteiras até a França.
“Guerra Fria”, lançado em 2018 com passagem pelo Festival de Cannes e tendo competido no Oscar com 3 indicações, tem como seus melhores aspectos a fotografia em preto e branco, que concede uma beleza elegante mesmo aos cenários mais humildes, e as músicas que compõe a trilha sonora, que apresenta canções da tradição camponesa da Polônia tanto na sua faceta folclórica quanto em versões mais sofisticadas. Nada mais neste longa-metragem que retrata a história da relação amorosa entre o compositor e pianista Wiktor e a jovem cantora de origem camponesa Zila é digno de um parecer favorável, a começar pelos dois protagonistas, cujas personalidades carecem de qualquer elemento cativante: Wiktor é apático, taciturno e submisso, Zila é insegura, passional e incontida – fica difícil para o espectador desenvolver qualquer tipo de empatia por ambos e, em consequência, qualquer interesse pelo destino e o relacionamento dos dois.

zimna wojna (cold war, 2018) movie still 01
Tanto os protagonistas quanto o enredo de “Guerra Fria” carecem de maior dimensão

O roteiro também é bastante falho em mais de um atributo: a construção dos personagens é superficial, não há profundidade histórica que fundamente seus comportamentos e deliberações; o desenvolvimento dos eventos é precipitado, e embora tecnicamente anos se passem entre as situações apresentadas, lhes falta sutileza para imprimir a veracidade do tempo ocorrido; e por último, os conflitos presentes na trama (e no relacionamento de Wiktor e Zila) inicialmente parecem coerentes com o cenário da Polônia subjugada ao regime comunista, mas quando o palco do enredo muda para a França livre e republicana, os entraves parecem pueris e artificiais, deliberadamente concebidos para manter a concepção de um relacionamento impossível. Quando o espectador alcança o estúpido desfecho da trama, depois de aproximadamente noventa minutos que se arrastam com lentidão, fica o sentimento de que os dois protagonistas passaram a vida com a firme disposição de inviabilizarem ao máximo suas próprias vidas. No fim, a expressão que melhor define todos os problemas do filme do diretor e co-roteirista Pawel Pawlikowski é “‘falta de dimensão” – elemento essencial em qualquer obra nos domínios do drama para estabelecer afinidade com o público.

Baixe: “Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski (Zimna Wojna/Cold War, 2018)
[áudio original, 1080p, mp4]

Legendas/Subtítulos/Subtitles:
português english

Acesse o Índice de Filmes disponíveis para download no blog

Link quebrado? Me avise pela caixa de comentário abaixo!
Gostou do filme? Não gostou? Comente abaixo! Agradecimentos também são bem-vindos!

Deixe um comentário
O tema Ritorna v. 1.6.5 foi adaptado deste tema. Seteventos™ - 2005